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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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DA ASI: 

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DIOGO DE COUTO 

DOS FEITOS , QUE OS PO^TOGUfcJgâ tíORAM 

NA CONQUISTA , E DESCOBRIMENTO DAS 

TERRAS, E MARES DO ORIENTE. 

I DÉCADA SEXTA -4 

PARTE PRIMEIRA» 




LISBOA 

Na Regia Officina Typograpica. 

ANNO M, DCC.LXXXI. 
Com Licença da Real Mexa Cenferia , e Privilegio Real. 







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ÍNDICE 

DOS capítulos, que se contém 

NESTA PARTE I. 

DA DÉCADA VI. 

LIVRO I. 

AP. I. De como foi eleito pêra Go- 
vernador da índia D. João de Caf 
tro\ e da Armada com que partia 
pêra a índia no anno de i$4S* e de co~ 
mo chegou a Goa , e tomou pojje da go- 
vernança : e das coufas em que proveo : 
e da viagem que Martim Affonfo de Sou- 
fa teve até o Reyvo. P a g* r * 

CAP. II. Da dijjimulaçao com que Coge Ço- 
far mandou vi fitar o Governador : e das 
pazes que fe fizeram com EIRey de Ca- 
nanor : e dos recados que pajjdram antre 
o Governador , e o Idalxa fobre Meale- 
^can. 1 i. 

CAP. III. Do que aconteceo a Diogo Soa- 
res de Mello indo pêra Patane : e de co- 
mo foi ter a Pegú, e foi em companhia 
daquelle Rey contra o de Arracao : e do 
que lhefuccedeo até chegar a Patane. 1 6. 

CAP. IV. Da chegada <P EIRey de Malu- 
co a Goa: e de como o Governador Dom 
João de Cajlro q tcrnou a mandar pêra 
* ii feu 



Índice 

feu Reyno , e Bernaldim de Soufa foi en- 
trar naquella fortaleza : e do que acon- 
teceo na viagem a Fernão de Soufa de 
Távora : e dos partidos com que Kuy Lo- 
pes de Villa lobos fe entregou. 22, 

Cx\ P. V. Do que mais pajfou Fernão de Sou- 
fa de Távora com os Caflelhanos : e de 
como foram todos contra o Rey de Geilo- 
lo , e o cercaram na fua fortaleza : e de 
como fe recolheram f em fazerem coufa al- 
guma. 30:' 

CAP. VI. Das intelligencias que CogeÇo- 
far teve com hum l\uy Freire 5 eftando 
em Surrate , febre lhe entregar a forta- 
leza de Dia : e da gente , que naquella 
Ilha entrou diffimuladamente. 40. 

CAP, VII. De como Kuy Freire chegou à 
Goa com as cartas que o Capitão da for- 
taleza de Dio mandava ao Governador 
D. João de Caftro : e elle mandou de foc- 
corro feu filho D. Fernando , e outros Fi- 
dalgos em nove navios : e da chegada de 
Coge Çofar a Dio : e do terceiro avifo y 
que D. João Mafcarenhas teve : e dos re- 
cados que antre ambos correram. 51. 

CAP. VIII. Do confelho que Coge Çofar to- 
mou com feus Capitães fobre o modo de 
como cercaria a fortaleza : e de como af- 
fentáram ganhar primeiro o baluarte do 
mar: e de buma grande máquina que pê- 
ra 



dos Capítulos. 

ra i/Jò armaram : e de como o Capitão 
lha mandou queimar : e das coufas que 
mais paffáram até chegar D. Fernando 
de Cajlro. 63. 

CAP. IX. De como Coge Çofar começou a 
fazer a parede : e das coufas que fuc- 
cedêram com a chegada de D. Fernando 
de Caflro : e de hum grande feito que 
fez Diogo da Nhaja Coutinho. 69. 

LIVRO II. 

CAP. I. De como EIRey Soltao Maha- 
mude chegou a Dio : e de hum affi- 
gnalado feito que féis foldados fizeram > 
em que tomaram hum Mouro: e das afperas 
baterias que deram d fortaleza. Pag. 78. 

CAP. II. De como os Mouros continuaram 
a bateria , e EIRey fe foi da Cidade por 
hum ruim agouro que tomou : e do monte 
da rama que os inimigos alevantdram de- 
fronte do baluarte S. Thomé. 86. 

CAP. III. De corno os nojfos furtaram o en- 
tulho aos Mouros : e de como mataram 
Coge Çofar : e do foccorro que o Capitão 
mandou pedir a Goa : e de corno os ini- 
migos entulharam a cava : e de outras 
coufas. 94. 

CAP. IV. Do recado que Rumecan mandou 
ao Capitão por Simão Feio : c do gran- 
de , 



I N D I C B 

de, eafpero combate que os inimigos de~ 
ram á fortaleza : e de como entraram o 
baluarte S. Th orne. 102* 

ÇAP. V. De outro muito grande , e a [pê- 
ro combate , que Rumecan deo d fortale- 
za com todo o poder : e das coufas , que 
nelle fuccedêram. 1 1 4. 

ÇAP. VI. De como os Mouros entraram pe- 
la banda da rocha : e de hum valor ofo fei- 
to , que huma mulher fez : e de como acu- 
dio o Capitão , e os lançou fár a : e de 
como mataram Juzarcão. 121, 

CAP. VIL De algumas coufas que pajpí- 
ram em Goa : e de como o Governador 
D. João de Ca firo mandou feu filho Dom 
Álvaro de Cafiro defoccorro a Dia : e dos 
ajfaltos que os Mouros deram dquella 
fortaleza , de que fe recolheram desba* 
ratados. 1 30. 

CAP. VIIL De outras baterias que deram 
A fortaleza : e de como chegou a ell% a 
Vigário , que foi com recado a Chaul , 
e Baçaim : e de hum grande affalto que 
os Mouros deram : e das grandes fomes r 
e necejfidades que havia na fortaleza : 
e de hum muito honrofo > e valor ofo fei- 
to que fez Martim Botelho. 141. 

CAP. IX. De como Rumecan mandou mi- 
nar o baluarte S. João : e do ardil de 
que ufou de huma falfa efpia pêra fegu- 

rar 



dos Capitulo?. 

rar às nojjbs : e de como arrebentou o 
baluarte : e da morte de D. Fernando 
de Cajlro , e de outros Fidalgos , e Ca- 
v a He iro s. 15:3. 

CAP. X. De como os Mouros commettêram 
o baluarte S. João : e do grande valor , 
com que finco homens o defenderam : e de 
outras coufas. 161, 

LIVRO III. 

CAP. I. Do que aconteceo na viagem a 
D. Álvaro de Cajlro até Chaul : e 
de como António Moniz Barreto , e Gar- 
cia Rodrigues de Távora chegaram a 
Dio: e do que fez Rumecan. Pag. 168. 

CAP. II. De alguns aj] altos, que os Mou- 
ros deram d fortaleza : e de huns ef cra- 
vos que delia fugiram pêra os Mouros : 
e de como os inimigos ganharam ameta- 
de do baluarte Sant-Iago. 177. 

CAP. III. Dos foccorros que partiram de 
Baçaim : e do que aconteceo a Luiz de 
Mello de Mendo ç a , e aos mais até che- 
garem a Dio: e do grande a/falto que os 
Mouros deram , em que ganharam par- 
te de todos os baluartes. 186. 

CAP. IV, De outros ajfaltos , que os Mou- 
ros deram d fortaleza : e de hum muito 
arrife ado feito . que çommetteo Antónia 

Cor-> 



Índice 

Correia por tomar huma efpia , em que 
foi cativo : e do grande , e afpero mar' 
tyrio que recebeo. 194. 

CAP. V. De algumas coufas , que mais Juc- 
cederam : e do que aconteceo na viagem 
a Z). Álvaro de Cafiro : e de hum gran- 
de motim que houve dos Portugueses con- 
tra o Capitão. 204. 

CAP. VI. De como D. João Mafcarenhas 
por desconfiança fahio aos inimigos , e 
lhes ganhou as primeiras eftancias , e a> 
parede , e os commetteo no campo , onde 
foi desbaratado , e morto D. Francifco de 
Menezes , e outros Fidalgos. 215'. 

CAP. VIL De como os Mouros ganharam 
as peças de artilheria do baluarte Sao 
Thome: e de como Rumecan mandou fa~ 
zer huma nova Cidade junto da noffa for- 
taleza : e das nãos , que ejle anno de qua- 
renta e féis partiram do Reyno , de que 
era Capitão mor Lourenço Pires de Tá- 
vora : e de como D. Manoel de Lima che- 
gou a Goa : e das novas que deram ao 
Governador dos fucceffòs de Dio , e dofoc- 
corro que mandou. 223. 

CAP. VII I. De como D. Álvaro de Caf- 
tro mandou Luiz de Almeida a efpe- 
rar as nãos de Meca : e de como to- 
mou duas : e dos mais damnos que al- 
gumas Armadas , que f ah iram de Ba- 
ça- 



dos Capítulos. 

çaim , e Chaul , fizeram, na ene e a da ãe 
Cambaya. 232. 

CAP. IX. De como o Governador D. João 
de Ca firo partia pêra D lo , e de Ba çaim 
defpedio D. Manoel de Lima pêra a en- 
ceada de Cambaya , e da guerra que per 
ella fez : e de como as nãos , que parti- 
ram do Reyno no anno de 1546. , de que 
era Capitão mór Lourenço Pires de Tá- 
vora , chegaram a Cochim , e Lourenço 
Pires de Távora fe partio pêra Dio de 
foc corro. 239. 

CAP. X. De como o Governador D. João 
de Cajlro chegou d fortaleza de Dio : e 
do confelho que tomou fobre a defembar- 
cação : e de como fe ordenou pêra dar ba- 
talha aos inimigos. 248. 

LIVRO IV. 

CAP. T. De como o Governador D. João 
de Cajlro fahio da fortaleza , e com- 
metteo as efiancias dos inimigos : e do 
muito primor o fo , e honro fo defafio que ti- 
veram D. João Manoel , e João Fal- 
cão : e de como os noffbs ganharam as efi- 
t anciãs : e dos grandes , e efpantofos ca- 
fos que aconteceram a alguns Portugue* 
zes. Pag. 260. 

CAP, II. De como o Governador Z). João 

de 



Índice 

de Cafiro aprefentou batalha aos inimi- 
gos , e da crueza delia , e de como os 
desbaratou , e ganhou a Cidade com mor» 
te de Rumecan , e cativeiro de Juzar- 
can. 273. 

CAP. III. Das coufas que mais fuc cede- 
ram <: e de como Lourenço Pires de Tá- 
vora fe embarcou pêra o Reyno , e levou 
com figo Rax Nordin y filho de Rax Xar- 
rafo , Guazil de Ormuz : e de como o 
Governador D. João de Cajlro mandou 
D. Manoel de Lima afazer guerra d 
cofia de Cambaya : e àe como defiruio as 
Cidades de Goga , G andar , e outras. 286. 

CAP. IV. De como D. João Mafcarenhas 
defifiio da fortaleza de Dio , e o Gover- 
nador D. João de Cafiro a entregou a, 
Z). Manoel de Lima : e de como António 
Moniz Barreto foi efpçrar as nãos de 
Cambaya : e de como chegaram a Goa as 
novas da vitoria : e de hum heróico feito 
que fizeram as matronas de Goa, 296. 

CAP. V. Do tempo em que os Turcos to- 
maram a Cidade de Ba cor d : e de como 
D. Manoel de Lima foi entrar na forta- 
leza de Ormuz : e D. João Mafcarenhas 
tomou a ficar na de Dio. 304. 

CAP. VI. Do grande triunfo com que o Go- 
vernador D. João de Cafiro foi recebi- 
do na Cidade de Goa. 311. 

CAP. 



dos Capítulos* 

CAP. VIL Das coufas , que nejle tempo 
aconteceram em Ceilão : e de como o Go- 
vernador D. João de Cajlro mandou An- 
tónio Moniz Barreto com huma Arma- 
da emfoccorro de ElRey deCandea: e de 
como D. Jorge de Menezes tomou a Ci- 
dade de Baroche. 321. 

CAP. VI II. De como o Madune perfuadio 
a ElRey de Candea a levantar-fe contra 
os Portuguezes : e do que aconteceo a An- 
tonio Moniz Barreto na jornada : e de 
como atravejjòu toda a Ilha de Ceilão com 
as armas nas mãos , pelejando com o po- 
der daquelle Rey. 329. 

CAP. IX* De como o Idalxd mandou alguns 
Capitães febre as terras de Salfete : e de 
como D. Diogo de Almeida , Capitão de 
Goa, o foi bufe ar , e desbaratou. 338. 

l 1 v R o v. 

CAP. I. Do que aconteceo na jornada a 
Bernaldim de Soufa : e de como hu* 
ma Armada dos Achens foi a Malaca : e 
de como D. Francifco Leça fahio apôs 
ella , e do que lhe aconteceo. Pag. 343. 
CAP. II. De como a noffa Armada achou 
os inimigos no rio de Parles : e da vito- 
ria que os noffos alcançaram : e de como 
foi revelado ao Padre Me/Ire Francifco 

Xa- 



Índice 

Xavier da Companhia de Jefus , efiandà 
pregando , e a denunciou logo a todos. 35* 1. 

CAP. III. De como o Idalxã mandou ouirof 
Capitães f obre as terras deSalfete: e do 
recado que o Governador IX João dç Cafi 
tro teve de Dio : e das Armadas que ef 
te anno partiram do Reyno. 361. 

CAP. IV. De como o Governador D. João 
de Caftro partio pêra Pondd , e tomou 
aquell a fortaleza : e de hum Embaixa- 
dor que o Rdo mandou ao Governador : e 
das pazes que com ellefe ajfentáram. 3 6 8 # 

CAP. V. Do fundamento defie Reyno Ca- 
nará , e origem de feus Reys com todos 
os que até hoje reinaram : e doiíde naf* 
ceo chamarem a efie Reyno de Bifnagd , 
e de Narjinga. 375^ 

CAP. VI. Da grande Armada com que o 
Governador D. João de (.afiro partio pe- 
ra o Norte : e de como mandou feu filho 
D. Álvaro de Cafiro a Surrate : e do que 
lhe aconteceo. 384, 

CAP. VII. Das coufas que o Governador 
D. João de Cafiro fez : e de como che- 
gou a Surrate , e pajfou a Baroche , on- 
de achou EIRey deCambaya com humpo- 
derofo exercito : e de como ãefembar- 
cou á Jua vifia : e do mais que lhe acon- 
teceo. 391. 

CAP. VIII. De como o Governador Dom 

João 



dos Capítulos. 

João de Ca/iro paffou a Dio , e metteo 
de poffe daquella fortaleza a Luiz Fal- 
cão , e D. João Mafcarenhas fe embar- 
cou fera o Reyno : e de como o Governa- 
dor dejlruio as Cidades de Patê y e Pa- 
ta ne. 397. 

CAP. IX. De como o Idalxd mandou Cala- 
batecan fobre as terras de Salfete : e de 
como os Vereadores de Goa não deixaram 
paffar D. Diogo de Almeida , Capitão da 
Cidade , em bufe a delles : e da prejfa com 
que o Governador D. Jcão de Cafiro fe 
embarcou pêra Goa : e de como dejíruio 
a Cidade de Dabul. 402. 

CAP. X. De como o Governador D. João 
de Cafiro p a ff ou a Salfete em bufe a dos 
inimigos , e batalha que lhes de o , em que 
os desbaratou de todo. 408. 

CAP. XI. De como o Governador D. João 
de Cafiro proveo nas coufas das terras 
de Salfete : e de como partio pêra o Nor- 
te ) e deflruio toda a cofia do Idalxd. 416. 



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DÉCADA SEXTA. 
LIVRO I. 

Da Hiftoria da índia. 



CAPITULO L 

De como foi eleito pêra Governador da ín- 
dia D. João de Caftro : e da Armada 
com que partio pêra m a índia no anno de 
I5'4). e de como chegou a Goa, e tomou 
pojje da governança : e das coufas em 
que proveo : e da viagem que Martim 
Affonfo de Soufa teve até o Reyno. 

Hegada a Armada de Diogo 
da Silveira a Portugal , e in- 
formado El Rey D.João o III. 
delle das coufas da índia , e 
vendo as cartas de Martim Af- 
íbnfo de Soufa , e a inítancia com que lhe 
pedia mandaífe fticccíTor , e que o mefmo 
mandava pedir por Diogo da Silveira , in- 
do- íe EIRey pêra Évora paliar o inverno, 
Couto. Tom, 111 P. L A co- 




r 2 ÁSIA de Diogo de Couto 

começou de tratar de negócios , e entrar na 
eleição da peííba , que havia de mandar por 
Governador da índia , pêra cujo cargo Jhe 
inculcou o Infante D. Luiz feu irmão a Dom 
João de Caftro , filho de D. Álvaro de Caf- 
tro, Governador da Gafa do Civel, (que já 
tinha andado d'antes na índia , como no Ca- 
pitulo V. do fetimo Livro da Quinta Déca- 
da fica dito,) aquém pelas partes que tinha 
era muito aíFei coado. E como o Infante 
D. Luiz tinha já muito obrigado a EiRcy 
pelo grande amor 3 e cortezia com que o 
tratava , nomeou a D. João de Caílro por 
Governador da índia em Janeiro de quaren- 
ta e cinco , e lhe aílinou íeis náos com dous 
mil homens- 

Com o defpacho deita Armada correo 
o Conde da Caftanheira. Nos requerimen- 
tos fe dizia que não ficara , D.João deCaf- 
tro fatisfeito , porque como hia contra o 
goílo dos do Confelho , que o teriam de ir 
outro com aquelle cargo , não lhe refpon- 
dêram bem , do que elle andava pejado. Mas 
o Infante D. Luiz lhe diííe , que íe embar- 
caíle , e íè calaíTe , que como eftiveíTe na ín- 
dia ? -fegundo as novas que delle vieífem , af- 
fim fe lhe refponderia , com o que fe calou , 
e aviou , mandando negociar feus filhos Dom 
Álvaro , e D. Fernando de Caílro pêra irem 
com elle. 

Aqui 



Década VI. Liv. I. Cap/I. 3 

Aqui Te conta huma coufa de D. João 
de Cattro , que fe lhe notou por doudice , 
corno outras muitas que o não eram. Efta 
foi , que paíTando hum dia pela porta de 
hum calceteiro , vio eílar humas calças de 
veludo mui ricas , e de muito feitio , e de- 
tendo o cavallo , as pedio, e olhou, e de- 
pois de notar a obra que era curiofa , per- 
guntou cujas eram ? O calceteiro não o co- 
nhecendo , diíFe que eram de hum filho do 
Governador , que hia pêra a índia. D.João 
de Caítro , dando-lhe a paixão , tomou hu- 
ma tifoura , e as cortou todas em retalhos, 
e diíTe ao calceteiro: Dizei aejje moço que 
faça armas , e foi paíTando. 

Em fim , como o tempo da embarcação 
fehia chegando , foi EIRey concluindo com 
Os negócios da índia , defpachando Rax 
Xarrafo Guazil de Ormuz pêra fe ir na- 
quclla Armada , porque havia muitos annos 
que o tinha no Reyno , (como na Quarta Dé- 
cada no Capitulo III. do Livro fexto fica di- 
to,) e não continuamos com elle , porque 
de induítria o guardámos pêra efte lugar. 

Depois deite Mouro chegar ao Reyno, 
que foi no anno de vinte eíete, o teveEl- 
Kcy no Caftello de Lisboa muitos annos 
fem o ouvir, e depois a feu requerimento 
o mandou levar á Relação , onde lhe elle 
fez huma mui elegante falia fobre fuascou- 
A ii fas, 



4 ÁSIA de Diogo de Couto 

fas , allegando-lhc os fcrviços que lhe tinha 
feito, e contando-lhc os muitos aggravos, 
e tyrannias , que fempre recebera dos Ca- 
pitães de Ormuz , concluindo que de tudo 
fizera muitas vezes queixas a S. A. por car- 
tas , e iflb mefmo aos Governadores da ín- 
dia , e que nem hum , nem outro lhe reme- 
diara fuás queixas , por onde lhe pareceo 
que S. A. não fazia conta da fortaleza de 
Ormuz , e que elle por remir fua vexação 
fizera o que fez. 

EIRey o ouvio bem ; e parecendo-lhe 
que tinha jufiiça , o mandou pêra Monte- 
mor o novo , entregue ao Capitão mor dos 
Ginetes , em huma prizão livre , pêra que 
pudelfe ir á caça , e paflear pela Villa. AUi 
eíteye até a entrada defte anno , que o def- 
pachou pêra ir com D. João de Caílro , e 
lhe fez mercê dos cargos de Guazil , e Juiz 
da Alfandega de Ormuz , pêra elle , e pêra 
feu filho , e que pudeífe mandar á Cidade 
de Goa cada anno vinte cavallos , e que os 
tirafíe pêra os Reynos do Decan forros dos 
direitos' , e outras mercês , e honras ; e ao 
defpedir-fe , lhe difle EIRey, que folgaria 
dever naquelle Reyno alguma coufa fua pê- 
ra lhe fazer mercês. Deíla palavra entendeo 
o Guazil , que EIRey ficava ainda defeo ri- 
flado, delle, e beijando-Ihe a mão, lhe re- 
fpondeo., que elle fatisfariaS. A. eaíTim fe 

em- 



Década VI. Liv. I. Cap.L $ 

embarcou fatisfeito. Contam deite Guazil 
muitas grandezas , entre ellas huma foi , não 
querer acceitar mercês a EIRey de dinhei- 
ro , mandando-Ihe dar muito , e muitas ve- 
zes. E que com faber mui bem a língua 
Portugueza , nunca quiz ufar delia , e dizia 
muitas vezes , que o homem honrado não 
havia de mudar lei, nem lingua. 

Antre muitas coufas , que EIRey proveo 
pêra a índia , e que deo por regimento ao 
Governador foi , que provefle três Voadores 
da Fazenda em Goa , que hiam nomeados > 
hum pêra a Ribeira das Armadas de Goa , 
outro pêra os Contos, e outro pêra a carga 
das náos do Reyno em Cochim. E polto 
que alguns digam que lhe pareceo a EIRey 
fer affi neceíTario pelo grande creícimento f 
em que hiam as coufas da índia ; o que fe 
tem por mais certo he , que o fez por não 
ter tanta confiança de D. João de Caftro f 
nem o haver por homem de muito negocio» 

Defpachadas as coufas todas, o Gover- 
nador íè embarcou , e fe fez á vela mea- 
do Março , indo elie embarcado na náo 
S. Thomé. Os Capitães de fua conferira 
eram , D. Jeronymo de Menezes , de alcu- 
nha o bacalháo, filho herdeiro de D. Hen- 
rique de Menezes , irmão do Marquez de 
Villa-Real. EraXefte Fidalgo cafado com 
huma filha de D. lAlvaro de Caftro, irmão 

do 



6 ÁSIA de Diogo de Couto 

do Governador, que hia provido da forta» 
Jeza de Baçaim. Foi muito eílranhada fua 
ida a Índia , porque rinha que comer , e 
era filho mais velho de feu pai ^ ao menos 
feu irmão D. Francifco de Menezes o fen- 
tio tanto aífim por iflb , como por ir des- 
pachado com Baçaim , que quando chegou 
a Goa , fingio-le doente pelo não irbufcar, 
porque dizia elle, que tinha efcrito a Ei- 
Rey , que Baçaim era couía pouca, e que 
não tirara delia coufa alguma ; e que ven- 
do elle que feu irmão lho pediria , haveria 
que o enganara , e que lhe não eferevêra 
\erdade. Os outros Capitães eram Jorge Ca- 
bral , que também hia provido com Baçaim. 
D. Manoel da Silveira , que levava a Capi- 
tania dè Ormuz , Simão de Andrade , e Dio- 
go Rebello , que haviam de tornar com a 
carga. E tendo eftas náos boa viagem , to- 
maram Moçambique , onde o Governador 
achou Simão de Mello com a gente da fua 
não , que fe tinha perdido, (como na Quin- 
ta Década, no Capitulo VI. do Livro deci- 
mo fica dito,) que o Governador repartio 
pela Armada, e fazendo-íe dalli á vela, fo- 
ram tomar a barra de Goa todas as náos a 
dez de Setembro > tirando a de Diogo Re- 
bello , que era a não Santo Efpirito , que 
ficou invernando na coita de Melinde. 
A Cidade fez grande recebimento ao 

Go- 



Década VI. Liv. I. Cap. L 7 

Governador , e Martim Affonfo de Soufa 
lhe entregou a índia na forma acoftumada 
por termos , e papeis , que diíTo fez Cofme 
Anes, que hia provido do cargo de Secre- 
tario, A primeira coufa , em que o Gover- 
nador provco, foi nos cargos dosVeadores 
da Fazenda, que vinham nomeados em fe- 
gredo. Simão Botelho (como já diflemos) 
pêra a Ribeira ; o Licenciado Manoel de 
Mergulhão pêra os Contos ; e Braz de Araú- 
jo pêra a carga das náos. Mandou EIRey 
pelo Governador Alvará de Fidalgo de fua 
Cafa a Coge Cemaçadim com grande acos- 
tamento , e lhe efcreveo cartas cheias de 
mimos j e honras , o que tudo o Governa- 
dor lhe mandou logo , e huma Provisão 
pêra as fuás náos poderem navegar pêra Me- 
ca , e pêra os mais portos que quizeífe li- 
vremente , fem noffas Armadas entenderem 
com ellas ; ô que Coge Cemaçadim eftimou 
muito , e o teve por mercê , e honra aífina- 
lada, mandando vifitar o Governador com 
prefentes , e couías curioías. O Guazil de 
Ormuz tanto quedefembarcou em terra , lo- 
go defpedio recado a Ormuz a chamar feu 
filho RaxNordim , porque determinava não 
fe ir pêra Ormuz fem o deixar em Goa pe- 
ia o mandar o anuo feguinte pêra o Rey- 
110 , por acabar de fatisfazer ao gofto d 5 Él- 
Reyj e tanto que chegou a Goa,, o entre- 
gou 



8 ÁSIA de Diogo de Couto 

gou ao Governador , e eIJe fe embarcou pê- 
ra Ormuz. 

O Governador achou Mealecan prezo 
na torre da menagem , e tomando informa- 
ção de luas coufas , o mandou foltar , e lhe 
fez muitas honras , mandando-lhe dar cafas , 
aífinando-Jhe dons mil xerafins pêra feu en- 
tupimento , e delpachou Simão de Mello 
pêra ir entrar na fortaleza de Malaca , e 
com eJIe Diogo Soares de Mello , que ef- 
tava provido pelo Governador Martim Af- 
fonlb de Soufa da Capitania de Patane, 
além de Malaca , pêra fazer ir os mercado- 
res da China deípachar fuás fazendas a Ma- 
laca , porque por não pagarem direitos , ti- 
nham feito naquelle porto efcala , no que 
a fazenda d'ElRey recebia notável perda. 
E vendo quão neceíTario era acudir-fe áquil- 
lo, odefpachou, paífando-lhe grandes Pro- 
visões fobre aquelle negocio > dando-lhe hu- 
ma formoía galeota com quarenta Portugue- 
2es ; e aííim fe fizeram á vela por fim de 
Setembro , e de fuás viagens adiante dare- 
mos razão. 

O Governador mandou dar grande avia- 
mento ás náos da carreira pêra irem a Co- 
chim tomar a carga, E porque Martim Af- 
fonfo de Soufa andava pêra fe embarcar, 
o mandou requerer Baftião da Fonfeca Fei- 
tor de Goa por cento quarenta e oito mil 

oi- 



Década VI. Liv. I. Cap. I. 9 

oitocentos e vinte cinco pardáos de ouro , 
dos quatrocentos mil , que difiemos na Quin- 
ta Década , no Capitulo I. do Livro deci- 
mo , lhe dera Coge Cemaçadim em Março , 
quando fe foi ver com eJle em Cananor, 
que carregou em receita íòbre o mefmo Fei- 
tor, ficando-lhe em íi , epaííando-lhe efcri- 
tos rafos , que lhe daria delles defpeza , ou 
lhos entregaria. E como Martim Aííonfo 
de Soufa defejava de levar o dinheiro a 
EIRey , pois o cavara , (porque o Governa- 
dor apertava por elie,) mandou-lhe dizer, 
que em Cochim pêra onde hia o entrega- 
ria ao Veador da Fazenda , pois era pêra a 
carga das náos. Com ifto quietou o Gover- 
nador , e eJle fe embarcou pêra Cochim , 
pêra onde foi também o Licenciado Manoel 
de Mergulhão pêra fazer a carga. E fendo 
em Cochim , andou Martim Aífònfx de 
Soufa dilatando de dia em dia a entrega 
dos cento quarenta e oito mil oitocentos e 
vinte e cinco pardáos de ouro , até fer tem- 
po de fe embarcar, que deíènganou o Vea- 
dor da Fazenda , dizendo-lhe , que o dinhei- 
ro que elle cavara não queria que o Gover- 
nador fe logra ífe delle , que em Portugal o 
entregaria a EIRey ; e com ifto fe embar- 
cou na náo S. Thomé , e deo á vela a tre- 
ze de Dezembro , indo embarcado com el- 
le Áleixos de Soufa ; e Jorge de Soufa Chi- 

chor- 



to ÁSIA dê Diogo de Couto 

chorro irmãos, e Fernão da Silva Commen- 
dador , c Alcaide mór de Alpalhão , Mar- 
tim Corrêa da Silva , Jorge Pimentel , Af- 
fonfo Pereira de Lacerda , Chriílovão de 
Sá , D. João Coutinho , filho baítardo de 
D. Gonçalo Coutinho de Caparica , e ou- 
tros. Foi eíta náo tão leites , e negociada , 
que no convéz não levou mais que algu- 
mas capoeiras , amarras , e pipas de agua 
pêra fe gaitarem nos primeiros dias. 

Não deixou Martim Affonfo de Soufa 
embarcar nella matalotagem a pelToa algu- 
ma , porque a todos os que fe embarcaram 
deo de comer , até aos grumetes. E teve tão 
boa viagem , que furgio na barra de Lis- 
boa a treze de Junho do anno de quarenta 
c leis , coufa nunca acontecida até então. E 
a mefma viagem farão todas as náos , que 
partirem tão cedo , e tão leites como foi 
eíta. E em quanto as náos foram próprias 
d^ElRey , e a carga delias corria por fua 
conta , fizeram fempre fuás viagens , e acon- 
teciam poucos defaítres ; mas depois que fe 
contrataram a mercadores , e que a carga 
delias correo por elles , são acontecidas gran- 
des perdas, e defaventuras , porque a cubi- 
ca do ganho as faz carregar de feição , que 
nem lhes fica lugar pêra fe marearem , nem 
pêra levarem bem huuía amarra. E affim 
affogou , e íumio o mar a muitas com o 

fo- 



Dec. VI. Liv. I. Cap. I. e II. ii 

íbbejo pczo que lhe põe ; e a mor parte 
das que são defapparecidas , fe prefume que 
foi nos primeiros dias com qualquer tem- 
po , porque nem hiam pêra fe poderem ma- 
rear , nem alijar coufa alguma , e alH as 
comeo o mar. E na barra de Cochim fe 
foi huma náo (pelo grande , e efpantofo pe- 
20 que tinha) ao fundo , porque como lhe 
mettêram maisdaquillo com que podia, não 
pode o mar com eila , e aífi a forveo. E 
fe eílas defordens fe não emendao , não 
deixará de haver todos os annos grandes 
defaftres , e deftruições ; e porque fobre ef- 
ta matéria havemos de fallar adiante mais 
largamente , a deixamos agora. Efte anno 
nafceo o Príncipe Carlos em Valladolid a 
oito de Junho , e a Rainha D. Maria fua 
mãi faleceo dahi a quatro dias. 

CAPITULO II. 

Da àijjlmulação com que Coge Çofar man- 
dou vi fitar g Governador : e das pazes 
que fe fizeram com EIRey de Cananor: 
e dos recados que pajfdram antre o Go- 
vernador , e o Idalxá fobre Mealecan. 

COmo Coge Çofar andava com a ten- 
ção damnada preparando com mui gran- 
de fegredo as coufas neceííarias pêra o cer- 
co, que com Soltão Mahamude tinha aíTen*» 

ta- 



12 ASIÀ de Diogo de Couto 

tado de pôr á fortaleza de Dio na entrada 
de Maio feguinte , tempo em que não pu- 
deíle fer íbecorrida da índia ; e como cor- 
ria nefle negocio com diílímulaçao , quiz fe- 
gurar D.João Mafcarenhas Capitão daquel- 
la fortaleza , e o mandou vifitar , e fazer-lhe 
queixas de Manoel de Soufa de Sepúlveda 
quebrar o contrato das pazes em lhe man- 
dar defmanchar as paredes . pedindo-lhe qui- 
zeffe coníentir em fe tornarem a alevantar, 
porque pêra iííò mandava officiacs. Dom 
João Mafcarenhas recebeo bem eíle Embai- 
xador , por quem lhe mandou refponder 
que elle era feu fervidor , e que em quan- 
to alli eftiveíTe por Capitão o moftraria por 
obras ; mas que no negocio das paredes não 
podia deixar bolir fem recado do Governa- 
dor D. João de Caílro , que novamente era 
chegado, e que naquelle particular correífe 
com elle, eque dando-lheelle licença, eíla- 
va muito preftes pêra com fua peííoa , e to- 
dos os feus foldados ajudar a carretar a pe- 
dra pêra ellas. Com efta refpoíta (por encu- 
brir mais fua peçonha) defpedio logo hum 
Capitão dos principaes da Corte pêra ir vi- 
iltar o Governador , e a confirmar com el- 
le as pazes , e lhe mandou hum prefente de 
duas peças de borcado de Turquia , e cinco 
de veludo de Meca de cores, três de cha- 
malotes azeitonados, e hum leito dourado 

fo- 



Década VI. Liv. I. Cap. II. 13 

fobre preto. Eíle Embaixador foi muito 
bem recebido , e ouvido , e o Governador 
o defpachou Jogo , confirmando-lhe as pazes 
em todos os Capítulos, tirando no da pa- 
rede , fobre o que fe tornou a tomar confe- 
lho , e fe aííentou que feria grande affronta 
do Eftado fe tal fe lhe concedeíTe. Com ef- 
te defengano ficou Soltão Mahamude mui 
melanconizado , porque como tratava de le- 
var aquelle negocio por via de cumprimen- 
tos , e diílimulação , fentio muito a mudan- 
ça que fe lhe fazia nos apontamentos, e if- 
to lhe accendeo mais o defejo que tinha de 
tomar aquella fortaleza , pêra o que man- 
dou em muito fegredo dar preífa ás coufas 
neceífarias pêra o cerco. 

O Governador teve vifitaçóes , e Em- 
baixadores de todos os Reys vizinhos , e o 
do Idalxá lhe requereo com muita inftancia 
que lhe cumpriífe os contratos que eflavão 
aífentados antre elle , e o Governador Mar- 
tim Aífonfo de Soufa nas matérias deMea- 
lecan , que ou o mandafle pêra onde eftava 
aflentado , ou lhe tornaife as fuás terras de 
Salfete , e Bardes. O Governador lhe re- 
fpondeo , que elle era chegado de novo , e 
que tomaria informação daquelle negocio , 
e faria nelle o que foífe juftiça ; e que pê- 
ra mandar Mealecan pêra fora de Goa , tem- 
po havia até Abril > que era a monção de 

Ma- 



14 ÁSIA de Diogo de Couro 

Malaca , e Maluco. Com efte cntretimento 
quietou o Idalxá por então ; mas elle não 
largou João Fernandes de Nigreiros , que 
o Governador Martim AfFonio de Soufa 
pouco antes que acabaííe lhe tinha manda- 
do por Embaixador, a quem elle tinha re- 
teudo com mais de vinte Portuguezes fobre 
efte mefmo negocio , com lhos o Governa- 
dor mandar pedir, antes lhe eflreitou aspri- 
zóes , porque bem entendeo que aquillo do 
Governador eram cumprimentos } e não ou- 
fava de romper a guerra , porque tinha hum 
muito grande freio em Mealecan , porque 
receava que fe le puzefle em campo, hou- 
veífe alguma perturbação em feus Capitães, 
e aífi diílimulou por então até ver em que 
aquillo parava ; porque a todo o tempo que 
lhe bem viefle , podia lançar mão das fuás 
terras. 

Coge Cemaçadim com as cartas , e hon- 
ras d'EIRey , e do Governador defpedio lo- 
go hum homem feu com huma grande vi- 
íitação ao Governador dos parabéns de fua 
vinda , e agradecimentos da mercê que lhe 
EIRey fazia , e hum mui arrezoado prefen- 
te de carias finiffimas , beitilhas , rambotins , 
c outras peças ricas , e curiofas , e huma 
muito fina alcatifa grande, e* de muito pre- 
ço , o que tudo foi avaliado em três mil 
cruzados, mandando oíferecer ao Governa- 
dor 



Década VI. Liv. I. Câp. II. i? 

dor tudo o que delle cumpriífe pêra o fer- 
viço d'EiRey de Portugal , cujo vaflallo 
era. O Governador recebeo efle homem bem , 
e lhe fez muitas honras , mandando entre- 
gar o prefente ao Thefoureiro d'ElRey, e 
carregar-lho em receita pêra fua fazenda , 
e não quiz tomar pêra íi coufa alguma , por- 
que em todo feu tempo viveo tão puro , e 
deíintereílado , que até coufas muito poucas 
que lhe davam , mandava que fe vendefTem 
pêra EIRey. E defpedio efte homem mui- 
to fatisfeito , efcrevendo a Coge Cemaçadim. 
huma carta muito honrada , e de grandes 
agradecimentos ; e affi efcreveo a EIRey de 
Cananor outra cheia de mimos , pondo a 
culpa da morte de Pocarale ao Capitão que 
p matou, pedindo-lhe que pois Martim Af- 
fonfo de Soufa , em cujo tempo aquellas 
coufas aconteceram , era ido pêra o Reino , 
que quizeííe correr com elle em paz , e ami- 
zade , porque EIRey feu Senhor lheencom- 
mendava muito que correífe com as coufas 
de feu ferviço muito a ponto 3 e que de fua 
parte eílava preftes pêra tudo , mandando- 
lhe as cartas d'ElRey , porque todos osan- 
nos lhe eferevia , encommendando a Coge 
Cemaçadim foíTe terceiro nas pazes , fobre 
o que efcreveo ao Capitão Diogo Alvares 
Telles. Todas eílas cartas foram dadas , e 
o Coge Cemaçadim fe metteo de permeio.^ 

e tra- 






i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

e tratou o negocio das pazes , e de tempe- 
rar EIRey de feição , que o moderou , e o 
tornou á amizade antiga; e fe houve algu- 
ma fatisfação , nós a não achámos na índia , 
por ler tudo perdido. O Governador , depois 
de efcrever pêra o Reino , ficou entendendo 
em alguns negócios de juftiça , e fazenda , 
defpachando D. Jeronymo de Menezes pê- 
ra a Capitania de Baçaim , e António de 
Soufa Coutinho pêra a de Chaul , que lhe 
EIRey mandou pelos muitos ferviços que 
Jhc fez no cerco dos Rumes em Dio , onde 
clle eíleve por Capitão do baluarte do mar* 

CAPITULO III. 

Do que aconteceo a Diogo Soares de Mel- 
lo indo pêra Patane : e de como foi ter 
a Pegú , e foi em companhia daquelle 
Rey centra o de Ar r a cão : e do que lhe 
fuecedeo até chegar a Patane. 

PArtidos Simão de Mello , e Diogo Soa- 
res de Mello , como atrás diíTemos no 
primeiro Capitulo , pêra Malaca, depois de 
paliarem a Ilha de Ceilão , e entrarem no 
grande golfo de Nicubar , lhes deo tão gran- 
de tempo , que eíleve Diogo Soares de Mel- 
lo perdido , e foi-lhe neceííario ir arriban- 
do em poppa á vontade dos ventos. Simão 
de Mello como hia em hum galeão forte , 

e pof- 



Década VI. Liv. I. Cap. IIL x? 

e poífanté , íbffreo o tempo , e depois que 
lhe pafíbu , ficando-lhe osgeraes, foi tomar 
Malaca em fim de Outubro > e tomou pof- 
lè da fortaleza , com que começou a correr, 
Diogo Soares de Mello foi lançado com 
aquelle tempo na cofta de Pegú ; e fendo- 
lhe já paílada a monção pêra Malaca , pa-> 
receo-lhe melhor ficar naquelle porto , que 
ir bufear outro, porque já havia deefpcrar 
até Abril; e chegando áqueila barra, achou 
nella Álvaro de Soufa , hum Fidalgo , que 
foi cafado com huma irmã de D. Chrifto- 
vão de Moura (o grande privado d'ElRey 
D. Filippc , Marquez de Caítello-Rodrigo , 
e Commendador mor de Alcântara , e hoje 
fegunda vez Vifo-Rey dos Reynos de Por- 
tugal.) Efte Álvaro de Soufa eftava alli com 
hum galeão fazendo aquellas viagens, e fes- 
tejou muito Diogo Soares de Mello , por- 
que era muito feu parente , deixando-fejicac 
no Bandel fazendo feu negocio. 

Andava naquelle tempo o Brama Rcy 
de Pegú ajuntando hum muito groííb exer- 
cito pêra ir contra o Rey deArracao, que 
era feu vaíTallo , porque fe lhe tinha rebe- 
lado. Álvaro de Soufa como hia muitas ve- 
zes á Cidade , e falia va com EIRey , lhq 
fez a faber como era chegado aquelle por- 
to hum grande Capitão Portuguez 5 que hia 
pêra a banda de Malaca , que trabafhafle 
Couto. Tm. IIL P.L B . de 



18 ÁSIA de Diogo de Couto 

de o levar coiníigo naquclla jornada , por- 
que era muito bom cavalleiro , e levava ou- 
tros Fidalgos , e bons Toldados. EIRey man- 
dou logo pedir a Diogo Soares de Mello 
fe vilTe com clle , porque importava muito. 
Diogo Soares foi a elle acompanhado de 
todos os feus. , muito luítrofamcnte vertidos ; 
EIRey o recebeo muito bem, e lhe fez mui- 
tas honras, e gazalhados , e lhe pedio logo 
que em quanto lhe não fazia tempo peia 
lua jornada , o quizetTe acompanhar naquel- 
la, pêra que eíiava de caminho , eque a el- 
le , e a todos os feus faria muitas mercês. 
Diogo Soares de Mello fe lhe offereceo com 
nmito goíto , e aíTentáram que elle, e Ál- 
varo de Soufa foliem por mar com toda a 
Armada, e que EIRey iria por terra, man- 
da ndo-lhes logo dar huma quantidade de 
dinheiro pêra partirem com feus foldados. 

Prefles o exercito, e negociada a Arma- 
da , mandou EIRey que o foíTern efperar 
fobre a barra de Arracao, indo Álvaro de 
Soufa no feu galeão , e Diogo Soares de 
Mello na fua galeota , e todos os Portugue- 
ses , que eílavam em Pegii, em outra, que 
EIRey tinha, e perto de outras felíenta em- 
barcações da terra , em que hiam alguns 
Capitães Pegús com gente d'EIRey , e da- 
da á vela , foram feguindo feu caminho. EI- 
Rey também começou a marchar, levando 

. ., . hum 



Década VÍ. Liv. T. €âp. III. 19 

hum milhão de homens , e três mil Elefarh 
tes , e hum grande número de embarcações , 
que navegam por aquelles rios , que são 
muitos , e grandes > e retalham todo aquela 
Je Reyno, que íahem de huma mefma vêa 
com o Ganges , e tem como elle fuás cor- 
rentes , e inundações. 

Dividem o Reino deArracão do dePe- 
gú outros Alpes maiores , e mais intratá- 
veis , que os que dividem Itália de França, 
e de Alemanha 5 por onde era neceiTario 
abrir-fe caminho , porque lho não deixou 
a natureza , e pêra iflb hia. o Brama nego- 
ciado de todas as coufas neceflarias ; e che- 
gando a elles i começou a pôr as. mãos á 
obra , mettendo nella duzentos mil gaitado- 
res, que os começaram a cortar por huma 
parte , que lhes pareceo melhor de abrir; 
mas como tudo eram penedias afperiílímas ^ 
e muito íngremes , e a ferra , que fe havia 
de cortar , tinha perto de duas léguas de 
groflura , foi luzindo a obra pouco, com 
EIRey mandar dobrar a gente que andava 
no ferviço delia, edeixallcs-hemos por ora 
em feu trabalho por continuarmos com a 
Armada. 

Partidos Álvaro de Soufa , e Diogo Soa* 
res de Mello de Pegú, tanto que entraram 
no mar de Bengala , lhes deo hum tempo 
tão grofíbj que os houvera de comer ) eco* 

B ii mo 



%6 ÁSIA de Diogo de Couro 

mo os Pegús não são homens do mar , é 
es feus navios hiam mal apparelhados , al- 
guns fe foçobráram , e outros deram á coi- 
ta. Álvaro de Soufa foi correndo no feu 
galeão pêra a banda de Ceilão ; e vendo 
que o tempo lhe não dava lugar pêra mais, 
correo a Ilha por fora , e foi demandar a 
cofia da índia. Diogo Soares de Mello na 
fuagaleota, e a outra dePegú, em que hiam 
os Portuguezes , chegáram-fe á terra , e á 
lbmbra delia iurgíram , onde eíliveram em 
grande perigo \ e todavia crefeendo o tem- 
po lhes foi neceífario levarem-fe , o que fi- 
zeram com muito trabalho ; e dando traque- 
tes , foram correndo tormenta pêra a banda 
de Pegú, e quiz Deos que ferraram áquel- 
]e porto, onde entraram fem faberem novas 
de Álvaro de Soufa. 

Diogo Soares de Mello defpedio logo 
hum foldado chamado Luiz Alvares em com- 
panhia de alguns Pegús pêra ir dar novas 
a EIRey do que paífava , e a pedir-lhe que 
pois o tempo era gaftado , (por fer já em 
Março,) lhemandafle licença pêra ir aonde 
ó Governador o mandava , e que lhe fizeíTe 
mercê da fuíta , que mandou em lua compa- 
nhia. Efte homem foi em doze dias aonde 
ElB.ey eftava oceupado na obra da ferra, 
que era infinita , de que hia já defeonfian- 
úo 7 e dando-lhe o recado de Diogo Soares 

de 



Década VI. Liv. I. Cap. III. 21 

de Mello, e contando-lhe ofucccíTo dajor-? 
nada, c perdição de lua Armada , e que de 
Álvaro de Soufa não havia novas , ficou El- 
Rey muito trifte , e magoado ; e mandando 
logo levar mão da obra, tornou a voltar pê- 
ra Pegú. E porque hia de vagar, defpedio 
Luiz Alvares com refpofta a Diogo Soares 
de Mello, mandando-íhe os agradecimentos 
de feu trabalho, e hum prefente de três mo- 
ças muito formoías , e hum moço filho d'EÍ- 
Rey de Chalão , e Porão , que cativou quan- 
do tomou aquelles Reynos , que podia ha- 
ver perto de dous annos , e aflí lhe con- 
cedeo a fufta que lhe pedio , e tudo o mais 
que lhe foífe neceflario pêra íua jornada. E 
èfcreveo a feus Veadores da Fazenda , que 
tudo lè lhe déífe em abaftança ; e lhe man- 
dou rogar muito , que quando fe tornafle 
pêra Goa , tornafle aquelle porto , e que íe 
yiffc com elle, porque era muito feu ami- 
go , e defejava de lhe fazer mercês. Efte 
recado chegou a Diogo Soares de Mello , 
que eítimou muito o prefente , porque era 
muito pêra iííò. E tendo licença d ? El&ey, 
fe fez preítcs , negociando a fufta , de que 
lhe eile fez mercê, e tomando ascoufas ne- 
ceílarias , deo á vela pêra Malaca , aonde che- 
gou , e dahi fe partio pêra Patane , efcre- 
vendo Simão de Mello Capitão de Malaca 
áquelle Rey, que eílava de paz com o El? 

ta- 



m ÁSIA de Diogo de Couto 

tado , da qualidade , partes , e peflba de 
Diogo Soares de. Mello, pedindo-lhe o fa- 
voreceílè em quanto eftiveíle em íeu porto. 
E aíli ficou Diogo Soares de Aíello fazen- 
do ir os mercadores a Malaca , com o que 
aquella Alfandega começou acrefcer nas ren- 
das. 

CAPITULO IV. 

J)a chegada cVElRey de Maluco a Goa : e 
de como o Governador Z). João de Cafi 
iro o tornou a mandar pêra feu Reyno , 
è Bernaldim de Sou/a foi entrar naquel- 
la fortaleza : e do que aconteceo na via- 
gem a Fernão de Sou [a de Távora : e dos 
gartidos com que Ruy Lopes de Villa^ 
lobos fe entregou. 

DOm Jorge deCaílro, que trazia EIRey 
Aeiro de Maluco, (que na Quinta Dé- 
cada no Capitulo V, do Livro decimo fica 
dito , que deixámos em Malaca , ) partio 
daquelia fortaleza tão cedo, que chegou a 
Goa em Fevereiro deite anno de quarenta 
e féis, em que com o favor Divino entra* 
mos. O Governador recebeo aquelle Rey 
com muita honra, mandando-o agazalhar, 
e dar-lhe todo o neceífario, E porque era 
tempo de prover nas coufas de Malaca , e 
Maluco , principalmente nas daquelle Rey- 
HQ > onde por morte d'£lRey D. Manoel , 

que 






Década VI. Li v. I. CapI IV. ^3 

que morrco em Malaca , não ficava outro 
herdeiro fenao eíte Aeiro , que pudeíle go- 
vernar; poílo que EIRey D. João de Por- 
tugal ficou no teftamento' do Rey morto 
nomeado por herdeiro dos Reynos de Ma- 
luco , (como no fim da Quinta Década nó 
Capitulo X. do Livro decimo fica dito , ) 
tomando o Governador o parecer dos Fi- 
dalgos , e Capitães fobre aquellas coufas , 
fe aílentou , que pois Jordão de Freitas Ca- 
pitão de Maluco não mandava aquelle Rey 
por culpas que delle tiveíle , fenao por fe 
recear que com a chegada d'EíRey D. Ma- 
noel feito Chriftão, houveííe alguma altera- 
ção , que fe tornaíle a governar aquelle Rey- 
no da mão d'EiRcy de Portugal. 

Adernado ifto , o Governador em hum 
dia folemne , tendo pêra iflo dado recado aos 
Vereadores , Fidalgos , Capitães , e Offi- 
ciaes da Fazenda , e Juíliça em fala pú- 
blica , inveítio EIRey Aeiro no Reyno de 
Maluco , c oalevantou poreífe: com con- 
dição , e declaração , que recebia aquelle 
Reyno da mão d'E!Rey de Portugal, e que 
todas as vezes que oquizeífe, lho tornaria a 
entregar livre , e defembargado á peíloa que 
elle mandaffe , do que tudo fe fizeram au- 
tos aífinados por EIRey , e jurou nas maòá 
do Governador de fer fervidor , e vaííalló 
d'E!Rey de Portugal, elle, e todos os que 

dei- 



^4 ÁSIA de Diogo de Couto 

delle herdaflem aquelle Rcyno , o que tudo 
fe fez com o mor apparato , e fclemnidade 
que pode ler. 

E pêra ir fazer eíla inveflidura defte Rcy- 
rio , mandou o Governador D. João de Caf- 
tro aBernaldim de Soufa que fe fizeííe pres- 
tes , porque havia de ir a Maluco levar 
aquelle Rey , por cumprir affi ao ferviço d'El- 
Rey de Portugal. Bernaldim de Soufa lhe 
diíTe , que elle pêra o fervir viera á índia y 
e que em tudo o feria com muito goílo. O 
Governador lhe deo todas as coufas que 
lhe pedio , aífi pêra a viagem , como pêra 
o provimento da fortaleza , e aos quinze 
dias de Abril fe embarcou , entregando-lhe 
o Governador pela mão EIRey Aeiro , que 
foi acompanhando até o terreiro dos Paços , 
onde fe defpedio do Governador muito fa- 
tisfeito das honras , e mercês que lhe fez ; 
e affi femoílrou fempre agradecido, tanto, 
que podemos dizer , que o mataram por 
ferviço d'E!Rey de Portugal , como em leu 
lugar diremos. Embarcados todos , foram fe- 
guindo fua viagem , em que os deixaremos 
por continuarmos com Fernão de Soufa de 
Távora , que no fim da Quinta Década no 
Capitulo X. do Livro decimo- deixámos par* 
tido de Malaca pêra Maluco de foccorro 
contra os Caftelhanos. 

Foi efte Capitão feguindo fua viagem 

leni 



Década VL Liv. " I. Cap. IV. 2? 

fem achar contrafles até furgir no porto de 
Talangame da Ilha deTernate em Novem- 
bro paíTado. Jordão de Freitas o foi bus- 
car, e lhe deo conta do eftado em que as 
coufas daquellas Ilhas eftavam , e do que 
tinha paíTado com os Caftelhanos , que El* 
Rey de Tidore tinha muito mimofos ; e ef- 
tava com elles tão lbberbo , que cuidava 
que mui cedo feria Senhor de todas aquel- 
las Ilhas. Fernão de Soufa defembarcou na 
fortaleza , onde fe agazalhou Ruy Lopes 
de Viila-lobos : tanto que foube fer chega- 
do hum Capitão novo , fem faber quem era , 
defpedio hum Hefpanhol em huma coroco- 
ra com huma carta pêra elle toda cheia de 
cumprimentos , oíferecimentos , e defeulpas , 
refumindo-fe em lhe pedir que quizeíTe cor- 
reflem em paz , e amizade , como era razão 
tivelTem duas nações, vaííallos dedousReys 
tão conjuntos em parentefeo , e mais em 
terras tão apartadas antre Mouros , e Gen- 
tios , que por natureza eram inimigos mor- 
taliíRmos deChriítãcs, porque não amavam 
a algum íènao por feu intereífe , ou gran- 
de neceíiidade. Fernão de Soufa vendo a 
carta tão pafavrofa , e tão copiofa de cum- 
primentos , ( coufa de que os Hefpanhoes 
não são avaros , ) refpondeo-lhe por outra 
muito breve, que continha o feguinte : 
>i Senhor. O Governador da índia me 

» inan- 



i6 ÁSIA de Diogo de Couto 

5> mandou nefta Armada , fabendo que erà 
» chegada outra de Hefpanhoes a eftas Ilhas , 
» contra os contratos que eftam feitos an- 
» tre os Reys de Portugal , e Caftella. A 
y mim me chamam Fernão de Soufa de 
)) Távora ; e aífí como fou pequeno de cor- 
» po , fou muito curto de cumprimentos : 
3> V. m. fe determine, porque eu não venho 
» cá fenão a fazer o fervieo d'ElRey de 
)> Portugal , como me he mandado. Aqui 
» eftá efta fortaleza , onde fe pode agaza- 
» lhar até fe ir pêra Hefpanha , porque não 
» he razão que perturbe o commercio , e 
» trato deitas Ilhas , quesãod'EIRey dePor- 
» tugal; quando o não quizer fazer, far-fe- 
y> ha o que convém. » 

Com eíla carta aíli fecca defpedio o Hef- 
panhol , que palmou de ver em homem tão 
pequeno tamanha determinação ; porque Fer- 
não de Soufa de Távora era hum dos pe- 
quenos homens de Portugal , mas muito gran- 
de de animo, e faber. Ruy Lopes de Vil- 
la-lobos pela carta bem cntendeo que aquel- 
le homem era de conclusão; e porque não 
tinha nem gente , nem Armada pêra fe de- 
fender , mandou tratar com Fernão de Sou- 
fa de Távora fobre fe verem ambos, onde, 
e como lhe a elle pareceíTe. E correndo fo- 
bre ifto recados de parte a parte , vieram 
a concluir que fe viífem cada hum em fua 

co- 



Década VI. Liv. I. Gap. IV. 27 

corocora , com levar cada hum três compa- 
nheiros , e que foflem as viftas no mar an- 
ire Ternate , e Tidore , tanta diftancia de 
huma , como de outra. E ao dia limitado 
embarcou-fe Fernão de Soufa de Távora 
nafua corocora mui bem negociado , levan- 
do por companheiros Leonel de Lima , Ma- 
noel de Mefquita , e João Galvão , e hum 
pagem nafcido na índia , que fe chamava 
Cáceres , que efte anno de noventa e fete , 
em que ífto efcrevemos , faleceo nefta Cida- 
de de Goa , onde fempre viveo rico , e hon- 
rado , e chamava-fe Gafpar de Cáceres, de 
quem nós foubemos o íucceflb deita jorna- 
da , porque dava de tudo muito boa razão. 
Ruy Lopes de Villa-lobcs partio de Tido- 
re em outra corocora muito ligeira , levan- 
do comíigo D. Alonfo Henriques , Bernar- 
do de la Torre, Gonçalo de Ávila, e hum 
pagem Naraval. 

Chegadas as embarcações huma á outra, 
proa com proa , onde os Capitães hiam em 
pé , e íobre quem entraria primeiro hum na 
outra, íepaííòu hum grande efpaço em cum- 
primentos , e todavia Ruy Lopes de Villa- 
lobos faltou na de Fernão de Soufa de Tá- 
vora , que o levou nos braços , e iíTo mef- 
mo aos companheiros. Recolhidos ao toldo , 
que eftava alcatifado, e com alguns coxins 
de borcado , e veludo , fe alternaram todos. 

Fer- 



i8 ÁSIA de Diogo de Couto 

Fernão deSoufa de Távora, depois depaf- 
íarem as palavras de cumprimentos , diíle 
que elle era aili vindo por mandado do Go- 
vernador da índia , por faber que eram che- 
gadas náos deHefpanha áquellas Ilhas con- 
tra os contratos , que eftavam feitos antre os 
Reys de Caftella , e Portugal , que logo ai- 
li moítrou , (porque os trazia muito autên- 
ticos,) e continham em íbma , que o Em- 
perador Carlos V. havia por bem , que ne- 
nhum vaíTallo feu , adi dos portos dos Rey- 
nos de Caftella , como da nova Hefpanha , 
foíTem ás Ilhas de Maluco , em quanto d li- 
ra fle o tempo do concerto , que fobre cilas 
tinha feito com EIRey D. João de Portu- 
gal feu cunhado , fob pena que o dito Rey 
de Portugal pudeíle mandar prender, e cas- 
tigar qualquer Capitão , ou Capitães Hefpa- 
nhoes que a ellas foliem , como revéis , e 
qucbrantadores da paz , e amizade , que an- 
tre ambos os Reys havia , (como melhor 
fe veram na noda Quarta Década no Ca- 
pitulo I. do Livro fetimo. ) 

Depois de lidos eftes contratos , e lhos 
moftrarem pêra os verem á fua vontade, 
lhe diíle Fernão de Soufa de Távora , que 
lhe pedia muito não quizeíTe quebrantar, e 
perturbar eíla paz , e amizade antre eftes 
Reys tantas vezes conjuntos em parentefco , 
que em lugar do caftigo que o Emperador 

man- 



Década VI. Liv. I. Càp. IV, 29 

mandava' que fe lhe déífe, quizefle ir com 
elle pêra a índia com todos os feus, e que 
fe lhe daria todo oneceífario, e fe lhe não 
buliria em navio , artilheria , nem fazenda» 
E que os que fe quizeílem ir pêra o Rey- 
no , lhes daria o Governador embarcação 
franca , e livre ; e que os que quizeílem fi- 
car em Goa , e pela índia nas Cidades , c 
fortalezas d'ElRcy de Portugal, feriam nel* 
ias agasalhados como naturaes , e que ufa- 
riam dos privilégios , e liberdades, de que 
ufavam os Cidadãos , e moradores Portu- 
guezes. Ruy Lopes vendo os papeis , e con- 
íiderando os partidos que Fernão de Soufa 
de Távora lhe commettia, veio a concluir 
que os acceitava , pois que aífi era ferviço 
do Emperador; e que elle, e todos os da 
fua companhia, fe iriam pêra a fortaleza de 
Ternate dentro em três dias primeiros fe- 
guintes ; com condição que EIRey de Ti- 
dore ficalle na graça dos Portuguezes , e 
tornaflem a correr em amizade como dan- 
tes. Difto fe fez hum auto por hum da- 
quelles companheiros , em que Ruy Lo- 
pes , e os íeus fe a dignaram com Fernão 
de Soufa de Távora , e feus companheiros. 
Acabado eíle auto com grandes exterio- 
res de alegria de todos , defpedio Fernão 
de Soufa de Távora o feu pagem Cace- 
ies na corocora de Ruy Lopes , pêra que 

fof- 



.30 ÁSIA de Díogo de Couto 

foíTe ao feu galeão bufear de jantar , por- 
que tinha deixado recado que fe lhe fizefle 
pêra convidar os Caflelhanos, o que fe fez 
em quanto fe trasladaram os papeis ; e Cá- 
ceres voltou muito depreífa com o jantar, 
e foram todos fervidos muito bem , e com 
muita abaítança de tudo o que na terra ha- 
via. AHi eftiveram em converfação até bem 
tarde , dando Fernão de Soufa de Távora 
a Ruy Lopes de Villa-lobos algumas peças 
curiofas da índia , que pêra iflb levava já , 
e o mefmo fez aos companheiros , que to- 
dos fe defpedíram muito contentes , e fa* 
tisfeitos ; ficando Fernão de Soufa de Tá- 
vora com Ruy Lopes de Villa-lobos de o 
ir viíitar a Tidore dahi a três dias , primei- 
ro que fe elle paíTaiTe pêra Ternate pêra o 
fazer amigo com aquelle Rey. 

CAPITULO V. 

Do que mais pajjbu Fernão de Soufa de 
Távora com os Caflelhanos : e de como 
foram todos contra o Rey de Geilolo , e 
o cercaram na fua fortaleza : e de co- 
mo fe recolheram f em fazerem coufa al- 
guma. 

CHegado Ruy Lopes de Villa-lobos a 
Tidore , começou a haver antre os feus 
grandes murmurações fobre os contratos que 



Década VI. Liv. L Cap. V. 31 

fizera com Fernão de Soufa de Távora; ef- 
tranhando-lhe muito fazer huma coufa co- 
mo aquella , fem parecer de todos , (porque 
eftavarn mais com o olho no intereíTe do 
cravo , que efperavam Jevar á nova Hefpa- 
nha , que no ferviço de feu Rey,) haven- 
do que não podiam também fer os Portu- 
guezes tão puros , que lhe cumpriíTem os 
contratos em todo ; pelo que começou a 
haver alterações, e bandos contra Ruy Lo- 
pes de Vilía-Jobos , fazendo-fe cabeça del- 
les D. Aloníò Henriques , que fe achou 
prefente aos contratos , e lhe pareceram bem , 
e fe aílignou nelles , pondo-fe todos em ar- 
mas pêra matarem Ruy Lopes de Villa-lo- 
bos , que fe recolheo em fuás cafas com 
cincoenta arcabuzeiros , trabalhando por apa- 
ziguar D. Alonfo Henriques , fem o poder 
reduzir á razão , porque eííavam todos de- 
terminados a lhe nao obedecer naquelle par- 
ticular , nem fe paílarem a Ternate ? no 
que EIRey os favorecia em fegredo > pelo 
proveito que tinha de ter comíigo os Hef- 
panhoes , e também porque ficava odiado 
com os Portuguezes , de quem já determi- 
nava de fe nao fiar. 

Deftas alterações nao fabia Fernão de 
Soufa de Távora coufa alguma , e eílava 
preftes pêra recolher os Caftelhanos por 
quem efperava no cabo dos três dias aflige 

na- 



J3, ÁSIA de Diogo de Couto 

nados, como tinham aflentado. Ao tercei- 
ro dia pela manhã fe embarcou Fernão de 
Soufa de Távora cm huma corocora com 
os meímos companheiros que da outra vez 
Jevou 3 e partio pêra Tidore a viíitar Ruy 
Lopes de Villa-lobos , como lhe tinha pro- 
mettido , porque aquelle dia por noite ef- 
perava que fe paflaflem todos os Hefpa- 
nhoes a Ternate. E antes de chegar a Ti- 
dore hum tiro de efpingarda , chegou a el- 
le huma corocora mui ligeira , em que hia 
hum criado de Ruy Lopes de Villa-lobos , 
por quem lhe mandava pedir por mercê que 
não quizeíTe por então chegar a terra , por- 
que cumpria aíli ao ferviço d'ElRey de Por- 
tugal , e que ficaílem as viíitações pêra o 
dia feguinte. Fernão de Soufa de Távora , 
cjue não fabia o que hia em Tidore , ficou 
apaixonado , cuidando que efte recado de Ruy 
Lopes de Villa-lobos era eftar arrependido 
dos concertos que eftavam feitos ; e diíTe ao 
homem que difíeíTe a feu amo , que aquelle 
recado lhe houvera demandar primeiro que 
partira de Ternate; e que pois já eftava tão 
perto , não havia de deixar de o ver , e vi- 
íitar : e com iífo mandou remar pêra dian- 
te. Ruy Lopes de Villa-lobos da fua janel- 
la vio ir ambas as corocoras , e indireita- 
rem com a terra ; e porque não houveíle 
-alguma alteração nos do bando > fahio de 

ca- 






Década VI. Liv. I. Cap. V. 33 

cafa muito apreflado com os cincocnta ar- 
cabuzeiros , e foi efperar na praia a Fernão 
de Soufa de Távora , que chegando a ter- 
ra, faltou nella com os companheiros. Ruy 
Lopes de Villa-lobos o recebeo muito bem , 
e tomando-o em meio dos arcabuzeiros , fe 
foi recolhendo pêra fua cafa , dando ordem 
pêra que os arcabuzeiros ficaííemfempre em 
guarda , feftejando muito a Fernão de Sou- 
fa de Távora ; dando-lhe muito bem de 
jantar, e fobremeza , lhedeo conta de tudo 
o que era paííado , e de como D. Alonfo 
Henriques com os Hefpanhoes eílavam ban- 
deados contra elle , e que eífa fora a razão , 
por que lhe mandara pedir que não chegaíTe 
a terra por efcufar alguma união , porque 
queria primeiro ver fe os podia quietar. Fer- 
não de Soufa de Távora fentio muito aquel- 
le negocio , e teve a Ruy Lopes de Villa- 
lobos por homem de muita honra 5 e pri- 
mor, E parecendo-lhe neceflario temperar 
aquellas coufas , mandou pedir a D. Alon- 
fo Henriques , que fe quizeífe ver com elle 
da maneira que ordenaífe , porque cumpria 
aíTi ao ferviço do Emperador; e tantos' re- 
cados correram de parte a p^te , que lho 
concedeo D. Alonfo Henriques , mandando- 
Ihe dizer, que as viftas foflem junto das ca- 
fas de Ruy Lopes de Villa-lobos com dous 
companheiros. E chegados ao lugar orde- 
Ccuto.Tom.IILP.L C íia- 



34 ÁSIA de Diogo de Couto 

nado , por taes modos fe houve Fernão de 
Soufa de Távora com D. Alonfo Henri- 
ques , e tantas obrigações lhe poz , e tantas 
coufas lhe difle , que o quietou , ficando 
com elle de ir moderar os do feu bando , 
e de logo tornar a elle, como fez, deixan- 
do os feus apaziguados , e Fernão de Sou- 
fa de Távora levou D. Alonfo Henriques 
pela mão a cafa de Ruy Lopes de Villa- 
lobos , e os fez amigos , e péla mefma ma- 
neira a todos os mais. EIRey também veio 
a cafa de Ruy Lopes de Villa-lobos a vi- 
íitar Fernão de Souía de Távora , que o 
recebeo com muita honra , e fe fizeram ami- 
gos ; e deixando tudo quieto, fe defpedio 
de todos , ficando elles de fe irem pêra a 
fortaleza ao outro dia , como fizeram ; re- 
cebcndo-os Fernão de Soufa de Távora 
com muitas honras , agazalhando na forta- 
leza a Ruy Lopes de Villa-lobos , D. Alon- 
fo Henriques , e Bernardo de la Torre , e 
aos mais mandou dar cafas pela Cidade , 
com que ficaram fatisfeitos. Alii ficaram to- 
dos correndo com grande amizade , não lhe 
tocando Fernão de Soufa de Távora em 
fuás fazendas , nem em coufa alguma fua. 

E porque aquelle negocio , que era o 
principal a que Fernão de Soufa de Távo- 
ra particularmente foi , eftava acabado , de- 
terminou de entrar no de Catabruno Rey 

de 



Década VI. Liv. I. Cap. V. 3? 

de Geilolo. E praticando com Jordão de 
Freitas fobre fuás coufas , e tomando in- 
formação delias , fòube como aquelle tyran- 
110 matara o leu Rey , e tinha inquietas to- 
das aquellas Ilhas , avexando muito aquella 
Chriílandade , (que era muita , ) e que por 
mar , e por terra fazia guerra aos Portugue- 
zes, defendendo-lhes os mantimentos , e na- 
vegações com fuás Armadas. E praticando 
aquelle negocio com os Capitães Portugue- 
zes , e Caftelhanos , aífentáram que era ne- 
ceílario acudir áquillo , e caftigar aquelle 
tyranno , o que fe havia de fazer com ir 
todo o poder dos Portuguezes , e Caftelha- 
nos , e de toda a Ilha, oíferecendo-fe Ruy 
Lopes de Villa-lobos pêra iflb. Fernão de 
Soufa de Távora mandou pedir á Rainha , 
e aos Regedores doReyno, que os quizef- 
fem ajudar com fuás corocoras, e com to- 
da a gente que pudeíTem , o que elles lhe 
concederam , mandando fazer preftes a que 
Jhes pareceo. Ruy Lopes de Villa-lobos , 
D. Alonfo Henriques , Bernardo de la Tor- 
re , que entraram no Confelho , com todos 
os Hefpanhoes fe fizeram preftes. E como 
Fernão de Soufa de Távora defejava de fe 
tornar aquelle anno pêra a índia, deo tan- 
ta preífa a eftas coufas , que em Fevereiro 
poz todo o poder no mar , indo elle no 
leu galeão, e Jordão de Freitas no 3. Joa- 

C ii ni- 



36 ÁSIA de Diogo de Couto 

nilho de Ruy Lopes de Villa-lobos , e os 
Hefpanhoes repartidos por toda a Armada , 
e as corocoras de Ternate , em que hia 
hum dos Regedores ; e dando á vela , em 
poucos dias foram furgir no porto de Gei- 
lolo , onde o tyranno Catabruno tinha hu- 
ina formofa fortaleza , mui bem provida de 
gente , ai tilheria , e mantimentos pêra dous 
annos , em que elle eftava muito confiado , 
efperando pelos Portuguezes , de cuja jor- 
nada elle logo foi avifado , e por iflb fe 
tinha repairado muito á fua vontade , man- 
dando fazer derredor do muro mui gran- 
des cavas cheias de eftrepes perigofiílimos. 

Fernão de Soufa de Távora tanto que 
furgio , tomou confelho com os Hefpanhoes , 
e com os feus Capitães , e com a gente de 
Ternate fobre o modo que teria em fe com- 
metter á fortaleza , e aífentou-fe que a ba- 
teíTem os galeões pela banda do mar, (por 
ficar a tiro de bateria , ) e com o poder to- 
do fe commettefle por aflaltos. 

Ordenado tudo o que era neceííario , 
defembarcáram os noífos hum pouco affafta- 
dos da fortaleza , tendo algumas efcaramu- 
£as com osGeilolos, que lhesfahíram a de- 
fender a defembarcação ; mas a pezar de 
todos , e com damno feu fe foram aífentar 
perto da fortaleza , onde fizeram feus va- 
los y e trincheiras mui fortes , e defenfaveis , 

e af- 



! 



Década VI. Liv. L Cap. V. 37 

e.afleíláram algumas peças de campo nos 
lugares mais commodos pêra a bateria. Ha- 
via no exercito entre Portuguezes , e Hef- 
panhoes quatrocentos, toda gente mui lim- 
pa , e efcolhida, e mil e quinhentos Ter- 
natezes. 

Preftes , e negociado tudo pêra a bate- 
ria , foram-fe os galeões chegando perto á 
terra , e começaram de huma , e de outra 
parte a bater o muro com tão grande for- 
ça , que lhe derribaram os altos , que logo 
foram repairados. Catabruno , que era ho- 
mem esforçado , e animofo , não fe conten- 
tando com fe defender dentro na fortaleza , 
fahia cada dia fora a dar aflaltos aos noíTos , 
e a travar com elles efcaramuças , de que 
fempre houve damno. Nifto fe foram gai- 
tando alguns dias , não ceifando a bateria , 
que não fez mais que derribar o muro pe- 
los altos. 

Fernão de Soufa de Távora fendo in- 
formado do modo de como o tyranno ef- 
tava provido , e fortificado , entendeo que 
havia mifter muito vagar pêra fe concluir 
aquelle negocio j e vendo que fe lhe hia 
gaitando o tempo , determinou de commet- 
ter a fortaleza á efcala vifta , e metter da- 
quella feita todo o reíto , ou pêra a tomar , 
ou pêra fe defenganar. E preparando-fe de 
efcadas , alavancas a picões , machados , e 

to- 



38 ÁSIA de Diogo de Couto 

todos os mais petrechos defta forte , em 
vindo o dia limitado de madrugada , íahí- 
ram todos do arraial poftos em armas , e 
foram commetter a fortaleza , levando a dian- 
teira João Galvão, e Bernardo de la Tor- 
re. E chegando-fe aos muros pêra lhe en- 
eoílarem as efcadas , deram nas trapeiras , que 
eílavam cubertas , em que cahíram muitos , 
encravando-íe nos eftrepes , que eram mui 
agudos , e acudindo-lhes os outros , tira- 
ram os vivos com muito trabalho , e rifco , 
porque de cima do muro choviam fobre el- 
les efpingardadas , e frechadas , de que a 
mor parte fahíram empenados. 

Vendo Fernão de Soufa de Távora a- 
quelle negocio , tocou a recolher, porque 
lhe não mataífem toda a gente , ficando mui- 
to enfadado de Jordão de Freitas , fendo 
Capitão de Ternate , não ter intelligencias 
pêra faber de como os inimigos eílavam 
fortificados , e donde fe haviam os noílbs 
de guardar , e poz-lhe toda a culpa defta 
jornada. 

Vendo Catabruno que os Portuguezes 
fe recolhiam quaíi desbaratados , ficou tão 
foberbo , que fahio da fortaleza com perto 
de três mil homens , e com grande determi- 
nação os foi commetter , eftando já recolhi- 
dos dos valos pêra dentro. Vendo Fernão 
de Soufa de Távora aquelle atrevimento, 

lhe 



Década VI. Liy. I. Cap. V. 39 

lhe fahio ao campo , e lhe aprefentou bata-* 
lha , que elle não refufou , e affim travados 
todos fe começaram a ferir , e matar com 
muita crueza , fazendo os Portuguezes , e 
Hefpanhoes nefte dia coufas tão affinaladas > 
que com damno muito conhecido dos ini- 
migos os arrancaram do campo. 

Ao outro dia tornou Catabruno a pro- 
var fua ventura, lançando diante alguns dos 
feus pêra obrigar aos noílbs a lhes fahirem , 
porque defejava de fe tornar a baralhar com 
elles. Eítes corredores chegaram perto dos 
valos, a quem fahio João Galvão com cem 
homens, e dando nelies, os foi arrancando 
do campo. Catabruno como vio a coufa 
-travada , arrebentou com grande poder íb- 
ire os noífos , que lhe tiveram o roflo com 
grande determinação , e antre todos fe tra- 
vou huma muito afpera batalha , em que 
João Galvão, depois de ter bem moftrado 
o valor , e esforço de fua peífoa , quiz a 
fortuna que acabaíTe naquelle feito de mui- 
tas , e mui grandes feridas , que elle eíli- 
mou pouco até as forças o defampararem. 

Os feus vendo-o morto , fe foram reco- 
lhendo desbaratados j mas fahíram-lhes os 
Capitães Portuguezes , e Hefpanhoes aos re- 
colher , o que não puderam fazer fem fe 
'travarem com inimigos , a que aíiinaláram 
bem de leu ferro, e houveram porfeu par- 
ti- 



4o ÁSIA de Diogo de Couto 

tido recolherem-fe pêra alua fortaleza. Fer- 
não de Soufa de Távora fentio tanto a mor- 
te de João Galvão , que fe veftio de preto 
por fer muito feu amigo. E defenganando- 
le daquelle negocio , entendendo , ou ima- 
ginando que Jordão de Freitas eflava já 
contra feu goílo , havendo quarenta dias 
que alli eram chegados , fe tornou a embar- 
car, e fe recolheo a Ternate, onde pouco 
depois faJeceo de febres Ruy Lopes de Vil- 
]a-lobos. Fernão de Soufa de Távora como 
foi tempo fe partio pêra Malaca , levando 
comíigo osHefpanhoes, e o feu galeão São 
Joanilho , e em Malaca fe encontraram com 
Bernaldim de Soufa, e com EIRey Aeiro, 
e alli eftiveram até fer tempo de partirem 
huns pêra Maluco , e outros pêra a índia. 

CAPITULO VI. 

Das intelUgencias , que Côge Çofar teve com 

hum Ruy Freire , ejlando em Surrate , 

fohre lhe entregar a fortaleza de Dio : 

e da gente , que naquella Ilha entrou 

dijjimuladamente. 

VEndo o Governador D. João de Caf- 
tro que fe gaitava o verão , proveo 
as fortalezas do Norte de gente , e muni- 
ções , principalmente a de Dio , pêra onde 
mandou duzentos homens debaixo das ca- 



Década VI. Liv. I. Cap. VI. 41 

pitanias de D.João, e D.Pedro de Almei- 
da , filhos de D. Lopo de Almeida , de Gil 
Coutinho , e de Luiz de Souia , filho do 
Chanceller mor do Reyno. Eítava nefte tem- 
po Coge Çofar em Surrate ajuntando as 
coufas neceffarias pêra o cerco , que deter- 
minava pôr á fortaleza de Dio , tanto que 
entraífe o mez de Maio , em que fe não 
podia efperar íbccorro de Goa. E como 
traçava de contínuo em fua imaginação mo- 
dos , e ardis contra aquella fortaleza , ten- 
tou hum muito diabólico , que fe o Deos 
não atalhara , não pudera deixar de fe per- 
der, e foi deíta maneira. 

Eftava no mefmo tempo em Surrate hum 
Portuguez morador em Dio, chamado Ruy 
Freire , tão familiar amigo de Coge Çofar 
de muitos tempos atrás, que tinha delíe ten- 
ça; e quando hia a Goa, lhe negociava pe- 
ças , e brincos , e ainda fazendas , que por 
elle mandava ás náos do Fveyno , e a mor 
parte do verão refidia em Surrate , onde em 
quanto eftava comia , e bebia com o Coge 
Çofar. Em fim era tanta fua amizade, que 
o commetteo pêra lhe dar entrada na for- 
taleza de Dio, promettendo-Ihe huma forn- 
iria de ouro , e humas aldeias de muita im- 
portância. E como o diabo o vencco com 
tão grande intereíTe, vienun a fe concertar, 
que íe vieílè o Ruy Freire £era Dio ; e que 

ei- 



42 ÁSIA de Diogo de Couto 

elle Coge Çofar feria naquella Ilha na en- 
trada de Maio , e que como lá eftiveífe , 
Iançaíle peçonha (que lhe logo deo) na cií- 
terna , donde todos bebiam , e que trabalhaf- 
fe por dar fogo á caía da pólvora. E quan- 
do não tiveífe lugar pêra iífo , ordenaífe cha- 
ves falfas pêra lhe abrir humpoíligo da for- 
taleza de noite , quando lhe elle fizefle hum 
íinal. E que quando também ilto não pu- 
deíTe vir a eífeito 5 que então o metteria 
huma noite efcura dentro na fortaleza pela 
banda do mar , onde elle pouíava , e fobre 
quem tinha hurnas varandas baixas, por on- 
de com efcadas de corda podia metter den- 
tro toda a gente que quizeífe. Ordenado 
ifto antre elles , defta maneira o Ruy Freire 
fe fez preíles pêra fe ir pêra Dio. 

x\ndava alli também hum mourifco ef- 
tante em Dio , chamado Francifco Rodri- 
gues , de quem o Ruy Freire era amiciífi- 
mo; e fentindo neile natureza pêra fer feu 
companheiro em tão grande maldade , e 
perverfídade , lhe deo conta do negocio , 
íem o Coge Çofar faber , promettendo-lhé 
hum grande quinhão de tudo o que lhe def- 
fem. O mourifco não foi muito de rogar, 
e acceitou acompanhallo , e ajudallo em tu- 
do. Com eíla determinação fe foram pêra 
Dio, aonde como homens decafa começa- 
ram a notar a cafa da pólvora pêra verem 

por 



Década VI. Liv. I. Cap. VI. 43 

por onde fe lhe podia pôr o fogo , (def- 
cuidando-fe por então da dilema , pelo per- 
. mittir Deos NoíTo Senhor aíli , porque bem 
lhe puderam lançar a peçonha , fe logo o 
tentaram.) 

Partidos eftes homens , defpedio Jogo 
Coge Çofar hum Capitão com quinhentos 
Turcos , que lhe EIRey de Zebit tinha man- 
dado de Meca, com regimento que fe fof- 
fem metter na Cidade de Dio , e que com 
a mor diííimulação que pudeífem defendef- 
fem vender-fe na Cidade lenha, nem man- 
timentos , por os Portuguezes os não com- 
prarem , porque não queria fe declaraífe a 
guerra até elle chegar; e pêra fegurarDom 
João Mafcarenhas , lheefcreveo pelo mefmo 
Capitão huina carta , cuja fubílancia era 
eíte: 

» Que EIRey lhe tinha feito mercê da- 
» quella Ilha , e que ficava pêra ir tomar 
)) poífe delia, e que o que difto mais eíti- 
» mava era ficar tão feu vizinho pêra de 
y> mais perto o fervir ; que lhe pedia muito 
>> tiveíTe lembrança da fua tão antiga ami- 
» zade , e que entendeífe que todos os Por- 
» tuguezes teriam nelle muitos favores , e 
» gazalhados , aíli em fuás fazendas , como 
)) em tudo o rnais que lhes delle cumprif- 
» fe ; e que aquelle Capitão , que mandava 
» diante , lhe faria mercê favorecer , e aju- 

» dar, 



44 ÁSIA de Diogo de Couto 

» dar, e que o trataíle como feu vaíTallo, 
y> porque hia fazer certos negócios, que lhe 
» importavam , pêra o que lhe havia de fer 
» neceflario feu favor, e que fe não pejaf- 
a fe com elle , porque não hia fenão pêra 
)> o fervir. » 

Chegado eíle Capitão a Dio aos quinze 
de Abril , mandou a carta a D. João Maf- 
carenhas , que vendo-a tão cheia de cum- 
primentos , não deixou de lhe parecer novi- 
dade y e diflimulando com o negocio, man- 
dou fazer feus offerecimentos ao Capitão 
Turco , e ordenou logo comprar á formiga 
todos os mantimentos , e lenha que pode , 
lançando luas efpias pêra faber a determina- 
ção do Turco, e defpedindo outras pêra a 
Corte a faber o que lá fe tratava. Coge 
Çofar deo ordem pêra que de todos os lu- 
gares vizinhos a Dio fe levaíTem todos os 
mantimentos que havia , e fe recolheífem 
na Ilha os que pudeífem , e os mais fe pu- 
zeíTem na Villa dos Rumes , aonde mandou 
fazer grandes celeiros pêra iífo , e aífi co- 
meçaram a fe recolher huma grande fomma 
delles. 

D. João Mafcarenhas foi avifado pelas 
efpias da Cidade dos muitos mantimentos , 
que nella fe recolhiam , e com muita pref- 
fa , e com iífo lhe fizeram os moradores 
queixume , que já na Cidade lhe negavam 

le- 



Década VI. Liv. I. Cap. VI. 4? 

lenha , arroz , e mais coufas , e que as pra- 
ças eram de todo alevantadas , eftando até 
então cheias de tudo , e comprando nelías 
os noflbs o que queriam pelos preços ordi- 
nários. D, João Mafcarenhas bem entendeo 
o negocio , e logo mandou com muita pref- 
ià recolher pêra a fortaleza ( porém com 
diílimulaçãò , porque queria que os inimi- 
gos fe declaraffem primeiro) todos os pe- 
dreiros 5 cavouqueiros , carpinteiros , e to- 
dos os mais officiaes que viviam fora , e af- 
íim maftos , vergas , taboado , madeira , e 
tudo o defta forte ; e mandou pelo lingua 
hum recado ao Capitão Turco , cuja fub- 
ftancia era : 

» Que lhe parecia novidade fecharem-fe 
» as tendas na Cidade , e não fe venderem 
» as coufas , que até então os Portuguezes 
» compravam por feu dinheiro ; e que Co- 
» ge Çofar lhe efcrevêra , que acceitára aquel- 
» la Cidade pêra ferem amigos demais per- 
» to , mais firmes , e mais verdadeiros , que 
)) elle o não moftrava nas coufas que de- 
» fendia , que aquillo eram indicios de guer- 
» ra ; que logo mandaíle abrir as tendas , 
» e vender aos Portuguezes todas as cou- 
> ias , de que tiveífem neceíTtdade , fenao que 
» elle iria em peífoa á Cidade , e as faria 
» abrir , e o caftigaria por txafpaíTar os man- 
» dados de Coge Cofar. » 

O 



46 ÁSIA de Diogo de Couto 

O Turco mandou-íe-lhe defculpar com 
affirmar que tal não fabia , que feria aquil- 
lo alguma defordem dos léus foldados por 
algum interefle , que elle tiraria devaíTa do 
caio , e que os que achaíTe culpados na per- 
turbação das pazes , feriam logo caíligados , 
porque elle não era alli vindo fenão pêra 
confervar a antiga amizade dos Portugue- 
zes , porque aííi lho mandava Coge Çofar. 
E logo mandou lançar pregões , que fe ven- 
deííem aos Portuguezes todas as coufas co- 
mo d'antes , franca , e liberalmente , fob pe- 
na de morte. 

D. João Mafcarenhas bem via que tu- 
do eram invenções , mas diffimulava com 
iífo por fe aproveitar do tempo, mandando 
comprar pelos cafados todo o mantimento , 
lenha , madeira , murrões , e tudo o mais 
que achaílem , e pudeífem. Neíla conjunção 
chegaram as efpias da Corte , e affirmáram 
que na Cidade de Champanel fe ajuntava 
hum exercito tão poderofo de gente , arti- 
Iheria , e munições , que aflbmbrava o mun- 
do , e que claramente fe dizia fer contra 
aquella fortaleza de Dio. D.João Mafcare- 
nhas não perdendo com aquellas novas feu 
animo , e confelho , defpedio logo huma 
embarcação com cartas aos Capitães de 
Chaul > e Baçaim , em que lhes dava conta 
do eítado em que ficava > pedindo-lhes que 

com 



Década VI. Liv. I. Cap. VI. 47 

com muita preíTa o foccorreíTem com gen- 
te , e munições > e que avifaffem ao Gover- 
nador , e lhe mandaífem as cartas que lhe 
eícreveo então ; e com iíío ficou dando pref- 
fa ás coufas que fe recolhiam ; e naquella 
liberdade, que durou fótres dias, fe metteo 
na fortaleza huma grande fomma de tudo, 
porque logo fe tornaram a alevantar as pra- 
ças com a chegada do outro exercito , que 
entrou na Ilha a vinte de Abril , com que 
fe começou a romper o fegredo da guerra, 

D. João Mafcarenhas foi avifado logo , 
e no mefmo dia defpedio outra embarcação 
com cartas aos Capitães da outra coíia , em 
que lhes pedia o foccorreíTem , porque eíla- 
va com pouco mais de duzentos homens ; 
e o mefmo eícreveo ao Governador Dom 
João de Caftro. Ao outro dia , depois que 
efte exercito chegou , fe tornaram a fechar 
as praças , e logo o Capitão mandou reco- 
lher os Portuguezes , e não confentio irem 
mais á Cidade. 

E infpirando Deos em hum Abexim , 
(pêra que fe defcubriífe a maldade de Rujr 
Freire,) fe fahio da Cidade onde poufava, 
e fe foi á fortaleza , e diífe aos porteiros , 
que o levaífem ao Capitão , o que logo foi 
feito , e lhe diífe , que tinha coufas de im- 
portância que tratar com elle ; e recolhen- 
do-fe pêra huma camera, lhe diífe, que elle 

era 



48 ÁSIA de Diogo de Couto 

era natural do Reyno da Abaffia , nafcido 
Chriítao , mas que fora cativo moço, efei- 
to Mouro por força , e que no feu coração 
confelTava a Deos verdadeiro , e que elle 
o movera ao vir avifar de huma grande 
traição , que lhe eftava ordenada ; e que em 
paga daquelle ferviço que lhe fazia , não 
queria mais delle , fenao que ordenaíTe , quan- 
do foíTe tempo , com que fe pudeífe paliar 
á ftia parria. E então lhe contou todos os 
tratos , que eftavam feitos antre Ruy Freire , 
e Coge Çofar , fem lhe nomear o Ruy Frei- 
re , mas fomente dizer-lhe que eftava o Co- 
ge Çofar concertado com hum Portuguez 
da fortaleza pêra deitar peçonha na cifter- 
na , e dar fogo ao armazém da pólvora , e 
pêra o metter dentro na fortaleza. D. João 
Mafcarenhas ficou confafo , e embaraçado 
comaquelle negocio, e revolvendo milcou- 
fas pela fantafia , cuidando fe poderia aquil- 
lo fer ardil do Coge Çofar pêra lançar zi- 
zania na fortaleza , e pêra fazer defacoro- 
çoar os Portuguezes todos. Mas por outra 
parte a confiança do Abexim (que lho af- 
íirmou muitas vezes 5 dando-fe por penhor 
de fua verdade ) lhe fazia crer que aquil- 
lo era obra de Deos > que queria que aquel- 
la fortaleza fe não perdeífe. E tendo tudo 
aquillo em fegredo , defendeo ao Abexim , 
que não diflefle a peíToa viva coufa alguma 

def- 



Década VI. Liv. I. Cap. VI. 49 

defte negocio , encommendando-o ao Alcai- 
de mor que o agazalhafle , e o trataíTe mui- 
to bem livremente , porém com refguardo , 
e olho nelle ; e começou a tirar muito em 
fegredo inquirição daquelle negocio , fein 
achar rafio algum. Mas como Deos Noflb 
Senhor tinha póftos feus Divinos olhos na- 
quella fortaleza fundada fobre oíTos de tan- 
tos cavalleiros , e martyres de Chriílo , não 
querendo que feus templos foíTem profana- 
dos de Mouros , ordenou que aquella ver- 
dade fe defcubriíTe por outra via; efoi def- 
ta maneira. 

* Havia na fortaleza huma mulher Turca 
de nação , cafada com hum homem da ter- 
ra , que fe fez alli Chriftão , vivia bem , e 
era muito amiga de Deos. Coftumava efta 
mulher ir á Cidade a comprar algumas cou- 
fas , e neftas idas foi conhecida de hum da- 
quclles Turcos por natural ? e tomou ami- 
zade com ella de feição , que a perfuadio 
a fe deixar ficar na Cidade y defeubrindo- 
]he o fegredo que o Abexim tinha dito ao 
Capitão j afiirmando-lhe , que tanto que Co- 
ge Çofar chegaíTe, fe lhe entregaria a for- 
taleza; porque hum Portuguez, que pou fa- 
va fobre o mar , o havia de metter nella 
por huma varanda que tinha. A Turca co- 
mo boa mulher diíTimuíou com o negocio , 
medrando folgar com o avifo , e difle que 
Couto. Tom. III. P. I. D hia 



5*0 ÁSIA de Diogo de Couto 

hia negociar fuás coufas pêra fe tomar pê- 
ra a Cidade. E indo-fe pêra a fortaleza , def- 
cubrio ao Capitão tudo o que paflara com 
o Turco , do que elle ficou maravilhado. 

E vendo que conformava com o que 
o Abexim lhe tinha dito , deo muitas gra- 
ças a Deos por tão grande mercê , conhe- 
cendo que aquillo era obra fua. E diílimu- 
lando com o cafo , foi correr as efíancias to- 
das , como que as queria prover , e affi as 
cafas da banda do mar, e achou as de Ruy 
Freire com a varanda , por onde facilmen- 
te fe podia metter gente dentro na fortale- 
za. E notando bem tudo , fem fazer cafo áe 
coufa alguma , tirou outra vez em muito 
fegredo devaíTa , e achou que Ruy Freire , 
e Francifco Rodrigues andavam fempre jun- 
tos , e viviam ambos , e que foram os der- 
radeiros Portuguezes que vieram de Surra- 
te. E vendo que os indícios eram baílantes 
pêra lançar mão delles , não o quiz fazer 
pelos não infamar , até não haver prova 
mais clara \ mas ufou de hum ardil de Ca- 
pitão bom Chriílão , e bom homem , que 
foi defpedir o Ruy Freire em huma embar- 
cação ligeira com cartas pêra o Governa- 
dor, em que por cifras lhe dava conta do 
negocio , pedindo-lhe o mandaífe ter a bom 
recado ; e ao Ruy Freire encommendou de 
palavra que trabalhaíie por lhe tornar com 

a ref- 



Dec. VI. Liv. L Cap. VI. e VIL 5-1 

a refpoíta , porque importava muito 5 e que 
lhe faria mercê pelo fegurar. 

Depois de elle partido , mandou em ou- 
tra embarcação o mulato Francifco Rodri- 
gues com outras cartas pêra o Capitão de 
Chaul da mefma maneira , pêra que o man- 
daíTe ter em refguardo , porque o tirava de 
Dio por fer Mourifco , e não confiar delle , 
fem lhe defcubrir o porque o mandava. Hum 
partio a vinte e hum de Abril , e o outro 
a vinte e três. 

CAPITULO VIL 

De como Ruy Freire chegou a Goa com as 
cartas que o Capitão da fortaleza de 
Dio mandava ao Governador D. João 
de C afiro : e elle mandou de foc corro feu 
filho D. Fernando , e outros Fidalgos em 
nove navios : e da chegada de Coge Ço- 
far a Dio : e do terceiro avifo , que Dom 
João Mafcarenhas teve : e dos recados 
que antre ambos correram. 

PArtido Ruy Freire de Dio , como ven- 
ta vam os Ponentes rijos , em fete dias 
foi a Goa ; e dando as cartas ao Governa- 
dor , em que o certificava de tudo , mandou 
logo com grande prefla lançar ao mar no- 
ve navios , em que mandou embarcar feu 
filho D. Fernando. As novas correram lo- 
D ii go 



52 ÁSIA de Diogo de Couto 

go pela Cidade de Goa , a que acudiram 
todos os Fidalgos a fe offerecerem ao Go- 
vernador pêra a jornada , e os primeiros 
que chegaram , elfos mandou que fe embai- 
caíTein, que foram D. Francifco de Almei- 
da , filho de D. Lopo de Almeida , que já 
tinha dous irmãos em Dio : Baftião de Sá , 
filho de João Rodrigues de Sá, Veador da 
Fazenda do Porto , a quem os foldados na 
índia chamavam o Çapeca, (que he hum a 
moeda a mais pequena que ha cm Goa , ) 
por fer elle muito pequeno , mas grande no 
animo , e no confelho : Diogo de Reinofo , 
Pêro Lopes de Soufa , Diogo da Silva , An- 
tónio da Cunha , e outros dous a que não 
achámos os nomes ; e em três dias os fez o 
Governador á vela , embarcando-fe por fol- 
dados outros muitos Fidalgos , e cavallei- 
ros defejofos de ganharem honra. 

O Governador entregou feu filho Dom 
Fernando de Caftro a Diogo de Reinofo , 
e efcreveo a D. João Maícarenhas , que fica- 
va defcançado , enão receava todo o poder 
<TElRey de Cambava, pois o tinha naquel- 
la fortaleza , que lá lhe mandava feu filho 
pêra fer feu foldado : que lhe pedia o en- 
íinaífe , e o puzeffe nos lugares mais arrif- 
çados , e que fe foíTe neceííario , todo o 
inverno o foccorreria. E mandou embarcar 
naquelles navios hum Arménio com cartas 

pe- 



Década VI. Liv. I. Cap. VII. 5-3 

pcra o Reyno , em que dava conta a El- 
Rey do eítado em que a índia ficava , en- 
commendando a D. João Mafcarenhas que 
logo déííe aviamento pêra o lançarem na 
coita de Pôr pêra dalli partir por terra pê- 
ra Ormuz , e dalli paiTar ao Reyno. O Go- 
vernador mandou ficar Ruy Freire em Goa 
com diífimulaçao , efcrevendo a D. João 
Mafcarenhas lhe mandaííe a certeza daqueí- 
le negocio. E em quanto eíles navios fe- 
giiem íua viagem 9 continuaremos com as 
coufas de Dio. 

D. João Mafcarenhas , tanto que fe de- 
clarou a tenção dos Mouros , tratou logo 
de fe repairar, e fortificar, mandando que- 
brar a ponte que hia do pofíigo do baluar- 
te Sant-Iago por lima da cava até a outra 
banda , e mandou fazer outra levadiça , pê- 
ra que fe foífe neceíTaria , fe pudeffe fervir 
por ella. Neítas coufas gaitou até nove de 
Maio , que chegou Coge Çofar a Dio com 
o refto do exercito , que logo fe paliou á 
Cidade , onde fe apofentou. O eftrepito , e 
ruido das armas , e da gente foi logo fen- 
tido na fortaleza , onde todos trabalhavam 
em fua fortificação. Aquelle dia fe paliou 
fcm mais novidade j e tanto que anoiteceo , 
chegou á porta da fortaleza Iro ma efcrava , 
que ficara na Cidade , que vinha fogindo 
daquella confusão que nella vio, e bradou 

aos 



54 ÁSIA de Diogo de Couto 

aos guardas que a recolheífem , porque ti- 
nha muitas coufas que fallar com o Capi- 
tão , que cumpriam muito ao bem da for- 
taleza. Foi efta efcrava logo recolhida , e 
levada a D. João Mafcarenhas, que fe apar- 
tou com ella , e lhe diíle : » Sabe , fenhor 
» Capitão , que Deos he comtigo. Eu me 
» achei em huma parte , onde huns Mou- 
» ros de cafa de Coge Çofar eftavam pra- 
» ticando , fem fe recearem de mim , e di- 
» ziam que feu amo vinha mui alvoroçado , 
» cuidando que eíta noite lhe entregaífem 
)> efta fortaleza ; e depois de fer na Cida- 
)> de , fabendo que o homem com quem 
» pêra iffb eftava concertado era ido pêra 
» Goa, ficou muito trifte; por ifTo vê, fe- 
» nhor, o que te cumpre, e não te defcui- 
» des em coufa alguma ; fabe a verdade 
» difto , porque fem dúvida fe te tem ordi- 
)) do traição , porque efte homem , em que 
» elles vinham confiados , (fegundo os Mou- 
» ros diziam , ) tinha determinado de dei- 
» tar peçonha na cifterna , e de dar fogo 
» ao armazém da pólvora , e depois rnetter 
)> os Mouros nefta fortaleza por fua cafa, » 
O Capitão vendo quanto todos aquelles 
avifos conformavam , acabou de confirmar 
a prefumpção que havia de Ruy Freire , e 
do Mouriíco Francifco Rodrigues. E dan- 
do muitas graças a Deos , entregou a ef- 

era- 



Década VI. Liv. I. Cap. VII. tf- 

crava a hum homem íeu , pêra que a pro- 
veíTe de tudo o neceílario , e lhe mandou 
dar huma quantidade de dinheiro; e tratan- 
do todas eftascoulas com muito grande dif- 
ilmulação , a avifou que não fallafle couía al- 
guma. E como era de noite , repartio os 
quartos das vigias, e fci elíe roldar a for- 
taleza toda , e a parte de fobre o mar , en- 
trando em todas as cafas por não fazer ca- 
fo ; e chegando á de Ruy Freire , eíteve 
vendo a varanda muito devagar , e notou 
bem que por ella fe podiam metter os ini- 
migos dentro muito facilmente ; e achando 
alli hum fobrinho do Ruy Freire , o man- 
dou pêra o baluarte do mar , com lhe dar 
a entender que o fazia por lhe melhorar a 
ellancia , e logo tapou a varanda de pedra , 
e cal ; as cafas entregou a hum Capitão de 
muita confiança com alguns foldados. Ao 
outro dia pela manha viíitou a cafa da pól- 
vora , e achou rota huma forte argamaiTa , 
que a cubria por cima á maneira de ahoba- 
da , e nella hum grande buraco, por onde 
determinavam de lhe dar o fogo ; e vendo 
tão grandes , e manifeílos íinaes de traição , 
deo muitas graças de novo ao Altiííimo 
Deos por tantas mercês , quantas lhe tinha 
feitas com os avifos. E fem dar conta a 
peífoa alguma do que paííava , mandou mu- 
dar a pólvora pêra outra cafa , que man- 
dou 



$6 x\SIA de Diogo de Couto 

dou fortificar bem , provendo-a de contí- 
nuas guardas de muita confiança, e a cifter- 
na mandou cercar, e fechar com fuás por- 
tas , que também entregou a peflbas mui 
apuradas. 

Eíte dia , que foram dez do mez , che- 
gou hum mercador gentio , morador na Ci- 
dade , muito conhecido dos da fortaleza , á 
porta delia , e diíle aos guardas , que leva- 
va hum recado de Coge Çofar pêra o Ca- 
pitão ; e dando-fe-lhe recado , o mandou le- 
var diante de íi, e elle lhe difle , que Co- 
ge Çofar lhe mandava dizer , que tinha 
muitas coufas que tratar com elle , que lhe 
enviaíTe hum homem de recado pêra ascom- 
municar. O Capitão poílo que entendeo fe- 
rem tudo invenções de Coge Çofar, tomou 
parecer fobre aquelle negocio com os Fi- 
dalgos , e Capitães ; aíTentou-fe que fe fou- 
beííe o que queria. Com iílo elegeo o Ca- 
pitão hum Simão Feio , homem honrado , 
fezudo , e de experiência , que poderia no- 
tar mui bem as coufas. E indo em compa- 
nhia do mercador, foi levado a Coge Ço- 
far, que lhe diíle, que EIRey Soltão Ma- 
hamude lhe mandava fazer a parede , que 
por contrato das pazes , que fizeram com o 
Vifo-Rey D. Garcia de Noronha , eílava 
afTentada , que Manoel de Soufa de Sepúlve- 
da impedira. E que além diífo mandava EI- 
Rey 



Década VL Liv. I. Cap. VIL 57 

Rey pedir ao Capitão de Dio duas coufas , 
que como amigo lhe podia conceder. 

A primeira , que todos os navios dos 
mercadores de Cambaya pudeííem navegar 
livremente por toda a coita do feu Reyno , 
lem cartazes dos Capitães d^ElRey de Por- 
tugal . porque era menofeabo feu > e de feu 
Eflado tamanha obrigação. 

A fegunda , que as náos dos mercado- 
res não foíTem conftrangidas a tomar aquel- 
la fortaleza de Dio 5 mas que pudeflem ir 
vender fuás fazendas aos portos que lhes 
bem vieífe. Pelo que lhe pedia muito por 
mercê tomaífe logo refolução naquelle ne- 
gocio , porque eílimaria (pois vinha fer feu 
vizinho) não haver antre elles quebras , an- 
tes muita paz , e amizade. Com ifto defpe- 
dio Simão Feio , que o Capitão ouvio , pre- 
fentes todos os Fidalgos , e Capitães , que 
pêra iíTo chamou; e vendo a forma do re- 
cado , lhe mandou logo a refpoíta pelo mef- 
mo Simão Feio , em que dizia , que aquel- 
las coufas que pedia fe haviam de tratar 
com o Governador da índia 5 porque elle 
não tinha poderes pêra innovar 5 nem alte- 
rar os capitulos das pazes , que eftavam fei- 
tas. Coge Çofar lhe tornou a mandar dizer, 
que EIRey não lhe mandava tratar aquel- 
las coufas fenão com elle , como Capitão , e 
Governador daquella fortaleza ; e que quan- 
do 



58 ÁSIA de Diogo de Couto 

do lhe elle não quizeíTe diíFerir a ellas , que 
mandaria elle correr com a parede como 
lhe mandavam ; e que fe elle lha defendef- 
fe , feria o quebrantador das pazes. Com ef- 
ta refoluçao entendeo claramente o Capi- 
tão que lhe vinha Coge Çofar a fazer guer- 
ra. E tomando confelho fobre aquellas cou- 
fas , defejando de não fer elle o primeiro 
que quebraíTe a paz , fenão o inimigo , pê- 
ra na guerra lhe ficar mais juftiça , fe aflen- 
tou que lhe mandaífe dizer , que fenão vi- 
nha a mais que a fazer as paredes confor- 
me ao contrato das pazes, que bailava pê- 
ra iífo hum Tanadar feu, e não tomar ta- 
manho trabalho , nem vir com tamanho exer- 
cito. Com efte recado tornou Simão Feio, 
levando o traslado do contrato das pazes , 
pêra que lho moftraíle , e que lhe diífeíTe 
mais, que fe os elle quizeíTe quebrar, e fa- 
zer a parede fora do termo , e grandeza 
que eítava naquelles capítulos, que foubef- 
fe de certo que lho havia de defender , e 
que efperava em Deos que o havia de aju- 
dar contra elle , como contra quebrantador 
das pazes feitas pelo feu Rey. 

Dado eíte recado a Coge Çofar, e len- 
do-lhe o contrato das pazes , vendo o Ca- 
pitão tão juftificado , como não queria fe- 
não guerra, lançou mão de Simão Feio, e 
o prendeo , e logo mandou publicar a guer- 
ra 



Década VI. Liv. I. Cap. VIL 5*9 

ra pela Cidade , o que fe fez com grande 
alvoroço de inítrumentos , e bombardadas. 
E nomefmo dia foi hum grande efquadrão 
de Turcos com fuás bandeiras defenroladas 
dar viíh a fortaleza, fazendo fuás algazar- 
ras , e dando huma grande falva de arca- 
buzaria , e com outras bizarrias , e fober- 
bas , de que aquella barbara nação ufa. O 
Capitão os mandou também falvar com al- 
gumas bombardas , de que alguns ficaram es- 
tirados no campo em final , e penhor dos 
muitos que por alli fe haviam de efpeda- 
çar; elogo mandou embandeirar os baluar- 
tes , porque fe vifíe na Cidade o alvoroço 
com que os efperavam , veílindo-fe muito 
galante elle, e todos. 

E porque os baluartes não eftavam ain- 
da providos de Capitães , o fez logo , pon- 
do D. João de Almeida em Sant-Iago , e 
com elle D. Pedro feu irmão com trinta 
foldados ; e no baluarte S. Tbomé poz Luiz; 
de Soufa ; no de S. João poz Gil Couti- 
nho ; e no de S. Jorge, António Paçanha 
com trinta foldados cada hilm. A coura- 
ça encarregou a António Rodrigues Feitor 
d'ElRey , e a torre de fobre a porta ao Al- 
caide mor da fortaleza António Freire , c 
por eftas eftancias repartio cento e cincoen- 
ta foldados, de duzentos que havia na for- 
taleza : dos cincoenta tomou alguns pêra 

an- 



6o ÁSIA de Diogo de Couto 

andarem com elle , e os mais poz em guar- 
da da ciílerna , e cafa da pólvora. Feito if- 
to, ajuntou todos no terreiro da fortaleza, 
e poíto no meio delles , lhes fez efta breve 
falia. 

Falia , que o Capitão da fortaleza de Dio 
D. João Mafcarenhas fez aos Capi- 
tães dos baluartes , ejoldados , ani- 
mando-os , e perfuadindo-os á de- 
fensão da fortaleza. 

» Ty Em pudera , muito valorofos Capitães , 
)) J3 e esforçados cavalleiros , efcufar de 
» vos fazer eftas lembranças ; porque a quem 
» tem tantas obrigações pêra tudo , nenhuma 
» coufa os move mais , que o fangue , a 
» opinião , e a honra , aífi particular de ca- 
» da hum, como em geral deíla noíla na- 
» ção Portugueza , que todos tanto defeja- 
» mos confervar ; mas fatisfaço nifto a mi- 
)) nha obrigação pelas muitas que carregão 
» fobre mim , como homem que ha de dar 
» conta deita fortaleza , que eu pertendo 
» defender com tão valorofos companhei- 
» ros , não íb a todo o poder d'ElRejr de 
» Cambaya , mas ainda ao do grão Turco , 
» fe com elle fe ajuntar. E pêra iíto tomá- 
» ra que não eftiveramos rodeados deftesmu- 
» ros , porque então moítraremos a todos co- 

)) mo 



Década VI. Liv. I. Cap. VIL 61 

» mo nao ha outros mais fortes peitos , que 
» nunca fe renderam a bombardas , trabu- 
» cos , nem a outro algum ameaço de mor- 
» te. E além de voííò esforço , e valor, 
» que me aíTegura a vi&oria , ainda mo faz 
» mais ajuítiça, que de nofla parte temos; 
» porque bem viítes como mejuftifiquei com 
» eftes inimigos , porque quiz foífem elles 
» os quebrantadores da paz pêra nos ficar 
» na guerra todo o direito. Não me em- 
» baraça tomar-nos eíle cerco em tempo, 
» que duvidofamente poderemos fer foccor- 
y> ridos de Goa , (pelas grandes tempeftades 
)) do inverno que entra , ) porque temos 
)) hum Deos juftiçofo , que nos ha de dar 
» a vi&oria , aílim pela razão que de noíTa 
» parte temos , como porque havemos de 
» defender fua Santa Fé, e a honra de nof- 
)) fo Rey , que com tanto cufto feu , e íra- 
)> balho de léus vaílallos trouxe a Lei do 
» fagrado Evangelho tantas mil léguas , por 
)) tantos rifcos , e perigos , e a tem dilata- 
» da por todo efte Oriente , e ainda antre 
» as mais barbaras nações delle. Eftes Mou- 
» ros , além de quebrantadores da paz , pele- 
» jao por defenderem as mentiras do feu 
» falfo Profeta , que eftá no inferno pade- 
ci cendo tormentos eternos. PoriíTo, ó Por- 
» tuguezes dignos de immortal nome , e 
» fama , aqui vos convém moftrar a diffe- 

» ren- 



6i ÁSIA de Diogo de Couto 

)} rença que ha de nação a nação. Coftuma- 
^ dos fois todos a perigos , e trabalhos , 
}) por quem tendes alcançado grandes vi- 
)> ftorias , e engrandecido voíía pátria , e 
3> nome- Agora nefte tranfe não haja algum , 
)> que não trabalhe por fazer immortal a 
» fama Portugucza , pondo os olhos em 
» Deos , que tendes brando , e benigno , e 
» depois nos feitos de voílòs antepaííados , 
» e nas grandes proezas , e cavallerias , que 
)> noflbs parentes , e amigos ha bem pou- 
)> cos annos obraram nefte lugar, onde al- 
» cancáram vidtorias , que pareciam miíagro- 
» fas , deftes , e de outros inimigos mais po- 
)> derofos , e de huma Armada , que pude- 
y> ra aflbmbrar a toda Europa íè lá paííara, 
)> pêra aíli vos accenderdes no deíejo de 
y> vos igualardes com elles , e alcançardes 
» a fama que elles alcançaram. » 

Acabada efta falia , todos com os co- 
rações mui determinados , e defejofos de fe , 
verem já ás mãos comos inimigos , lhe re- 
fpondêram , que todos eftavam alvoroçados 
pêra defenganarem aquelles bárbaros; eque 
em quanto os elle governaffe os eítimavam 
pouco , e dalli fe foram todos armar o mais 
cuftofamente que puderam , pondo-fe de 
plumas , e cores alegres , e foram dar viíla 
ao Capitão , que também fe veftio de efcar- 
lata, e em fua companhia foram correr as 

ef- 



Dec. VI. Liv.I. Cap. VIL e VIII. 63 

eítancias , e a tomar poíTe delias. O Capi- 
tão mandou falvar a Cidade com toda a ar- 
tilheria , que foi huma moftra muito pêra 
arrecear , e que não deixou de pôr grandes 
defconfianças nos inimigos. 

CAPITULO VIII. 

Do confelho que Coge Çofar tomou com [eus 
Capitães fobre o modo de como cercaria 
a fortaleza : e de como ajjentáram ga- 
nhar primeiro o baluarte do mar: e de 
huma grande máquina que pêra ijjo ar- 
maram : e de como o Capitão lha man- 
dou queimar : e das coufas que mais paf* 
fáram até chegar D. Fernando de Caf- 
tro. 

VEndo Coge Çofar perdida a occaíião 
de Ruy Freire, que lhe havia de en- 
tregar a fortaleza , em que elle vinha mais 
confiado , que no poder que trazia , porque 
bem fabia que lhe havia de fer muito diffi- 
cultofo tomalla por armas aos Portuguezes 7 
de quem já tinha tanta experiência; e fazen- 
do ajuntamento de feus Capitães , praticou 
com elles fobre o modo de como fe poria 
o cerco , e porque parte poderiam bater a 
fortaleza ; e debatido antre elles eíle nego- 
cio , foi affentado que fe ganhaíTe primeiro 
o baluarte do mar pêra dous eífeitos. O 

pri- 



64 ÁSIA de Diogo de Couto 

primeiro , pcra defenderem os foccorros que 
vieííem pêra a fortaleza ; e o fegundo , pê- 
ra daili abaterem por aquella parte domar, 
que era mais fraca , e por onde fe podia 
tomar com mais facilidade , e que nifto fe 
metteíle todo o cabedal , porque fem ifto fi- 
caria todo o leu trabalho perdido , e não 
fariam mais que gaílar o tempo , e as mu- 
nições. 

AíTentado iíto , praticaram fobre o mo- 
do de como fe commetteria o baluarte ; c 
lernbrando-Ihe a Coge Çofar a grande má- 
quina que no outro cerco fizeram pêra abal- 
roarem , e entrarem no caftello da Villa dos 
Rumes , aíTentou que pêra eíloutro negocio 
feria de mais efFeito , porque de maré cheia 
podia abordar o baluarte por qualquer par- 
te que quizeífem , por eftar fundado fobre 
hum penedo , que eftá no meio do rio.' E 
parecendo bem a todos , mandou logo ar- 
mar fobre huma formofa náo , das que nave- 
gavao pêra Meca , três caítellos mui gran- 
des de madeira : hum na proa , outro na 
poppa , e outro no meio , liados , e atravef- 
fados com grafias vigas , em que mandou 
metter muitos artifícios de fogo , barris de 
alcatrão , e de outros materiaes , pêra lança- 
rem dentro no baluarte muitos dardos, lan- 
ças, pedras, e outros inílrumentos de guer- 
ra, encommendando aquelle negocio a hum 

San- 



Deç. VI. Liv. I. Cap. VIII. 6f 

Sangiaco com duzentos Turcos , pêra como 
foflem aguas vivas , na maré da noite abor- 
dar com a náo o baluarte, e ganhailo , o 
que lhe fora muito fácil fe Deos o não def- 
cubríra. Porque como o Capitão trazia es- 
pias mui fieis antre os inimigos , logo foi 
aviíado daquella fabrica , que eftava furta 
hum pouco abaixo da Alfandega com to- 
da a gente já dentro efperando pelas aguas 
vivas. Enão fazendo rumor algum por não 
alvoroçar a gente , tomou Jacome Leite , Ca» 
pitão mór da Armada daquella fortaleza , 
homem muito determinado , e lhe deo con- 
ta daquelle negocio em muito fegredo , en- 
commendando-lhe que trabalhaíTe por quei- 
mar aquella máquina. 

Jacome Leite o houve por muito gran- 
de alvitre , e logo fe foi negociar. Tinha 
elle dous navios de remo no mar , chega- 
dos á couraça com fuás efquipaçoes dentro, 
e fem dar conta a feus foldados , mandou 
embarcar dez emenda navio , mettendo nel- 
les muitas lanças de fogo , e panellas de pól- 
vora - y e fendo meio quarto da modorra , 
tomou o remo no mór íilencio que pode , 
e no começo da enchente da maré fe dei- 
xou ir na vêa da agua ; e pouco antes de 
chegarem á náo , foram viftos das vigias, 
que eftavam nella bem alerta , e começaram 
a bradar. Os Turcos que eftavam dentro 

Couto. Tom. III. P.L E acu- 



66 ÁSIA de Diogo de Couto 

acudiram a bordo com as armas nas mãos 
pêra verem o que aquillo era. Jacome Lei- 
te aos primeiros gritos apertou o remo 
pêra fazer o a que hiam , primeiro que os 
Turcos fe pudeíTem determinar. E pondo 
as proas na náo , cada hum por fua parte 
lhe lançou logo dentro huma grande fomma 
de panellas de pólvora , e o navio , que fi- 
cou da banda da proa , cortou logo as amar- 
ras á náo. Os Turcos também lançaram fo- 
bre os noflbs muitos tiros , arremeflbs , e 
muito fogo. A náo como ficou defamarra- 
da , começou a cabecear , e a levalla a ma- 
ré pêra dentro, não ceifando antre os nof- 
fos , e os Turcos os arremedos 3 e eípin- 
gardadas. Ifto foi logo ouvido da terra, e 
o exercito todo fe poz em armas , e acu- 
dindo á praia , fe mettêram muitos em al- 
gumas embarcações pêra irem foccorrer á 
náo ; mas quiz a boa fortuna de Jacome 
Leite , que algumas das panellas de pólvo- 
ra , que fe arremefsáram dentro, cahiflem 
em hum dos caftellos , que eftavam cheios 
de materiaes peftiferos ; e pegando o fogo 
de huma coufa em outra , foi dar na pól- 
vora , cuja força , e furor lançou logo pe- 
los ares as cubertas da náo , e os caftellos , 
a voando abrazados os mais dos Turcos, 
que dentro eftavam. A náo ficou entregue 
ás lavaredas , que foram taes , que defcu- 

bri-p 



Dec. VI. Liv. L Cap. VIII. 67 

briam a Cidade , e a gente do exercito , 
que fe embarcava com muita prefla. Jaco- 
me Leite vendo fua boa fortuna , virou as 
proas a terra , e apontou os falcões nos car- 
dumes dos inimigos que fervião , e defpa- 
rando nelles as cargas , fez huma muito 
grande deftruição , e tomando o remo em 
punho , íe foi recolhendo com fete compa- 
nheiros feridos , e queimados , deixando aca- 
bado hum feito digno de perpétua memo- 
ria ; e chegados a fortaleza , foram todos 
recebidos nos braços do Capitão , e de to- 
dos os mais com louvores muito públicos. 
Coge Çofar acudio ao cães da Alfan- 
dega ; e vendo a grande máquina , em que 
fundava fuás efperanças , abrazada , e desfei- 
ta , ficou pafmado , porque na náo perdeo 
mui grande quantidade de munições, e mui- 
tas peças groflas de artilheria , com que de- 
terminava de bater a fortaleza do baluarte 
do mar, depois que otomafíe, e fobre tu- 
do fentio os Turcos, que elleeílimava mui- 
to , com cujo esforço , e induftria efperava 
de acabar aquelle cerco , e deitar os Por- 
tuguezes fora daquelia Ilha. E arrebentan- 
do em blasfémias , diíTe mal á fua ventura ; 
e depois fez voto a Mafamede de fe não 
aíevantar de fobre aquella fortaleza até a 
não arrazar , e tomar. Mas bem diíFerente 
era o penfamento do Capitão delia , e de 
E ii to- 



68 ÁSIA de Diogo de Couto 

todos os mais , porque toda a noite gaílá- 
rão em danças , e folias , havendo aquelle 
princípio de vitoria por hum muito certo 
fignai de fempre a alcançar daquelles ini- 
migos. Affim ficarão três dias fortificando- 
fe huns , e outros , ordenando as coufas ne- 
ceflarias pêra a bateria. 

Nefte tempo foi também o Capitão pe- 
las efpias avifado , que fe efperava no exer- 
cito por huma grande cáfila de mantimen- 
tos , que lhes havia de vir por mar , de to- 
da aquella coita de Balfar até Damão , pe- 
lo que logo defpedio Jacome Leite com 
três navios bem negociados , pêra que a 
fofle efperar até á Ilha dos Mortos. E fa- 
hindo-fe de noite pela barra fora ? foi cor- 
rendo aquella cofta por onde encontrou al- 
gumas cotias carregadas de mantimentos , 
que tomou , não dando a vida fenao a al- 
guns que guardou pêra embandeirar os feus 
navios , quando entrafle em Dio ; e depois 
de deixar feito huma mui grande deftrui- 
ção , fe foi recolhendo , e entrou dahi a 
poucos dias pela barra com as vergas cheias 
daquelles eftendartes , e huma grande cáfila 
de mantimentos , que fe recolheram na for- 
taleza ; e ás cotias todas , depois de defcar- 
regadas, fe lhes mandou dar fogo nomeio 
do rio , pêra que os inimigos as viíFem 
bem , o que foi pêra todos elles huma mui- 
to 



Dec. VL Liv. I. Cap. VIII. 6 9 

to grande dor, e trifteza, Coge Çofar an- 
dava como areado ; e vendo que lhe man- 
davam tomar os feus navios por aquella 
coita , delpedio com muita preífa recado a 
Surrate, que armaflem vinte furtas, e que 
fe foffem lançar fobre a barra de Dio , af- 
lim pêra fegurarem os feus navios , como 
pêra defenderem a entrada aos noíTos , fe 
vieflem de foccorro da índia. D.João Maf- 
carenhas efcreveo aos Capitães de Baçaim , 
e Chaul que trabalhafíem muito por im- 
pedirem a navegação aos Mouros por aquel- 
la cofta de Balfar , e Damão , porque lhes 
não foíTem mantimentos ao exercito : o que 
elles fizeram armando alguns navios , que 
em poucos dias tomaram dous ta uris gran- 
des 9 e quinze cotias carregadas de manti- 
mentos , mettendo todos os que nellas acha* 
ram á cípada. 

CAPITULO IX. 

De como Coge Çofar começou a fazer a 
parede , e das coufas , que juccedêram 
com a chegada de D. Fernando de Caf- 
tro : e de hum grande feito , que fez 
Diogo da Nhaya Coutinho. 

VEndo Coge Çofar que fem ter come- 
çado a guerra , tinha recebido tantas 
perdas, (porque logo teve avifo dadeítrui- 

çao 



yo ÁSIA de Diogo de Couto 

çao que a Armada fez pela outra coíla 3 ) 
andava como fora de íizo, e de juizo , por- 
que receava ruim fim aquelle negocio , e 
mandou com muita preffa pôr as mãos na 
obra da parede , (ou pêra lhe melhor cha- 
marmos do muro , ) o que começou a fazer 
com hum grande número de ofFiciaes. Eíla 
parede fe fabricou pouco mais de hum tiro 
de béíla da fortaleza , pelo começo donde 
depois efteve o jogo da bola , e foi cor- 
tando da borda do rio por aquelle tejo aífi- 
ma até o mar , e tinha quinze palmos de 
largo. E porque de dia não podiam traba- 
lhar por caufa da nofla artilheria , é arca- 
buzaria , que lhe matava muitos obreiros, 
trabalhavao de noite , abrindo por baixo 
do chão caminhos intrincados , e em cara- 
col , pêra a gente poder paflar ao ferviço 
fegura das bombardadas. E aílim fizeram 
huma fábrica de ruas , traveflas, e encru- 
zilhadas , que parecia hum labyrintho de 
Creta ; mas nem com iflò deixavam de mor- 
rer muitos , porque a noíía arcabuzaria Já 
os hia defcubrir , e derribar. O Capitão 
mandava de noite baier os lugares onde 
fentiam trabalhar , derribando-lhes a obra , 
que hiam fazendo por partes. Mas com tu- 
do , como os officiaes eram muitos , foi o 
muro crefcendo , e fubindo nelle alguns 
baluartes fortes com bombardeiras raíleiras^ 

em 



Dec. VI. Liv. I. Cap. IX. 71 

em que Coge Çofar mandou aíTentar baza- 
lifcos , leões , e outras peças groíTas com 
que determinava de bater a fortaleza. E 
defronte do baluarte Sant-Iago fe poz hum 
quartáo , que lançava pelouro de treze pal- 
mos em roda , que fe entregou a hum bom- 
bardeiro Francez arrenegado , homem mui 
. deítro em feu officio- , que o afieílou por 
cfquadria tão certa na parte em que a eif- 
terna eílava , que lhe lançava nella todos 
os pelouros que queria. Vendo Coge Çofar 
a parede já alevantada , mandou logo fazer 
valos , e trincheiras naquella parte baixa dó 
jogo da bola pêra fe paíTar pêra alli com 
o feu exercito , correndo com huma coufa , 
e com outra á mor preíTa que podiam. 

D. Fernando de Caftro , que deixa'mos 
partido de Goa no Capitulo VII. do pri- 
meiro Livro , foi feguindo fua viagem até 
Baçaim , levando já ameaços do inverno ; 
e tomando alli algumas coufas , atraveífou 
logo o golfo , que achou tão foberbo , e 
alterado , que fe vio muitas vezes perdido 
com tod3 a Armada : e paliando por todos 
aquelles medos , chegou a Dio em fim de 
Maio , o que foi pêra todos os nofíbs a 
mor alegria que podia fer , e embandeiran- 
do os navios , commettêram a barra , en- 
trando por ella dentro , esbombardeando , 
e faivando a Cidade dos Mouros , deitan- 
do 



72 ÁSIA de Diogo de Couto 

do nella alguns pelouros por fígnal dos roais-,' 
com que haviam de fervir , e hoípedar os 
inimigos ; e aílim foram furgir no cães aon- 
de defembarcáram , achando já D. João 
Mafcarenhas com todos os Fidalgos , que 
os levaram nos braços com grande alvoro- 
ço de todos. E recolhidos pêra a fortaleza , 
os leitos dourados , e camas mollcs , em 
que os agazalháram pêra repoufarem do 
trabalho do caminho, foram os baluartes, 
guaritas , e mais lugares do muro por on- 
de o Capitão os repartio. Os da fortaleza 
ficaram muito ufanos com efle foccorro , 
que ainda que pequeno em número , era 
muito grande na eftirnação pelo grande va- 
lor , e esforço dos Capitães , e foldados , 
que nelle vinham, Efta noite paffáram os 
noíTos em grandes regozijos, e feftas , lan- 
çando muitos foguetes , e outros artifícios 
de fogo por eíTes ares pêra moftrarem aos 
inimigos o alvoroço com que todos eíla- 
vam, e o pouco temor que delles tinham. 
Ao outro dia em amanhecendo appa- 
receo fobre a barra a Armada que Coge 
Cofar mandou fazer em Surrate , que vin- 
do correndo a cofta de Dio , encontrou al- 
guns navios , que os Capitães de Baçaim , 
e Chaul mandavam com gente , e provi- 
mentos ; e como hiam efpalhados , dous 
delles foram cahir nas mãos dos inimigos 

que 



Dec. VI. Liv. I. Cap. IX, 75 

que os abalroarão ; e pofto que os poucos 
Portuguezes que nelles vinham pelejaram 
mui valoro famente , e venderam muito bem 
fuás vidas, (que todos quizeram antes per- 
der , que ficar cativos , ) foram mortos , e 
efpedaçados. Outros alguns navios havendo 
vifta deita Armada dos inimigos, e conhe- 
cendo-a , tornaram a voltar pêra a outra 
cofta. Os inimigos com aqueJla preza , e 
vitoria chegaram á barra de Dio emban- 
deirados a dar vifta aos noflbs , falvando a 
fortaleza de longe. D. Fernando de Caftro 
lhes quizera fahir, mas o Capitão lho não 
confentio , porque bem fabia que os inimi- 
gos o não haviam de efperar , e que feria 
trabalho perdido tornar a negociar as fuG- 
tas , que eílavam já recolhidas na couraça , 
eaíllm fenão fez por então coufa alguma, 
nem foi neceflario , porque logo ao outro 
dia defappareceo a Armada , que também 
receou que lhe fahiflem os noflbs. Efta Ar- 
mada andou por aquella cofta des da Ilha 
dos Mortos até Madre Faval , em quanto o 
tempo lhe deo lugar; e como entrou o in- 
verno , recolheo-fe a Surrate fem fazer mais 
prezas que aquellas primeiras, 

D.João Mafcarenhas ao outro dia, de- 
pois que D. Fernando de Caftro chegou , 
mandou negociar hum catur muito ligeiro, 
em que mandou embarcar o Arménio , que 

ha- 



74 ASIÀ de Diogo de Couro 

havia de paliar ao Reino , por quem tam- 
bém efcreveo a EIRey o eítado em que 
aquella fortaleza ficava. Efte homem foi 
lançado na coita de Por, e dalli em trajos 
de Jogue , (que he huma gente , que fe pre- 
za de Religiofa , e que nos trajos moftra 
grande defprezo do mundo , porque não 
trazem mais veftido que humas capas como 
os mantos dos Capuchinhos , feitas de far- 
rapos que achão nos monturos , ) foi cami- 
nhando até o Cinde , onde achou ainda 
embarcação pêra Ormuz , em que fe met- 
teo , e foi ter áquella fortaleza , e deo as 
cartas do Governador a Luiz Falcão , em que 
lhe encommendava muito défle logo ordem 
pêra que aquelle homem fe partifle pêra o 
Reino , o que elle fez , negociando-fe com 
os mercadores de Baçorá que o levaram , 
e o paliaram a Babylonia pelo rio Eufra- 
tes affima , e dalli tomou feu caminho em 
companhia de cáfilas que fempre as ha , e 
foifeguindo fua derrota. E porque não achá- 
mos as particularidades deita jornada , paf- 
famos por ellas , e de fua chegada ao Rey- 
no adiante daremos razão. 

Coge Çofar foi continuando com as 
obras da fortaleza até as pôr em fua per- 
feição , paliando o feu exercito pêra aqueL- 
la parte, repartindo pelos lugares da bate- 
ria perto de feíTenta peças groífas , de ba- 

za- 



Dec. VI. Liv. L Cap. IX. 7? 

zalifcos, falvagens, águias, e camelos, e 
da outra miúda huma grande quantidade , 
mandando fazer muitas efcadas , huma gran- 
de íòmma de picões , alavancas , cudilins , 
padiolas, e em fim toda a mais couíà defta 
qualidade , que lhe pareceo neceííaria pêra 
aquelle negocio* D* João Mafcarenhas não 
eftava defcuidado , que também de dia , e 
de noite trabalhava cm fua fortificação , 
vendo , e notando tudo o de que tinha ne- 
ceífidade, efperando cada dia pelos comba» 
tes com hum animo muito determinado, e 
feguro. 

Mas como defejava muito faber decer- 
to o intento , e determinação dos inimigos , 
era-lhe neceíTario pêra ifto tomar algum 
lingua , de que fe pudeíTe informar, Ifto pra- 
ticou algumas vezes com os Fidalgos , ca- 
valleiros, e foldados , de que prefumia que 
preftariam pêra efte feito ; foi huma delias 
em tempo, que fe achou prefente Diogo da 
Nhaya Coutinho , natural de Santarém , Fi- 
dalgo de nobre geração, de grande valor, 
e notáveis forças , que diílímulando feu in- 
tento , vindo a noite , fem dar conta a pe£ 
foa alguma , mais que a hum foldado , a 
quem pedio hum capacete empreitado, (por 
fer o bom Fidalgo tão pobre que até ifto 
Jhe faltava , fobejando-íhe o animo pêra 
pelejar com os inimigos, ) lançando- fe por 

hu- 



j6 ÁSIA de Diogo de Couto 

Iiuma corda do muro abaixo acompanhado 
de fua efpada , e huma lança. E indo-fe 
pêra a parte onde os inimigos eftavam , 
pouco affaftado do caminho, fepoz deitado 
com grande filencio , efperando algum bom 
encontro. Em pouco efpaço vio vir dous 
Mouros bem difpoftos , que vinham prati- 
cando , e bem deícuidados de imaginarem 
o que lhes aconteceo. Bem fentio Diogo 
da Nhaya Coutinho ferem dous , e receou 
commettellos ; não porque lenão atreveíTe 
a pelejar com ambos , e com mais , mas 
porque temeo que brigando com ambos , 
de força havia de haver roido , e podia 
fer ouvido , e elle não poder pôr em efFei- 
to o negocio a que hia ; mas tomando con- 
felho com a neceffidade do cafo , e do tem- 
po. , determinou commettellos. E deixan- 
do-os paíTar , levantou- fe , e deo a hum tal 
golpe com a lança , que logo o derribou , 
e remettendo ao fegundo , o levou nos bra- 
ços, fem lhe valer pernear, morder, nem 
bracejar , e aífim afido chegou com elle á 
porta da fortaleza a que bradou , que lhe 
abrifíem depreífa ; e abrindo-lhe a porta , deo 
com elle dentro , de que o Capitão , e os 
mais Fidalgos , e cavalleiros ficaram paf- 
mados, e maravilhados de tão raro fuecef- 
fo , que feílejáram muito alegres , e con- 
tentes. 

E 









Dec. VI. Liv. L Cap. IX. 77 

E porque fera roubo , que lhe faremos , 
calarmos o mais que na mefma noite lhe 
aconteceo , contarei o que fez , porque fi- 
quemos fatisfazendo aíTim a noíla obriga- 
ção, (que he dizermos as coufas, que nef- 
te cerco aconteceram,) como a feu me- 
recimento , e esforço , com fama depois 
de morto , já que na vida lhe faltou ven- 
tura de ter com que mataííe a fome. Pro- 
metteo efte Fidalgo ao foldado , que ihe 
empreitou o capacete , de lho tornar a tra- 
zer , certificando-lhe , que antes deixaria a 
vida, que o próprio capacete. Na briga, 
e revolta que teve com os Mouros lhe 
cahio da cabeça fem o elle fentir , nem 
achar menos , íènão depois de entrar na for- 
taleza , e o foldado lho pedir. Senhor , 
diíTe elle , eu o vou bufcar. E tornando a 
defcer por onde defcêra a primeira vez , ha- 
vendo que pela porta o não deixaria o Ca- 
pitão fahir, fe foi á parte onde teve a bri- 
ga , e achando o capacete , o trouxe , e tor- 
nou a fubir 5 e o entregou a feu dono. Bem 
merecia efte Fidalgo por iílo que fez por 
feu Rey , que enxergáramos nós nelle as 
mercês que eftes feitos eftam pedindo ; mas 
pois as não teve , não lhe faltemos nós com 
o deixarmos nefta noíla efcritura dado a co- 
nhecer aos que o não alcançaram, 

DE- 



?£ #á l nu** t # ! #- I **wC* * gafe *5 



DÉCADA SEXTA. 
LIVRO II. 

Da Hiftoria.da índia. 

CAPITULO I. 

De como EIRey Soltao Mahamude chegou 
a Dio : e de hum ajjlgnalado feito que 
Jeis /o/dados fizeram , em que tomaram 
hum Mouro : e das afperas baterias que 
deram d fortaleza. 

A Gabadas todas as obras , aífím da 
parede, como dos valos, e trinchei- 
ras , defejou Coge Çofar de ver 
EIRey as primeiras baterias , porque lhe 
pareceo que nellas fe averiguaífe tudo , man- 
dando-lhe recado a Champanei , onde elle 
eftava com o refto de fua potencia pêra 
acudir onde fofle neceffario. E tanto que 
teve recado , fe abalou aíForrado fó com 
dez mil de cavallo ; e tanta preffa fe deo , 
que chegou á Villa dos Rumes dez dias 
depois da chegada de D. Fernando de Cair 

tro, 



Dec. VI. Liv. II. Cap. I. 79 

tro. E . ao outro dia depois de fua chega- 
da fe paíTou á Ilha pêra de mais perto ver 
a notomia que Coge Çofar lhe promettia 
de fazer naquella fortaleza. E á fua entra- 
da na Cidade lhe fez Coge Çofar tão 
grandes recebimentos , e foram os inítru- 
mentos tantos , que fe ouviram na fortale- 
za , enxergando na Villa dos Rumes novas 
bandeiras ; mas pareceo-lhes que era gente 
que chegava de refrefco , não imaginando 
que podia fer EIRey. E pêra faberem da- 
quella novidade , mandou o Capitão Dom 
João Mafcarenhas dizer a Fernão Carvalho , 
( que eftava no baluarte do mar , ) que man- 
dafle algumas peíToas de recado de noite 
no batel do ferviço pêra ver fe podiam ha- 
ver ás mãos algum Mouro , de quem pu- 
dcíTem faber o que hia na Cidade. 

Fernão Carvalho , tanto que foi o quar- 
to da modorra , defpedio o batel com féis 
foldados , que pêra aquillo efcolheo , cujos 
nomes ficaram em efquecimento aos daquel- 
le tempo , ( porque os deites homens , que 
não nafcêram illuílres , e fizeram coufas aba- 
lizadas , não lhes luziram nem em hifto- 
rias , nem em mercês , e fatisfaçoes ; por- 
que he muito antiga efta miferia Portugue- 
za não faber dar lugar ás virtudes , nem 
engrandecer honrofos penfamentos , antes 
acanhallos > e defprezaltos pelos verem avan- 

ta- 



8o ÁSIA de Diogo de Couto 

tajar nas obras a alguns , que fe contentai 
da gloria de feus paíTados.) E efta he a ra- 
zão , por que muitos não trabalhão por obra* 
rem grandes proezas, porque antes querem 
poupar as vidas , que arrifcallas fem efpe- 
rança de galardão. Mas diante daquelle fa- 
moíò Antigono não fe dava lugar fenão ás 
virtudes , e ao valor ganhado por próprio 
braço, e não aos que os herdaram de feus 
avós , como eile diííe áquelle mancebo , que 
por nafcer nobre queria preceder a outros 
que o não eram , tendo mais merecimentos. 
E tornando á noíTa hiftoria. Partidos 
os féis valorofos foldados , foram pelo rio 
aífima em grande íilencio , fem tocarem com 
os remos na agua por não ferem fentidos 
na terra ; e no lugar em que eftá a Alfan- 
dega , viram eftancia muito perto do mar, 
em que não fentíram vigias , e parecendo- 
Jhes que citariam dormindo , fe chegaram á 
terra, e faltaram nella muito manfo , ecom 
grande determinação commettêram a eftan- 
cia , em que eftavam feíTenta Mouros fe- 
pultados todos em hum profundo fomno, 
como homens que alli fe não receavam de 
couía alguma ; e dando nos primeiros que 
acharam , mataram nelles á vontade , e ao 
tom dos golpes , e dos gritos acordaram 
os outros , andando já o ferro dos valen- 
tes féis companheiros. fobre elles, enão fa- 

ben- 



D Ed. VI. Lxv. II. Gap. I. 8r 

bendo o que aquillo era , nem donde le ha- 
viam de guardar , embaraçavam-fe huns com 
os outros , porque íem verem o que era , 
íentiam o cruel ferro dos féis Portuguezes 
em fuás carnes , e de outras partes as vo- 
zes, e ais dos que ficavam eílirados. E foi 
a coufa de feição , que aos gritos dos da- 
quella eílancia fe puzeram todas as mais em 
armas , cuidando que todos os Portuguezes 
davam nelles. Os féis foldados , que anda- 
vam encarniçados nos Mouros , fentindo 
que chegava foccorro , fe foram recolhen- 
do ao íeu batel , e não fem muito traba- 
lho, e rifco, porque apertaram tanto com 
clles , que lhes mataram dous ; e quiz a 
ventura que os quatro ao recolher deram 
com hum Mouro na praia , que por ventu- 
ra hia fugindo da morte , e liando-fe hum 
com elle , acudindo-lhe os outros , deram 
com elle no batel , e tomando o remo fe 
foram fahindo , indo apôs elles grandes 
nuvens de frechas , e pelouros. Chegados á 
couraça bradaram ás guardas , que os reco- 
lheram dentro , e levando o Mouro ao Ca- 
pitão , lhe contaram o fucceflb : elle os abra- 
çou a todos , louvando-os , e engrandecen- 
do-os publicamente. E recolhendo-fe com 
o Mouro , e lingua , delle foube que as 
feitas que fe fizeram , eram á chegada d'EI- 
Rey , que era vindo pêra ver tomar aquel- 
Couto. Tom. III. P. I. F la 



8z ÁSIA de Diogo de Couto 

Ia fortaleza 5 e aíTim deo razáo de todas as 
mais coufas que lhe perguntaram , que o 
Capitão eftimou muito íàber , mandando 
ter o Mouro a bom recado , e aos Tolda- 
dos deo dinheiro de fua caía. 

Tão affrontados ficaram os Mouros def- 
íe íuccefíb , por fer no mcímo dia que o 
feu Rey chegou , que defejavam de ir to- 
dos morrer ao pé dos muros da fortaleza. 
Coge Çofar andava como doudo fem faber 
o que diíTefle , nem fizefle , e tomara fer 
antes aleijado da outra mão , que ter-fe tão 
penhorado comElRey em negocio que tão 
ruins princípios teye. Ao outro dia chega- 
ram huns poucos de Mouros á falia com 
os do baluarte S. João , e lhes difleram 
muitas injúrias , e vitupérios ; affirmando- 
lhes que cedo teriam o pago daquelle atre- 
vimento, e de não entregarem logo aquel- 
k fortaleza ao grande Rey Soltao Maha- 
mude , que era chegado. Os noííos lhes re- 
fpondêram que folgavam muito com fua 
vinda , porque muito cedo feria dependu- 
rado de huma daquellas ameias pelo atre- 
vimento que teve de mandar cercar a fortale- 
za , em que eftavam Portuguezes , que a 
haviam de defender a todo o mundo jímto, 
quanto mais a elle , e aos feus , que eram 
huns coutados 5 covardes, e biguairins, de 
que não faziam conta alguma. 

To- 



Dec. VI. Liv. II, Cap. I. 83 

Todas eftas coufas foube EIRey., de 
que íe houve por tão affrontado , e offen- 
dido , que mandou a Coge Çofar , que lo- 
go começafíe a bateria ; o que elle fez na 
força do meio dia com mui grande terror , 
e elpanto , batendo os três baluartes , São 
João , S. Thomé , e Sant-Iago com oito 
peças cada hum , e o quartáo na parte da 
cifterna, que cada vez que defparava, pa- 
recia que todo mundo fe abalava ; e certo 
que poz grande efpanto , e caufou muito 
temor. Os Capitães dos baluartes , que eram 
D. João de Almeida , Luiz de Soufa , e 
Gil Coutinho , também lhe refpondêram 
com fua artilheria , batendo as eftancias dos 
inimigos com grande furor , andando cada 
hum reformando as ruinas que a artilheria 
fazia. A grita , o rugido das armas , os 
fuzis do fogo , o fumo da artilheria que 
efcurecia o Sol , tudo repreíentava o dia fi- 
nal do juizo. No baluarte Sant-Iago de 
Luiz de Soufa , onde eílava D. Fernando 
de Caílro , começou a fazer a bateria mais 
damno , por fer mais fraco; mas logo tudo 
,era reformado, e repairado de novo. 

O Capitão D. João Mafcarenhas , que 

nefte dia começou a moílrar os quilates de 

fua prudência , e esforço , tinha dado tal 

ordem a tudo , que em fe pedindo pedra , 

I madeira, taboas, panellas de pólvora, pe- 

F ii lou- 



84 ÁSIA de Diogo de Couto 

louros , e todas as mais coufas neceífarias , 
logo eram dadas , porque efte trabalho en- 
commendou a alguns homens velhos , com 
muitos efcravos , e marinheiros , e affim 
nunca faltou coula alguma. 

D. Fernando de Caftro como era mo- 
ço , e nunca fe tinha vido em outro peri- 
go , defejou de fe aílignalar nefte, e afíím 
deo moítras de feu grande valor, e animo, 
de que a fortuna lhe começou logo a ter 
inveja. Todos os mais Fidalgos , e caval- 
leiros trabalharam em quanto durou o ef- 
pantofo combate mui animofamente. Huns 
ajudando a carregar, eborncar as peças da 
artilheria ; outros em reformar as ruinas , e 
em outras femelhantes , e neceífarias occu- 
paçoes , de forte que todos deram muito 
grandes efperanças no animo com que acu- 
diam a todas as coufas , e na alegria que 
moftravam nos trabalhos , de huma muito 
certa , e grande vistoria. A bateria durou 
até fe pôr o Sol, que ceifou, deixando os 
baluartes todos deftruidos, e arrazados das 
ameias , e parapeitos , ficando a artilheria 
toda delles quaíl defcuberta. O Capitão Dom 
João Mafcarenhas não tomando repoufo to- 
da a noite , trabalhou em reedificar os ba- 
luartes , fendo todos os Fidalgos , e caval- 
Jeiros os pedreiros , e officiaes da obra , a 
que deram tanta preíla ? que quando ama- 

nhe- 



t)EC. VI. Liv. II. Cap. I. 8? 

nheceo eftava tudo renovado , como fe nun- 
ca fora derribado , do que os inimigos paf- 
máram. 

Ao outro dia tornaram a continuar a 
bateria com grande braveza, tornando a ar- 
ruinar os baluartes por outros lugares , an- 
dando fempre os Capitães mui promptos 
em repairar tudo , batendo também efpan- 
tofamente as eftancias dos inimigos , em 
que o dia dantes fizeram bem de damno, 
como também eíle , em que lhe mataram 
muitos. Deita maneira foram continuando 
os combates naquelles três baluartes quatro 
dias , alevantando os noílòs de noite , o que 
lhes derribavam de dia com muito traba- 
lho, eprefleza. Oquartáo, que eftava fron- 
teiro ao baluarte Sant-Iago , que o Francez 
regia , tinha feito na fortaleza grande da- 
mno, porque derribou cafas , arruinou edi- 
fícios , e lançou alguns pelouros na cifter- 
na , que Deos fempre guardou , porque nel- 
la eftava o remédio de tudo , e andavam 
todos aflbmbrados , porque cada vez que 
atirava , fazia hum terremoto , que parecia 
que tremia o ar, e a terra. 

Mas enfadado Deos noflb Senhor de 
foffrer áquelle arrenegado tantas offenfas, e 
afFrontas , indireitou hum dardo, que fear- 
remeçou da fortaleza , fem fe faber de que 
mão, e tomando o Francez pelos peitos o 

der- 



86 ÁSIA de Diogo de Couto 

derribou morto. Efta perda fentio Coge Çó- 
far muito , porque aquelle homem era o 
mais importante que tinha no feu exercito 
pêra o maneio da artilheria , e da bateria , 
e logo em feu lugar poz outro arrenegado , 
que não fabendo a efquadria , nem a medi- 
da do ponto do quartáo , todos os pelou- 
ros que tirava cahiam fobre o feu exerci- 
to, matando muitos dos feus, que ifto foi 
também obra da Divina mão de Deos , por- 
que fó aquelle tiro fe receava na fortaleza 
mais que todos os outros , porque fazia 
mor damno. 

CAPITULO IL 

JDecômo os Mouros continuaram abateria > 

• e EIRey fe foi da Cidade por hum ruim 

agouro que tomou : e do monte da rama 

que os inimigos alevantâram defronte 

do baluarte S. Tbomé* 

FOi-fe continuando a bateria , em que 
os noíTos foíFrêram muito grandes tra- 
balhos , porque não largavam de dia , nem 
de noite as armas das coftas , nem das mãos 
as achegas perã a reformação dos lugares 
derribados, fendo tudo aílim em huma par- 
te como na outra, vozes, clamores, gritos, 
eftrondos, fogo, fumo, trovões, e tem- 
jeílades da cruel , e horrenda artilheria , 

que 



Dec. VI. Liv. II. Gap. II. 87 

que quaíí tinha enfurdecidos todos os da 
fortaleza. E havendo dez dias que durava 
eíta confusão , eílando EiRey vendo huma 
afpera 5 e geral bateria > que fe dava á for- 
taleza , difparando hum camelo de hum dos 
baluartes , guiou Dcos o pelouro de feição , 
que entrou pela eíhncia em que EIRey ef- 
tava , e matou hum privado feu muito jun- 
to delle , ficando todo borrifado do feu 
fangue. E como os Mouros são muito agou- 
remos , aflim efte tomou aquilio a tão ruim 
íignal jj e máo prognoftico , que logo fe foi 
pêra a Cidade , e no mefmo dia fe pafibu 
á outra banda , e dahi pela pofta caminhou 
pêra Amadabá , tão aífombrado , que lhe 
pareceo que ainda o pelouro hia apôs el- 
le , ficando com a gente de cavallo , que 
trouxe hum Capitão Abexim chamado Ju- 
zarcao j homem de grande authoridade , es- 
forço , e eonfelho , e grande Senhor no 
Reino de Cambaya. Coge Çofar fentio 
muito a ida d'E!Rey , porque lhe pareceo 
que hia defconfiado ; e pêra moftrar alTnn 
a elle, como aos noflbs que nenhuma cou- 
fa lhe caufava temor , mandou dobrar aba- 
teria pêra fazer alguma entrada na fortale- 
za , porque determinava ou perder-fe de 
todo , ou ganhalla , e aílim forão conti- 
nuando fem ceifarem até arrazarem todos 
os altos dos baluartes S.João, S. Thomé, 

e hu- 



88 ÁSIA de Diogo de Couto 

e huma grande parte da cortina do muro 3 
que corria de hum ao outro. Luiz de Sou- 
fa , e Gil Coutinho Capitães deIJes com os 
mais Fidalgos , e cavalleiros , foffrêram a- 
quelles combates com animo muito grande , 
acudindo logo a todas as coufas neceíTarias , 
pelejando , trabalhando , animando os Tol- 
dados , tendo-lhes já mortos alguns , e feri- 
dos muitos; e certo que quanto maior era 
o perigo , tanto mais parecia que crefciam 
forças , e animo de novo a todos pêra íuf- 
tentar tudo, e acudir a tanta coufa , como 
era pelejar , e reformar, 

D. João Mafcarenhas vendo os baluar- 
tes arrazados , acudio áquelía parte ; e ven- 
do que eftava a fortaleza muito arrifcada 
pela cortina, tratou de fazer por dentro hum 
contra-muro ; e vendo que não tinha parte 
commoda pêra iíTo , mandou logo na ro- 
tura armar hum cubello alto , e grande , no 
meio de traves , que fervia de triangulo , e 
fe corria delle para ambos os baluartes , cor- 
rendo com hum pedaço de muro pêra tor- 
nar a fechar aquella parte , com que ficava 
mais forte. Efta obra fe começou com gran- 
de preíTa; e porque faltavam fervidores por 
ferem mortos alguns , e outros eftarem doen- 
tes , acudiram as mulheres da fortaleza, af- 
íimcafadas, como viuvas, a acarretar osma- 
teriaes ^ como já fizeram outras no outro 

cer- 



Dec. VI. Liv. II. Cap. IL 89 

cerco paffado: e a que ordenou iílo foi hu- 
ma Ifabe! Madeira ? dona honrada , cafada 
com Meftre João Cirurgião , Chriftão ve- 
lho , de quem tinha dous filhos , e huma 
filha ; efta foi eleita por Capitoa de todas , 
formando-fe hum muito grande efquadrão 
delias , de que as principaes eram Garcia 
Rodrigues mulher de Ruy Freire , Ifabel 
Dias cafada com o Feitor d'ElRey , Ca- 
tharina Lopes mulher de António Gil , e 
Ifabel Fernandes , que depois fe chamou a 
velha de Dio , digna do fobrenome que 
lhe deram , pelas coufas que nefte cerco fez , 
como em feu lugar diremos. Eíías com feus 
filhos 5 c eferavos tomaram á fua conta 
acarretarem a pedra , e terra pêra as obras , 
que traziam com certos fobre fuás cabeças , 
de algumas cafas que o Capitão mandou 
derribar dentro na fortaleza , e o mefmo fi- 
zeram ás traves , taboado , e a todas as mais 
coufas que fe pediam. Efte trabalho come- 
çaram a continuar com tanta preífa , e ale- 
gria , que deo a todos huma certa confian- 
ça de bom fim naquella guerra , com o que 
ficaram os homens mais defalivados pêra 
acudirem ás baterias. A obra foi crefeendo 
de feição, que em breves dias fe poz ocu- 
bello em pé , de que encarregou António 
Paçanha , varão de confelho , e de muito 
esforço , dando-lhe quarenta eípingardeiros. 



90 ÁSIA de Diogo de Couto 

O Capitão andava muito ufano , e alegre 
de ver a alegria , e gofto , com que aquel-^ 
!e cfquadrao feminino acudia ás coufas , af- 
iim de dia , como de noite , porque o havia 
por hum mui bom prognoftico , e aílim as 
hia ver muitas vezes á obra , louvando-as 
com palavras muito honrofas , e de muito 
agradecimento. A eílancia , que era de An- 
tónio Paçanha , deo o Capitão a hum João 
de Venezianos corn alguns foldados. Em 
quanto a obra do cubello durou , não cef- 
fou a bateria , que deo muito trabalho aos 
que andavam na obra ; mas quiz Deos que 
não fizefle damno , ainda que eílorvava , e 
impedia os officiaes, mas de noite fe fez a 
mór parte delia. 

Coge Çofar tanto que vio o baluarte 
em pé , (com que ficavam aquellas partes ca- 
hidas muito feguras , ) mandou fabricar de- 
fronte do baluarte S. Thomé , outro maior 
que elle -., de terra, e rama pêra lhe ficar al- 
li em padraílo , e entulhar a cava , porque 
determinava de entrar por alli a fortaleza. 
Efta obra fe começou a fazer de noite , por- 
que de dia a noíTa artilheria , e arcabuzaria 
lho defendia. E fentindo o Capitão que de 
noite trabalhavam , mandou fazer nos ba- 
luartes tantas luminárias que acclarou todo 
o campo , e fe defcubriam muito bem os 
officiaes que andavam na " obra- j e affeftan- 

do 



Dec. VI. Liv. IL N Cap. IL 91 

do alli a artilheria , começaram a lhe dar 
bateria, com que lhe mataram muita parte 
dos trabalhadores , e os mais largando o 
trabalho, ficou tudo defamparado ; porque 
além dos pelouros , choviam fobreos que 
acarretavam as coufas , tantos daraos, pe- 
dras, e panellas de pólvora, que lhes não 
davam lugar a apparecerem. E poflo que if- 
to caufava , e quebrantava muito aos nolTos , 
o perigo em que eftavam lhes dava forças 
pêra tudo. Mas Coge Çofar não deíiftindo 
da obra , mandou fazer novas ruas por bai- 
xo do chão pêra paliarem os feus encuber- 
tos pêra a obra ; mas ainda aííim não dei- 
xou de lhes cuftar muito , e a poder de 
mortes dos miferos oííiciaes, e trabalhado- 
res , acabou o baluarte , que ficou tão alto , 
que deícubria todo o de S. Thomé, E em 
íima delle mandou Coge Çofar pôr muitas 
arvores groffas com toda fua rama , que fe 
traziam alli a poder de força pêra fervirem 
de tranqueiras aos feus , e poz alli hum for- 
mofo efquadrão de Turcos, e de outras na- 
ções eítrangeiras , não ceifando em todo ef- 
te tempo a bateria nas outras partes , com 
que derribavam os baluartes de D, João de 
Almeida , e de António Freire , Alcaide mor 
da fortaleza ; mas logo o Capitão acudio 
a reformar tudo, em cuja obra D.João de 
Almeida ; e feus irmãos moílráram bem o 

va- 



92 ÁSIA de Diogo de Couro 

valor de fuás peflbas , cumprindo muito á 
rifca com as obrigações do fangue de que 
procediam , pelejando, e trabalhando fem 
tomarem repoufo algum. Coge Çofar ven- 
do a fortaleza tão desbaratada por todas as 
partes , c o muito trabalho que os Portu- 
guezes pa{Tavam em as reformar , havendo 
que não poderiam já foffrer mais , e que fe 
entregariam com alguns partidos , porque 
fe não podia efperar de corpos humanos , 
o que aquelles homens tinham paífado , e 
paítavam havia tantos dias , fem tomarem 
huma fó hora de defcanço , e pêra lhes não 
dar fôlego, e os apertar mais por todas as 
partes , mandou novamente abrir caminhos 
por debaixo da terra , pêra as eftancias de 
Alonfo de Bonifácio , Luiz de-Soufa , e 
Gil Coutinho, até fahirem a caya, porque 
determinava de a entulhar pêra commet- 
ter a fortaleza por aíTalto ; e tanto traba- 
lharam nefte negocio, que ainda que foi á 
cufta de muitos dos feus , que a noífa efpin- 
gardaria fempre pefcava , chegaram aonde 
pertendiam , trabalhando D. João Mafcare- 
nhãs muito por lho defender, 

E porque o lugar de que fe mais recea- 
vam , e de que mor damno recebiam , era 
o baluarte do monte da rama , mandou o 
Capitão fazer hum terrapleno no tabolei- 
ro da Igreja, que era o mais alto da for- 

ta- 



Dec- VI. Liv, II. Cap. II. 93 

taleza , pêra o deícubrir , e alli mandou 
afleítar hum bazalifco , e outras peças grof- 
fas , e encommendou ao Condefíable da for- 
taleza, homem mui experimentado em feu 
officio , que trabalhaffe muito por derribar 
aquelle monte. E dando elíe recado aos do 
baluarte S. Thomé , pêra que fe recolhef- 
fem a partes feguras , por íima delle o co- 
meçou a bater, e quiz Deos que em quin- 
ze dias o desfizeííe todo , matando muitos 
dos que nelle eftavam. 

lílo fentio Coge Çofar muito , e man- 
dou correr com o entulho da cava , man- 
dando cubrir as ruas foterraneas ( por onde 
corriam os trabalhadores ) com palmeiras , 
rama , e terra , pêra andarem por baixo fe- 
guros. E ordenou grandes , e fortes man- 
tas pêra as bocas das ruas , que fahiam á 
cava pêra feu amparo ; e aíTim mefmo man- 
dou fazer muitas pranchas de vigas folha- 
das com taboas , pêra atraveíTarem a cava 
de huma parte á outra , cubrindo-as por íi- 
ma de rama, e terra molhada por caufa do 
fogo , fem os noflbs lho poderem defen- 
der , pofto que pêra iífo lhes lançaram infi- 
nitos artifícios de fogo. Tanto que os ini- 
migos tiveram lançadas as pranchas, come- 
çaram a entulhar a cava, trazendo por bai- 
xo das ruas a faxina , terra , e outras cou- 
fas fem perigo algum. 

C A- 



94 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO III. 

De como os nojjòs furtaram o entulho aos 
Mouros : e de como ynatáram Coge Ço- 
far : e do foccorro que o Capitão man- 
dou pedir a Goa : e de como os inimigos 
entulharam a cava : e de outras coufas. 

FOram os Mouros correndo com a obra 
do entulho com muita prefla fem fe 
lhes poder defender , o que deo grandes 
cuidados ao Capitão, traçando em fua ima- 
ginação algum modo pêra poder impedir 
aquella obra , que era de muito perigo , 
praticando, e tomando confelho com todos 
fobre iíTo. Alguns homens velhos lhe dif- 
feram : » Que no muro defronte donde a 
» cava fe entulhava, eítava hum antigo, e 
» pequeno poftigo , que o tempo foi ef- 
» condendo com terra , e cifco , que de fi- 
» ma do muro fe lançava , por onde fe po- 
» dia muito bem furtar o entulho aos ini- 
» migos. » Não pareceo ifto mal ao Capi- 
tão , e indo-o logo ver pela banda de den- 
tro , pareceo-lhe que podia aquelle fer o 
melhor remédio de todos. E logo deo or- 
dem com que fe fizeíTem algumas mantas 
muito fortes , que mandou armar por lima 
do poftigo, lançadas como pontes, e man- 
dou abrir , e defentulhar o poftigo , que fi- 
ca- 



Dec. VI. Liv. II. Cap. III. 95: 

cava efcondido debaixo das mantas. E de 
noite os moços , e marinheiros , com ceílos 
por baixo foram furtando o entulho á for- 
miga pêra dentro , eftando fempre gente 
em guarda pêra os animar , e fazer traba- 
lhar. E ainda que os Mouros na obra do 
entulho corriam com grande número de 
fervidores , e crefcia muito , de noite pu- 
nham os noíTos tanta diligencia , revezando- 
fe huns , e outros , que lhes furtavam a mor 
parte fem os Mouros o fentirem. O entu- 
lho fazia hum modo de pyramide muito 
largo no pé, e agudo na ponta , e todavia 
vendo elles fempre a obra em hum fer, e 
que lhes não crefcia mais de hum certo li- 
mite , andavam embaraçados. 

Os noíTos trabalhadores hiam por baixo 
folapando a modo de mina ; e aílim lhe fi- 
zeram tao grande vão , que não podendo 
com o pezo , esborralhou-fe pelo pé , ca- 
hindo toda aquella máquina , do que Coge 
Çofar ficou pafmado , porque nunca enten- 
deram , nem fentíram que lhe furtavam o 
entulho , e cahindo no engano , começaram 
de defender o trabalho , pondo-fe hum gran- 
de efquadrao á borda da cava, donde lan- 
çavam grandes penedos , muitas panellas de 
pólvora iyi*e .outras coufas , com que offendiam 
os noíTos: trabalhadores, D. João Mafcare- 
nhãs os- mandou foccorrer por mais folda- 

dos, 



96 ÁSIA de Diogo de Couto 

dos , que fahiam pelo pofíigo fora , e tra- 
vavam com os Mouros , ateando-fe de par- 
te a parte hum formoíb jogo de arcabuza- 
ria , de que todos receberam afsás de da- 
mno , acudindo a mor parte dos Fidalgos, 
e cavalleiros áquelle negocio , que era de 
importância. E antre eftes foi António Frei- 
re , que elta noite fez obras merecedoras de 
maiores louvores ; mas a fortuna invejofa 
delias , ordenou que lhe deíTem huma efpin- 
gardada , de que cahio logo morto , o que 
fe fentio bem antre todos os da fortaleza , 
porque efte era hum dos homens , que rnais 
íuftentava o pezo , e o trabalho daquelle 
cerco, com feu esforço, confelho, e com 
feu dinheiro , de que deo muito a muitos. 
Durou efta noite a briga hum grande efpa- 
ço , em que os nolTos apertaram tanto os 
Mouros , que os fizeram recolher. Mas Dom 
João Mafcarenhas não tomando repoufo, 
mandou com muita preffa carretar muitas 
traves, taboas, e portas, que tudo foi le- 
vado poraquellas valerofas matronas, (que 
nefte cerco a feu modo tiveram tão grande 
quinhão como todos.) E tudo iílo mandou 
atraveflar de noite des do poftigo até á ou- 
tra parte , onde ficou alevantado hum gran- 
de monte do entulho, e fazendo ^wma for- 
te ponte , a cubrio de terra , e rama mo 
-Jbada por caufa do fogo; e por baixo ficá- 



Dec. VL Liv. II. Cap. III. 9? 

ram os noíTos defendendo a obra do entu- 
lho mais á íua vontade , e em damno dos 
inimigos , fem elles lhes poderem empecer ; 
e quando amanheceo eftava tudo acabado. 

Dada a nova difto a Coge Çofar, acu- 
dio alii , e vendo a obra , defenganou-fe de 
poder por alli entulhar a cava , e cheio de 
paixão começou a esbravejar contra os feus , 
porque não defenderam aquillo , e de todo 
deíconfiou do cerco, por ver a grande di- 
ligencia , e prefteza , com que os noflbs fe 
repairavão , e lhes desfaziam fuás traças. E 
no pezar que aqui moftrou , parecia que 
lhe denunciava o coração algum grande maí 
feu. E eftando alli dando ordem ao que fe 
havia de fazer, ordenou Deos, e não per- 
mittio que tardaíTe mais o caftigo aefte ini- 
migo de fua fanta Fé, (nafeido, e creado 
nella , ) que defparaílem da fortaleza algu- 
mas bombardas naquella multidão de gente , 
que com elie fe ajuntou ; e endireitando 
hum dos pelouros com elie , tomando-o pe- 
la cabeça , lha fez logo em pedaços , borri- 
fando os que eftavam derredor com feus 
miolos , e aquella perverfa , e maldita alma 
foi levada dos diabos ás penas perpetuas do 
Inferno, aonde fera atormentada em quan- 
to Deos durar. Profetizado eftava já pela 
triíle mãi (que ainda vivia em Otranto ca- 
tolicamente ) o lugar 7 a que havia de ir 
Couto. Tom. III* A L Q pa- 



98 ÀSIÀ de Diogo de Couto 

parar; porque todos os annos lhe efcrevia 
cartas , em que lhe lembrava que era Chri- 
ílão , pedindo-lhe que deixafle os enganos 
da falfa Lei deMafamede, em que andava 
embebido ; e nos fobrefcritos das cartas 
lhe punha aífim : Pêra Coge Çcfar meu fi- 
lho ás portas do Inferno. O Teu corpo foi 
logo levado dalli com grande dor, e trifte- 
za de todos , e lhe foram dar fepultura em 
huma das mefquitas da Ilha com a maior 
pompa que podia fer. Juntos logo todos os 
Capitães , elegeram em feu lugar feu filho 
Rumecan , tão máo , perverfo , e ardilofo 
como feu pai , que logo alli jurou a Ma- 
famede fobre o corpo do pai , de tomar 
cruel vingança de fua morte, e de não dar 
vida a peflba alguma da fortaleza. E come- 
çando a correr com fua obrigação , a pri- 
meira coufa que fez , foi mandar abrir féis 
ruas por debaixo do chão , que hiam todas 
diffirir na cava de fronte do noflb poíligo , 
por onde lhe furtaram o entulho, que qua- 
II hiam fechar fobre a ponte , que os noíTos 
fizeram por baixo , donde furtavam o entu- 
lho, e fobre ella lançaram pedras de tama- 
nha grandeza , e pezo , que fizeram render 
as traves , e deram com toda a ponte em 
baixo , tratando mal alguns dos fervidores. 
Vendo D. João Mafcarenhas efte máò 
fucceíTo , mandou tapar o poíligo > porque 

lhe 



Dec. VI. Liv. II. Cap. III. 99 

lhe não aconteceíTe porelle algum defaftre,' 
ficando os Mouros defaprefíados pêra irem 
continuando com a obra do entulho , como 
fizeram por íeis partes, que crefceo tanto ^ 
que cubria já o poftigo. O Capitão andava 
muito penfativo, porque via que os inimi- 
gos acabaram todas as obras que queriam, 
fem lhas elle poder defender , e que lhe 
hia já faltando gente , por fer alguma mor- 
ta , e outros doentes , e feridos ; mas não 
pêra que com tudo ifto perdefle hum pon-> 
to de feu grande animo ; porém via que 
lhe tardava o foccorro de Goa , e que hiam 
faltando mantimentos , que era mor guerra 
que a que lhe faziam os inimigos : pelo 
que mandou recolher todos os que havia 
pelas cafas pêra fe defpenderem por regra, 
defejando de certificar ao Governador o pe- 
rigo em que eílava ; mas via o inverno tão 
encarniçado , e cruel , que havia que ne- 
nhum homem fe quereria arrifcar. 

Entendida efta vontade pelo Vigário da 
fortaleza , (que era hum Sacerdote honra- 
do , e bom homem , que naquelle cerco ti- 
nha moílrado muita caridade com todos ; e 
por fer efte , communicava o Capitão com 
elle fó feus mores fegredcs , como foi ef- 
te,) fe lhe foi oíFerectr pêra ir aChaul le- 
var as cartas pêra fe enviarem ao Governa* 
dor, e ainda ir a Goa , fe fofle neceíTario* 

Gii O 



iço ÁSIA de Diogo de Covto 

O Capitão eftimou aquillo muito , e man- 
dou logo negociar hum catur ligeiro , em 
que fe embarcou , com cartas por três , ou 
quatro vias pêra o Governador , levando 
por regimento que não fizeíTe mais que to- 
car Baçaim , e Chaul , e défle as cartas que 
levava pêra aquelles Capitães , em que lhes 
pedia o foccorreflem com muita prefteza , 
porque ficava em trabalhos , e que defpe 
diíTem logo as cartas pêra o Governador 
por differentes patamares , que são cami- 
nheiros de pé. O Vigário deo á vela , e 
foi feguindo fua derrota , onde o deixare- 
mos até tomar a elle. 

Os Mouros foram continuando com o 
entulho até de todo igualarem a cava. E 
pela parte em que eftava Gil Coutinho , que 
fe não podia entulhar , atravefsáram gran- 
des maftros com taboas pregadas pêra pal- 
iarem por cima a picar o muro , o que 
também fe lhe não pode defender, porque 
tudo faziam por baixo de repairos , e ruas. 
D.João Maícarenhas acudio áquella parte; 
e vendo a ponte lançada , mandou logo com 
muita preíía fazer huma grofla cadeia de 
ferro tão comprida , que pudefle chegar do 
baluarte abaixo , em que mandou amarrar 
grandes faccas de gunes cheias de pólvora , 
falitre, enxofre, e outros materiaes com fo- 
go artificiofo por dentro, e as mandou larn 



Dec. VI. Liv. II. Ca?. III. 101 

çar de ííma fobre as pontes , ficando as ca- 
deias prezas ás argolas das peças groíTas ; c 
fendo em baixo , tomaram o fogo com ta- 
manha braveza , que pegou nos maftros de 
feição , que em pouco eí paço os desfez em 
cinza , e em carvão , queimando , e abra- 
zando a muitos dos que por baixo anda- 
vam. Rumecan acudio logo áquella parte , 
e mandou trazer outros maílros , e taboas , 
de que ordenou outras pontes , que fe lança- 
ram no mefmo lugar , fobre o que fe ateou 
hum grande jogo de bombardadas , e ef- 
pingardadas , de que os inimigos recebe- 
ram mui grande damno , matando-lhes , e 
derribando-lhes muitos dos que andavam 
em o trabalho , cujos lugares fe tornavam 
a encher logo de outros de refrefco ; e tan- 
tos fe arrifcáram , e trabalharam , que a pe- 
zar dos noílos cubríram as pontes de terra, 
c rama por ca ufa do fogo , ordenando-lhes 
paredes pelas ilhargas , e ourras pelo meio , 
que fe cubríram por íima de outras vigas, 
fobre que fe armou hum forte terrado pê- 
ra os debaixo ficarem feguros , o que tudo 
fe fez*á cuíla das vidas de muitos. 

Feita efta obra , começaram a picar o ba- 
luarte S. João , no que gaitaram alguns 
dias , havendo da noífa parte toda a refif- 
tencia poííivel ; mas em fim elles fizeram 
hum portilhão ; por onde cabiam dez homens 

jun- 



102 ÁSIA de Diogo de Couto 

juntos ; mas D. João Mafcarenhas mandou 
fazer por dentro hum repairo muito forte, 
com que ficou feguro , fem os Mouros da- 
rem fé delle. Rumecan como vio aquelle 
lugar aberto , determinou de entrar por el- 
le; e pêra o fazer mais a feu falvo , man- 
dou dar hum aíTalto geral á fortaleza por 
todas as partes pêra por ellas fe repartirem 
os noíTos poucos , e lhes ficar aquelle lugar 
com menos rifco ; mas acharam tal reíiften- 
cia , que com perda de muitos dos Mou- 
ros os fizeram affaflar , fazendo todos os 
Fidalgos , Capitães , e cavaíleiros Portugue- 
ses efte dia obras mui dignas de muito maior 
efcritura , que não efpecificamos por não 
gaftarmos o tempo em louvor de homens, 
cujos feitos contados íingelamente , e fem 
ornamento de palavras , (de que aquelles 
famofos efcrirores Gregos, e Romanos ufa- 
vam no contar dos feitos dos feus , ) podem 
efcurecer a rodos. O Capitão em tudo me- 
receo fempre mais que todos , porque cada 
hum pelejava , e tinha cuidado do feu lu- 
gar , e elle dos de todos , provendo , man- 
dando j e governando com muito animo , 
e prudência , fem tomar huma hora de def- 
canço, e em todas as coufas tão alegre, e 
contente , que dobrava o esforço , e animo 
aos feus em o verem. 

CA- 



Década VI. Liv. II. 103 

CAPITULO IV. 

Do recado que Rumecan mandou ao Capi- 
tão por Simão Feio : e do grande , e af- 
pero combate que os inimigos deram d 
fortaleza : e de como entraram o baluar- 
te S. Thomé. 

P Afiado o combate , tanto que anoite- 
ceo, ouviram os do baluarte Sant-Iago 
chamar de tora pelos da vigia , dizendo : 
» Que lhe chamaíTem o Capitão , que lhe 
» queriam dizer certas coufas que importa- 
» vam, declarando-fc que era Simão Feio 
» o que lhe queria fallar. » Efte recado fe 
deo logo ao Capitão, que aílbmou ao ba- 
luarte , e mandou perguntar a Simão Feio 
que era o que lhe queria ? que lhe diíTe: 
» Doo-me tanto de todos , e vejo tudo tão 
» arrifcado , que pedi licença pêra vos vir 
» fallar. Bem vedes eíles muros todos der- 
» ribados , as cavas entupidas , e vós fal- 
» tos de tudo , canfados das vigias , e tra- 
)) balhos , perdidos muitos companheiros 
» na guerra, o foccorro longe, e tão im- 
)> pedido com o inverno , o poder d'El- 
» Rey de Cambaya grande , e que cada 
» dia pode vir mais. Rumecan Capitão ge- 
» ral defejofo de vos não perderdes todos 
» pela grande amizade que feu pai teve 

» fem- 



104 ÁSIA de Diogo de Couto 

» fempre com os Portuguezes , folgará de 
y> haver algum bom meio judo , e honefto 
» pêra feefcuíar tanto damno. Por iifo fou 
» de parecer que devíeis de vos entregar a 
» elle , porque efta apoílado a ufar com to- 
y> dos de muita brandura , e liberalidade; 
y> e fendo de outra maneira , e infiítindo 
y> em voífa contumácia , cerrareis as portas 
» a toda a mifericordia , e fereis graviííl- 
» mamente caítigados , por iífo dos males 
» efeolhei o menor , porque he confelho de 
» prudentes. » 

O Capitão entendendo que lhe faziam 
dizer aquellas coufas por força , mandou- 
Ihe dizer : Que bem entendia que aquellas 
}> palavras , e confelhos não eram léus ; por- 
5) que bem fabia elle que os Portuguezes 
a não coítumavam a entregar huma parede 
» velha , que primeiro não morreíTem to- 
» dos cem mil mortes fobre fua defensão; 
» que aquella fortaleza eftava ainda pêra fe 
» defender a todo o poder do Turco , quan- 
» to mais a hum tão pequeno, e tão fraco, 
y> como era od'ElRey deCambaya; e que 
» efperava em Deos de muito cedo os ir 
y> bufear a fuás eíiancias , e quebrar-lhes 
y> fua foberba ; e que bem fe fabia pelo 
} mundo que os Portuguezes não fe ven- 
» ciam nem de trabalhos, nem de medos, 
* nem da mefaia morte : que fe foífe , e 

» não 



Dec. VI. Liv. II. Cap. IV. mf 

» não tórnaíTe al!i mais com aquelles alvi- 
» três , porque o mandaria fadigar rijamen- 
» re com aquellaiartilheria. » Simão Feio, 
que eftava amarrado por muitos que o ti* 
nham , calou-fe, e os Mouros íem dizerem 
coufa alguma fe recolheram , e o levaram 
a Rumecan, a quem contaram tudo o que 
paliara , de que elle ficou accezo em ira , e 
furor , e já defejava a manha pêra dar hum 
aíTalto á fortaleza , em que efperava de ar- 
rematar aquelle negocio. Nos noflbs havia 
bem differente peniamento , porque fe re- 
formaram o melhor que puderam , e fe pre- 
pararam pêra os efperar , e defenganar, 
porque bem entendiam que o Rumecan os 
havia de commetter com toda fua potencia. 
Ao outro dia em amanhecendo appa- 
receo derredor da fortaleza todo o exercito 
dos Mouros com todas fuás iníígnias , e 
bandeiras defenroladas , tocando muitos in- 
ílrumentos , dando todos tão grandes , e e£ 
pantofos gritos , e bramidos , que pudera 
aquelle bárbaro apparato pôr, ecaufarmedo 
a muitos mil milhares de cavalíeiros sãos, 
e folgados ; o que não fez a tão poucos 
homens, (que não paliavam de duzentos,) 
tão quebrantados , maltratados , canlados , 
e tão moidos de nunca defpirem as armas , 
nem dormirem huma hora inteira ; antes 
crefcendo-lhes a todos novo furor , pare* 

cen- 



to6 ÁSIA de Diogo de Couto 

cendo-lhes pouco o que viam , fe puzeram 
cm feus lugares efperando os inimigos , que 
vinham arremet tendo com o baluarte São 
João com tantos eftrondos , que parecia que 
o mundo fe fundia. Luiz de Soufa Capi- 
tão do baluarte , e D. Fernando de Caltro , 
que com elle eftava, acompanhados deBaf- 
tião de Sá , Diogo de Reinofo , Pêro Lo- 
pes de Soufa , Diogo da Silva , António 
da Cunha , e de todos os mais Capitães , 
que com elle tinham vindo de foccorro , 
fe lhes aprefentáram com grande valor, e 
confiança , fazendo todos taes coafas , que 
não ha palavras, com que fepofsão engran- 
decer como merecem. 

O poder dos inimigos vinha repartido 
em duas partes. Rumecan com todos os 
Turcos , e Eílrangeiros , e com toda a gen- 
te de feu pai commetteo o baluarte S. Tho- 
mé , Juzarcao com todo o mais poder o 
de S.João. Rumecan lançou diante quinhen- 
tos Turcos com efeadas pêra encoftarem ao 
baluarte , como fizeram , commettendo a 
fubida com grande determinação , fendo fa- 
vorecidos dos mais com muita efpingarda- 
ria. Os que fubíram chegaram a pôr as 
mãos em fima nos muros ; mas tornaram 
a virar por detrás feitos pedaços , levando 
outros apôs íi. As bombardadas foavam em 
todas as partes, porque em todas fe batia. 

Do 



Dec. VL Liv. II. Cap. IV. 107 

Do baluarte do mar fizeram grande eílrago 
nos inimigos , porque os tomavam em def- 
cuberto , e empregavam bem nelles ília mu- 
nição. Rumecan apertou com o baluarte , 
que tinha á íua conta , favorecendo outros 
que de novo fubiam a elle, com tantas ef- 
pingardadas , e frechadas , dardos , e pe- 
dras ? que parecia chover tudo iílo dos ares 
fobre os neflos , que defeílimando tudo , nun- 
ca largaram os lugares , oíFendendo tam- 
bém aos inimigos com todo o género de 
inítrumentos de morte que achavam , dei- 
tando fobre elles grandes cantos , muito fo- 
go, infinitos dardos; o que tudo fe empre- 
gava tão bem , que era grande deílruiçao , 
por cahir fobre aquelle cardume , que eíia- 
va ao pé do baluarte amontoado, fazendo 
nelles tal eílrago , que puderam internecer 
outros peitos , que não foram tão bárbaros , 
e cruéis , como os dos feus Capitães, que 
lhes não dava coufa alguma de verem tan- 
tos dos feus efpedaçados , abrazados , e 
com as entranhas abertas. 

D. João Mafcarenhas exercitou aqui 
bem o officio de prudente , e esforçado Ca- 
pitão , vendo , notando , provendo em tu- 
do , pelejando , animando , e esforçando 
aos feus com palavras de muita confiança , 
e honra. O exercito das matronas fez aqui 
também feu officio ? acudindo aos baluar- 
tes, 



108 ÁSIA de Diogo de Couto 

tes , em que pelejavam , carregadas de Ian* 
ças, dardos, panellas de pólvora, pedras, 
e de outras muitas coufas deita qualidade 
pêra empecerem aos inimigos , que repar- 
tiam pelos que pelejavam. E algumas dei- 
las fe mettiam anrre aquelles valorofos Tol- 
dados, e cavalleiros , que eftavam accezos 
cm furor, chamando-lhes : Filhos, caval- 
ai leiros de Chrifto , pelejai por vofía fé, 
> que Deos tendes , que vos ha de favore- 
ci cer» ajudando também a lançar fobre os 
inimigos os inftrumentos de fua perdição. 
E a boa velha Ifabel Fernandes , que teve 
aquelle honrado fobrenome da velha de 
Dio , que já pêra aquelle tempo trazia mui- 
tos bolos deaíTucar, e bocados doces, cor- 
ria os baluartes , e aos que via mais canfa- 
dos, e fracos, lhes mettía nas bocas algu- 
ma daquellas coufas , dizendo-lhes : Esfor- 
^ cai, filhos : pelejai, cavalleiros, que a 
3> Virgem noífa Senhora eftá comvofco. » 

Juzarcan , que foi commetter os baluar- 
tes S. Thomé, e S.João, achou tão gran- 
de refiílencia em D. João de Almeida , e 
em Gil Coutinho feus Capitães , que rece- 
beo defuas mãos outro tão grande eílrago* 
como o de Rumecan. Em todas as partes 
crefcia a crueza , e furor cada vez mais , 
fendo já tantos os mortos , que eítorvavam 
os vivos , principalmente nos baluartes , que 

ai- 



Dec. VI, Lm II. Cap. IV. io? 

alli onde cabiam, ficavam. Somente os feri- 
dos eram logo recolhidos acurar poraquel- 
las matronas , e levados a cafa de Ifabe! 
Madeira , onde feu marido Meílre João 
fempre eílava , pelo não deixar o Capitão 
entrar nos lugares da peleja pela neceífida- 
de que delle havia : e afíim curava a todos 
com muito amor , e caridade , fazendo-lhes 
fua mulher os fios , e batendo-lhes os ovos 9 
alimpando-lhes as feridas por fua mão, aga- 
zalhando-os em fua própria cafa , fazendo*, 
lhes de comer , e dando-lhes feus mimos , 
como fe todos foram feus filhos. O mefmo 
fizeram as outras donas , repartindo antre íi 
eítas obras de caridade , que todas exercita- 
vam com muito goílo , e diligencia : e pô- 
de bem fer , que fe ellas não foram , que 
morrera a mor parte dos foldados á mingua. 
Nos baluartes (principalmente no de 
S. Thomé , que eílava mais damnificado) 
crefcia a crueza muito , porque os inimigos 
no lugar de dez , que lhe matavam , fe pu- 
nham logo vinte ; mas nós nos baluartes 
não , porque o que cahia , alli ficava , fem 
haver outro que fe puzeífe em feu lugar: 
e certo que parecia , que ainda aquelles cor- 
pos aífim efpedaçados fe queriam alevantar 
pêra tomarem vingança de feu damno. Os 
vivos trabalhavam tudo o que podiam por 
Ce não fentir o defeito , e falta dos que ca- 



no ÁSIA de Diogo de Couto 

hiam feridos , ou mortos , enchendo hum 
fò o lugar que foi de três , e de quatro, 
pelejando com tanto furor, e esforço, que 
parecia que as forças dos mortos fe uniam , 
e ajuntavam ás dos vivos. Baftião de Sá 
defejando de alcançar hum nome eterno , e 
de illuftrar com façanhas aquelle feu anti- 
go appellido , fez obras dignas de grandes 
louvores , matando , e ferindo nos inimigos 
com muito animo, e valor, até que o der- 
ribaram de huma cruel frechada, que o to- 
mou por lima do giolho por antre os miú- 
dos , de que fe mais não pode fuftentar na 
perna , e aflim foi recolhido com mágoa 
de todos , por perderem hum táo grande 
defenfor daquella fortaleza, e companheiro 
em feus trabalhos. Ifabel Madeira o levou 
peia fua cafa , e o agazalhou , e feu ma- 
rido o curou com muito refguardo. 

Pois dos foldados , que fe aqui acha- 
ram , a que o defeuido fepultou os nomes 
em efquecimento , por certo que bem fe 
puderam fazer delles muitos , e mui gran- 
des capítulos , pelas grandes coufas que 
obraram , tanto fobre tudo o que fe pôde 
crer. E pofto que a miferia Portugueza, de 
que ha tão pouco nos queixámos , vos dei^ 
xaile efeurecidos , e apagados ; vós , ó va- 
loroíos foldados, que nefte cerco fubiftes o 
nome Portuguez até as eftrellas , e pela for- 

ta- 



Dec. VI. Liv. II. Gap. IV. nr 

taleza de voíTos braços lhes fizeftes ganhar 
hum nome eterno , não vos poderáõ tirar 
aos que aqui morreítes, defendendo a hon- 
ra de voflb Deos , e do voiTo Rey , outra 
gloria maior, e mais fegura, de que efta- 
reis todos gozando , e onde voíTos nomes 
ferão tão patentes , e conhecidos , antre os 
Cortezãos do Ceo , e voflbs feitos illuftra- 
dos com outros títulos tanto maiores , que 
todos os que a terra vos podia dar , (que 
são os de martyres de Chrifto , ) que não 
tenhais inveja a coufa alguma. E todos os 
mais que daqui efcapaftes , e que a fortu- 
na vos guardou pêra mais comprida vida , 
a todo o tempo havia Deos de permittir, 
que foííeis gozar do galardão de voflas 
obras. Porque fe os Gentios haviam , ( co- 
mo diz Marco Tullio no fexto de fua Re- 
publica,) que todo o que ajudafle a con- 
fervar a Pátria, tinha hum certo, e deter? 
minado lugar no Ceo : quanto com mais 
razão podemos os Catholicos efperar , que 
todo o que não fó ajudou a fuftentar a Pá- 
tria , mas ainda a defender , e dilatar a Fé 
de Chrifto , lhe haja elle em nenhum tem- 
po de negar o galardão defeus merecimen- 
tos. E pofto que o mundo os negaíTe a ef- 
tes> que mór premio, e gloria podiam el- 
les alcançar, que verem que fuás obras fo- 
ram famofas > e grandes. 



?ii2 ASIÀ de Diogo de Couto 

E tornando ao fio da nofla hiftoria. Os 
inimigos como eram muitos , e recrefciam 
cada vez mais , fubíram o baluarte S. Tho- 
mé a pezar dos golpes dos nofíos , que ne- 
nhum davam em vão; mas affim os empre- 
gavam , que tinham ao pé do muro hum 
grande número , e monte de mortos , e vi- 
vos mifturados : huns fem pernas , outros 
fem braços, outros com as entranhas palia- 
das , com tamanhos , e tão vivos gemidos 
das affiicções, e anfias da morte, que cau- 
favam medo , e pavor. Vendo os noíTos os 
inimigos em lima do baluarte , animando- 
ie huns aos outros , com corações de leões 
bravos remettêram com elles determinados 
a morrerem, ou aos deitarem fára •, e de 
Cal maneira , e com tanto esforço peleja- 
ram , que os mefmos Mouros ficaram pat- 
inados , e com mortes de muitos os foram 
arrancando do baluarte. Ao que alguns foi-* 
dados valorolos bradaram por Sant-Iago , 
mettendo-fe de envolta com os inimigos, 
como leóes esfaimados , e que os queriam 
comer aos bocados ; e de feição apertaram 
com elies, que os fizeram lançar do baluar- 
te abaixo , onde muitos fe fizeram em pe- 
daços; e ainda fora o damno maior, fe os 
mais delles nãocahíram fobre aquella gran- 
de multidão de mortos , que ao pé delle, 
e fobre elles lançaram logo grandes alcan- 

zias 



Dec. VI. Liv. II. Ca?. IV. 113 

zias de pólvora , acabando alli banhados 
em langue , e abrazados em fogo. Efte foi 
o dia , em que todos os que fe acharam 
ncfte baluarte , puderam com muita razão 
dizer aquillo , que difle Cefar daquella gran- 
de batalha % que em Hefpanha teve com os 
filhos de Pompeo , que todas as vezes que 
pelejara , o fizera pelo intereíTe da vitoria ; 
mas que aquella pelejara pela vida. Aífim 
que nefta batalha fe viram os noffos em ef- 
tado , que pelejaram fá por fua defensão ? e 
não pela da fortaleza. Rumecan vendo tão 
grande eftrago , tocou a recolher , levando 
dos léus menos quinhentos , eafiaftado man- 
dou dar fogo aos bazalifcos , e fal vagens, 
que ellavam apontados naquelle baluarte, 
em que os pelouros com grandes terremo- 
tos foram fazendo muitas ruinas , poflo que 
havia já pouco que derribar nelle, por e£- 
tar quaíi arrazado até o entulho. Tão es- 
caldados ficaram os Mouros deite fucceflb, 
que nunca mais ouíaram commetter os ba- 
luartes defcubertamente ; mas quafi todos 
os dias faziam remettiduras com todo o 
exercito , tornando-fe logo a recolher , como 
viam os noííos poílos em defensão : e ten- 
do a artilheria preíles , a defparavam junta 
pêra os tomarem em deícuberto ; mas de 
todas eílas vezes livrou Deos aos noflbs , 
porque de todas ellas nenhum perigou. E 
Couto.Tom.ULP.L H ai- 



H4 ÁSIA de Diogo de Couto 

algumas noites commettéram as eftancias com 
grandes eílrondos , íb a fim de inquietarem 
os noflbs. "Nefte tempo eram já feílenta Por- 
tuguezes mortos , fem acharmos antre elles 
algum de nome , pofío que todos o mere- 
ceram mui honrado ; pois he certo que os 
que receberam maior damno , eíles fe of- 
ferecêram aos maiores perigos , e á mef- 
ma morte. 

CAPITULO V. 

T)e outro muito grande , e afpero combate , 
que Rumecan deo d fortaleza com to- 
do o poder: e das coufas , que nelle 
fucceãêram. 

VEndo Rumecan quão mal lhe fuece- 
diam as coufas daquelle cerco, pare- 
ceo-lhe que Mafamede eílava irado contra 
elie , porque peio grande poder que tinha , 
e pouco dos Portuguezes , e defenderem-fe 
delle em huma fortaleza arrazada até o chão, 
houve que feriam peccados commettidos 
contra o feu Profeta. Equerendo-o aplacar, 
ordenou de noite grandes procifsoes , fahin- 
do da Cidade em romaria ás mefquitas da 
Ilha , com todo o exercito pofto em ordem , 
com grandes, e formofas luminárias , e com 
muitos clamores , e vozes , pedindo foccor- 
ro a Mafamede. E entrando nas mefquitas , 

fi- 



Dec. VI. Liv, II. Cap. V. li? 

fizeram grandes orações , e fuperftiçóes , fa- 
hindo pêra fora , e entrando pêra dentro , 
andando á roda muitas vezes , e ifto com 
tamanhos gritos , e prantos , como quando 
no tempo de huma geral , e contagiofa en- 
fermidade os Chriftãos em ílias procifsões , 
cantando fuás Ladainhas por toda a Cida- 
de , a certos paffbs fe levanta aquella ge- 
ral , e piedofa voz de todos , bradando pe- 
la miícricordia de Deos, com muitas lagri- 
mas , e gemidos. 

Foi tudo iíto viílo do baluarte domar, 
que defcubria o campo todo ; e parecendo 
a Fernão Carvalho aquillo novidade, met- 
teo-fe em hum pequeno batel , e foi á for- 
taleza dar conta ao Capitão do que vira. 
Bem pareceo a D. João Mafcarenhas que 
aquillo era alguma fuperítição pêra ao ou- 
tro dia lhe darem geral aííalto ; e defpe- 
dindo Fernão Carvalho , lhe encommendou 
que de lá o favoreceíle com a artilheria , e 
logo foi correr toda a fortaleza , animan- 
do , e esforçando a todos, pedindo-lhes que 
eftiveíTem apercebidos , porque ao outro dia 
haviam de íèr commettidos com todo o po- 
der , mandando com muita prefíeza encher 
em todos os baluartes muitas tinas de agua 
pêra o repairo do fogo, e prover as eílan- 
cias de muitas lanças , alabardas , panellas 
de pólvora 7 pelouros, pedras, e cm fim 
H ii de 



nó ÁSIA de Diogo de Couto 

de toda a mais coufa , com que fe pudeíTe 
offender aos inimigos, negociando, e dan- 
do ordem a tudo o mais que lhe pareceo 
neceíTario , com muita prudência , e confe- 
lho. Era efte dia vefpera do Apoííolo Sant- 
iago , Padroeiro das Hefpanhas ; e em rom- 
pendo o quarto d'alva , appareceo toda a 
fortaleza cercada á roda de todo o poder 
dos inimigos póftos em armas com muitas 
bandeiras defenroladas , e em meio de to- 
das huma muito grande , em que eílava pin- 
tada afigura de Mafamede , tão feia, e me- 
donha , como foram luas obras , que tira- 
vam eíte dia por grande reliquia , havendo 
que nelle fe arremataria a vitoria , que elles 
tinham por muito certa. Vinham tocando 
qs inftrumentos de guerra , com fom , e ef- 
trondo tão confufo , e triíle , que parecia 
jhuma denunciação do final juízo , porque 
com iffo as vozarias , gritos , e alaridos 
daquelles bárbaros , reprefentavam os triftes 
condemnados ás penas eternas em fuás la- 
mentações , e blasfémias. Com efla repre- 
fentaçao (que por ainda fer efeuro fazia 
tudo mais medonho) remettêram com os 
baluartes S. João, e S. Thomé, e com a 
guarita de António Façanha , que eílava an- 
tre ambos , repartindo-fe o poder em três 
efquadrões pêra eftes lugares , em que logo 
arvoraram muitas efeadas 7 por onde os mais 

ou- 



Dec. VI. Liv. II. Cap. V. 117 

oufados começaram a fubir com grande de- 
terminação ; e chegando aífima , foram rece- 
bidos nas mãos dos noflòs , que já eftavam 
preíles , onde pagaram feu atrevimento, 
tornando os primeiros a virar fobre os de 
detrás de pernas aífima efpedaçados , levan- 
do muitos apôs fi. Mas como a multidão 
delles era grande , não fe deixava fentir 
aquella perda : foram logo tantos outros 
que fubíram , que entulharam os lugares , 
pondo-fe muitos íbbre o baluarte de barba 
a barba com os noííos. Aqui foi o retinir 
das armas , os gritos , e eílrondos de huns , 
e outros , os inítrumentos , que fe não dei- 
xavam de tocar, aartilheria , que fazia feu 
terremoto , de forte que tudo fazia tão gran- 
de confusão , que parecia que toda a má- 
quina do mundo fefovertia. Efte foi o dia, 
em que os Portuguezes moftráram todo o 
preço , e valor de fuás peíToas. Luiz;' de 
Soufa , D. Fernando de Caflro com os Ca- 
pitães , e Fidalgos de fua companhia , póí- 
tos diante de todos aos trabalhos , não pe- 
lejavam como homens tão quebrantados , e 
canfados de tantos dias , fenao como fe 
áquella hora chegaram de foccorro muito 
folgados. Os três irmãos D.João, D. Fran- 
cifeo í e D. Pedro de Almeida fizeram tão 
grandes coufas , que fe não podem particu- 
larizar. António Paçanha com feus compá- 

nhei- 



n8 ÁSIA de Diogo de Couto 

nheiros no cubello tiveram mui grande tra- 
balho , porque foram mui rijamente com- 
mettidos do poder dejuzarcão. Em fim ro- 
dos em rodas as partes fizeram taes faça- 
nhas , que pafmavam os inimigos , porque 
não fó pelejavam com ambos os braços , 
mas ainda com os pés, com que deitavam 
grandes galgas fobre os que eftavam aos 
pés dos baluartes, e com as bocas ainda o 
faziam mais , porque ora affrontavam os 
inimigos, oraconfolavam, e animavam aos 
amigos, e companheiros , com que lhes da- 
vam forças a huns , e quebrantavam aos ou- 
tros ; e taes andavam todos, que fe deíeja- 
vam lançar em baixo fobre os inimigos, 
que muitas vezes arrancaram dos baluartes , 
fazendoos virar pêra trás feitos em peda- 
ços. A fúria crefeia em todas as partes ca- 
da vez mais; o damno era maior affim em 
huns , como em outros ; os gritos rompiam 
os ares , tudo era confusão , e efpanto. O 
Capitão D. João Mafcarenhas com feu ani- 
mo nunca rendido a trabalhos , nem a me- 
dos , com fua prudência , e confelho gover- 
nava tudo , correndo de hum lugar a ou- 
tro, mandando trazer as coufas que fe pe- 
diam ; no que tinha dado tal ordem , que 
em bradando por panellas de pólvora , já 
alli havia quem lhas metteíle nas mãos , por 
lanças , por dardos , e em fim por tudo o 

mais j 



Dec. VI. Liv. II. Cap. V. 119 

mais , que era tudo trazido ás coitas , e ca- 
beças daquellas honradas , e animofas ma- 
tronas. 

A velha Ifabel Fernandes corria os ba- 
luartes com feus bolos , e bocados doces, 
esforçando a todos , acudindo aos fi*acos 
com aquella refeição 3 mettendo-lha nas bo- 
cas por não defoccuparem as mãos, que ef- 
tavam oíFendendo aos inimigos 5 alevantan- 
do a voz a toda a parte a que chegava, 
pêra que todos a ouviílem , pêra fe delia 
quizeílem alguma coufa , a dar, dizendo: 
» Ah filhos , cavalleiros de Chriílo , pele- 
» jai , que elle he comvofco : vede o de 
» que tendes neceffidade , que logo fe vos 
» dará. » E aífim todas as vezes que entra- 
va nos baluartes , que a ouviam , aífim fe 
animavam todos tanto , que pelejavam com 
alegria, e fem receio. As outras companhei- 
ras eílavam repartidas pelos baluartes da 
briga , e em cahindo hum morto , logo o 
afFaftavam por não fer eítorvo aos vivos , e 
os feridos eram logo levados por ellas a 
cafa de Ifabel Madeira pêra ferem curados. 

Rumeòan pofto que vio o eftrago, que 
era reite' nos feus , não defiftia do negocio , 
porque determinava de ou tomar daquella 
vez a fortaleza , ou perder-fe de todo ; e 
aífim fazia chegar os Capitães ao affaito , 
o que os mais delles faziam com vergonha , 

por 



no ÁSIA de Diogo de Couto 

por verem quão mal recebidos eram dos 
noíTos em flma. Aqui fe dobrou a crueza , 
porque fe metteo todo o rcfto no commet- 
timento dos baluartes , tornando os Turcos 
do terço de Rumccaa a cavalgar o baluar- 
te S. Thomé á eufta de tantas mortes , que 
era efpanto ; porque os noíTos vendo que 
fó em Deos , e nos feus braços eftava o 
remédio de fua falvação , com o coração 
rioCeo pedindo favor, e ajuda, e com os 
braços á defensão , pelejavam todos tão va- 
lorofamente , que com fazerem tanto , não 
havia quem não tiveíTe inveja do compa- 
nheiro , que a par de fi tinha , das grandes 
proezas , que lhe via obrar. 

Deita vez eíleve a coufa tão arrifeada, 
que começou a correr huma voz pela for- 
taleza, que já os Mouros eftavam fenhores 
do baluarteS. Thomé. E chegando aos tol- 
dados, que vigiavam as cafas da banda do 
mar , largando tudo , acudiram a elle , en- 
trando de refrefeo com aquelle furor , e ira , 
que a nova que ouviram accendeo nelles, e 
taes coufas fizeram, que tornaram , os que 
pelejavam no baluarte , a ficar com mais fô- 
lego , porque os inimigos vendo o foccorro , 
pararam alguns , e outros fe lançaram dos 
muros abaixo. Do baluarte do mar não cef- 
fava a artilheria , que em roda viva não fa- 
zia fenão carregar , e defearregar nos ini- 

mi- 



Dec. VI. Liv. II. Cap. V. e VI. 121 

rnigos, que eram tantos, eeftavam tãoapi- 
nhoados , que nenhum tiro fe errava , e af- 
firn fizeram neiles , em quanto durou o af- 
faito, muito grande eílrago. 

CAPITULO VI. 

De como os Mouros entraram pela handa 
da rocha : e de hum valorofo feito , que 
huma mulher fez : e de como acudio o 
Capitão , e os lançou fora : e de como 
mataram Juzarcão. 

EStando o aflalto nefte eftado , Juzarcan y 
que andava pela outra parte da banda 
do mar mandando pelejar os feus, foi ro- 
deando pela banda da rocha por ver fe ha- 
via por alli lugar, por onde pudefle entrar 
na fortaleza , c lá junto do baluarte Sant- 
iago fentío tudo calado , e quieto , e pa- 
receo-lhe que eítava fem guarda, como de 
feito aífim era ; porque os foldados , que 
alli eílavam por aquellas cafas , tinham ido 
foccorrer o baluarte, como já diflemos. E 
chamando hum Sangiaco de cem Turcos , 
lhe encommendou que fubiííe por humas 
cafas , que eílavam encoftadas á Igreja de 
Sant-Iago , que tinham huma varanda bai- 
xa , em que logo arvoraram algumas eíca- 
das , por que íubíram alguns Turcos em 
muito íilencio. Chegando á varanda , entra- 
ram 



122 ÁSIA de Diogo de Couto 

ram dentro, ehum dclles mais atrevido foi 
paílando, eabrio huma porta, que hia pê- 
ra huma camará , em que eítava huma mu- 
lher cafada , Turca de nação, que ao ef- 
trondo fe alevantou , e dando com o Tur- 
co, ficou toda trafpaíTada de medo. O Tur- 
co vendo-a aííim , tomou-a por hum braço , 
e lhe diíTe : » Que não houvefle medo, que 
)> elle a íegurava , que foubefle que a for- 
)) taleza era tomada , que lhe déíTe algum 
» dinheiro , que elle a íàlvaria , e tomaria 
» á fua conta. » 

A pobre mulher dando-lheDeos forças, 
e alento, lhe diíTe , que efperaíTe, que hia 
dentro bufcar-lho , e fahindo-fe pêra fora , 
abrio a porta da rua manlb , e entrou em 
cafa de outra vizinha, e lhe diíTe , que os 
Turcos ficavam em fua cafa : ao que a ou- 
tra começou a bradar alto , chamando por 
nofla Senhora , que lhe valefle , a cujos gri- 
tos acudio outra mulher também vizinha , 
a que não achámos nome ; e fabendo que 
eram os Turcos entrados na cafa da outra , 
remetteo a huma chuça , e como leoa raivo- 
fa fahio pela porta fora , e foi demandar a 
cafa em que eftavam , e chegando á porta , 
vio que hum Turco lançava a cabeça fora 
pêra ver o que hia na rua. A valorofa mu- 
lher com hum animo varonil remetteo a 
elle , dizendo : Ah perro , que ás minhas 

mãos 



Dec. VI. Liv. II. Cap. VI. 123 

mãos has de morrer : e com grande valor , 
e esforço fe poz ás chuçadas com o Tur- 
co , que fechou a porta , ficando ella de 
fora pêra os não deixar íahir. 

As outras vizinhas foram gritando pelas 
ruas , e encontrando com o Capitão , lhe 
difleram , que acudiíTe á fortaleza , que era 
entrada pela banda da rocha. O Capitão 
fem fe torvar lhes diíTe : » Que fe calaflem , 
» que tal não era ; e logo defpedio hum 
» dos três homens, que com elle hiam , pe- 
» ra que foííe bufcar alguns foldados a al- 
» guns lugares, que eííiveflem menos apref- 
)> fados; e ao outro mandou que foífe pe- 
)> las ruas , e todos os que achafle cncami- 
» nhaífe pêra aquella parte j avifando-os 
» que lhes não difleíTem o pêra que » por- 
que fe aquillo chegaífe ás orelhas dos que 
pelejavam nos baluarte? , defamparallos- 
hiam, e perder- fe-hia tudo. O Capitão com 
hum fó pagem que lhe ficou , que fempre 
o acompanhava com o guião de Chrifto, 
foi pêra a parte pêra onde as mulheres o 
encaminharam , e pelo caminho fe lhe ajun- 
taram dous foldados , hum chamado André 
Baião , mui bom cavalleiro , e ao outro não 
foubemos o nome , e chegando á porta , 
onde os Turcos eílavam , achou aquella 
valorofa mulher , ( qual outra Poncella de 
França,) que fem medo algum tinha os 

Tur- 



124 ÁSIA de Diogo de Couto 

Turcos encurralados na caía, tendo-lhe to- 
mada a porta , que defendia com tamanha 
ira , e furor , que fez pafmar a todos. 

O Capitão vendo aqueile efpeítaculo , fi- 
cou alegre , e confiado , vendo como até a 
natureza tinha em feu favor, pois aífim mu- 
dava hum coração tão fujeito a medo , e a 
temor , em outro tão determinado , que fem 
moftras de receio eílava offerecida a morrer 
pela defensão de íua fortaleza. O Capitão 
chegando a ella , com palavras de muito 
louvor lhe perguntou o que era ? ao que 
lhe refpondeo , que Turcos dentro naquel- 
la cafa. O Capitão parou bradando por hu- 
ma panella de pólvora : áquelía hora fahia 
de dentro de huma daquellas cafas hum Abe- 
xim , que ficou diante de D. João Mafca- 
renhas pafmado ; o Capitão vendo-o aííim , 
o tomou por hum braço , e o arremeçou 
por diante delle , dizendo-lhe que foíTe tra- 
zer huma panella de pólvora , e ao palTar 
por diante delle , lhe deram huma efpingar- 
dada de íima de hum eirado da Igreja , on- 
de já eítavam alguns Turcos , do que o 
Abexim cahio morto aos pés do Capitão , 
que quizDeos polio por feu amparo, por- 
que fe não executafle nelle a cruel efpin- 
gardada , porque fora total perdição daquel- 
lã fortaleza. 

A'quelle tempo chegou hum foldadp 

com 



Dec. VI. Liv. II. Cap. VI. 12? 

com huma panella de pólvora , e tomando- 
lha o Capitão , remetteo com a caía on- 
de os Turcos eftavam , e dando-lhe hum 
grande couce , deo com as portas dentro, 
e lançou a panella , quebrando-fe em meio 
dos Turcos , (que eram mais de trinta os 
que eíiavam dentro , ) e accendendo-fe a pól- 
vora da panella , e dando por elles , os abra- 
zou. O Capitão apôs a panella , entrou a 
caía cuberto de huma rodela de aço , e hu- 
ma formofa efpada na mão , e com clle os 
três , ou quatro foldados , que com elle et- 
tavam , e dando em os Turcos , a poder 
de golpes os levaram até á varanda ,. fazen- 
do-os lançar com a preíTa delia abaixo fo- 
bre a rocha , onde fe fizeram em pedaços. 

Feito ifto , fahio-fe o Capitão pêra fo- 
ra , e vio que eíiavam fobre o eirado da 
Igreja hum cardume de Turcos com dous 
guiões defenrolados , e vinham já defcendo 
pêra o muro , pêra dalli (que era baixo) 
faltarem dentro na fortaleza. A eíte tempo 
vinham já chegando alguns foldados , e de- 
baixo fe puzeram ás efpingardadas com os 
Turcos , que de fima também faziam o mef- 
ido. O Capitão bradou por huma efcada , 
que logo lhe trouxe huma mulher , e en- 
coftando-a ao eirado , começaram alguns dos 
noífos a fubir, e outros debaixo aos favo- 
recer com a arcabuzaria j mas era tão pe- 
que- 



I2Ó ÁSIA de Diogo de Couto 

quena aefcada, que não cabia porella mais 
que hum e hum , e o primeiro que aílima 
chegou , tornou a virar fobre os debaixo 
com algumas lançadas. 

Neíte tempo acudiam já Toldados áquel- 
Ia parte , e vendo os Turcos fobre o mu- 
ro , que era baixo , puzeram-fe ás efpingar- 
dadas a elles , derribando alguns. Pela ban- 
da da rocha vinham fubindo mais Turcos , 
porque Juzarcão , que em baixo eftava , os 
hia favorecendo com mais foccorro ? e af- 
fim poucos e poucos fubíram tantos , que 
entulharam aquelle lugar , ateando-fe antre 
elles , . e os noífos huma cruel briga , por 
fer toda de efpingardadas , a que não havia 
repairo. O Capitão andava animando os 
feus, e bradando por eícadas, que lhe trou- 
xeram mais capazes, earrimando-as ao mu- 
ro , começaram a fubir os nofíbs , favore- 
cendo-os o Capitão debaixo, dizendo-] hes : 
)> Ah valorofos , e esforçados cavalleiros , 
» dia he efte pêra deixardes de voffa nação 
» huma perpétua memoria ao mundo. » Os 
golpes retiniam , os arremeífos de ambas as 
partes eram muitos, e os que fubiam tanto 
trabalharam , qye a poder de golpes que 
receberam , fe puzeram em fima do muro , 
onde os primeiros começaram mão por mão 
huma afpera batalha com os Turcos , fuf- 
tentando o pezo delles, em quanto outros 

íu- 



Dec. VI. Liv. II. Cap. VL 127 

fubiam de refrefco. E pondo-fe em fima, 
chamando pelo Apofíolo Sant-Iago , em cu- 
ja cafa citavam , arremettêram com os ini- 
migos , e com hum grande impero , e fu- 
ror os levaram de arrancada ; e vendo-os 
embaraçados huns com os outros , os aper- 
taram de feição, que os fizeram lançar do 
muro abaixo fobre a rocha , onde fe fize- 
ram em pedaços, não efcapando hum fó. 

Defpejado o muro , entrou o Capitão 
nas cafas por onde fubíram , e provendo 
aquelle lugar de guarda , voltou pêra os ba- 
luartes. Juzarcao vendo oeftrago dos feus , 
fe foi recolhendo o melhor que pode, por- 
que vinha já a manhã efclarecendo , e de 
todas as partes fe defcubriam os inimigos 
claramente , varejando-os com a artilheria , 
e com a arcabuzaria , ' que antre elles fazia 
bem de damno. 

Chegado o Capitão aos baluartes , e 
vendo o perigo, e crueza da batalha, e as 
maravilhas que os noflbs faziam, levantou 
a voz pêra os animar , dizendo : » Ah fe- 
» nhores Fidalgos, Capitães, eCavalleiros 
» de Chriíto , fazei-vos hoje acabar de co- 
» nhecer a eftes bárbaros , porque não quei- 
» ram provar mais voífo ferro : fazei que 
)> efle dia do bemaventurado Apoftolo Sant- 
» lago feja muito ditofo , e gloriofo á 
» voíra nação j aqui me tendes comvofco 

»por 



128 ÁSIA de Diogo de Couto 

» por companheiro em voflbs trabalhos* 
» Ah fenhores , demos neítes inimigos da 
» fé de Chriíto , e deitemo-los fora » e que- 
rendo paliar adiante , o detiveram todos , não 
lhe confentindo que fe puzeffe em lugar de 
perigo. E cobrando todos novo animo , e 
rebentando de furor , remettêram aos ini- 
migos , e com morte de muitos deram com 
elles dos muros abaixo. 

No mefmo tempo encaminhou Deos 
noíTo Senhor hum pelouro de hum camelo y 
e tomando a Juzarcão de meio a meio , o 
desfez em pedaços. Eda nova correo logo 
pelos feus , que acudiram ao lugar onde ef- 
tava feito pedaços pêra o levarem. Rume- 
can tanto que o foube, quizera morrer de 
pezar, e tocando a recolher, o fez pêra a 
Cidade com tamanha melancolia, errifteza, 
que não ou fava peíToa alguma a lhe fallar. 
Os noílbs ficaram defalivados , e bem can- 
fados. Perdêram-fe neíle grande aífalto fete 
Portuguezes , ficando perto de trinta feri- 
dos. Dos Mouros morreram mil dos prin- 
cipaes , e foram mil e quinhentos feridos, 
de que depois acabaram muitos , e perde- 
ram a mor parte das fuás bandeiras , e a 
do feu Mafamede levaram toda rota, e es- 
farrapada , que foi pêra elles huma affron- 
ta muito grande. 

D. João Mafcarenhas vendo-fe defapref- 



Dec. VI. Liv. IL Cap. VI. 129 

fado , e es inimigos recolhidos , deo gran- 
des louvores a Deos noflb Senhor por tão 
grande vitoria , mandando enterrar os mor- 
tos , e curar os feridos com muito grande 
cuidado. Ao outro dia defpedio o Capitão 
hum navio com cartas pêra o Governador 
D. João de Caílro , em que lhe dava con- 
ta de todos os íucceíTos, porque logo fou- 
be da morte de Juzarcão , e dos inimigos, 
que na batalha morreram. E porque Bat- 
tião de Sá eftava muito mal de íua per- 
na , o fez o Capitão embarcar pêra íè ir 
curar a Baçaim , onde ao outro dia , que 
a fufta partio , chegou arrazada de agua. 
Defembarcou Baílião de Sá ; e D. Jerony- 
mo de. Menezes, Capitão da fortaleza , o 
foi bufear , e o levou pêra fua cafa , on- 
de o mandou curar com todo o cuida- 
do , e refguardo , e o navio partio logo 
pêra Goa. 



Couto.Tom.lILP.L I CA- 



130 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO VII. 

De algumas confias que pafsdram em Goa : 
e de como o Governador D. "João de Cafi~ 
tro mandou (eu filho D. Álvaro de Cafi- 
tro de foccorro a Dio : e dos ajjaltos 
que os Mouros deram ãquella for tale" 
%a , de que fe recolheram desbaratados. 

DEpois do Governador defpedir feu fi- 
lho D. Fernando de Cafíro, ficou ef- 
perando por recado do que lhe fuecedêra 
na viagem , mandando encommendar as cou- 
fas de Dio a Deos por todos os Religio- 
fos , íentindo em eftremo tomallo efte íiic- 
ceflb em tempo , que não podia foccorrer 
aquella fortaleza em peííoa j e fendo entra- 
da do mez de Junho , chegou á barra de 
Goa velha a náo Efpirito Santo , de que 
era Capitão Diogo Rebello, daconferva do 
Governador , que elle receava folie perdi- 
da , que (como diflemos no Capitulo pri- 
meiro do Livro primeiro) foi tomar Me- 
linde , onde çfperou os Ponentes , que lhe 
entraram em Abril ; e dando á vela pêra 
Goa , tendo grandes calmarias , no cami- 
nho gaftou todo aquelle tempo , e com mui- 
to trabalho foi ferrar Goa velha , onde o 
Governador mandou logo embarcações por 
dentro dos rios a bufear os doentes , e a 

def- 



Dec. VI. Liv< II. Cap. VII. 131 

defcarregar a náo. E depois do mez de Ju- 
lho chegaram as cartas de D. João Mafca- 
renhas , que eram as que o Vigário levou , 
e fe mandaram de Baçaim , e Chaul por 
terra. E íabendo por ellas o grande aper- 
to j em que aquella fortaleza eítava , fe foi 
logo pôr na ribeira dos navios, e fez logo 
lançar ao mar os que eftavam melhor ne- 
gociados , e mandou chamar feu filho Dom 
Álvaro de Caftro , a quem diíTe , que fe 
fizeíTe preftes pêra ir foccorrer a fortaleza 
d'ElRey. Eftas novas fe efpalháram Jogo 
por Goa , a que acudiram todos os Fidal- 
gos , e Capitães a fe offerecerem pêra aquel- 
le negocio , fendo o primeiro D. Francif- 
co de Menezes , a que o Governador accei- 
tou os oííerccimentos , mandando-lhe que 
fe preparafle pêra o outro dia fe partir com 
alguns navios diante , em quanto D. Álva- 
ro de Caftro fe fazia preftes i o que elle 
fez com muita diligencia , acudindo-lhe mui- 
tos foldados , e alguns Fidalgos mancebos 
feus parentes , e amigos pêra o acompa- 
nharem , e em dous dias fe poz no mar com 
fete navios, de cujos Capitães não achámos 
os nomes. Aos vinte e fete de Julho fe fez 
á vela , e de fua viagem adiante daremos 
razão. 

O Governador ficou negociando o mais 
foccorro com muita p^efla , e tres dias de- 
I ii pois 



132, ÁSIA de Diogo de Couto 

pois de D. Francifco de Menezes , foi fa- 
zer á vela feu filho , que fahio pela barra 
de Goa a velha , defpedindo-o com muitas 
bênçãos , eferevendo por elle a D. João 
Maícarenhas ., e de novo a D. Francifco 
de Menezes , ( fem embargo de lho já ter 
pedido , ) que alli lhe mandava D. Álvaro 
de Caftro feu filho pêra não fazer mais que 
o que elles lhe mandaílem , eaíTim lho deo 
a elle por regimento. Os Capitães dos na- 
vios (que eram dezenove) foram , D. Jor- 
ge de Menezes , que depois fe chamou Ba- 
roche, D.Duarte de Menezes filho do Con- 
de da Feira , Luiz de Mello de Mendo- 
ça , e Jorge de Mendoça feu irmão , Dom 
António de Taíde , Garcia Rodrigues de 
Távora, Lopo deSoufa, Nuno Pereira de 
Lacerda , Athanafio Freire , Pêro de Taí- 
de Inferno , D. João de Taíde , Balthazar 
da Silva , D. Duarte Deça , António de Sá , 
Belchior Moniz , Lopo Vaz Coutinho , 
Francifco Tavares , e Francifco Guilherme. 
Partido D. Álvaro de Caftro , ficou o 
Governador negociando hum caravelão car- 
regado de munições , e mantimentos pêra 
mandai apôs elle ; e por fer navio muito 
pezado , e não poder remar, era muito ar- í 
íifeado naquelle tempo , e por tal não ou* 
fava de commetter com elle a algumas pcf- 
íòas , que elle defejava > porque o não que- 
ria 






Dec. VI. Liv. II. Cap. VII. 133 

ria entregar fenao ahuma de muita confian- 
ça, porfer coufa muito importante. E pra- 
ticando ifto com Manoel de Soufa de Se- 
púlveda , elle lhe difle : » Que lhe inculca- 
)> ria hum Fidalgo , que por debaixo do 
» mar o levafle a Dio, e que eíle era Àn- 
» tonio Moniz Barreto. » Andava efte Fi- 
dalgo aggravado do Governador por cou- 
fas leves, enão feoíFereceo pêra ir naquel- 
les navios por não querer pedir ao Gover- 
nador coufa alguma , e andava negociando 
hum pêra fe partir , e de todas fuás coufas 
dava conta a Manoel de Soufa de Sepúl- 
veda , de quem era muito amigo. O Go- 
vernador lhe diíTe : » Que não fe atrevia a 
» commetter António Moniz Barreto com 
)> aquelle negocio , que era hum Fidalgo , 
» que andava feparado , e aggravado deíle ; 
» que fe elle o quizeífe acabar com elle , 
» que folgaria muito de elle ir no navio, 
» ainda que não fofíe mais que até o en- 
» tregar a feu filho D. Álvaro de Caflro. » 
Manoel de Soufa de Sepúlveda foi logo 
bufear António Moniz Barreto , e lhe deo 
conta do que tinha paífado com o Gover- 
nador , £ lhe aconfelhou que logo fe foífe 
embarcar naquelle navio , porque era o 
maior ferviço , que podia fazer a EIRey. 
António Moniz Barreto vendo aquillo , dif- 
fe que o faria. E tomando alguns amigos , 

que 



134 ÁSIA de Diogo de Couto 

que tinha grangeados pêra irem com elle , 
ie foi logo embarcar fem fe ver com o Go- 
vernador, porque eftava já o navio em Goa 
velha , e o Governador fabendo delie , o 
mandou logo fazer á vela pelo Vcaclor da 
Fazenda , c foi ièguindo íua jornada com 
tempo mui forte : c delie , e de D. Álvaro 
de Caftro a feu tempo daremos razão , por 
guardarmos a ordem da hiftoria, e tornar- 
mos ás coufas de Dio. 

Andava Rumecan mui envergonhado , 
e muito mais o eftava EIRey , ( que todos 
os dias era aviíado do que fe paffava , ) de 
ver huma fortaleza toda arrazada , e pofta 
por terra , e com tão pouca , e canfada gen- 
te , não fó fe defender a tamanho exercito , 
mas ainda alcançarem os de dentro tão gran- 
des vitorias , e terem-Ihe mortos dous tão 
grandes Capitães , e mais de dous mil lio- 
.mens. E tendo recado deite derradeiro fuc- 
ceííb , mandou reprender a Rumecan , e a 
todos os mais Capitães da fraqueza , e co- 
vardia, que nelles havia ; do que elles to- 
mados , e aíFrontados , determinaram de 
metter todo o refto do poder , e ou toma- 
rem a fortaleza daquella feita , ou morrerem 
todos em fima de feus baluartes , e aíTim ie 
Jhes cumpriram feus defejos. E pêra lhes 
ficar mais fácil a entrada da fortaleza, man- 
dou Rumecan fabricar defronte do baluar- 
te 



Dec. VI. Liv. IL Cap. VII. izS 

fe Sant-Iago hum muito grande beítiao , c 
rao alto , que iguaiava com elle , pêra fe irem 
chegando, e pcra ficarem cavalleiros ao ba- 
luarte pêra o fazerem deipejar. D. João 
Mafcarenhas vendo obra tão prejudicial, 
determinou de a mandar desfazer , e o en- 
carregou a D. João, e a D. Pedro de Al- 
meida feu irmão , dando-lhes pêra iíTo cem 
cícolhidos foídados. 

E aos quatro dias de Agofto , ao quar- 
to da modorra fahíram por hum a bombar- 
deira em muito íilencio , e com huma gran- 
de , e refoluta determinação foram commet- 
ter o beítião , e dando de fubito nos Mou- 
ros , que nelle eftavam bem defcuidados 
daquelle fobrefalto , mataram , e efpedaçá- 
ram nelles bem ás fuás vontades , porque 
muitos receberam a morte fem darem fé del- 
ia , fenão depois que fe viram fepultados 
no Inferno, e outros as feridas, e fuás do- 
res os deípertáram. E como os tomaram 
de fobrefalto , não tratavam de mais que 
de falvar as vidas, largando tudo, ficando 
es noííòs fenhores do bcílião , que come- 
çaram a desfazer. Os que hiam fugindo de- 
ram novas no exercito do damno que rece- 
beram , fem faberem dar razão do que era; 
porque não fentíram mais que cortarem-nos , 
fem verem fe eram os nofíbs cento , fe qui- 
nhentos. Rumecan acudio logo lá com to- 
do 



136 ASIÀ de Diogo de Couto 

do o exercito pofto em armas ; mas já foi 
a tempo que os noflbs tinham defmancha- 
do tudo , e em fentindo os inimigos , fe fo- 
ram recolhendo com muita ordem , e fe 
mettèram na fortaleza fem fe perder algum , 
deixando mortos perto de trezentos dos ini- 
migos. 

Vendo Rumecan aquelle damno, man- 
dou alevantar logo humas muito groflas pa- 
redes defronte do baluarte S. João , e a 
fegunda noite que fe começaram , lançou o 
Capitão por huma bombardeira quatorze 
foldados , que pêra iflb efcolheo , que dan- 
do de fubito nos que vigiavam as paredes, 
achando-os dormindo, cortaram os que al- 
cançaram , e os mais aos gritos dos que ma- 
tavam foram fugindo , e ficando tudo def- 
pejado , derribaram as paredes com muitos 
fervidores , que pêra iílb levavam. A re- 
volta foi ouvida no arraial, e acudio hum 
grande tropel de Turcos ; e fendo fentidos 
dos noífos , deixando tudo derribado , fe 
foram recolhendo a feu falvo. 

AíFrontado Rumecan daquella oufadia, 
deo recado a todos os Capitães , que ao 
outro dia havia de dar hum geral aífalto, 
pêra o que fe prepararam. E em rompen- 
do a luz da manhã , começaram a appare- 
cer os inimigos com íuas bandeiras defen- 
roladas, levando diante de todas outra no- 
va, 






Dec. VI. Liv. II. Cap. VIL 137 

va , em que eftava a figura de Mafamede , 
tão feia, e disforme, que caufava medo: 
levava os cabellos (que eram muito com- 
pridos , e efpalhados) por íima do rofto , e 
das cortas , e com efta medonha visão, a 
que fe todos encommendáram , remetteram 
com a fortaleza , tocando todos os feus in- 
ftrumentos , e dando tamanhos gritos , que 
enfurdeciam o mundo. Os dianteiros , que 
eram os Rumes , e Turcos , começaram a 
fuhif pelas paredes derribadas dos baluar- 
tes S.Thomé, e S.João, com huma mui- 
to confiada determinação de morrerem to- 
dos , ou os ganharem , lançando os de de- 
trás grandes panellas de pólvora , e vare- 
jando os altos dos baluartes com fua arca- 
buzaria pêra aíFugentarem os nofíbs ; e os 
feus que fubiam y terem lugar de cavalgar 
em fima. 

Mas os Portuguezes não temendo , e 
tendo em nada aquellas carrancas , efperá- 
ram os inimigos com a mefma determina- 
ção de ou morrerem todos , ou de desba- 
ratarem de todo aquelles bárbaros , e não 
tardaram mais em virarem os Turcos de 
pernas affima , que em quanto os noflbs lhes 
não alcançaram ; mas como lhes puderam 
chegar , logo lhes moítráram quão caro lhes 
havia de euftar quererem pôr os pés em íi- 
ma dos baluartes , pagando muitos com a 

moi> 



138 ÁSIA de Diogo de Couto 

morte lua porfia , e atrevimento ; porque 
afíim como cabiam dez , fubiam vinte , in- 
do á porfia todos a buícar feu damno ; e 
todavia como eram muitos , e vinham com 
aquella barbara determinação , commettê- 
ram todos os baluartes mui denodadamen- 
te , Fazendo todos os feus Capitães , e com- 
panheiros maravilhas nas armas. E poílo 
que em todas as partes havia trabalho , e 
rifeo , todavia o de Luiz de Souíà , em 
que eílava D, Fernando de Caílro com os 
Capitães de íua companhia , eíleve mais 
apertado que todos, porque carregaram al- 
li os mais efcoihidos do exercito , e tam- 
bém eílava mais aberto, edamnificado que 
os outros ; mas os valorofos defenfores dei- 
le fizeram taes coufas , que fe não pode 
imaginar de tão poucos braços poder fa- 
hir tamanho eílrago , como fe via ao pé do 
baluarte nos inimigos , onde eílavam tan- 
tos eftirados , que pêra os outros chegarem , 
era forçado palTar por ílma de corpos , que 
eílavam ainda palpitando , e revolvendo-fe 
110 feu langue com as anilas , e affiicçóes 
da morte. As vozes , os gritos , os brami- 
dos em todas as partes (porque em todas 
fe pelejava) era coufa muito horrenda , e 
medonha. Os baluartes quaíi fe não viam, 
porque eílavam efeondidos em nuvens de 
fogo, e fumo, das muitas panellas de pol- 
vo- 



Dec. VI. Liv. II. Cap. VIL 13? 

vora , e bombardadas , que delles fahiam , 
e que fobre elles cahiam. De huma parte 
chamavam por noíla Senhora , e pelo Apof- 
toio Sant-Iago ; da outra pelo falfo , e en- 
ganofo Mafamede , conítrangendo os Ca- 
pitães Mouros aos feus a fubirem , o que 
elles receavam fazer pelos muitos que viam 
voltar feitos pedaços fobre elles. Os Capi- 
tães , Fidalgos , e foídados Portuguezes 
mereceram muito , porque fizeram tanto , 
que de cada hum fe puderam fazer muitos 
Capítulos ; porque efte foi o dia , em que 
fe elles mais aíTignaláram que todos , por 
pelejarem em meio de chammas , e labaredas 3 
porque em todos os baluartes era tanto o 
fogo ? que parecia que ardia o mundo. Os 
que andavam vertidos de couro . (de que 
muitos fe proveram pêra fua defensão , ) 
pafsáram bem; mas os mais foram queima- 
dos por muitas partes ,, acudindo ás tinas 
de agua pêra matarem o fogo , que lhes an- 
dava pelos veítidos , que eram de algodão, 
tornando logo a feus lugares , e como que 
vinham de refrefco , aífim entravam furio- 
fos , que pareciam leóes famintos. 

Do baluarte do mar nunca ceifou a ba- 
teria , defcarregando todas fuás cargas nos 
Mouros , que lhes ficavam por huma ilhar- 
ga defcubertos , em que fizeram tal eftra- 
go } que de não poderem foíFrer tanto, fe 



140 ÁSIA de Diogo de Couto 

affaíláram , ficando-lhes trezentos , e mais 
mortos aos pés dos baluartes , levando dous 
mil feridos , e abrazados. Dos Portugue- 
zes foi coufa milagrofa, que neíle temero- 
ío afíalto não perigou algum , poito que 
houve muitos feridos , e queimados. O Ca- 
pitão em quanto durou o aíTalto não def- 
cançou , correndo todos os baluartes mui- 
tas vezes , e os proveo de todas as coulas 
neceflarias , que tudo lhe era logo trazi- 
do por aquellas honradas, e animofas mu- 
lheres. 

AfFaílados os inimigos, mandou o Ca- 
pitão repairar os baluartes , e curar os fe- 
ridos com muita diligencia. E vendo o 
grande, e importante repairo , que era pê- 
ra o fogo, vertidos de couro, mandou def- 
armar íeus apofentos dos ricos , e formo- 
fos guadamecis que tinha , e os mandou 
cortar todos em veftidos, que repartio pe~ 
los que abrangeram. 



CA- 



Década VI. Liv. II. 14Í 

CAPITULO VIII. 

De outras baterias que deram á fortale- 
za; e de como chegou a ella o Vigário , 
que foi com recado a Chaul y e Baçaim : 
e de hum grande affalto que os mouros 
deram : e das grandes fomes , e necejji- 
dades , que havia na fortaleza : e de 
hum muito honrofo , e valorofo feito y que 
fez Alar tini Botelho. 

P Afiado eíle aflalto > de que Rumecan 
ficou bem efeandalizado , mandou que 
fe profeguiíTe no entulho da cava des do 
baluarte S. João até o de Sant-Iago , re- 
cebendo fempre grande damno da noíTa ar- 
tilheria , que lhes derribou os caminhos por 
onde paílavam , onde ficavam enterrados 
muitos fervidores. Vendo Rumecan aquelle 
damno , mandou fabricar dous beftiães na^ 
quella parte de muito groflas , e fortes tai- 
pas , em que fe aííeftáram dous leões , a 
que fizeram feus repairos , e mantas , e com 
elles bateram fortemente o baluarte S. Tho- 
mé , até lhes cegarem hum camelo, com 
que lhes tinham feito grande damno , e com 
ifto lhes ficou tempo mais occafionado pêra 
entulharem a cava. Efta obra tinham toma- 
do á fua conta os Janizaros , que nefle cer-t 
co mais fe avantajaram de todos , e aílltn 

o pa- 



142 ÁSIA de Diogo de Couto 

o pagavam também mais , porque já eram 
mortos nos aílaltos perto de quatrocentos. 

Ao outro dia, depois difto paliar, che- 
gou á fortaleza o Padre Vigário, que, co- 
mo diíTemos no Capitulo III. defte Livro 
II. foi a Baçaim , e Chaul a pedir foccor- 
ro , que deo o recado áquelles Capitães, 
que logo delpedíram as cartas pêra o Go- 
vernador , e começaram a fazer preftes gen- 
te, e navios pêra mandarem de foccorro , 
acudindo tcdos a Baçaim pêra dalli atra- 
veíTarem como lhes o tempo déíTe jazigo. 
E vendo o Vigário a muita gente, que al- 
li ficava pêra le embarcar, quiz levar a Dio 
aquellas novas. E pofto que o tempo era 
grofíò , fe embarcou no feu navio com no- 
ve foldados , e fe metteo no golfo , onde 
deo em mares tão groííos , e cruzados, que 
os comiam , vendo- fe muitas vezes alaga- 
dos ; mas á força do trabalho, e diligen- 
cia de todos , chegaram a Dio o dia que o 
camelo fe cegou (como affima diíTemos.) 
Tanto que da fortaleza viram entrar aqucl- 
]e navio, foi grande o alvoroço em todos , 
porque apôs eíle podiam vir outros , e já 
não ficavam tão dcfconfiadòs de foccorro 
como eftavam. Ocatur foi furgir á couraça, 
por onde entrou o Vigário com os feus fol- 
dados , qiíe foram recebidos todos lios bra- 
ços do Capitão, e mais Fidalgos, com pa- 
la- 



Dec. VI. Liv. II. Gap. VIII. 143 

lavras de grande louvor. O Vigário diíTe 
a D. João Mafcarenhas , que em Baçaim fi- 
cavam quinhentos homens com navios pres- 
tes , e negociados pêra partirem em lhes o 
tempo dando lugar , e que não tardariam 
finco dias. Eílas novas fe efpaiháram por 
toda a fortaleza , que foram feítejadas com 
folias 5 danças, e outras moílras de alegria, 
o que tudo foi ouvido no arraial, onde a 
fama lhes levou logo as novas de tudo , 
com queRumecan ficou muito triíte. E ven- 
do que cada dia lhes podia vir foccorro , 
determinou de concluir aquelle negocio pri- 
meiro que elle chegaíle. Pelo que eneom- 
mendou a feus Capitães que fe batefiem to- 
das as eftancias , e fe preparaííem pêra da- 
rem o derradeiro afíalto , em que efperava 
de arrematar a vitoria. 

Neíla conjunção chegou outro Capitão 
chamado também Juzarcão, queSoltãoMa- 
hamude mandava em lugar do morto, que 
era tio de eftoutro , pêra que ficaífe em feu 
lugar com fua gente. A bateria fe come- 
çou a dar, que durou todo aquelle dia, e 
parte da noite , e ao outro dia ás três ho- 
ras da tarde , que fahíram os Mouros dos 
feus exércitos com todo o poder , levando 
diante fuás bandeiras defenroladas , e ao 
fom de muitos , e mui defordenados inftru- 
mentos , remettêram com a fortaleza, ha- 

ven- 



144 ÁSIA de Diogo de Couto 

vendo que daquella feita à levariam nas 
mãos. E chegando os primeiros , e mais 
efcolhidos ao baluarte S. Thomé, que ef- 
tava todo arrazado, começaram a fubir por 
elle com grande foberba , e arrogância. Luiz 
de Soufa , D. Fernando de Caftro com feus 
Capitães , e D. Francifco de Almeida , que 
D. João Mafcarenhas mandou aquelle dia 
pairar pêra alli , receberam os inimigos co- 
mo fempre, quebrando-lheslogo aquelle fu- 
ror , e orgulho , que levavam , lançando 
todos os que alcançaram das paredes abai- 
xo feitos em pedaços. Mas como eram mui- 
tos , logo tornaram a encher os lugares , 
recrefcendo a crueza , e fúria da batalha por 
todas as partes, tanto, que parecia que fe 
desfazia o mundo em gritos , e bramidos. 
O Capitão acudio logo ao baluarte S. Tho- 
mé, queeílava mais arrifcado, mandando-o 
prover de panelías de pólvora , lanças de 
fogo , pedras , e de todos os mais inítru- 
mentos mortaes , que tudo as honradas ma- 
tronas levavam fobre luas cabeças ; porque 
tanto que havia rebate, logo acudiam com 
o feu efquadrao ao trabalho , dando com 
ilío mui grande allivio aos homens , que 
fe não occupavam em mais que em menear 
as mãos em damno dos inimigos , porque 
tudo o que pediam pêra aquelle eífeito, 
achavam logo alli preíles > que as honradas 

mu- 



Dec. VI. Liv. II. Cap. VIII. I45T 

mulheres eram as que proviam , repartindo 
tudo por elles , fem receio de pelouros, 
nem fogo , em que os baluartes fe desfa- 
ziam ; antes com muito animo mettidas an- 
tre os Toldados que pelejavam , os anima- 
vam , e esforçavam , mertendo-lhes nas mãos 
as panellas de pólvora , e algumas também 
as arremeíTavam fobre os inimigos > que 
defprezavam todas aquellas couías , e fé 
mettiam pela morte fem receio decoufa al- 
guma. Sobre o baluarte chovia fogo , por- 
que eíle dia quizeram os Mouros defpen- 
der toda fua munição ; e o que mais em- 
peceo aos noífos , foi terem o vento con- 
tra fi , que todo o fumo , e pó do entu- 
lho , que os inimigos revolviam com os 
pés , os cegava a todos ; mas elles fechan- 
do os olhos , e apertando os dentes , cer- 
ravam com os Mouros denodadamente , 
matando tantos , que não lhes efcapavam 
fenao os que não podiam alcançar. 

No baluarte S.João também houve gran- 
de trabalho, porque foi commettido deju- 
zarcão com todo o feu poder , trabalhando 
pelo fubirem ; mas os feus Capitães com 
os Fidalgos , e cavalleiros , que os acom- 
panhavam , lho defenderam muito bem , 
fazendo nos inimigos mui grande eílrago. 
Bem lhe pareceo a Juzarcão que o levaflfe 
Jogo nas mãos, por eftar todo razo, efem 
Couto. Tom. IIL P. L K am- 



Í46 ÁSIA de Diogo de Couto 

amparo algum ; e porque não tinha ainda 
experimentado o ferro Portuguez , que o 
esforço , e animo dos nofios lhes fizeram 
parecer aquelle baluarte tão forte , como fe 
nunca fora batido , nem damnificado ; por- 
que fe puzeram aquelles valorofos defenfo- 
res por muro, e ameias delle, tão immó- 
veis , que não havia bombardadas , eefpin- 
gardadas, nemchammas de fogo, nem ain- 
da a mefma morte, que os abalafTe , nem 
inoveííe do lugar em que fe punham , fa- 
zendo tanto damno nos inimigos , que já 
cançavam de matar nelles. 

Na guarita de António Paçanha também 
houve grande confusão , e baralha ; mas 
em todos os lugares que os inimigos com- 
mettiam , não achavam outra couía mais , 
que géneros de mortes > e defenganos da 
fua contumácia , moítrando-lhes que quan- 
do cuidaíTem que eftavam mais cançados , 
então os haviam de achar mais fortes , e 
-promptos , pêra lhes defenderem a fua for- 
taleza. E affim ( por não particularizarmos 
tantas miudezas ) os trataram em todas as 
partes tão mal , que os fizeram aífafiar com 
morte de mil e feiscentos , que ficaram el- 
tirados , e efpedaçados aos pés das eítan- 
cias , levando muito maior cópia de feri- 
dos , e abrazados. Rumccan pafmava de 
ver aquelle eftrago feito portão poucos ho- 
mens, 



Dec. VI. Liv. IT. Cap. VIII. 147 

mens , e blasfemava contra o feu Mafame- 
de, porque cuidava que lhe podia elle dai 4 
couía , que não foííem damnos , e perdição. 

Juzarcão ( que efla foi a primeira vez 
que vio , e experimentou as obras dos Por- 
tugueses) ficou admirado , e bem entendeo 
que todo aquelle trabalho era em vão, por- 
que não eram aquelles os homens , a que 
íe tomava a fua fortaleza, por mais raza, 
e desbaratada que eftivefle ; e affim ficou 
dalli com tão grandes defconfianças , que 
qual! corria com feu cargo por demais. 

Dos noífos morreram nefte aífaito três , 
e ficaram feridos trinta e finco , mandando 
o Capitão enterrar huns , e curar outros, 
e reformar os baluartes o melhor que po- 
de , no que gaitou toda aquella noite fem 
dormirem todos , nem repoufarcm. Já nefte 
tempo eram mortos , affim na guerra , como 
de doenças, cento e ííncoenta Portuguezes, 
e não havia sãos mais que duzentos e íin- 
coenta , que o tempo que lhes reftava da 
peleja , gaitavam cm repairar os muros , e 
cm derribarem os edifícios da fortaleza , e 
cafas dos calados, pêra repairo das ruinas* 
e em desfazerem minas , e em outros mui- 
tos trabalhos , em que aquellas matronas 
lhes eram companheiras, fem lhes ficar hu- 
ma hora pêra repoufarcm. Mas o que mais 
os atormentava, e punha em cuidados, era 
K ii a fal- 



148. ASIÀ de Diogo de Couto 

a falta que havia já de mantimentos , por- 
que tinham chegado a eftado , que o al- 
queire de trigo que fe achava , valia a três 
cruzados; e huma gralha, fe a tomavam, 
quatro , e finco , (porque depois de faltarem 
as gallinhas, fe davam eílas aos purgados, 
porque acudiam muitas aos corpos mortos, 
€ fobre os muros as matavam á efpingar- 
da.) E por efta maneira todas as mais cou- 
fas até chegarem a eftado , que comeram 
gatos, cães, e alguns legumes podres, e 
damnados , e com ifto andavam todos tão 
contentes , e tão esforçados , como fe tive- 
ram tudo de fobejo. O Capitão fuppria a 
eílas faltas com tudo o que tinha ; e [e k 
achava por dinheiro , não perdoava a def- 
pezas por remediar aquellas neceflidades. 

As munições eram acabadas , e não ha- 
via mais pólvora , que a que fe fazia cada 
dia , que eram quatro arrobas , que defpen- 
dia o bazalifco cada vez que atirava; mas 
poupava-fe muita por faltarem já panellas 
pêra ella , que era o principal inftrumento , 
com que fe defendiam , de maneira que não 
ficavam já mais que os braços , e as armas 
de mãos. O Capitão provia a tudo com 
muita prudência ; e porque faltavam as pa- 
nellas pêra a pólvora , inventou duas telhas 
dos : telhados juntas huma com outra , com 
os yaos pêra dentro , e breadas pelas ilha» 



Dec. VL Liv. II. Cap. VIII. 149 

gas , e as bocas tapadas com betume , e 
cheias de pólvora por dentro com murrões 
atados peio meio delias , com as pontas 
accezas , ficaram fervindo , e foi muito gran- 
de invenção , porque levavam mais pólvo- 
ra que as panellas , e faziam mor damno 
nos inimigos. Nefte eítado eftavam as cou- 
fas , que era o mais mileravel que podia 
fer, fem os noffos moftrarem , nem haver 
nelles huma pequena triíleza , nem defcon- 
fiança , antes alegres , e tão confiados , que 
lhes parecia que tinham a vitoria; certa. 

D.João Mafcarenhas andava hum pou- 
co melancolizado , porque não fabia o que 
fe paflava no exercito , nem tinha efpias , 
que o avifaífem de coufa alguma. E por- 
que os do baluarte de fobre a barra lhe 
dilíeram que algumas noites viam chegar 
alguns Mouros até a ponte da fortaleza, e 
que alli fe deixavam eftar fem faberem o 
pêra que , e que os mais , que fempre vi- 
nham , feriam de oito até dez; certificando- 
fe daquillo , determinou de ver fe podia 
colher algum delles pêra fe informar do que 
lá hia , e encommendou aquelle negocio a 
hum cavalleiro da fua obrigação, chamado 
Martim Botelho , homem de animo , e mui- 
to determinado. Efte efcolhendo dez com- 
panheiros , no quarto da modorra, os lan- 
çaram pelas bombardeiras da couraça , com 

fó 



r$o ÁSIA de Diogo de Couto 

fó efpadas , e rodelas, por irem mais leves, 
e tomando o caminho da ponte de longo 
da agua muito encubertos , ie foram lançar 
no poíto , que os Mouros coftumavam a ir 
demandar , que era na entrada da ponte , e 
alli baqueados no chão ie deixaram eftar. 
Não tardou muito que não ouviífem rumor , 
e apôs iflb enxergaram gente , que fe vinha 
chegando pêra a ponte , que feriam quaíi 
dezoito peílòas. E entrando a ponte , onde 
os noíTos eftavam agachados á fombra dos 
parapeitos que fazia de huma , e da outra 
parte , e fendo em meio delles , fe levan- 
taram todos a la una , e deram nelles tão 
de fubito , e com tamanha preíTa , que os 
não fentíram fenão nas carnes , que os4iof- 
fos começaram a cortar ás fuás vontades, 
fallando alto , pêra que os do baluarte os 
ouviíTem , que eftavam pêra iífo alerta , que 
em fentindo-os , os começaram a favorecer 
com as trombetas. Os Mouros ficaram tão 
fobrefaltados , que fe não fouberam deter- 
minar ; e todavia fentindo-fe cortar , leva- 
ram das armas , e puzeram-fe em defensão , 
travando-fe antre todos huma perigofa ba- 
talha ; mas os valentes foldados Portugue- 
zes defejofos de ganharem honra , e credi- 
to com o feu Capitão , apertaram tanto 
com os Mouros , que os fizeram voltar: 
fomente hum Noby de nação ( homem de 

opi- 



Dec. VI. Liv. IL Cap. VIII. 15-1 

opinião , c grande cavalleiro , que quiz an-> 
tes morrer que fugir ) ficou na entrada da 
ponte íuítentando o pezo dos noíTos , pe- 
lejando hum arrezoado efpaço com todos 
muito valorofamente. Martim Botelho ven- 
do o esforço daquelle Mouro , defejou de 
o haver ás mãos , c pondo-íe diante dos 
companheiros , endireitou com elle pêra o 
ferir* O Noby tinha huma meia lança, 
com que lhe atirou hum golpe , que lhe 
Martim Botelho tomou na rodela , e lar- 
gando-lha no ferro , cerrou com elle , e o 
liou ; o Noby também o fez com elle , ca-, 
hindo ambos , e tornando-fe logo a alevan-- 
tar fem fedefafirem, andaram travados hum 
efpaço ; e pofto que o Noby era membru- 
do , grande , e muito forçofo , Martim Bo^ 
telho ; que nada lhe faltava daquellas par- 
tes , fechando os dentes, o arcou , e levan-> 
tou nos ares , indo-fe recolhendo com elle 
pêra a fortaleza , foíFrendo grande trabalho , 
porque o Noby perneava , mordia , e ar- 
ranhava ; os mais companheiros não oufa- 
vam de o ajudar pelo não eílorvarem , e 
afíim chegaram á porta da fortaleza bra- 
dando pelos de íima. Já a eíle tempo o 
Noby eftava feguro, porque todos eítavam 
aíldos nelle, e dando-fe recado ao Capitão, 
acudio com huma companhia de foldados , 
e mandou abrir hum pequeno poíligo , (que 

dei- 



içi ÁSIA de Diogo de Couto 

deixou de tapar pêra alguma neceffidade , ) 
por onde os recolheo a todos dentro. Mar- 
tim Botelho lho entregou. O Noby como 
fe vio dentro , deixou-fe cahir no chão , 
fingindo-fe morto. O Capitão entendendo 
que aquillo era manha , diíle a hum folda- 
do que o picaíTe com a ponta da efpada , 
o que elle fez de feição, que em a íentin- 
do fe levantou com tanta preffa , que deo 
matéria de rifo a todos. E recolhendo-fe 
pêra cafa , fez fó com a lingua perguntas 
ao Noby , e delle foube tudo o que quiz , 
affirmando-lhe que Rumecan citava defeon- 
tente , e defeonfiado daquelle negocio , e 
que eram já mortos no exercito quali fin- 
co mil homens dos melhores delle , e que 
todos os mais eftavam alli contra fua von- 
tade. O Capitão o mandou pôr a bom re- 
cado , ficando defalivado do pejo que tra- 
zia , de não ter aviíò do que paíTava. 



CA- 



Década VI. Liv. II. 15*3 

G A P I T U L O IX. 

De comoRumecan mandou minar o baluar- 
te S. João : e do ardil de que ufou de 
hu.ma falfa efpia pêra fegurar os nojjbs : 
e de como arrebentou o baluarte : e da 
morte de D. Fernando de Cajiro , e de 
outros Fidalgos > e cavalleiros. 

COm o íucceflb paíTado , e com tardar 
o íbccorro, que Rumecan tinha man- 
dado pedir a EIRey , ficou tão deíconfiado , 
que receofo de chegar cada dia a Armada y 
que fe fazia ern Baçaim , e que com fua 
chegada lhe aconteceíle hum defaílre , man- 
dou alevantar a artilheria das eftancias , e 
recolhella á Cidade. Ifto foi logo fentido 
dos noflbs , com o que lhes dobrou o ani- 
mo , entendendo as defeonfianças dos inimi- 
gos , e houveram o negocio por acabado. 
Rumecan andava tal, que fe com fua'hon« 
ra pudera alevantar o cerco , fempre o fi- 
zera ; mas já lhe convinha ir com aquelle 
negocio ao cabo , ou pêra bem , ou pêra 
mal. E chamando alguns officiaes de minas y 
lhes encarregou que minaffem o baluarte São 
João , pêra onde fe tinha paliado D. Fer- 
nando de Caftro com Diogo de Reinòfo, 
e alguns Capitães de fua conferva. A mina 
fe começou a fazer por aquella parte , que 

fica- 



i$4 ÁSIA de Diogo de Couto 

ficava fobre a cava; porque, comodiífemos 
no Capitulo IX. do Livro X. da quinta Dé- 
cada , quando Manoel de Soufa de Sepul- 
veda alargou o íitio da fortaleza por aquel- 
la parte, chegou com aquelle baluarte á ca- 
va , e hum grande pedaço delle ficou fobre 
hum entulho, e o mais fobre a rocha. Ifto 
íabia Rumecan , pelo que mandou que fe 
minaíle a parte de fobre o entulho, come- 
çando-íe a pôr as mãos á obra com mui- 
ros officiaes , o que fe fazia por debaixo 
de ruas cubertas até o pé do baluarte íem 
os noíTos o fentirem. E pêra mor diílimu- 
lação , mandou Rumecan que fe picaíTe o 
muro por todas as partes , porque fe náo 
cntendeíTe a mina. E porque também fe não 
precataffem tanto daquella parte , mandou 
armar muitos cavallos de madeira groífa , 
e os fez chegar ao baluarte S. Thomé , co- 
mo que determinava de commetter por elle 
a fortaleza , porque com o tento naquella 
máquina fe defcuidaífem do baluarte São 

João. 

O Capitão vendo a fabrica dos cavai- 
los , receou-os muito , e acudindo áquella 
parte, mandou com muita prefla fazer huns 
revezes de vigas muito groílas nas ilhargas 
do baluarte , que lançavam muito pêra fo- 
ra , pêra dalii defcubrirem bem os inimigos, 
donde os começaram a fuftigar com fomma 

* de 



Dec. VI- Liv. IL.Cap. IX. 157 

de arcabuzaria , e com alguns falcões , com 
ciue lhe fizeram bem de damno ; não deíif- 
tindo com tudo os Mouros da obra , nem 
os noflbs de os efcandalizar. E andando 
continuando na obra da mina , chegou hu- 
ma noite ao pé do muro huma peflba , (que 
o Rumecan tinha mui bem enfaiado , ) e 
bradou pelos de íima , pêra que o recolhef- 
fem ? que tinha muitas coufas que tratar com 
o Capitão , que lhe importavam muito. O 
Capitão lhe mandou lançar huma efcada de 
corda , por onde fubio aílima. Era eíle ho- 
mem hum mercador , Guzarate de nação, 
e por as grandes promeílas que o Rumecan 
lhe fez , fe offereceo a ir com aquelle en- 
gano. Levado ao Capitão , lhe dilTe : » Que 
» elle vinha tocado da mão de Deos , e que- 
» ria ler Chriftão , e que elle o movera a 
» lhe vir dar aquelle avifo , que foubeíle 
*» de certo j que os Magores eítavam já em 
)) campo pêra tornarem fobre o Reyno de 
)> Cambaya com muito groflb poder, eque 
)> Soltão Mahamude eftava por iflb em gran- 
» de confusão ; e que era chegado de re- 
)) frefco a Dio hum grande Capitão chama- 
)> do Mojatecan pêra recolher o campo to- 
)) do , e o levar , e que por iffò os dias 
» pafiados recolheram a artilheria , que a- 
» quellas coufas eftavam em fegredo por 
» não haver alteração j mas que os Capi- 

» tães 



156 ÁSIA de Diogo de Couto 

)> taes tinham determinado de dar hum mui- 
)> to cruel aíTalro á fortaleza , primeiro que 
)> íè partilTem daquella Ilha , por verem fe 
)> a podiam tomar , e que já fe preparavam 
y> pêra elle. » O Capitão lhe diííe : » Que 
}> lhe agradecia o avifo, e eftimava muito 
y> querer-fe fazer Chriftão , que elle lhe pro- 
:» mettia de lhe fazer honras , e mercês , e 
)> o mandou recolher, éter a bom recado. » 
E fegundo noífo juizo , eíle ardil delia eí- 
pia foi pêra os Portuguezes fe defcuidarem , 
e pêra o Capitão não puxar tanto pelo foc- 
corro de Baçaim , que fe efperava cada dia , 
e pêra que efcreveffe ao Governador que fe 
não abalaífe , porque tudo o que o Guza- 
xate diífe era mentira , ainda que fó era ver- 
dade o que diííe da vinda do Mojatecan , 
que o dia dantes tinha chegado de foccor- 
to com dez mil homens* 

Algum alvoroço caufáram nos da for- 
taleza as novas , cuidando ferem verdadei- 
ras , porque já defejavam de fe acabarem 
feus trabalhos > ainda que foffe á curta do 
grande aíTalto que efperavam. Os inimigos 
hiam continuando na obra da mina fem ba- 
terem a fortaleza , o que foi pêra os delia 
muito grande allívio , porque ficaram tendo 
alguns dias de fôlego. Andava neíle tempo 
D. Fernando de Caftro doente de febres , 
ne fabendo que fe efperava por hum grande 

af- 



Dec. VI. Liv. II. Cap. IX. 1^7 

aflalto , mandou-fe levar pêra o baluarte 
S. João , fem o Capitão lho poder defen- 
der , porque defejava de fe não bulir até 
cobrar mais alento. 

Os Mouros acabaram a obra da mina, 
c dia do Bemaventurado Martyr S. Lou- 
renço , que cahe a dez de Agofto , na for- 
ça do meio dia apparecêram os inimigos 
com todo o poder , íuas bandeiras defenro- 
ladas , tocando todos os inftrumentos de 
guerra , com hum ruftico , e mal ordenado 
íòm , e com tão grandes clamores , vozes , 
e alaridos , que parecia que fe fovertia aquel- 
la Ilha : com elta defordenada confusão fe. 
foram chegando á fortaleza com tantas car- 
rancas, que puderam caufar mui efpantofo 
medo a outros muitos mais , c mais folga- 
dos homens , e que não eítiveram em for- 
taleza tão rota , e desbaratada , e tão mal 
provida de tudo como aquella eílava. Mas 
efles poucos que eram cftavam tão anima- 
dos , e contentes , que em nada eítimavam 
aquelJas coufas. O Capitão acudio ao baluar- 
te S. Thomé pêra ver õ campo , e pêra dal- 
]i prover no que lhe parecefle. Os inimi- 
gos foram remettendo ao baluarte S. João 
com aquelle tropel confufo , fem guarda- 
rem ordem de milícia , nem diftinção de 
bandeiras, einfignias; mas tudo mifturado , 
e baralhado 7 como bárbaros que eram. E 

che- 



iç% ASIÀ de Diogo de Couto 

chegando ao baluarte , commettêram a fu- 
bida pelas quebradas , achando primeiro no 
caminho muitos lignaes do que em íima e im- 
perava por elles , que eram muitas das te- 
lhas de pólvora 5 que os abrazou , muitas 
bombardadas , e efpingardadas , de que mui- 
tos cahíram eipedacados. Os inimigos como 
aquella arremettida foi pêra fegurar os do 
baluarte , porque determinavam de lhes dar 
fogo , tornaram a recuar pêra trás como 
que fugiam. 

D. João Mafcarenhas , que eílava no 
baluarte S. Thomé , vendo aquelle termo , 
não lhe pareceo medo ; mas logo entendeo 
que aquillo era ardil pêra darem fogo a al- 
guma mina , e mandou dizer a D. Fernan- 
do de Caítro , que fe recolheííe com todos , 
e deixaffe o baluarte, porque entendia que 
eílava minado , e que aquelle afíàítar dos 
inimigos era pêra lhe darem fogo. Com ef- 
te recado fe começaram a fahir alguns , o 
que viflo por Diogo deReinofo, diffealto: 
)> Não haDeos de permittir que porme- 
» do algum commettam Portuguezes fraque- 
» za, e que fe diga no mundo, que com 
» temor da morre largaram o lugar que 
» luílentavam. Pôde bem fer feja iílo ar- 
ai dil pêra cuidarmos que querem dar fogo 
y> a algumas minas pêra nos affaítarmos , e 
» elles terem lugar de entrarem, e ganhar 

»ef- 



Dec. VI. Liv. II. Cap. IX, 159 

y> efte baluarte , o que fera caufa de fe per- 
» der eíla fortaleza. /Por iífo , fenhores , ve- 
» de o que fazeis , não defampareis eíle ba- 
» luarte que he d'ElRey ; e fe a ventura 
» nos tem aqui guardado noílb fim , não 
» queiramos mais ditofa , nem mais honro- 
» fa morte : c affirmo-vos que o que fe fa- 
» hir daqui, o hei de pregoar por fraco , e 
» covarde. » 

Com eítas palavras fe detiveram todos y 
e tornaram alguns dos que fe tinham ido. 
Os Mouros tanto que fe affafláram, deram 
fogo ás minas , que arrebentaram com tão 
grande eftrondo , que parecia cahirem os 
Ceos. O fumo, que era efpeífo, efcuro, e 
medonho , cubrio toda a fortaleza de fei- 
ção , que fe não viam huns aos outros. To- 
dos aquelles, que eftavam no baluarte, na- 
quelle lugar que cahia fobre a cava , foram 
voando pelos ares , e huns cahíram dentro 
feitos pedaços , outros pêra fora fobre o ar- 
raial dos inimigos ainda vivos , outros fo- 
ram abrazados , e feitos em cinza. Hum 
foldado foi cahir fóra rio campo com a fua 
lança na mão, fem a largar, vivo, e fem 
lesão, que foi logo efpedaçado dos inimi- 
gos. Dos que eftavam nefte baluarte coube 
melhor forte a D.Diogo de Souto-Maior, 
que voando pelo ar com a força do fogo , 
cahio dentro na fortaleza com huma lança 

nas 



i6o ÁSIA de Diogo de Couto 

nas mãos , porque veio efcorregando até o 
chão, onde ficou fem Jesão alguma. Todos 
os que eftavam na parte do baluarte , que fi- 
cava fobre a rocha > cahíram dentro na ca- 
va , huns com pernas quebradas , outros com 
braços , outros com focinhos , e outros com 
outros membros ; mas efeapáram alguns. 
Morreram neíla defa ventura quaíí feflenta 
peflbas das principaes da fortaleza , e os de 
nome foram : D. Fernando de Caftro em 
idade de dezenove annos , mancebo , em que 
o mundo tinha póftos os olhos pelas gran- 
des efperanças que de íl dava ; mas parece 
que a fortuna invejofa do que promettia , 
ordenou que acabaíTe com tal género de 
morte , pêra maior mágoa do velho pai. 
Morreram mais D. João de Almeida , Gil 
Coutinho, Rny de Soufa, Diogo de Rei- 
nofo , Luiz de Mello , Álvaro Ferreira , 
Trilião de Sá , e outros. Efeapáram treze 
peflbas, as três morreram dalli adous dias, 
os mais viveram , e antre eíles foi D. Pe- 
dro de Almeida , que ficou tão abrazado, 
que muitos dias fe não alevantou da cama. 



CA* 



Década VI. Liv. II. 161 

CAPITULO X. 

De como os Mouros commettêram o b aluar-* 

te S. João : e do grande valor , com 

que finco homens o defenderam : e 

de outras coufas. 

VEndo os Mouros tamanho eftrago , e 
o baluarte todo arrazado , remettêram 
a elle com grandes gritas , e alaridos pêra 
o ganharem ; mas acharam nas ruínas finco 
homens , que fe lhes apprefentáram com 
muito grande esforço , que acudiram áquel- 
la parte , porque eftava fó , e a defenderam 
fòs como fe foram quinhentos : eíles foram 
António Façanha , Bento Barbofa , Bartho- 
lomeu Correia , Meílre João , que naquelle 
tempo não quiz eílar em caía , e do quin- 
to não achámos o nome em parte alguma, 
ienão em Jeronymo Corte-Real nefte cerco 
que fez em veríb , que diz que era Baftião 
de. Sá , fem declarar fe era o filho de João 
Rodrigues de Sá , fe outro ; porque pêra 
fer aquelle , temo-lo deixado em Baçaim , 
curando-fe da íua perna , aonde fe foi pelo 
mandar o Capitão num catur , em que man- 
dou o fegundo recado a Baçaim a pedir 
■foccorro ao Capitão , e com cartas pêra .o 
Governador , em que lhe dava conta de 
tudo o que até então era acontecido , como 
Couto. Tom. III. P. L L cf- 



i6z ÁSIA de Diogo de Couto 

eftá dito no fim do Capitulo VI. do Livro 
II. Em toda a índia não achámos homem 
deite tempo , que nos íbubefíe tirar eíta dú- 
vida, bafta qualquer que feja. Os inimigos 
(como hiamos dizendo) entrando por meio 
daquellas nuvens de fumo , cuidando acha- 
rem a entrada franca , e que daquella feita 
ganhaífem a fortaleza, deram com* aquelles 
finco Heitores , que lha defenderam com 
tanto valor , e animo , fazendo taes coufas , 
que palmaram os inimigos , e que não ef- 
pecificamos , porque não temos palavras baf- 
tantes pêra os engrandecer. 

Aqui pudéramos com muita razão dizer 
o que Lúcio Floro dos Romanos , engran- 
decendo fuás obras , que fe fenão acharam 
efcritas em Annaes , que fc puderam ter por 
fabulofas : e nós dizemos deites finco Ca- 
valleiros , (e de todos os mais, que neíte 
cerco fe acharam,) que fenao houvera ain- 
da vivas tantas teítemunhas de fuás grande- 
zas , e fenao eftiveram ainda tão frefcas na 
memoria de todos os homens as façanhas 
que neíte , e no outro cerco fizeram os Por- 
tuguezes , que nos não atrevêramos a ef- 
crevellas, ainda que não faremos mais que 
contar feus feitos puros , e fem ornamento 
de palavras , porque elles mefmos ficam fen- 
do o louvor de quem os obrou. E ainda 
podemos dizer mais, que aquelles dos Ro- 
ma- 



Dec. VI. Liv. II. Cap. X. 163 

manos vieram a fer celebrados no mundo 
mais pela eloquência , e facúndia de feus 
Efcritores, que por fua grandeza : porque 
elles nunca pelejaram contra bazalifcos , fal- 
vagens , quarráos , e outros inftrumentos dia- 
bólicos , arruinadores do mundo , e deftrui- 
dores de todo o esforço , e valor delle , co- 
mo o fizeram eftes noífos Portuguezes , cu- 
jos feitos não fabemos fe a inveja (ainda 
de feus naturaes) caufou ficarem muitos em 
efquecimento. 

E tornando á noíTa hiftoria. Andando 
a coufa travada com tão defigual partido, 
como era o de treze mil homens (que tan- 
tos commettêram o baluarte ) contra finco 
fós, chegou o Capitão com quinze compa- 
nheiros, com o animo tão feguro , e intei- 
ro , como fenao vira tudo tão arriícado , c 
em tamanho perigo ; e pondo-fe na defen- 
são do baluarte , animando, e esforçando 
os feus , fez tantas coufas , que pafmavam 
os inimigos , que trabalhavam tudo o que 
podiam por concluírem aquelle negocio y 
andando afFrontados de fe defenderem de 
tamanho poder tão poucos homens , e mais 
em hum baluarte tão arrazado , e defcuber- 
to ; e afiim pelejavam como homens , que 
não temiam a morte, que muitos recebiam 
das mãos deites poucos. A crueza era gran- 
de , os gritos, alaridos, eftrondçs, e bar- 

L ii ba- 



164 ÁSIA de Diogo de Couto 

bara vozaria dos Turcos ,' e Mouros era 
tudo de feição que caufavam medo. Efteve 
aqui a couía por muitas vezes tão arriíca- 
da , que a cada momento tinham os das ou- 
tras eftancias rebate , que a fortaleza era 
entrada. O efquadrão feminino deiamparan- 
do as cafas , le foram ao baluarte pêra nel- 
le morrerem em companhia daquelles esfor- 
çados defenfores , e dos caros confortes que 
algumas alli tinham , levando fobre fuás ca- 
beças pólvora, pedras, e outras coufas pê- 
ra oíFenderem aos inimigos , mettendo-fe no 
meio dos que pelejavam com ânimos varo- 
nis , esforçando 3 e animando aos que pele- 
javam. 

A boalfabel Fernandes com huma chu- 
ça nas mãos fe metteo no meio daquelle 
conflifto , dizendo : » Ah' filhos , pelejemos 
)> pela Fé de Chrifto , e moftremos a eftes 
D) inimigos delia, que temos Deos por nós 
)> que nos favorece. » E como andava pela 
fortaleza huma voz que o baluarte era per- 
dido, defamparáram alguns Capitães as ef- 
tancias, e foram-lhes acudir; e ao mefmo 
tempo chegou o Padre Vigairo com hum 
Crucifixo levantado em huma haftea , e en- 
trou pelo baluarte com aquella Divina ban- 
deira de noífa redempção arvorada, e pon- 
do-fe no meio de todos , levantou a voz, 
dizendo : 

* Ah 



Dec. VL Liv. II. Cap. X. i6f 

» Ah Cavalleiros de Chriílo , aqui tendes. 
» a figura de voíío Deos, que vos não ha 
» de defamparar : aqui o vereis com as mãos , 
» e pés cravados , e lado aberto derraman- 
» do feu precioíiffimo Sangue porvolTo ref- 
» gate: derramai vós também o-voflb ago- 
» ra pelo reígatar a ■ elle ', porque não vá 
» ter a poder de feus inimigos.. Pelejai, va- 
» Jorofos Portuguezes , e defendei voíTo 
)j Deos , que elle eílá comvofco neíles tra- 
)> bailios, pêra vos ajudar a defender. Aqui 
» o tendes , ponde os olhes , e o coração 
)) nelle , porque delle vos ha de vir o es- 
)> forço contra voííòs inimigos.» E aflira 
íe aprefentou diante no mor perigo. Os que 
eftavam accezos na batalha ouvindo. a voz, 
levantando os olhos, que viram o Crucifixo 
arvorado, bradando per mifericordia , re- 
mettêram com os inimigos como leões bra- 
vos, e lançando-fe no meio delles , fizeram 
tão grande eftrago que foi efpanto. 

O Capitão não íè defeuidou de fua obri- 
gação , porque vendo o baluarte com gen- 
te baftante pêra lua defensão , e que os ini- 
migos já começavam aafracar, fahio-fe delr 
le, e mandou ajuntar todos os officiaes , e 
eferavos , e ordenou logo pela banda de 
dentro daquelle baluarte , huma muito forte 
tranqueira de pedra , e terra , que toda foi 
acarretada ás cabeças daquellas honradas mu* 

lhe- 



i66 ASIÀ de Diogo de Couto 

lheres, pofto que das mefmas ruinas do ba- 
luarte acharam á mão a mór parte , e affim 
íiuns trabalhavam , e outros pelejavam , fuí- 
tentando o pezo da batalha , que durou até 
fe pôr o Sol , e o mundo fe encher de tre- 
vas, que os inimigos fe afFaftáram com per- 
da de trezentos, a fóra oitocentos feridos, 
e queimados. Dos nolTos morreram alguns , 
e dos finco , a que podemos dar o fobre no- 
me de Manlios Capitolinos , morreo fó 
Meftre João , que foi perda geral , affim 
por feu officio , como por feu esforço, ca- 
ridade , e outras partes de homem muito 
honrado. Pelejou efte dia de feição , que 
lhe tiveram todos inveja ; e depois que o 
Capitão chegou de foccorro , nunca fequiz 
fahir do feu lugar , com ter muitas feri- 
das , trabalhando todos pelo pouparem , e 
affim acabou ataçalhado. 

Ifabel Madeira fua mulher , que anda- 
va na obra da tranqueira com as mais com- 
panheiras , em lhe dando atrifte nova, cor- 
reo áquella parte com muitas que a feguí- 
ram, e achando o amado conforte efpeda- 
çado > o alevantou nos braços ajudada de 
fuás amigas , e o levou pêra fua cafa , on- 
de o chorou com muita honra , enterran- 
do-o logo com grande dor , e triíteza de 
todos. E acabado o fúnebre autho , tornou 
muito fegura, e com grande coração áobra 

da 



D e,c. VI. Liv. II. Cap. X. 167 

da tranqueira , que durou toda a noite, que 
fe acabou muito larga , e forte , com o que 
aquella parte ficou mui fegura. 

Tanto que amanheceo , foi o Capitão re- 
colher os mortos , e antre elles acharam o 
bem logrado mancebo D. Fernando de Caf- 
tro , (que aílim lhe podemos chamar , ) pois 
morreo de feição , que mais fe lhe pode ter 
inveja que mágoa; acháram-lhe a cabeça to- 
da pizada. O Capitão com todos os Fidal- 
gos o levaram á Igreja , e todos os mais , on- 
de foram enterrados junros , tirando D. Fer- 
nando ,' que o puzeram- feparado dos outros. 
Muitos dias durou o ruim cheiro dos cor- 
pos mortos , e queimados , que ficaram en- 
terrados nas ruínas do baluarte , o que deo 
a todos muito grande trabalho. Com iílo fi- 
cou a fortaleza em tal eílado, que haviam 
que fe não poderia defender, aílim por ro- 
ta, como por falta de tudo. 

E praticando D. João Mafcarenhas com 
os Capitães fobre o que fariam > porque fe 
lhes acabavam as munições , houve alguns 
de parecer , que tanto que de todo fe aca- 
baííem , que fe encravaíTe a artilheria , e 
que fahiflem todos aos inimigos , e morref- 
fem pelejando com elles em campo , e af- 
úm pareceo a todos bem. Com efta refolu- 
ta determinação fe foram remediando o me- 
lhor que puderam. 

DE- 






DÉCADA SEXTA. 
LIVRO III. 

Da Hiftoria da índia. 

CAPITULO I. 

Z>0 ^#<? aconteceo na viagem a D. Álvaro 
de Cajlro até Chaul : ^ die r#7#0 António 
Moniz Barreto , * Garcia Rodrigues de 
Távora chegaram a Dio : e do que fez 
Rumecan. 

PArece razão que continuemos com 
D. Francifco de Menezes , e com Dom 
Álvaro de Caftro , que no Capitulo 
VIL do Livro II. deixámos partidos de Goa , 
que foram feguindo fua viagem com tão 
grandes tempeliades , que cada dia fe viam 
alagados , e perdidos ; porque o vento era 
traveísao , e os mares tão alevantados que 
fui) iam. ás nuvens , e pêra lhes porem as 
poppas haviam de arribar pêra a terra , on- 
de ficavam arrifcados a varar. Eencommen- 
dando-fe a Deos ^ foram rompendo por to- 
das 



Dec. VI. Liv. III. Cap. I. lép 

das aquellas tempeílades ,. que além de ven- 
to rijo , e mares groífos , havia tão gran- 
des chuveiros , e cerrações , que quafi não 
differençavam o dia da noite. Alguns navios 1 
por de todo fe verem perdidos foram arri- 
bando á terra , e tomaram algumas encea- 
das , e rios , os mais foram fua derrota. 
D. Francifco de Menezes , que era partido 
diante , chegou a Baçaim alagado, e def- 
apparelhado , onde feu irmão D. Jeronymo 
de Menezes o reformou , e negociou , e lo- 
go fe mcíteo no golfo pêra atravefíar a Dio ; 
mas achou-o tão feroz, e tempeíluofo , que 
lhe foi forçado tornar a arribar a Baçaim-* 
onde chegou alagado. Alli fe deixou ficar 
pêra efperar outra conjunção ; mas vendo 
que o tempo não ceifava , e que a fortale- 
za podia eflar em muito trabalho , tornou-» 
fe a embarcar , e commetteo outra vez o 
golfo, que achou como de primeiro, e que- 
rendo forçar , o navio fe defapparelhou de 
todo , e tornou a voltar pêra Baçaim com 
tudo alijado ao mar. 

Ao outro dia chegou D. Álvaro de Caf- 
tro com a mor parte dos navios tão deftro- 
çados dos mares , e ventos , que lhe foi 
forçado reformallos , no que fe deteve três 
dias , e nelles chegou António Moniz Bar- 
reto no caravelão das munições , que não 
paífou menor trabalho que todos eiles : e 

fur-' 



I70 ÁSIA de Diogo de Couto 

íurgindo na barra , o entregou a D. Álvaro 
de Caítro , porque determinava paílar a Dio 
em algum navio pequeno , pêra o que le 
foi a terra fazer preftes. Eflando aqui refor- 
mando-fe , crefceo o tempo de tal manei- 
ra , que efteve o caravelão quafí perdido, 
E porque era a mais importante coufa que 
hia de lbccorro, acudio D. Álvaro deCaf- 
tro com alguns Capitães , e navios pêra lhe 
valerem. António Moniz Barreto acudindo 
á praia, achou huma galueta de hum merca- 
dor prefles , e efquipada de marinheiros , e 
embarcando-fe nella , foi acudir ao carave- 
lão que eftava em perigo , e nenhum navio 
dos outros lhe podia chegar com vento , 
e mares ; e António Moniz Barreto forçan- 
do a galueta que era leve, e andava na ba- 
bugem da agua , teve tal ventura que che- 
gou ao caravelão , e o lbccorreo , e fazcn- 
do-lhe dar traquete , o metteo pêra dentro. 
E vendo que a galueta foffreo tamanhos 
mares , determinou de paflar nella a Dio, 
e a fretou a feu dono á fua vontade , e fe 
negociou pêra ao outro dia fe partir em 
tanto fegredo , que não deo conta a peíTòa 
alguma ; porque quatro , ou finco compa- 
nheiros , que determinava de levar, em ca* 
fa os tinha , e ao embarcar os levaria com- 
igo , como fez ao outro dia. E eftando na 
praia 7 chegou Garcia Rodrigues de Távora , 

e ven- 



Dec. VI. Liv. III. Ca?. I. 171 

e vendo-o embarcar , lhe pedio o quizefle 
levar com figo ? do que António Moniz Bar- 
reto fe efculbu com lhe dizer : » Que elle 
» era hum Fidalgo tão honrado , que fe 
)> chegaíTe a Dio , haviam todos de dizer 
» que a galueta era fua , e que elle naquella 
» honra não queria companheiro. » Garcia 
Rodrigues de Távora lhe diíle : » Que el- 
» le não fe queria embarcar fenão por feu 
)> foldado , e que aflim o diria , e lhe da- 
)> ria ainda diííb hum aííignado cada vez 
» que lho pedifle. » Com iílo lhe não pode 
António Moniz Barreto negar a embarca- 
ção , mettendo-fe nella , que não levava ou- 
tra coufa mais que avila , que he arroz tor- 
iado, lanhas, e cocos pêra mantimentos, 
e pêra beberem ; porque nenhuma outra 
agua , nem coufa de comer fe podia arrif- 
car , nem guardar. 

Eftando já embarcados , chegou á praia 
Luiz de Mello de Mendoça , primo de An- 
tónio Moniz Barreto , pêra fe embarcar com 
elle ; e vendo como a galueta hia pejada , 
lhe pedio que fe paíTaííe a Dio , lha tor- 
naííe logo a mandar pêra fe elle ir nella , 
e elle lho promctteo. 

Indo-fe já defamarrando , chegou abor- 
da da praia hum foldado chamado Miguel 
Darnide , ( que depois viveo muitos annos 
em Lisboa, e EIRey fe fervio delle,) que 

era 



172 ÁSIA de Diogo de Couro 

era da obrigação de António Moniz Barre- 
to : efte foube áquella hora que fe partia , 
e bradando por elle, lhe difie : » Pois que 
)> heiífo, Senhor, determinais ir a Dio fem. 
» mim ? » António Moniz Barreto lhe re- 
ípondeo , que agalueta era pequena pêra el- 
]e : e era verdade , porque Miguel de Ar- 
nide era tão agigantado, que trazia na cin- 
ta hum montante por efpada ordinária. E 
vendo elle que o não queria recolher , to- 
mou a efpingarda na boca , e lançou-fe ao 
mar á galueta , que hia com o cabo iolto. 
António Moniz Barreto vendo aquella hon-^ 
rofa porfia , ainda que hia de largo já , e 
juntamente ília determinação , voltou a el- 
Je , e o recolheo. E fahindo pela barra fo- 
ra , deo á vela , e começou atraveífar, e a 
engolfar-fe. E entrando naquelle bravo , e 
empolado golfo , deram naquelies marou- 
ços que os comiam. A galueta como era 
pequena , e leve , faziam os mares delia o 
que queriam. E entrando-a por todas as 
partes , e quaíl cubrindo-a , ella furdio fem- 
pre por diante , e foi paíTando, e furando 
aquellas medonhas , e temerofas ondas. Nef- 
te rifeo , e trabalho pafsáram todo aquelle 
dia , e parte do outro , fem dormirem, nem 
repoufarem toda a noite ^ e ao fegundo á 
tarde foram a ver vifta da terra já perto da 
fortaleza P que foram demandar, chegando 



Dec. VI. Liv. III. Cap. I. 175 

já de noite. António Moniz Barreto hia re- 
ceofo que tivefle acontecido algum defaf- 
tre á fortaleza ; e indo entrando á barra , 
riiíTe: »Que ninguém fallaíTe , até verem fe 
» da fortaleza chamavam por elles. » Edif- 
íe em fegredo a hum foldado muito de fua 
obrigação , que foííe de proa , e que ao 
furgir eftiveíTe preííes ; e fazendo-lhe elle 
hum certo íignal , ( que Jhe deo , ) cortafle 
o cabo , e mandaíTe affafiar a galueta pêra 
fora". Indo já dentro , foram furgir junto 
do cães fem fallarem, nem de lima os ve- 
rem por fer efcuro ; e aíTim eftiveram em 
filencio pêra verem fe ouviam alguma cou- 
fa, e fentíram fallar os Mouros, que eíta- 
varn nas eftancias a entrada da ponte , e vi- 
rem alguns chegando pêra a praia , porque 
já viam a galueta. António Moniz Barreto 
havendo que era tudo perdido, bradou ao 
foldado que eftava de proa , que cortaíle o 
cabo ; mas o foldado , porque lho elle ti- 
nha dito em fegredo , e que lhe faria pêra 
iííb íignal, vendo que lho dizia alto, ha- 
vendo-o por opinião, lhe refpondeo , que o 
foífe elle cortar. 

Outros contão iílo de outra maneira , e 
dizem que tinha António Moniz Barreto 
poíto aquelle foldado na proa por fer ho- 
mem de recado , e que prefentes todos lhe 
diííera, que fe fentiííe Mouros, cortafle o 

ca- 



174 ÁSIA de Diogo de Couto 

cabo , e que o foldado bem os fentíra ; mas 
que não bullíra , pelo que António Moniz 
Barreto , que eftava perto , lhe diíTe que 
cortaíTe o cabo muito, paílò fem o ouvir al- 
guém , e que o foldado virando pêra elle 
quafi agaftado , lhedifle que o cortaíTe elle; 
e deixando a proa , fe recolhera pêra dentro , 
dando-lhe a defconfiança de poderem algu- 
ma hora dizer, que elle cortara o cabo de 
medo. E eftando niíto , foram fentidos do 
baluarte de fobre a barra , e bradando as 
vigias , perguntaram o que era ? Ouvindo An- 
tónio Moniz Barreto fallar Portuguezes , fe 
foi chegando á couraça , e fe deo a co- 
nhecer. 

Alguns dizem que ao perguntar de íi- 
ma , refpondêra hum homem de proa , que 
vinha alli Garcia Rodrigues de Távora , 
porque era elle de fua obrigação : do que 
enfadado António Moniz Barreto , eftivera 
pêra o arrepelar , bradando então alto : Sou 
António Moniz Barreto ; e dando recado 
ao Capitão, acudio com grande alvoroço á 
couraça , mandando abrir huma bombardei- 
ra por onde os recolheo dentro , levando-os 
nos braços com grande prazer, e alvoroço 
de todos , porque alli acudiram todos os Fi- 
dalgos , e Cavalleiros aos receber. D. João 
Mafcarenhas perguntou á orelha a António 
Moniz Barreto por D. Álvaro de Caftro, 

e on- 



Dec. VL Liv. III. Cap. I. 17? 

e onde ficava ; ao que lhe refpondeo alto , 
que todos o ouviflem : )> D. Álvaro , Se- 
» nhor , fica com feíTenta navios aqui em 
» Madrefaval , e não tardará dous dias. » 
Eflas novas correram logo pela fortaleza > 
qne caufáram geral alegria em todos. O Ca- 
pitão recolheo aquelles Fidalgos , e òs foi 
agazalhar, António Moniz Barreto no ba- 
luarte S. Thomé, e a Garcia Rodrigues de 
Távora no de S. João : e depois de reco- 
lhidos , apartou António Moniz Barreto o 
Capitão , e lhe diíTe : » Que D. Álvaro de 
» Caílro ficava ainda em Baçaim fem poder 
» atraveílar por não fazer tempo. » 

Ao outro dia , que foram quatorze de 
Agoílo , ( quatro dias depois do defaftrado 
fucceffo do baluarte S.João , ) defpedio An- 
tónio Moniz Barreto a galueta pêra vir 
feu primo Luiz de Mello deMendoça, em 
que o Capitão mandou embarcar hum fol- 
dado dos da mina , que ficou fem mãos, 
por quem efcreveo a D. Álvaro de Caílro , 
que fe apreflaíTe , porque eílava em grande 
aperto , avifando a todos os da galueta , que 
não diíTeílem a peílba alguma da morte de 
D. Fernando , nem do defaftre do baluarte. 
Efte navio atraveíTbu o golfo com muito 
grande trabalho , e rifco , e ao outro d:a 
foi tomar Baçaim , onde logo fe fouberam 
as novas de António Moniz Barreto , e 

Gar- 



■'if6 ÁSIA de Diogo de Couto 

Garcia Rodrigues de Távora ferem chega- 
dos a Dio : com o que todos fe alvoroça- 
ram pêra commetterem a jornada. E deixa- 
remos os de Baçaim por hum pouco , por 
continuarmos com as coufas do cerco. 

Sabendo Pvumecan o grande damno , que 
as minas fizeram , e da morte do filho do 
Governador, e de tantos Fidalgos, e Ca- 
valleiros , tornou a mandar plantar a arti- 
Iheria , que tinha recolhido , nos lugares em 
que dantes eftava , porque fem dúvida hou- 
ve que tomaria a fortaleza pela pouca gen- 
te que lhe ficava, e logo com muita preíFa 
mandou minar o baluarte Sant-Iago , e pi- 
car o lanço do muro que hia pêra elle, o 
que tudo fe fazia por baixo de ruas , e pon- 
tes , fem os noííos os verem , pofto que 
bem ouviam o tom , fem faberem em que 
parte era. 

O Capitão receando-fe do cubello de 
. António Paçanha , mandou-lhe fazer por 
dentro grandes, e fortes repairos, e abrir 
efcutas , pêra ouvirem fe o minavam. Os 
Mouros acharam o muro tão forte , que o 
não puderam romper com picões j o que 
fabido por Rumecan , mandou trazer mui- 
to vinagre, com que molharam o muro,. .e 
depois lhe applicáram muito fogo , com o 
que fe começou a desfazer , (como o já 
Anibal fez aos caminhos dos Alpes , por 

onr 



Déc. VI. Liv. III. Cap* L 17? 

onde paflbu > ) pelo que fe verá , que nãa 
faltaram a eítes Capitães todos os ardis dos 
paliados , e que não pelejavam os Portugue- 
zes na índia com homens nus , e defpidos f 
e tão bárbaros como alguns os fazem , fe- 
não contra tão grandes Capitães , como fo- 
ram os Carthaginenfes , e contra mais bom- 
bardas das com que os Romanos nunca 
pelejaram. O touro começou a cahir, e no 
recanto antre o cubello , e o baluarte São 
Thomé, começaram os Mouros huma mi- 
na , que foi fentida dos noflbs ; o Capitão 
lhe mandou logo fazer huma contra-mina > 
e pela banda de dentro foi alevantando hum 
muro mui groflb , e forte , em cujo traba- 
lho fuppríram as famofas mulheres com mui- 
to trabalho , zelo 9 e rifco. 

CAPITULO II. 

De alguns ajjaltos , que os Mouros âeram 
d fortaleza : e de huns ejcravos , que 
delia fugiram pêra os Mouros : e de co- 
mo os inimigos ganharam ametade da 
baluarte Sant-Iago. 

COntinuando os inimigos na obra das 
minas > acabaram de as fazer dous dias 
depois da chegada de António Moniz Bar- 
reto ; e ao outro , que foram dezefeis de 
Agofio , querendo-Ihe dar o fogo , fahíram 
Couto. Tom. III. P. I. M do 






178 ASIÁ de Diogo de Couto 

>do arraial com fuás bandeiras defenroladas, 
com os terrores , e efpantos que das outras 
vezes , e com aquella ruftica deíbrdem re- 
mettêram ao baluarte Sant-Iago , como que 
lhe queriam dar aflalto. Os noííos que efta- 
vam já preftes , efperáram por elles com 
muita confiança. Vendo os inimigos o ba- 
luarte cheio de gente, tornáram-fe a affaf- 
tar , como o fizeram o dia do baluarte de 
S. João ; e como os noflbs eftavam já avi- 
fados nelle , fahíram-fe pêra fora. Os ini- 
migos deram o fogo , e chegando ás mi- 
nas , achando grande força nos repuxos , 
que pela banda de dentro eftavam feitos , 
arrebentou pêra fora toda a face do muro 
com mui grande braveza , e foi cahir fobre 
os meímos inimigos , ficando mais de tre* 
zentos delles efpedaçados debaixo das pare- 
des, vafando-Fe o fogo pelas contra-minas 
de dentro , fera fazer mais damno , que fi- 
car a fortaleza toda cuberta de hum efpef- 
fo , e negro fumo. 

Os Capitães, Fidalgos, e Cavalleiros, 
que fe tinham aífaftado , rompendo por aquel- 
las trevas , tornáram-fe ao baluarte. Os ini- 
ínigos tanto que as minas arrebentaram, re- 
mettêram com o baluarte com todo o po- 
der, e começaram a fubir pelas ruinas del- 
íe ; mas foram recebidos dos de lima nas 
pontas das armas , fazendo-os tornar por 

de- 



Dec. VL Liv. HL Cap. II. 179 

( detrás com as entranhas abertas fobre os 
feus. Aqui foi a maior, e mais afpera ba- 
talha de todas as que houve em todo ocer* 
co ; porque como os inimigos eftavam der- 
redor do baluarte com mais de vinte mil 
homens , eram tantos os arremeííbs fobre 03 
noíTos , tanto o fogo , e tantos todos os 
mais inftrumentos de mortes , que cubriam 
os ares. Tudo o que fe Via eram labare» 
das, e trovões; quanto fe ouvia gritos , bra- 
midos , prantos , e Mimas dos miferos, 
que cahiam das mãos dos noíTos fobre oa 
feus , abrazados , e feitos pedaços. Os Por- 
tuguezes não eftavam fora do damno ; por* 
que como o fogo era muito , e os arreme£ 
fos tão baftos , huns queimados acudiam ás 
tinas a fe banharem na agua , e outros corri 
as cabeças quebradas, braços, e pernas efc 
pedaçadas, fahiam-fe a pedir cura, de ma- 
neira que em todas as partes havia defaven- 
turas. As honradas matronas não faltaram 
aqui , porque em todos os aífaltos tiveram 
fempre cuidado de acudirem ao baluarte, e 
andavam antre os que pelejavam , metten- 
do-lhes nas mãos panellas de pólvora , e 
dando-lhes todas as mais coufas que eram 
neceííarias , e que fe pediam , porque fe 
íiao tiraíTem dos feus lugares ; tanto que hum 
cahia , era tirado por ellas , e levado a cu- 
rar. A boa Ifabel Fernandes andava- com 
M ii hu- 



i8o ÁSIA de .Diogo de Couto 

huma chuça nas mãos , e com o feio cheio 
de feus bocadinhos , humas vezes pelejan- 
do , outras animando a todos , e aos que 
via. fracos acudía-lhes com feus mimos , met- 
tendo-lhos na boca , dizendo : » Esforçai , 
» Cavalleiros de Chrifto , e pelejai por fua 
y> fé, que elle eílá comvofco. » 

António Moniz Barreto, e Garcia Ro- 
drigues de Távora acudiram áquella parte; 
e por fer eíle o primeiro aíTalto , em que 
fe acharam , fe aflignaláram tanto , que com 
as armas banhadas em fangue , e os roftos 
cheios de pó, efuor, andavam como leões 
fazendo tal eítrago nos inimigos , que lhes 
fizeram perder aquelle primeiro furor. No 
cubello de António Paçanha, e nas mais es- 
tancias não eftiveram ociofos , antes com fua 
artilheria, e arcabuzaria fizeram por fua par- 
te afsás de damno. Os Mouros vendo- fe 
tão maltratados , foram-fe affaílando pafma- 
dos das coufas que viam fazer a tão pou- 
cos Portuguezes , porque já a eíle tempo 
jião havia mais de cento e íincoenta : per- 
deram os Mouros defta vez duzentos , a fo- 
ra os trezentos que as minas lhes mataram, 
Rumecan não fe fabia determinar , porque 
quanto mor cabedal mettia , e quantos mais 
ardis inventava , tanto menos fazia , e tan- 
tas mores perdas recebia. 

Mojatecan , que hgyia pouco era. che- 
ga- 



Dec. VI. Liv. III. Ca p. II. 181 

gado de foccorro , ficou como aflbmbrado 
do que vira fazer aos Portuguezes ; porque 
como nunca os vio pelejar , tinha delles mui 
differente opinião. Rumecan já nao fabia 
que fizeíle , e encommendou aos Meftres de 
Campo , que bateíTem a Igreja da fortale- 
za , (que parecia de fora por eílar no mais 
alto delia,) por cuidar que nifíb faria gran- 
de offenfa á nofla Religião, e que caufaria 
grande mágoa nos noííos , e affim foi em 
poucos dias arrazada , e poíla por terra. Ef- 
tava neíle tempo a fortaleza tão deftroçada 
por todas as partes , que quem de. fora a 
via , parecia que fc não poderia defender , 
nem íuftentar a hum muito pequeno poder , 
quanto mais a tamanho exercito , a tão po- 
tente artiiheria , e a tantos outros inftrumen- 
tos de guerra , porque nem tinha muros , 
nem coufa , qne pudeíTe amparar os de den- 
tro , mais que os feus valorofos peitos , que 
todos aprefentáram ás furiofas bombardas , 
e ás muitas , e mui amiudadas efpingarda- 
das , e áquellas efpeíías nuvens de frechas, 
e labaredas de pólvora , que cahiam fobre 
todos , e aííim fe podia dizer por eíles o 
que Agifilao pelos Lacedcmonios , que fuás 
Cidades não tinham outros muros , mais que 
os peitos dos feus Cidadãos. 

Eftando as coufas neíle bem ruim eíta- 
do> fugiram da fortaleza três efcravos, que 

fo- 



tXi ÁSIA de Diogo de Couto 

foram levados a Rumecan , e delles foube 
a íniferia dos Portuguezes, e da fortaleza, 
e tudo o mais que até então era fuccedido , 
affirmancta que não havia já mais defeífen- 
ta homens sãos , que pudeííem tomar ar- 
mas , porque os pouco mais que havia , ef- 
tavam feridos ,.e doentes. Sabendo Pvume- 
can aquillo , mandou aos Capitães, que fe 
fizeííem preíles pêra ao outro dia darem hum 
grande aííalto á fortaleza. E aífim tanto 
que amanheceo , fahíram. de fuás eftancias 
çom feus iníirumentos confuíòs , e deíorde- 
nados , e remettêram com o baluarte São 
Thomé, começando huns afubir pelas ruí* 
aias delle , e outros por efcadas y mas os 
primeiros que chegaram aílima , pagaram 
logo feu atrevimento com as vidas , achan- 
do tal reíiftencia nos de dentro , e receben- 
do delles tanto damno , que houve Rume- 
can , que os efcravos o enganaram , por- 
que não parecia que pelejavam com fciTen- 
ta , fenao com feiscentos. Luiz de Soufa 
Capitão daquelle baluarte , António Moniz 
Barreto , Garcia Rodrigues de Távora , 
D. Pedro , e D. Francifco de Almeida , que 
alli acudiram , e outros Fidalgos , e Caval- 
leiros , moftráram aos inimigos o preço , e 
valor de fuás peíToas , aííignaíando-fe Mi- 
guel Darnide antre todos. Em. fim foi oef- 
trago tal nos inimigos , que tocou Rume- 

cari 



Dec. VI. Liv- III. Cap. IL i$j 

can a recolher , e aífaííado pêra fora , foi 
commetter a tranqueira do baluarte S.João y 
cuidando que eítivefTe vafia ; mas não foi 
aílím , porque a acharam tão forte ,. e bem 
guarnecida de Cavalleiros ,. que em mui bre- 
ve efpaço de tempo os defenganáram com 
mortes de muitos. 

O Capitão em todas eílas coufas fem- 
pre fe achou muito alegre, e contente, por 
dar animo aos ieus , provendo , e gover- 
nando tudo com muita prudência , e confe- 
lho. Vendo Rumecan quão mal lhe fucce- 
dia tudo , recólheo-fe a fuás eftancias mui 
anojado, e triííe, mandando logo fazer na 
parede , que dividia o exercito da fortaleza , 
muitas feteiras , por onde a fua arcabuza- 
ria começou a laborar ,. tratando muito mal 
os noffos , porque eílavam defabrigados , e 
tornou a mandar bater a ciílerna com o 
quartáo , em que lançaram muitos pelouros» 
Eítá eíla cifterna á entrada de huma rua , 
que chamam a cova , que foi a cava anti- 
ga dos Mouros , onde fe recolhia toda a 
gente inútil , e as mulheres folteiras. Fazem- 
fe nefia parte duas ruas de caíinhas peque- 
nas , e não tem mais que a ferventia pela 
boca da rua , onde eflá a ciílerna , que pe- 
la outra parte he muito alta. Nefta rua ca- 
hiam muitos pelouros , que matavam algu- 
ma gente ■ daquella. O Capitão acudio alli t 

e man- 



184 ÁSIA de Diogo de Couto 

c mandou fazer no topo da rua huma tran- 
queira alta de vigas pêra repairo dos pelou- 
ros , que todos entravam pela boca da co- 
va^ e mandou furar as cafas por dentro pê- 
ra fe fervirem refguardados dos pelouros. 

Vendo Rumecan que todavia as minas 
fempre faziam damno , mandou fazer ou- 
tras no baluarte Sant-Iago, que foram fen- 
tidas dos de dentro , mandando logo o Ca- 
pitão ordenar fuás contraminas , e hum mui- 
to forte repuxo , de feição , que quando 
os inimigos lhes derao fogo , achou tão 
grande reíiftencia , que deo com parte do 
baluarte pêra a banda de fora , que cahio 
fobre os Mouros , e matou muitos , fem dos 
noflbs perigar hum fó; e quiz Deos que fi- 
cou o muro são fem receber damno. Os 
Mouros ao arrebentar da mina , remettêram 
com o baluarte com huma grita , e alari- 
dos , que parecia que fe desfazia o mundo y 
e fubindo pelas partes derribadas , o entra- 
ram , arvorando logo cm íima delle fuás 
bandeiras , e guiões , rodeando-as de huma 
boa cópia de efpingardeiros , que dalli va- 
rejavam pêra dentro da fortaleza , com o 
que deram mui grande trabalho aos noíFos. 
Dalli fe defcêram ao muro , e foram até a 
cafa do Àpoílolo Sant-Iago , que eíiava en- 
çoítada ao mefmo baluarte, onde os noflbs 
acudiram > mettendo-fe nos altos da cafa , e 

ai- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. II. 185- 

aflim ficou o baluarte , e a cafa , ametadc 
dos Mouros , e a outra dos Portuguezes , 
antre quem fe travou huma muito afpera 
batalha , que durou todo o dia. 

Tanto que anoiteceo , mandou o Capi- 
tão fazer huma grofla parede antre huns, e 
outros, o que fe fez fempre com as armas 
nas mãos , no que gafláram toda a noite fem 
repoufarem. Acabada a obra , que foi pela 
manhã , mandou o Capitão pôr hum came- 
lo grande á porta da Igreja, que ficava fo- 
bre o alto , e defcubria a parte que os ini- 
migos tinham do baluarte , e dalíi os man- 
dou varejar , e foi o negocio de feição , 
que fez nelles mui grande eílrago. Neíle 
conflicto pairaram os noflòs muito trabalho 
por ferem poucos, e terem muitas partes a 
que acudir; mas fempre Deos osfavoreceo, 
com dar a todos novo animo, e forças pê- 
ra acudirem a tudo. Os foldados , que efta- 
vam no alto da Igreja de Sant-Iago , como 
fempre pelejavam em huma roda viva , ás 
vezes lançavam os inimigos fora do que ti- 
nham ganhado , e outras fe tornavam a re- 
colher : niílo paííáram dous dias, em que 
todos os da fortaleza pelejaram muito bem, 
fortificando cada vez mais a parede , que 
eílava no meio de huns , e de outros , por- 
que tudo o mais eílava feguro com as grof- 
fas paredes que o Capitão tinha feitas pela 

ban- 






i86 ÁSIA de Diogo dé Couto 

banda de dentro. Rumecan também fe for- 
tificou fobre o entulho do baluarte que ar- 
rebentou, mandando fazer alguns valos, e 
tranqueiras pêra fe ■ fegurar nelles. O que 
tudo fe fez íem os noítbs lho poderem de- 
fender , pofto que lhes cuítou as vidas a 
muitos. 

CAPITULO IIL 

Dos foc corro s que partiram de Baçaim : e 
do 'que aconteceo a Luiz de Mello de 
Mendoça , e aos mais até chegarem a 
Dio : e do grande ajjalto que os Mouros 
deram , em que ganharam parte de todos 
os baluartes. 

CHegada a galueta , em que António Mo- 
niz Barreto , e Garcia Rodrigues de 
Távora partiram de Baçaim pêra Dio , ao 
outro dia, que foram quatorze de Agoílo , 
fe embarcou nelia Luiz de Mello de Men- 
doça com nove companheiros, e apôs elle 
também D. Jorge, e D. Duarte de Mene- 
zes , ambos em hum catur com dezefete foi- 
dados , e D. António de Taíde , e Fran- 
cifco Guilherme , cada hum deiles em feu 
navio com quinze companheiros , e deram 
á vela huns apôs os outros, ficando D. Ál- 
varo com os mais navios negociando-fe pê- 
ra partir ao outro dia. Luiz de Mello dç 

Men- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. TIL 187 

Mendoça tanto que fe foi engolfando , co- 
mo a gaJueta era pequena , e eftroncada , c 
os mares foberbiífimos , começou-fe a ala- 
gar por ambos os bordos , porque o tempo 
era o mais cruel que podia fer : os mari- 
nheiros começaram a deíacoraçoar , e ain- 
da os ibldados ; mas nada Luiz de Mello 
de Mendoça, que com muito animo acudia 
ás coufas neceuarias , entregando o leme a 
hum homem de muito recado, e a efcota, 
e mais apparelhos a outros de mais confian- 
ça. O tempo era tão groíío que o mar pa- 
recia que fervia , e que debaixo das ondas 
fahiam labaredas de fogo. De íima não ti- 
nham menos perigo, porque também pare- 
cia que as cataratas do Ceo queriam fazer 
outro fegundo diluvio , e com iíío eram 
tão grandes , e efpantofos os fuzis, e re-< 
lampagos, que pafmavam todos. Os folda- 
dos pediram a Luiz de Mello de Mendo- 
ça , que quizeíFe arribar , porque parecia 
que os elementos todos eftavam conjurados 
em feu damno , e que era temeridade que- 
rer ir contra a ira de Deos ; porque fegun- 
do havia neceffidade de homens em Dio , 
melhor era pouparem-fe pêra outra conjun- 
ção , que deixarem-fe morrer por teima. 
Luiz de Mello de Mendoça muito feguro , 
c fem moftras de algum receio, os esforçou , 
e animou, dizendo^llxes: 

» Es* 



i88 ASIÀ de Diogo de Couto 

» Esforçados companheiros , não vos ef- 
B pantem eítas carrancas , porque alguma 
)> coufa he necefíario que íbfframos pêra 
» chegarmos a foccorrer a fortaleza d'El- 
» Rey. A honra não íe ganha fem rifcos, 
» e perigos , com tempo quieto , e brando 
» pouco havia que nos agradecer. Efta he 
» a mefma galueta , em que meu primo An- 
» tonio Moniz Barreto paíTou eíte mefmo 
» golfo , e eftas mefmas tempeftades , pois 
» nós que menos temos que elle , que não 
» paliemos por onde o elle fez* ? e ainda 
» que não fora pela honra , que pertendemos 
» ganhar , fó pela infâmia , em que cahire- 
» mos , vendo-nos arribar de medo , nos 
» havíamos de arrifcar a mores perigos : an- 
» dar por diante , e vá Deos comnofco , 
» que elle nos encaminhará. » 

Todavia, como a galueta era muito pe- 
quena , e os mares tão foberbos , e gran- 
des , deixando-fe vencer delles , ficou ador- 
nada , e quafi fubmergida. Luiz de Mello 
de Mendoça acudio com os companheiros 
aos baldes , com que começaram a lançar 
a agua fora , não largando os homens o 
leme , e a efcota : e quiz Deos que tornou 
a furdir a galueta , indo todos aos baldes , 
deitando a agua ao mar com grandiíTimo 
trabalho ; porque fe a lançavam por hum 
bordo , torna va-lhes a entrar por todos. 

Yen- 



Dec. VI. L iv. III. Cap. III. 189 

Vendo oá Toldados hum tamanho perigo , 
requereram a Luiz de Mello de Mendoça> 
que arribaffem; mas elle diffimulou, man- 
dando-Jhes que trabalhafíem. Vendo elles 
tamanha contumácia, fallaram-fe emfegre- 
do huns com os outros , e determinaram 
de lho fazer por força. 

Difto foi clk avifado por hum Gomes 
de Quadros de fua obrigação , e diffimulan- 
do fe foi ás armas 3 e as tomou todas , e 
as metteo em hum pequeno paiol , e pofto 
em ííma delle com huma efpada nua na 
mão , diííe com grande cólera, 

)> Ninguém feja oufado de fallar em ar- 
» ribarmos , porque eu ou hei de morrer, 
» ou hei de chegar a foccorrer a fortaleza 
» d 5 ElRey, poriflb cada hum trabalhe por 
» fe fegurar , e não temer , que Deos irá 
» comnofco : e folgai todos de paífardes 
» comigo a ventura que eu paliar , pois 
» não tendes que perder mais que eu ; e fe 
» paífardes rifcos, e perigos, os Portugue- 
» zes affim fervem o feuRey, e pêra ven- 
» cerem todos os trabalhos nafcéram : por 
» iíío não fejamos fós os que nos deixemos 
» vencer delles , acuda cada hum ao que 
)) lhe he encommendado , e vamos por 
» diante. » 

Com ifto fe calaram todos, eforão tra- 
balhando com os baldes todo o dia, e to- 
da 



190 ÁSIA de Diogo de Couto 

da a noite. Ao outro dia já fobre a tarde, 
navegando fempre por baixo da agua , che- 
garam a haver vifta da fortaleza. 

Ceííem aqui os encarecimentos das na- 
vegações de UlyíTes , e de Eneas , que aquel- 
les farnoíbs Poetas Homero , e Virgílio tan- 
to celebraram em verfos íuaves, e brandos ^ 
que ifto que affim tofcamente efcrevemos 
deftes noíTos Portuguezes paíla por tudo 
quanto elles fabularam. 

Tanto que os da galueta viram a for- 
taleza , affim fe alegraram como homens, 
que réfufcitáram , e demandando a barra , 
entraram por ella com grande rifco , e pe- 
rigo , e foram furgir á couraça , por onde 
foram recolhidos dentro , e recebidos do 
Capitão , e de todos os mais com muito 
grande alvoroço. Luiz de Mello de Men- 
doça affirmou ao Capitão , que D. Álvaro 
de Caílro teria já dado á véía , e que não 
tardaria dous dias. Foi efte Fidalgo com 
feus foldados pofto no baluarte Sant-Iago, 
de que os inimigos tinham ganhado a maior 
parte. Ao outro dia v que foram vinte do 
mez de Agofto , chegaram D.Jorge , e Dom 
Duarte de Menezes , (que não paíTáram me- 
nos rifcos , e trabalhos, que Luiz de Mel- 
lo de Mendoça , ) que foram recebidos com 
grande alegria de todos , e apofentados na 
iiiefmo; baluarte* - - ..--.-■■ ; 

- Com 



Dec. VI. Liv. III. Cap.HI. 191 

Com' a vinda deíles três Fidalgos fica- 
ram os da fortaleza mais defalivados. O 
Capitão delejou de feftejar os novos hofpe- 
des , porque lhes fentio defejo de provarem 
a mão com os inimigos , e quiz que ao 
dia feguinte commetteflem lançallos fora do 
baluarte , e pêra ifto deo recado a todos, 
pêra que eftiveflem preftes , querendo-fe tam- 
bém elle achar em peífca naquelle negocio* 
Tanto que amanheceo , fe foi D. João Mas- 
carenhas ao baluarte com alguns companhei- 
ros 5 que dos outros efcolheo , e com todos 
os mais , que nelle eftavam , commetteo os 
Mouros com tão grande determinação , que 
com morte de muitos deíles lhes ganhou os 
valos , que tinham feitos , e os lançou fora. 
Rumecan teve logo avifo daquelle negocio y 
e acudio alii com todo o poder, e tornou 
a cavalgar a eftancia, fobre que houve fa- 
zerem-fe coufas notáveis , e muitas mortes 
dos inimigos , que tudo faziam á cufta das 
vidas dos feus. 

Rumecan tanto que tornou a ganhar 
aquella parte, deo hum geral aííalto á for- 
taleza, commettendo todas as eftancias , que 
lhe foram defendidas com o valor , e es- 
forço acoftumado , fazendo os noflbs que 
tinham chegado de refrefco , coufas muito 
pêra feefcreverem , e imitarem. Eftando eíle 
negocio da batalha- i>a força -do maior con* 

fli- 



192 ÁSIA de Diogo de Couto 

fli&o , fe começou a efcurecer o Sol , e a 
fe cubrir o ar de nuvens mui groflas , e ef- 
peflas , que fe desfizeram em grandes chu- 
veiros íobre a fortaleza. Vendo os Mou- 
ros aquella terrível trovoada , e que por cau- 
fa da agua lhes não podia empecer o fogo 
dos noíTos , (que era o que elles mais recea- 
vam , ) remettêram mui determinadamente 
com os baluartes pêra os ganharem •, mas os 
Portuguezes á efpada , e lança lhes tive- 
ram o encontro com muito valor , matan- 
do , e efpedaçando muitos. 

D.Duarte, D.Jorge de Menezes , Dom 
Francifco de Almeida , António Moniz Bar- 
reto , Garcia Rodrigues de Távora, e ou- 
tros Fidalgos , e Cavalleiros fizeram tão al- 
tas proezas , que muitos dos inimigos dei- 
xavam de pelejar pelos verem. O Capitão 
correndo todas as partes , e deixando-as pro- 
vidas , acudio ao baluarte Sant-Iago , que 
efíava em mór trabalho, e mettendo-fe an- 
tre todos , animando-os, e esforçando-os t 
pelejou hum efpaço grande, em que osnof- 
fos apertaram tanto com os inimigos , que 
os fizeram afloxar. D. João Mafcarenhas 
não lhe confentindo o coração , nem a obri- 
gação de feu officio deter-fe alli muito, fa- 
zendo fuás lembranças áquelles Fidalgos, 
e Cavalleiros , tornou a correr as mais es- 
tancias pêra ver com o olho tudo , e pro- 
ver 



Dec. VI. Liv* III. Cap. III. 193 

ver no dè que houvefle neceífídade , e em 
todas achou a batalha muico travada. A for- 
taleza toda em roda fe desfazia em gritos, 
alaridos , golpes , e eftrondos de inftrumen- 
tos , em fim que tudo era confusão. Durou 
efte conflito (que foi o maior de todos os 
.em que aquelles cercados fe viram) féis ho- 
ras , até que o tempo começou a abrir , e 
o Sol tornou a apparecer. 

Os Portuguezes tornáram-fe aproveitar 
das panellas de pofvora , ou das telhas > 
com que fizeram huma grande , e efpanto- 
fa deítruiçao nos inimigos , que por honra 
fuftentavam os lugares á cufta das vidas , 
até que de todo anoiteceo , que fe recolhe- 
ram. Ficaram de efta feita mortos aos pés 
dos baluartes quatrocentos , a fóra mais de 
mil , que foram feridos , e da noffa parte 
morreram alguns , que haviam de fer fem 
nome , porque não lhos achámos. Efta noi- 
te paliaram todos os da fortaleza com gran- 
de vigia ; ao outro dia em amanhecendo en- 
traram pela barra os navios de D. António 
de Taíde , e Francifco Guilherme , que rom- 
pendo a braveza , a força ? e impeto dos 
mares , e ventos , alagados muitas vezes paf- 
fáram fempre adiante , até defeubrirem as 
torres da fortaleza , que foi pêra todos cau- 
ía de grande alvoroço. Foram eftes Fidal- 
gos recolhidos pela couraça , e poílos nos 
Cwto.Tow.lILP.I. N ba- 



194 ÁSIA de Diogo de Couto 

baluartes S. João , e S. Tlionie ; e affirmá- 
ram que ao outro dia feria alli D. Álvaro 
de Caftro , com o que moítráram por fima 
dos muros grandes lignaes de alegria , tan- 
gendo , e foliando, coufa que os mais dos 
dias faziam acabados os aífaltos pêra fe ale- 
grarem , e alentarem. 

CAPITULO IV. 

De outros ajjahos , que os Mouros deram 
d fortaleza : e de hum muito ar rife a do 
feito , que commetteo António Correia por 
tomar huma efpia , em que foi cativo : 
e do grande , e afpero martyrio que re- 
cebe o. 

VEndo Rumecan que começavam a che- 
gar os foccorros da índia , e que em 
todo o inverno não tinha feito coufa algu- 
ma , eftando a fortaleza arrazada , e com 
tão pouca gente , e que tinha perdido per- 
to de finco mil homens , começáram-no a 
entrar mui grandes defeonfianças daquelle 
negocio , porque bem entendeo que como 
fofle tempo melhor, haviam de vir muitos 
foccorros, e ainda a peíTba do Governador; 
e que como elle chegafle , não fe havia de 
deixar eftar cercado , antes o havia de ir 
bufear a fuás eftancias. Caufavam-lhes eftes 
difeurfos muito grande melancolia ? e trifte- 

za* 



Dec. VI. Liv. III. Cap. IV. i 9 s 

za , que elle diffimulava o melhor que po- 
dia , pelos feus o não entenderem , e não 
íe lhe irem ; e todavia parecendo-lhe que 
era obrigação profeguir naquelle negocio, 
mandou fazer huma grande mina no lanço 
do muro , que lua do baluarte S. João até 
a guarita de António Paçanha , e começan- 
do-fe a obra , foi fentida dos noíTos. O 
Capitão acudio com muita preíla a fazer fuás 
contraminas, erepairos, e outro muro mui- 
to groíTo pela banda de dentro , em que 
trabalhavam todos os Fidalgos , e Cavallei- 
ros , de miftura com as honradas matronas. 
Os Mouros 3 acabada a mina, deram-lhc 
fogo , e arrebentando deo com o muro pê- 
ra fora , ficando o que eítava feito pela ban- 
da de dentro ; e ao dar do fogo remettê- 
ram pêra entrar á fortaleza por alli , cui- 
dando ficaíTe tudo aberto ; mas achando-fe 
com outro muro diante, voltaram com to- 
do o poder pêra a guarita de António Pa- 
çanha , que com a fúria do fogo cahio hum 
bom pedaço \ e podo que accommetteo bra- 
viffimamente , fez pouco , porque os noíTos 
lha defenderam de feição , que com grande 
damno feu os fez affaftar. Em quanto ifto 
durou , das eftancias dos inimigos bateram 
toda a fortaleza em roda ; e como todos os 
baluartes eílavam razos , cahíram tantos pe- 
louros dentro-, que parecia que choviam, 

N ii fem 



196 ASIÀ de Diogo de Couto 

íem fazerem damno algum nos noflbs , o 
que fe notou a milagre , havendo queDeos 
os favorecia, e tinha os olhos nelles , eaf- 
fim fe lhes encommendáram de coração, 
e andavam todos tão contritos , e arrepen- 
didos defeus peccados , que era grande con- 
lòlação pêra elles. 

Efte dia ficou iíto aílim , recolhendo-fe 
os inimigos também arrefoadamente efcala- 
vrados. Rumecan blasfemava de Mafame- 
de , vendo tantos máos fucceflbs , e como 
defefperado tornou ao outro dia commetter 
a fortaleza com todo o poder , fazendo-o 
elle em pefToa ao baluarte S. Thomé, ten- 
do dado recado , que em quanto elle o com- 
mettia , fe bateííem as outras eftancias, co- 
mo fizeram. Os inimigos remettêram com o 
baluarte com grande determinação , travan- 
do-fe antre elles , e noflbs huma mui af- 
pêra batalha , em que elles não receavam 
perder as vidas , porque como brutos fe 
mettiam pelas armas dos noflbs. E tanto 
porfiaram, que fubíram ao baluarte, e tor- 
naram a ganhar aquella parte , que já tive- 
ram , onde arvoraram fuás bandeiras. Dalli 
começaram com os noflbs a mais afpera , e 
cruel batalha que fevio, lançando os Mou- 
ros tanto fogo fobre os de dentro , que os 
abrazáram a todos. 

António Moniz Barreto 2 que aqui fez 

gran- 



Dec. VL Liv. III. Cap. IV. 197 

grandes maravilhas , ficou todo ardendo em 
chammas fem largar o lugar, (o que. todos 
fizeram pêra fe irem banhar nas tinas da 
agua,) não ficando alli mais que elle , e 
dous foldados , que pelejaram como leões ; 
e todavia apertou tanto o fogo com Antó- 
nio Moniz Barreto, que fe foi fahindo pê- 
ra ir bufcar as tinas da agua. Hum daquel- 
les foldados , que também eftava abrazado , 
fazendo façanhas nunca imaginadas , vendo 
affaftar-fe António Moniz Barreto , tomou-o 
por hum braço , dizendo-lhe : » Que he if- 
» to , fenhor António Moniz , aonde ides , 
» e deixais o baluarte d ? ElRey ? Não dei- 
» xo , refpondeo elle ; mas eílou ardendo 
» vivo , e vou áquellas tinas pêra matar ef- 
» te fogo. O foldado lhe diífe : Em quan- 
» to as mãos eftam fans, e podem pelejar, 
» tudo o outro he nada : tornai , Senhor , a 
» voltar , não acabem os Mouros de ga- 
» nhar efte baluarte.» António Moniz Bar- 
reto vendo o esforço do foldado , voltou , 
e fe poz junto delle , tornando a pelejar , co- 
mo fe entrara de novo naquelle lugar. 

Aqui efteve a coufa de todo perdida ; 
porque os inimigos , que a cada momento 
eram cevados de outros de refrefco , aper- 
taram tanto com efles poucos , que havia 
no baluarte , que fempre acontecera hum 
grande defaftre , fe áquella hora não acu- 
di- 



ip2 ÁSIA de Diogo de Couro 

díram alguns dos noffos de refrefco , que 
apertaram com os inimigos de feição , que 
os lançaram fora , fazendo aquelles dous Tol- 
dados , a que não achámos os nomes , taes 
coufas , que paímou António Moniz , prin- 
cipalmente aquelle que o deteve , a quem 
elle levou nos braços depois do combate 
paliado , dizendo~lhe palavras de grandes 
louvores , pedindo-lbe : » Que quando fe 
» elle embarcaíle pêra o Reino, fe foííe com 
» elle , que o aprefentaria a EIRey , e lhe 
» diria feus feitos, e o faria defpacbar » : e 
affim foi , que quando António Moniz Bar- 
reto chegou ao Reino , o defembarcou com- 
ligo , e o entregou ao Infante D. Luiz , con- 
tando-lhé tudo o que com elle lhe aconte- 
cera. O Infante o tomou por feu , e lhe fez 
dar a feitoria de Baçaim , que elle não fer- 
vio por morrer primeiro , e ficou fempre 
conhecido pelo foldado do fogo. 

O que fe mais louva em António Mo- 
niz Barreto , foi a confiança com que con- 
tou a EIRey , e ao Infante , o como o fol- 
dado o fizera tornar pêra o baluarte , indo 
elle bufear as tinas da agua , e que fem dú- 
vida o baluarte fe perdera , fe o foldado 
nao fora. E com efte homem fer por ifto 
digno de outro tão honrolb fobrenome , co- 
mo os Romanos deram a Manlio Capito- 
lino por defender o Capitólio aos Gailos , 

foi 



Dec. VI. -Liv. ITT. Cap. IV. 199 

foi o defcuido Portuguez tal , que nem no- 
me f nem íobrenome ficou deiie. 

E tornando á noíTa hiftoria : lançados 
os Mouros do baluarte, ficaram no entulho 
de fora , detrás dos repairos que tinham 
feitos , e dalli ás lançadas , e efpingardadas 
pelejavam com os nofibs todo o dia , fem 
tomar defcanço. O Capitão mandou repai- 
rar o baluarte , e fazer huma parede alta, 
e grofla , com que os noflbs ficaram mais 
feguros. 

Ao outro dia , depois que iílo paíTou , 
mandou o Capitão a António Correia que 
foííe em hum catur ligeiro á outra banda , 
e que trabalhafTe por tomar alguma efpia 
pêra fe informar do que determinava Ru- 
mecan. Embarcado António Correia no 
quarto da modorra com vinte foldados , paf- 
fou-fe á outra banda em grande íilencio, e 
chegou-fe á terra pêra ver fe fentia alguma 
gente , onde cftiveram até de madrugada , 
que fe recolheram fem fazer coufa alguma , 
e por efta maneira foram finco noites , fem 
fazer preza alguma, do que António Cor- 
reia andava trifte, E dizendo-lhe humas vi- 
gias de hum dos baluartes da fortaleza , que 
viam todas as noites hum fogo no cabo da 
Ilha , determinou de ir ver o que era, E 
fahindo-fc pela barra fora, foi cofleando-íè 
a terra no mór íilencio que pode , e che- 



gan- 



'iço ÁSIA r>E Diogo de Couto 

gando áquclla parte vio o fogo , e pondo 
a proa em terra hum pouco defviado, fal- 
tou nella fó com huma efpada , e rodella , 
efoi muito encubertamente demandar o fo- 
go ; e fendo perto , vio eílar doze Mouros 
aflentados derredor de huma fogueira aquen- 
tando- fe , o que muito bem pode divifar, 
porque a labareda os delcubria todos , e 
voltando pêra o catur , chamou os foldados , 
e tornou pêra dar nelles , e chegando per- 
to viram ainda os Mouros. António Cor- 
reia difle aos companheiros muito paflb : 
» Aqui temos boa preza , vamos por duas 
}> partes , dez por cada huma , e demos 
)> nelles de fubito , e tomemos dous ás mãos , 
» e todos os mais fe mettam á efpada. » Os 
vis foldados tanto que aquillo viram , per- 
deram o animo , e a vergonha , e difíeram : 
» Que aquelle negocio era muito arrifcado, 
y> que eiles não queriam commetter coufa 
» duvidofa , porque pela ventura feriam os 
y> Mouros muitos mais , que eftariam por 
)> ahi derredor que acudiriam , e nenhum 
» delles efcaparia com vida » e fem efpera- 
rem razão alguma voltaram pêra o navio. 

Vendo António Correia tamanha infâ- 
mia , e covardia em Portuguezes , coufa tão 
alheia delles > magoado daquelle negocio, 
que lhe accrefcentou a ira , e furor , encom- 
mçndou-fe a Deos, e determinou de com- 

met- 



Dec. VI: Lív. III. Cap. IV. 201 

metter os Mouros. E indo-os demandar mui 
agachado, fendo já perro, deodefubito nos 
que alcançou com grandes gritos pêra os 
efpantar , e ferio alguns bem á fua vonta- 
de. Os Mouros fobrefaltados efpertando- 
os a dor das feridas , levaram das armas 5 
e começaram de fe defender ; e vendo que 
era hum fó homem , ficaram como palma- 
dos , e rodeando-o o começaram a perfeguir ; 
mas o esforçado cavalleiro não defmaiando , 
nem temendo couía alguma , com fua efpa- 
da , e rodella fe poz em defensão , faltan- 
do a huma , e a outra parte mui ligeira- 
mente , ferindo aos inimigos de feridas mor- 
taes. Mas como era hum fó , e abriga du- 
rou muito , começáram-lhe a faltar as for- 
ças , e fobejando-lhe o animo , os Mouros 
fentindo-o enfraquecer, remettêram a elle, 
e o liaram todos, bracejando elle , morden- 
do , e fazendo coufas , de que os Mouros 
pafmáram. E como defejavam de o levar 
vivo a Rumecan , o ataram , ainda que com 
"bem de trabalho , e com grandes tangeres, 
e feitas o levaram á Cidade , e lho apre- 
fentáram , contando-lhe as façanhas que lhe 
viram fazer , moftrando os mais delles mui- 
tas , e mui disformes cutilladas que lhes el- 
le deo. 

Rumecan o eftimou muito , e lhe per- 
guntou pelo eítado da fortaleza , e que gen- 
te 



202 ASIÀ de Diogo de Couto 

te tinha , c fe fe efperava cedo pelo foccor- 
ro de Baçaim , e fe havia novas de fe o 
Governador fazer preíles pcra vir foccorrer 
a fortaleza, e por outras muitas coufas. An-, 
tonio Correia lhe refpondeo a tudo muito 
differente do que o Mouro defejava., affir- 
mando-lhe , que na fortaleza havia quatro- 
centos homens , e que tinham de refrefco 
muitas munições, e que até o outro dia fe 
efperava pelo filho do Governador , que já 
era partido de Baçaim com feiscentos ho- 
mens , e que o Governador em Goa fazia 
huma grande Armada , e que efperava pe- 
las náos do Reino pêra fe embarcar , e que 
fempre traria de vantagem de quatro mil 
Portuguezes , e outras coufas defta forte, 
de que Rumecan ficou tão agaftado , que o 
mandou amarrar ao cabo de hum cavallo, 
e tanto que amanheceo, o mandou levar ar- 
raigando pela Cidade , pêra que todos o 
viílem 5 e depois lhe mandou cortar a ca- 
beça. 

Todos eftes martyrios fofFreo o Caval- 
leiro de Chriílo com grande paciência , e 
com o coração todo em Deos , pedindo- 
]he mifericordia , e perdão de feus pecca- 
dos , oíferecendo-lhe por elles aquelles tor- 
mentos , e morte , que por honra de fua 
fanta Fé paífava. E de crer he que fua al- 
ma fubiria banhada no quente fangue a go- 
zar 



Dec. VI. Liv. III. Cap. IV. 203 

zar da gloriofa coroa de martyrio , e feria 
recebida antre os bemaventurados. Sua ca- 
beça foi poíla em huma lança defronte dos 
nofíbs baluartes S. João, e S. Thcmé, on- 
de foi viíla tanto que amanheceo. Os vis, 
e fracos foldados que o deixaram fe foram 
metter no navio ; e efperando por eile até 
amanhecer , vendo que tardava , deram á ve- 
la pêra a fortaleza, aonde chegaram aome£- 
mo tempo que a cabeça do feu valente , e 
esforçado Capitão apparecia poíla na lança, 
acompanhada daquella infernal turba , que 
com vozes , gritas , e tangeres mcííravam 
o contentamento daquella vitoria. 

A cabeça foi logo conhecida dos baluar- 
tes , e cauíbu em todos huma grande trifte- 
za , principalmente no Capitão, por perder 
hum tal , e tão esforçado companheiro nos 
trabalhos daquella fortaleza. O navio che- 
gou á couraça , e os foldados fe recolhe- 
ram dentro , de quem o Capitão foube lo- 
go a verdade, particularmente de hum del- 
les , que lha confeílbu aífim como paífára , 
ficando admirado de tal fucceíío , porque 
aquelies homens em todo o decurfo do cer- 
co tinham feito façanhas , e recebido por 
muitas vezes muitas feridas : e todavia não 
os quiz ver , porque o tempo não eílava 
pêra proceder em outra forma contra elles , 
deixando-lhes por caíligo a infâmia com que 

fica- 



204 ÁSIA de Diogo de Couto 

ficaram , que elles purgaram aflas bem de- 
pois nos aííaltos, aílignalando-fe diante de 
todos , e morrendo alguns de muitas feridas , 
que lhes deram nos lugares , em que eíta- 
vam, fem os quererem largar. 

CAPITULO V. 

De algumas coufas , que mais fuccedêram : 
e do que aconteceo na viagem a D. Ál- 
varo de Caftro : e de hum grande motim y 
que houve dos Portugueses contra o Ca- 
pitão. 

DEíle íucceflb de António Correia fica- 
ram os Mouros tão foberbos , que fe 
arrifcáram alguns a fazerem fortes , como 
foi hum que ao outro dia determinou de 
tomar huma bandeira , que eítava arvorada 
em huma guarita, que fe fazia antre o ba- 
luarte S. Thomé, e Sant-Iago; e fahindo 
das eílancias lo , e muito agachado , che- 
gou ao pé da guarita , e fubio pelas que- 
bradas do muro , e chegou até a bandeira , 
de que ferrou fem a poder arrancar , e tor- 
nou a faltar em baixo, e fe recolheo. Co- 
mo ifto foi fubitamente feito , não tiveram 
os noífos tempo pêra lhe atirarem com al- 
guma coufa. O Mouro vendo o pouco rif- 
co que correo , defejofo de levar aquella 
bandeira a Rumecan , tornou a commetter 

a mef- 



Dec. VI. Liv< III. Cap. V. 205- 

a mefma forte , e já não pode fer tão en- 
cuberto , que não fofle vifto de alguns Tol- 
dados de hum daquelles baluartes ; e vendo-o 
commetter a fubida , prepararam as efpin- 
gardas , e eom elle pegando da bandeira 
lhe deo hum pelouro pelos peitos de que 
logo cahio , e acudindo alguns daquelles tol- 
dados , lhe cortaram a cabeça, e a arvora- 
ram em huma lança defronte donde eflava 
a de António Correia , o que Rumecan fen- 
tio muito. Os Mouros , que eílavam no en- 
tulho do baluarte S. Thomé , foram fazen- 
do muros , e repairos , cada vez mais pêra 
dentro, até fe fazerem fenhores da mor par- 
te delle ; e fempre o ganharam todo , fe o 
Capitão com fua muita prudência , e pro- 
videncia não acudira logo com hum baza- 
lifco, que mandou levar aporta da Igreja > 
donde fe defcubria todo o baluarte, e dal- 
li mandou bater as eftancias , e tranqueiras , 
que os Mouros tinham nelle. O que fe fez 
com tanta braveza , que com poucos tiros 
lhes puzeram as paredes por terra , defam- 
parando os Mouros o baluarte , que o Ca- 
pitão mandou reformar o melhor que po-? 
de fer. 

E deixaremos eftas coufas por hum pou- 
co , porque he razão tornemos a D. Álva- 
ro de Caílro , que depois de reformar fua 
Armada muito bem, logo dahi adousdias, 

de- 



2o6 ÁSIA de Diogo de Couto 

depois que partiram D.Jorge, e D. Duarte 
de Menezes , deo elle á vela com fincoen- 
ra navios, que ajuntou com os dai fortale- 
zas deChaul, e Baçaim , e começou a atra- 
veíTar o golfo; mas como a braveza delle 
não ceifava , e os navios eram grandes , e 
pejados , não podendo foífrer os mares, 
tornaram a arribar em poppa quaíl perdi- 
dos , e alagados , e foram demandar diffc- 
rentes poílos ; D. Álvaro com a mor parte 
dos navios foi ferrar Agaçaim com todos 
defapparelhados , e os mantimentos podres , 
e alijados ao mar. Eilava por Capitão na- 
quella Tanadaria Luiz Xira Lobo, homem 
Fidalgo , que com muita prefteza , e dili- 
gencia reformou os navios , e os proveo de 
todas as coufas neceífarias. 

Antre os mais navios , que foram cor- 
rendo tormenta pêra diíferentes partes , foi 
o de que era Capitão Athanaíio Freire ; ef- 
te indo demandar a terra , foi-fe mettendo 
na enceada de Cambaia quafí alagado , e 
defapparelhado , e em eííado que fe aiTen- 
tou antre todos , que varaífem na primeira 
terra que pudefiem tomar , porque era me- 
nos mal , que deixarem-fe morrer affogados > 
e aííim foram encalhar junto de Surrate; e 
fahindo todos em terra , foram cativos da 
gente que acudio , e levados a EIRey Sol- 
tão Mahamude , que os mandou metter em 

hu- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. V. 207 

huma mafmorra , onde rinha Simão Feio , 
e outros Porroguezes. Ruy Freire Feitor 
de Chaul (que largou o cargo , e fè em- 
barcou em hum navio em companhia de 
D. Álvaro de Caílro com vinte e quatro 
foldados , e muitos mantimentos , e muni- 
ções , tudo á fua cuíla) quiz fua boa for- 
tuna que o íeu navio lòffreíTe melhor os 
mares que os outros , e paliando adiante , 
foi navegando aquelle dia , e noite com 
grande riíco , e trabalho, e ao outro dia 
houve vifta da cofia deDio, a que fe che- 
gou , e de longo delia foi demandar a for- 
taleza , e entrou pela barra dentro o mef- 
mo dia , que íuccedeo a forte da bandeira 
ao Mouro , e furgindo na couraça, foram 
recolhidos por ella com grande alegria , e 
contentamento de todos. E de Ruy Freire 
foube o Capitão como já D. Álvaro de 
Caílro vinha com toda a Armada , porque 
ainda não fabia de fua arribada. Iílo caufou 
em toda a fortaleza grandes alvoroços ,. fa- 
zendo- fe tantas feftas , e alegrias , que fe 
fentíram nas eílancias dos Mouros , que lo- 
go fouberam todas as novas. 

D. Álvaro de Caílro , e D. Francifco 
de Menezes tanto que fe reformaram em 
Agaçaim , tornaram a commetter o golfo, 
que ainda acharam colérico , e furiofo ; mas 
paffando por todos os inconvenientes , rom- 
peu- 



ao8 ÁSIA de Diogo de Couto 

pendo por rifcos , e por perigos , foram ha- 
ver vifta da outra cofta por junto de Má- 
drefaval , e juntamente houveram vifta de 
huma náo d'EiRey de Cambaya , que vi- 
nha de Ormuz. D. Álvaro de Caftro poz 
os navios em armas , e a foi demandar , e 
chegando perto lhe atirou huma bombar- 
dada a amainar , o que ella logo fez con- 
fiada no falvo conduto que trazia , porque 
tinha partido em tempo de paz com elle. 
O Capitão da náo tomou o cartaz , e fe 
embarcou com os officiaes no batel , e fe 
foi ao navio do Capitão mor ; elle como 
os teve dentro, osreprezou, e mandou met- 
ter gente na náo , e que lhe levaflèm todos 
os mercadores , que logo fe mettêram em 
ferros. Feito ifto, defpedio logo D. Álvaro 
de Caílro a náo ao Governador pêra deter- 
minar fe era de preza > e metteo-Ihe den- 
tro hum Capitão com gente. Efta náo em 
poucos dias foi tomar a barra de Goa , e 
os mercadores foram defembarcados prezos , 
e a fazenda tirada , que era muito coral ,, 
alcatifas , chamalotes , larins , e outras cou- 
fas , que tudo montaria perto de trinta e 
íinco mil pardáos, o que tudo foi a muito 
bom tempo pêra as defpezas da Armada, 
que fe eftava fazendo preftes. 

D. Álvaro de Caftro tanto que defpe- 
dio a náo y foi lua derrota até tomar a bar- 
ra - 



Dec. VI. Liv. III. Cap. V. 209 

ra de Dio , por onde entrou com toda a 
Armada , que paliava de quarenta navios 
formoíiílimamente embandeirados , dando 
huma íoberba falva de artilheria , cujos pe- 
louros foram dar nas eítancias dos Mouros > 
e por dentro da Cidade , onde caufáram af- 
fás de temor. Da fortaleza lhe refpondêram 
com outra falva mais temerofa por fer com 
bazalifcos , águias , fa! vagens , e outras pe- 
ças muito groílas. D. JoãoMafcarenhas acu- 
dio com grande alvoroço aporta, e a man- 
dou abrir pêra por ella receber D. Álvaro 
de Caílro, que defembarcou no cães, ar- 
mado elle , e todos os da Armada , que fe- 
riam perto de quatrocentos homens , e á 
porta da fortaleza foi recebido do Capitão 
com grandes feftas , e alvoroços de todos. 
Dalli foi levado ás ruinas do baluarte São 
João , onde feu irmão D. Fernando de Caf- 
tro acabou a vida , pêra que nelle tomaíTe 
delia mui grande fatisfação , e alli o apo- 
fentáram com alguns dos feus Capitães. Dom 
Francifco de Menezes foi poíto no baluar- 
te S. Thomé , de que fernpre foi Capitão 
Luiz de Soufa , e os mais Capitães fe re- 
partiram pelas outras eftancias. D. Álvaro 
de Caftro mandou defembarcar os manti- 
mentos , e munições , que nos navios vi- 
nham , de que já havia bem de neceífida- 
de , e com ifto ficou a fortaleza muito dif- 
(buto. Tom. IIL P. I. O fe- 



2io ÁSIA de Diogo de Couro 

ferente do eftado em que dantes eííava , e 
com muito perto de feisccntos homens , que 
já enchiam os baluartes , e eftancias. 

D. Álvaro de Caftro o mefmo dia que 
chegou , defpedio o feu navio com cartas 
ao Governador, em que lhe dava conta de 
fua chegada , e do eftado , em que achou 
aquella fortaleza, e D, João Mafcarenhas o 
fez também de todos os fucceíTos paflados 
até então. Vendo-fe o Capitão tão profpe- 
ro de gente, dava-fe-lhe pouco já dos ini- 
migos , e quiz-lhes moftrar quão cedo os 
havia de dcfenganar de todo , mandando 
logo aíTeílar três camellos de marca maior 
em três eftancias fronteiras ás dos inimigos , 
e as mandou bater fortemente , e fez nellas 
tal eftrago, que foi forçado a Rumecan for- 
tificar-fe mais. 

E porque nas ruinas do baluarte São 
Thomé ficou hum façanhoío bazalifco en- 
terrado, tratou o Capitão de o tirar, pêra 
o que mandou ordenar cabreílantes , e en- 
genhos ; mas nada bailou por muito que to- 
dos trabalharam. E vendo que era trabalho 
em vão , mandou-o liar com dous virado- 
res groflbs pêra o fegurarem dos inimigos; 
mas nem iílo aproveitou , porque os inimi- 
gos fervindo-fe por baixo das ruas , e pon- 
tes , determinaram de acabar de derribar 
aquelle baluarte, e aífim o foram folapan- 

do 



Dec. VI. Liv. ITT. Cap. V. an 

do pelos fundamentos , até que arrunhou de 
todo , e cahio pêra muitas partes , ficando 
o bazalifco fufpendido nos viradores. Iíto 
fuccedeo quatro dias depois da chegada de 
D. Álvaro de Caílro. Vendo os Mouros 
todo o baluarte derribado , e o bazalifco 
dependurado , determinaram de o ganhar, 
e aíHm fahindo de fuás eftancias com todo 
o poder , e com os terremotos acoftuma- 
dos , retnettêram com o baluarte por onde 
começaram a fubir , e outros a dar cabos 
ao bazalifco , porque tirava muita gente -pê- 
ra o levarem. D. Francifco de Menezes, 
que alli eftava de refrefco , acudio com os 
feus, e remettendo com os inimigos, tra- 
vou com elles huma muito arrifcada bata- 
lha , trabalhando muito os Mouros por fe 
porem em Uma do baluarte ; mas como os 
noífos pelejavam já mais defafFogado , e 
com mais brio pelo novo foccorro , foi-lhes 
muito fácil lançarem os inimigos fora do 
baluarte, e os fizeram recolher a fuás eftan- 
cias com mortes , e feridos de muitos dos 
Mouros. O Capitão mandou vigiar fe ha- 
via mina pêra prover niíTo. 

Os foldados da Armada de D. Álvaro 
de Caílro, ouvindo fallar em minas, ten- 
do fabido o defaftrado fucceíío do baluarte 
S.João, receando acontecer-lhes outra def- 
aventura, e que todos os baluartes eítivefc 

O ii fem 



212 ÁSIA de Diogo de Couro 

fem minados , ajuntando-fe quafi quatrocen- 
tos póílos em armas , juramentáram-fe a fe- 
guirem todos a voz a hum , e depois fahí- 
ram pelas ruas com grande motim , e ar- 
rogância , bramindo ,, e gritando , dizendo : 
» Que náo haviam de fofFrer eftar encurra- 
)> lados , e virem-lhes os inimigos tomar as 
» peças de ahilheria dos íeus baluartes ; e 
» que não queriam morrer debaixo de mi- 
» nas , fenão no campo antre os inimigos 
» como Cavalleiros. » Com efta união , e 
determinação fe foram a cafa do Capitão , 
e com palavras arrogantes , e defordenadas , 
lhe requereram : » Que os deixafle ir pele- 
» jar no campo com os inimigos; e que fe 
» elle tinha já ganhado muita honra na de- 
» fensão da fortaleza , que muito mais ga- 
)> nharia pelejando no campo, enão aguar- 
» dar alli a fúria , e braveza do fogo das 
» minas ; porque não era honra dos Portu- 
» guezes morrerem encerrados, c de fome, 
» tendo a vitoria tão certa , como todos ef- 
» peravam. » O Capitão achou-fe embara- 
çado com aquella união , a que acudiram 
D. Álvaro de Caftro , e D. Francifco de 
Menezes (que já tinham rebate difto ) pêra 
os apaziguarem , fem poderem acabar com 
elles coufa alguma. O Capitão com muita 
brandura , e manfidão lhes pedio » fe 
» quietaíTem , e que o ouviílem , e fe lhes 

anão 



Dec. VI. Liv. III. Cap. V. 213 

» não déíTe razoes muito licitas pêra não 
» commetterem o que queriam , que elle 
» eftava preftes pêra lhes fazer a vontade 
)> em tudo,» E querendo ir por diante com 
a prática, lha atalharam , começando a bra- 
dar : » Que aquillo era covardia, e fraque- 
» za , que fe elle não queria fahir ao caril- 
» po, que elles elegeriam antre fi Capitão 
y* que os guialTe , porque não haviam de 
» íbíFrer tanta foberba aos inimigos , que . 
» tinham oufadia pêra lhes levarem as pe- 
» ças da artillieria de dentro do baluarte, 
» porque ao outro dia tentariam outra cou- . 
» ia de mor affronta , e vitupério pêra el- 
» ,les. » Vendo o Capitão aquelle defatino , 
diíTe: » Que fe foliem quietar, que elle lhes 
a faria as vontades contra a íua , e contra 
» o ferviço d 5 ElRey ; e que fe fizeffem pref- 
)> tes pêra o outro dia pela manhã, que el- 
» le os metteria onde fe arrependeUem. » 
Com ifto fe foram recolhendo , ficando o 
Capitão afíbmbrado daquelle negocio , por* 
que via quão arrifcado era. Todo aquelle 
reílo do dia , e toda a noite trabalharam 
D* Álvaro de Callro f e D. Francifco de 
Menezes , e o Padre Vigário , com os mais 
Fidalgos , e Capitães , pêra os moderar , fem 
os poderem mover de fua pertinácia. Bem 
diíFerente do que fizeram aquelles valentes 
Toldados Romanos } que alevantados contra 

o feu 



214 ÁSIA de Diogo de Couto 

o feu Di&ador Quinto Fábio Máximo , pê- 
ra que défle batalha a Anibal , com outra 
femelhante arrogância , e íbberba á deites 
noífos Portuguezes ; edando-lhes o bom ve- 
lho Fábio fuás razões , e apontando-lhes os 
inconvenientes que tinha pêra não romper 
batalha com os inimigos , tiveram tanta for- 
ça , e authoridade fuás palavras , que os fu- 
jeitáram , moderaram , e apaziguaram de to- 
do ; porque as leis da difciplina militar , que 
antre nós falece, os trazia mui enfreado. E 
fe antre as virtudes que os Portuguezes tem , 
como são , fortaleza , valor , e fidelidade , 
tiveram efta da difciplina militar , e da obe- 
diência na guerra , puderam fazer em tudo 
vantagem áquelles antigos Romanos, e ain- 
da a todas as mais Nações do mundo. Nem 
fe pode negar que eíle motim deftes Portu- 
guezes foi huma temeridade guiada de feus 
esforçados , e grandioíbs ânimos , que lhes 
fazia parecer que tudo pêra elles era pouco , 
e fácil. 



CA- 



Década VI. Liv. IIL 21? 

CAPITULO VI. 

De como D. João Mafcarenhas por ãefcon* 
fiança fahio aos inimigos , e lhes ganhou 
as primeiras eftancias , e a parede 9 e 
os commetteo no campo , onde foi desba- 
ratado , e morto D. Francifco de Mene- 
zes > e outros Fidalgos. 

AO outro dia tanto que amanhecco , ar- 
mando-fe os Toldados do motim , fe 
foram juntos ao terreiro da forta^za, cha- 
mando a altas vozes pelo Capitão , e pe- 
dindo batalha com palavras mui foberbas, 
e deíòrdenadas. D. Álvaro de Caítro , e 
D. Francifco de Menezes acudiram logo 
pêra os quietarem com branduras, mimos, 
e promeíTas , o que tudo era peior , porque 
quanto mais lhes diziam , tanto mais des- 
temperados femoítravam. O Capitão entran- 
do-ihe a defconfiança , diffe a D. Álvaro 
de Caítro , e a D. Francifco de Menezes : 
» Ora em fim , fenhores , façamos-lhes as 
» vontades, eencommendemo-nos a Deos. » 
E encarregando as eftancias a feus Capitães, 
repartio por ellas cem homens, e de todos 
os mais , que eram perto de quinhentos , 
fez três batalhas , dando as duas a D. Ál- 
varo de Caítro, e a D. Francifco de Me- 
nezes , e a outra tomou pêra íi. E póítos 

em 



ii6 ÁSIA de Diogo de Couto 

em ordem , fahíram da fortaleza pelo pofti- 
go, e remettêram com as efíancias , que os 
inimigos tinham á boca da cava, e aos pri- 
meiros encontros as ganharam com mortes 
de muitos Mouros , fugindo os mais pêra 
o exercito , indo os noíTos apôs elles. E che- 
gando ás paredes (que eílavam já com as 
portas fechadas) as começaram a fubir. Dom 
Álvaro de Caílro pedio a Jorge de Men- 
doça, e a feu irmão Luiz de Mello, que 
o ajudaflem a fubir ao muro , e que tivef- 
fem o o\l$p nelle , o que elles fizeram pon- 
do-o em fima ? e elles logo apôs elle falta- 
ram da outra banda. O mefmo fez D. Fran- 
cifco de Menezes com os mais da fua com- 
panhia, fendo os primeiros António Moniz 
Barreto , Garcia Rodrigues de Távora , Dom 
Jorge, e D. Duarte de Menezes, D. Fran- 
cifco , e D. Pedro de Almeida irmãos , e 
outros Fidalgos, e Cavaíleiros, que foram 
com grande determinação pêra darem no 
exercito. 

Rumecan , Juzarcan , e Mojatecan acu- 
dindo com feus efquadrões fora , deram com 
os noflbs , começando-fe antre todos huma 
muita afpera batalha , mui defarranjada , e 
fem ordem alguma da noffa parte. D. Fran- 
cifeo de Menezes tinha ajuntado afia mor 
parte do feu efquadrao , com que commet- 
teo os inimigos pelo alto do jogo dabolla, 

(por- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. VI. 217 

(porque álli foi a batalha,) e rompendo 
nelles com grande fúria , e força , animan- 
do , e esforçando os feus , foram fazendo 
grande deftroço nos Mouros. O Capitão 
com o guião deChrifto, que hia hum pou- 
co atrás, chegou ás paredes humefpaço pe- 
queno , depois de D. Álvaro de Caflro , e 
D. Francifco de Menezes eílarem já da ou- 
tra banda , e achou os principaes foldados 
do motim embaraçados nas paredes , e fem 
as oufarem a fubir, porque des que viram 
a groffura , e altura delias , ficarão como 
pafmados. Elle vendoos aílim , chegou a el- 
les, dizendo alto : » Que he ifto , oufados, 
» e atrevidos nas palavras , e tão tímidos, 
» e covardes nas obras? que do voíTo brio, 
» e arrogância , ou pêra melhor dizer, o 
)) voílb mal confíderado esforço ? como não 
)> fubís eífas paredes ? que medo he o que 
)> vos ata as mãos, tendo ha tão pouco a 
» lingua tão folta ? fegui-me que eu vos 
» guiarei aonde eftão os inimigos , e quero 
» ver fe os achais tão fracos como dizeis. » 
E comrnettendo as paredes, as fubio , fe- 
guindo-o todos mais por vergonha, que por 
vontade ( bem arrependidos do que tinham 
commettido.) E faltando da outra banda , com- 
mettêram os inimigos , que andavam bara- 
lhados com D. Álvaro de Caftro , e com 
aquelle primeiro impeto os arrancaram hum 

pou- 



2i$ ÁSIA de Diogo de Couto 

pouco do campo. D. Francifco de Mene- 
zes , que pela parte de fim a pelejava , ten- 
do feitas muitas coufas dignas de quem era, 
e muito grande eftrago nos Mouros , pare- 
ce que invejofa a fortuna de fua virtude, e 
esforço , ordenou que lhe déíTe hum pelou- 
ro de hum arcabuz, que o paíTou de parte 
a parte , desbaratando em hum muito pe- 
queno momento tão grandes forças , e tão 
honrofos penfamentos. Os feus em o ven- 
do cahir logo fe foram retrahindo deforde- 
nadamente. D. Álvaro de Caílro na parte 
em que pelejava , carregava fobre elle hum 
grande efquadrâo ; e foram tantas as efpin- 
gardadas , e frechadas fobre os feus , que 
lhe cahíram muitos, e a mor parte dos ou- 
tros começaram a perder o campo. Vendo- 
lè D. Álvaro perdido , fe foi recolhendo pê- 
ra as paredes com o roílo nos inimigos , 
pelejando fempre com muito valor , e es- 
forço. Veado Jorge de Mendoça a coufa 
tão arrifeada, (pofto que tinha humaefpin- 
gardada em huma perna , ) tomou D. Ál- 
varo de Caílro nos braços pêra o pôr em 
íima da parede ; mas a fraqueza lho não 
deixou fazer , e todavia acudio-lhe feu ir- 
mão Luiz de Mello, que o ajudou a fubir. 
Neíle tranfe deram a D. Álvaro de Caftro 
huma pedrada na cabeça , de que cahio da 
outra banda atordoado. Luiz de Mello poz 

tam- 



Deg. VI. Liv. IIL Cap. VI. %%? 

também o irmão em fima da parede, fican- 
do em baixo elle , António Moniz Barreto , 
Garcia Rodrigues de Távora , e outros Fi- 
dalgos , que fizeram coufas notáveis , fuf- 
tentando o impeto dos inimigos , em quan- 
to os outros fubiam. Aqui deram huma ef- 
pingardada em Luiz de Mello de que ca- 
hio ; mas foi logo alevantado pelos com- 
panheiros , e pofto em fima da parede , e 
recolhido , e levado á fortaleza, e depois 
foi morrer a Chaul da ferida. O Capitão 
na parte em que andava , teve logo avifo 
da morte de D. Francifco de Menezes , e 
do desbarato de D. Álvaro de Caftro , e 
no mefmo tempo lhe gritou hum foldado 
que acudiíTe á fortaleza , que era tudo per- 
dido , primeiro que os Mouros entraflem 
nella ; e tomando eftas novas com grande 
paciência , e animo , tocou logo a recolher. 
Osfeus tanto quefouberaodaquella def- 
aventura , começaram a fe pôr em desbara- 
to. Vendo elle a defordem com que alguns 
fe recolhiam , acudio a iífo , dizendo : » Que 
» he ifto , foldados , que vergonha he eíla ? 
» como arrifcais aífitn a fama Portugueza 
» por hum pequeno temor da morte ? aon- 
» de vos ides ? efperais de vos falvar , dei- 
» xando o voflb Capitão no campo? Tor- 
» nai , valorofos cavalleiros, e legui-me, 
» que hoje havemos de alcançar huma fa- 



210 ÁSIA de Diogo de Couto 

» mofa vitoria » e com ifto voltou a ter o 
encontro aos inimigos , que carregavam ío- 
bre elles , como homens vitoriofos. O Ca- 
pitão com alguns que o feguíram , fizeram 
aqui tudo o que fe podia efperar de feu 
animo, e esforço, matando, e derribando 
muitos dos inimigos. Aqui mataram Dom 
Francifco de Almeida de huma arcabuzada, 
tendo feito por feu braço coufas muito no- 
táveis. D. João Mafcarenhas vendo tudo 
perdido, andava como leão bravo antre os 
inimigos , com o rofto cheio de pó , e fuor , 
as armas rodas banhadas em fangue , e cor- 
tadas por algumas partes , a eípada já fem 
fios de cortar pelas armas dos inimigos ; e 
gritando-lhe hum foldado que fe recolheífe, 
porque tudo fe perdia, elle o fez com gran- 
de mágoa , e dor de feu coração , levando 
os feus mui bem ordenados , e o rofto fem- 
pre nos inimigos. Os da companhia de Dom 
Álvaro de Caftro , que pelejavam encurra- 
lados ao muro , fizeram todos coufas dig- 
nas de muito maior efcritura , porque alli 
carregou Rumecan com o feu efquadrão , 
apertando tanto com elles , que encravaram 
nas paredes Ruy Freire , Francifco Guilher- 
me , e outros ; os mais ajudando-fe huns 
aos outros o melhor que puderam , fubírarn 
o muro. Lopo de Soufa ficou a huma par- 
te cercado de hum corpo de Mouros , e 

el- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. VI. %%t 

elle em meio de todos como leão feroz, 
ferindo a huma , e a outra parte , até que 
ihe deram com hum dardo dearremeffo pe- 
los peitos , de que cahio morto. António 
Moniz Barreto, Garcia Rodrigues de Tá- 
vora, D. Duarte, e D.Jorge de Menezes, 
(que trazia dezefete feridas , que o furor 
lhe não deixava fentir,) com outros Fidal- 
gos, e Cavalleiros , com orofto nos inimi- 
gos , e as coitas na parede , fizeram coufas 
admiráveis , e não efperadas de tão poucos 
homens , e tão cançados , ficando todos em 
barreira ás frechas dos inimigos , de que 
todos eftavam bem empenados , e todavia 
tinham diante de fi hum monte de mortos. 
Rumecan vendo todos os noílbs desba- 
ratados , mandou a Mojatecan , que com 
finco mil homens fofie demandar a fortale- 
za , e fe mettefle nella , porque os que ef- 
capaíTem da batalha não tiveílem onde fe 
acolher, e aífim acabaflem todos. Mojate- 
can foi pelo muro adiante até huma porta , 
que mandou abrir , por onde fahio , e foi 
demandar o baluarte S. Thomé , cuidando 
que eftiveíTe fem gente; mas Luiz de Sou- 
fa com feus companheiros o começaram a 
fuíbgar de bombardadas , e efpingardadas , 
de que lhe mataram muitos. O Capitão foi 
logo avifado daquelle negocio , e recolheo- 
fe pela banda da praia em muito boa or- 
dem P 



i ÁSIA de Diogo de Couto 

dem , voltando aos Mouros de quando em 
quando , fazcndo-os afFaftar até terem lugar 
pêra cavalgarem as paredes , e de fima com 
a arcabuzaria varejaram o campo , pêra to- 
dos os mais terem tempo de fe recolherem , 
como fizeram , e na ponte acharam a gen- 
te da companhia de D. Álvaro de Caftro, 
que eftavam favorecendo os que chegavam. 
Aqui foube o Capitão como D. Álvaro de 
Caftro era recolhido na fortaleza com a ca- 
beça tão maltratada , que haviam todos que 
não efcaparia , o que elle fentio cm eftre- 
mo. E recolhendo-fe á fortaleza mui ano- 
jado , foi ver D. Álvaro de Caftro , que 
achou curando-fe , e fem falia , encommen- 
dando ao Cirurgião tiveíTe muito grande 
conta com fua cura , e com a de todos os 
mais feridos , que foi ver curar. 

Ficaram defta cavalgada mortos dos 
noflbs trinta , em que entraram os Fidal- 
gos 5 que já nomeámos , e fetenta mal fe- 
ridos , todos Capitães , e Fidalgos , em que 
entrava Nuno Pereira , que ficou peior que 
todos. O Capitão quizera morrer de pai- 
xão do feito ; e fegundo a coufa efteve ar- 
rifcada , ainda lhe fez Deos mui grande 
mercê em fe não perder de todo. No ba- 
luarte S. Thomé pelejavam com Mojate- 
can braviífimamente , e acudindo os que 
cfcapáram da batalha , o fizeram reco* 

lher 



Dec. VL Liv. III. Cap. VIL 223 

lher com muitos dos feus menos , e feri- 
dos. 

CAPITULO VIL 

De como os Mouros ganharam as peças da 
artilheria do baluarte S. Thomé : e de 
como Rumecan mandou fazer huma no- 
va Cidade junto da nojfa fortaleza : e 
das nãos , que ejle anno de quarenta e 
féis partiram do Reino , de que era Ca- 
pitão mór Lourenço Pires de Távora : e 
de como D. Manoel de Lima chegou a 
Goa : e das novas que deram ao Gover- 
nador dos fuccejfos de Dio , e do foccor- 
ro que mandou. 

AO outro dia depois que paflbu o tris- 
te , e defaventurado íucceflb , achan- 
do-fe mal Nuno Pereira , pedio licença ao 
Capitão pêra ir morrer a Goa a fua cafa , 
onde era caiado de pouco , e rico , e dan- 
do-lha , fe embarcou no feu navio , e fe fez 
á vela , efcrevendo D, João Mafcarenhas 
ao Governador o fiicceíTo paflado y pedin- 
do-lhe que fe apreííaífe ao ir foccorrer , e 
de fua viagem adiante daremos razão. 

Rumecan vendo a grande vitoria que 
alcançou dos Portuguezes, ficou tão fober- 
bo , que já lhe não dava da vinda do Go- 
vernador , e logo mandou profeguir na obra 
do baluarte S. Thomé , com tenção de o 

pôr 



224 ÁSIA de Diogo de Couto 

})ôr no andar da cava , e aífím o foram fo- 
apando tanto por baixo , que não fe po- 
dendo já íuílentar o pezo do bazalifco , (que 
ficou em vão , ) quebraram os viradores , e 
cahio em baixo , e com elle hum formofo 
leão, que fempre alliefteve. P^umecan acu- 
dio áquella parte , e os mandou recolher, 
fem os noíTos lhe poderem valer, o que o 
Capitão fentio muito , e o houve por gran- 
de affronta. E vendo o baluarte todo que- 
brado , mandou fazer pela banda de dentro 
outro muito forte com degráos pêra den- 
tro. Nefia obra pelejaram fempre em todas 
as eftancias , porque a quizeram os Mouros 
divertir ; mas as mulheres com os oíficiaes 
foram profeguindo nella , ficando todos os 
mais de fora pêra a peleja. Defejava Ru- 
mecan de moftrar aos noíTos o pouco que 
receava a vinda do Governador; e pêra os 
defenganar que eftava alli muito de vagar, 
fez duas coufas : huma foi atraveíTar a paf- 
fagem do rio ( que pafía da Alfandega á 
Villa dos Rumes ) com pontes fobre barcas 
fortiílímas, e largas, cubertas de terra, e 
rama, pêra palTarem as carretas, que tra- 
ziam os mantimentos até á Cidade. Foi ef- 
ta obra 1 mui grande , e feita com grandes 
defpezas , por fer ( como diíTemos ) fobre 
grandes barcas furtas,. com muitas, egrof- 
fas amarras ; e haver naquelle canal fete 

bra- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. VIL 22? 

braças de fundo , e correr a agua nelle com 
grande fúria. A outra obra foi começar hu- 
ma formofa Cidade na parte onde tinha o 
exercito , com formofos apofentos pêra fí , 
e pêra os Capitães , e muito grandes , e 
altas mefquitas , o que fe fez com muita 
preíTa; e em quanto efta obra dura, dare- 
mos conta das coufas que nefte tempo fuc- 
cedêram em Goa. 

Os Mouros como he feu coílume , (e 
como já o fizeram no tempo de António 
da Silveira, quando os Rumes tinham cer- 
cado aquelia fortaleza ,) efpalháram por to- 
do o Reino de Cambaya , que tinham to- 
mado a fortaleza de Dio , e aííim o efcre- 
vêram aos Reys Mouros do Balagate. E 
como fempre a má nova voa , foi de bo- 
ca em boca ter á Ilha de Goa , onde fe co- 
meçou a efpalhar huma voz furda , que foi 
ter ás orelhas do Governador , fem faber , 
nem poder enfecar donde fora , e quem a 
Jevára. Ido caufou em feu peito huma gran- 
de triíleza , poílo que a encubria bem , e 
receava que tiveííe acontecido alguma de£- 
aventura, porque nem tinha novas do que 
hia na fortaleza , nem da chegada de feu 
filho D. Álvaro de Caftro ; e andando com 
eftas melancolias , furgio huma náo na bar- 
ra de Goa , de féis, que eram partidas do 
Reino , de que era Capitão mór Lourenço 
Couto.Tom.III.P.L P Pi- 



226 ÁSIA de Diogo de Couto 

Pires de Távora, e os mais Capitães eram: 
D. João Lobo , João Rodrigues Paçanha , 
Fernão Alvares da Cunha , Álvaro Barra- 
das , e D. Manoel de Lima , que era o 
que furgio na barra a quinze de Setembro. 
Vinha eíle Fidalgo provido da fortaleza de 
Ormuz após D. Manoel da Silveira ; e além 
dos merecimentos que tinha pêra lhe darem 
tudo o que pediíle , teve o íèu deípacho ef- 
ta occafião. 

Depois que D. Manoel de Lima che- 
gou a Portugal , aggravado de Martim Af- 
fonfo de Soufa, (como na quinta Década, 
no Capitulo VIL do Livro X. temos dito,) 
deixou-fe andar em Lisboa, fem requerer, 
nem ir ver EiRey a Almeirim , onde efta- 
va , e affirmava-íe que eíperava por Mar- 
tim AfFonfo pêra o defafiar , o que foi en- 
tendido dos grandes. E fazendo-fe a Arma- 
da de Lourenço Pires de Távora preftes pê- 
ra fe partir, não faltou quem diífeíTe a El- 
Rey os defgoftos com que D. Manoel de 
Lima andava; e alguns dizem que o Con- 
de da Caftanheira D. António de Taíde , 
que era primo com irmão de Martim Af- 
fonfo de Soufa , fallando com EIRey lhe 
diíTera : » Que fem dúvida D. Manoel de 
» Lima mandaria defafiar Martim Aftbnfo 
» de Soufa , que o bom feria evitar aquil- 
» lo 3 pelo defgoíto que S. A. diííb havia 

»de 



Dec. VI. Liv. III. Cap. VII. 127 

» de ter -/que o melhor meio que havia pe- 
» ra iíTo , era delpachar D, Manoel de Li- 
)> ma pêra a índia , e mandallo naquella 
» Armada , porque Martim AíFonfo de Sou- 
» fa vinha já por mar , e não fe podiam 
» encontrar , e que mettendo-fe o tempo 
» nefte meio , fe curariam eftas coufas. » 
EIRey parecendo-lhe aquillo bem , mandou 
chamar D. Manoel de Lima , e lhe difle : 
» Que era feu ferviço ir á índia por ter 
» novas de Rumes, e que lhe fazia mercê 
» da fortaleza de Ormuz , e de huma náo 
)) pêra ir nella por Capitão. » D. Manoel 
de Lima , vendo os termos por onde EIRey 
levava aquelle negocio , não pode deixar 
de fe embarcar , e teve tal ventura , que foi 
tomar Goa , indo todas as mais náos por 
fora , e com tempos mui ruins tomar Co- 
chim , como adiante diremos. D. Manoel 
de Lima defembarcou , e foi ao Governa- 
dor , que o recebeo com muita honra , es- 
timando muito fua vinda pelas muitas par- 
tes que efte Fidalgo tinha , e muito grande 
experiência das coufas da índia , e porque 
tinha nelle hum grande companheiro pêra 
os trabalhos que fe lhe oífereciam. 

Poucos dias depois da chegada de Dom 

Manoel de Lima , quando o Governador 

eftava em maior agonia , por não ter novas 

de Dio , entrou pela barra de Goa o na- 

P ii vio, 



228 ÁSIA de Diogo de Couto 

vio, que levou D. Álvaro de Caftro. O ho- 
mem que vinha nelle , á entrada da barra 
de Goa foube as novas que corriam nella, 
e ainda que levava as da morte de D. Fer- 
nando de Caftro, embandeirou, e enramou 
todo o navio , e foi entrando pelo rio de 
Goa atirando muitas bombardadas pêra ale- 
grar a Cidade. A efte alvoroço acudio toda 
a gente ao cães a íaber novas, (que já não 
podiam deixar de fer boas , pois vinham 
tão feftejadas.) O Capitão do navio em def- 
embarcando foi levado nos ares a caía do 
Governador, que eftava com o Bifpo Dom 
João de Albuquerque, e com o Padre Frei 
António do Cafal , Cuílodio dos Frades de 
S. Francifco , e chegando ao Governador, 
levantou-fe eíle muito depreífa , e antes que 
lhe fallaíTe o homem , lhe perguntou fe a 
fortaleza de Dio eftava por EIRey de Por- 
tugal ? Ao que o homem lhe refpondeo : 
» Sim eftá , fenhor , e eftará em quanto os 
» Portuguezes forem vivos. » 

Ouvindo o Governador ifto , com os 
olhos arrazados de lagrimas de prazer , fe 
ajoelhou com as mãos levantadas ao Ceo , 
dando graças ao Altillimo Deos por tama- 
nha mercê, e o mefmo fez o Bifpo, eCuf- 
todio. O Governador mandou logo trazer 
huma rica cabaia de borcado , e a lançou 
aos hombros do homem ; mandando-lhe 

que 



Dec. VI. Liv. III. Cap. VII. 229 

que foíTe por toda a Cidade dar aquellas 
tão boas novas , o que elle fez, acompa- 
nhado de hum grande tropel de gente. O 
Bifpo mandou recado ás Igrejas que repi- 
caílem os finos, que todo o dia não cefla- 
ram. O Governador depois deite alvoroço 
leo as cartas , e achou nellas as novas da 
morte de feu filho , fazendo o mundo na- 
quillo feu officio , que lie não dar hum gof- 
to fem o aguar logo com huma grande trif- 
teza. Pelo que dizia o Sábio mui bem , que 
o pezar occupava os eftremos do prazer. 
Por iífo receava Filippo pai de Alexandre , 
dando-lhe três boas novas em hum dia , que 
vieífem ellas fem feus defcontos , e levan- 
tando os olhos aos Ceos , pedio aos Deo- 
fes , que aquelle grande prazer fe lhe aguaf- 
j fe com algum pequeno pezar. 

O Governador tanto que deo com as 
triftes novas , que lhe cortaram bem o co- 
ração , encubrio-as de feição , que ninguém 
lhas fendo. Eftando affim nefte alvoroço , 
não feriam paífadas duas horas, quando en- 
trou pelo rio o navio de Nuno Pereira, 
que havia dous dias era falecido , e trazia 
feu corpo , e dando-fe as cartas ao Gover- 
nador , por ellas foube a grande defaven- 
tura da fahida do Capitão , e da morte de 
D. Francifco de Menezes, e de tantos Fi- 
dalgos, e Cavalleiros, coufa que o cortou 

mui- 



230 ÁSIA de Diogo de Couto 

muito ; mas a morte do filho o trafpaflbu , 
porque tanto que foi noite que fe recolheo , 
mcttido na lua camará , diiTe mil mágoas , 
chorando rios de agua por aquellas vene- 
randas cans abaixo , não dormindo toda a 
noite , que pafTou em vivos fufpiros das fau- 
dades do filho. 

Aquelle mefmo dia foi enterrado o cor- 
po de Nuno Pereira em S. Francifco , acom- 
panhado do Governador , Biípo , Cabido , 
Freguezias , e de todos os Fidalgos , e Ci- 
dadãos , fazendo-Jhe feu Officio com gran- 
de , e funeral pompa. Ficaram a eíle Fidal- 
go trcs filhos, hum macho chamado Duarte 
Pereira , que também morreo em Goa , ef- 
tando deípofado com huma filha de hum 
Cidadão rico ; e duas filhas , D. Ignez , que 
cafou com Affònfo Pereira de Lacerda, cu- 
jo filho he Manoel de Lacerda , que foi 
Capitão de Chaul , e ainda vive ; e Dona 
Joanna , que foi cafada com D. João Lobo , 
irmão do Barão velho , de que houve Dom 
Diogo Lobo, que hoje vive cafado na Ci- 
dade de Goa ; e por falecimento de Dom 
João Lobo , cafou fegunda vez com D. Pe- 
dro de Soufa , que foi Capitão de Goa 5 e 
agora acabou de fer de Çofala. 

Ao outro dia fe fez huma muito fole- 
mne Procifsão , em que o Governador foi 
veftido de cfcaríata por encubrir fua trifte- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. VII. 231 

za , e por alegrar o povo, que andava af- 
fombrado das ruins novas, que os Mouros 
efpalháram. Efte mefmo diadefpeciio o Go- 
vernador Vafco da Cunha , pêra que fofíe 
por todas aquellas coitas recolher os navios 
da Armada de D. Álvaro de Caftro , que 
eítevam em diíFerentes porros , e que os le- 
vaíTe a Dio, efcre vendo por elle a D. João 
Mafcarenhas os agradecimentos dos traba- 
lhos que tinha paliado , rogando-lhe que 
por nenhuma occafião fahiííe mais da íua 
fortaleza , e que afsás tinha feito em a de- 
fender. E logo apôs Vafco da Cunha def- 
pedio o Governador féis caravelas carrega- 
das de mantimentos , munições , efcadas , 
picões, cudilins, enxadas, ceftos , padio- 
las , e de todas as mais coufas deite quali- 
dade pêra effeito do que determinava , e 
mandou embarcar quatrocentos efpingardei- 
ros. Deites caravelas foi por Capitão mor 
Luiz de Almeida , e de fuás viagens adian- 
te daremos razão. 



CA- 



232, ÁSIA de Diogo de Couto x 

CAPITULO VIII. 

De como D. Álvaro de Ca firo mandou Luiz, 
de Almeida a efperar as nãos de Meca : 
e de como tomou duas : e dos mais dam- 
nos , que algumas Armadas , que f aloiram 
de Baçaim^ e Chaul , fizeram na encea- 
da de Cambaya. 

VEndo D, Manoel de Lima o traba- 
lho , em que a fortaleza de Dio efta- 
va , e que ainda fe receavam outros maio- 
res , fe foi ao Governador , e fe lhe offe- 
receo pêra ir diante com trezentos foldados 
á fua cufta 5 porque não era razão , que ef- 
tando tantos , e tão honrados Fidalgos tão 
arrifcados naquelta fortaleza , eílivefíe elle 
em Goa fóra daquelles trabalhos , porque 
elle não queria a vida , e a fazenda , fenão 
pêra tudo fe defpender , e gaitar em fervi- 
ço d'ElRey. O Governador lhe agradeceo 
muito aquelle ofFerecimento com palavras 
mui honradas, dizendo-lhe : » Que bem fa- 
» bia o grande zelo que fempre tivera do 
}> ferviço d'EIRey ; mas que a elle lhe não 
» convinha largallo de íi , porque fe que- 
» ria aproveitar de feu confelho, e esforço, 
» que fe fizeíTe preftes pêra ir em fua com- 
» panhia em hum navio ligeiro. » D. Ma- 
noel de Lima não pode fazer outra] coufa , 

man- 



Dec.VI. Liv. III. Cap. VIII. 233 

mandando logo negociar hutna furta , que 
efcolheo pêra iflb. O Governador foi dan- 
do grande preflà a toda a Armada , porque 
efperava de fe partir , tanto que Jhe viefle 
o foccorro de Cochim , e Cananor , que 
tinha mandado pedir. E em quanto ifto tar- 
da , daremos razão de Vafco da Cunha, e 
de Luiz de Almeida , que deixámos parti- 
dos de Goa. 

Vafco da Cunha como hia em navio 
ligeiro , foi mais apreíTado tomando as bo- 
cas dos rios , e enceadas , por onde foi re- 
colhendo alguns navios , que por alli fica- 
ram defapparelhados da companhia de Dom 
Álvaro de Caftro , e os levou comfígo até 
Baçaim , onde achou D. Jeronymo de Me- 
nezes muito anojado pela morte de feu ir- 
mão D. Francifco de Menezes , e tinha per- 
to de quinze navios preftes pêra ir em pef- 
foa foccorrer a fortaleza de Dio ; mas por 
ter novas que o Bremaluco Senhor de Da- 
mão fazia gente pêra vir fobre aquellas ter- 
ras j tanto que elle partiíle , fobreeíleve na 
ida. Vafco da Cunha tomou os navios que 
alli achou , e atraveíTou logo pêra Dio , e 
no meio do golfo encontrou as caravelas de 
Luiz de Almeida, e ajuntando-fe todos , en- 
traram em Dio com huma formofa Armada 
toda embandeirada , tocando muitos inftru- 
mentos, e dando grandes falvas de artilhe- 

ria, 



234 ÁSIA de Diogo de Couto 

ria , o que foi pêra huns grandes moftras 
de contentamento , e alvoroço , e pêra ou- 
tros de maior dor , e trifteza , porque bem 
entenderam os inimigos o ruim íucceflb , 
em que aquella íua jornada havia de vir a 
parar, porque lhes lembrava quanto lhes ti- 
nha cuftado o tempo do inverno , em que 
os nollbs não tiveram foccorro mais que de 
quatro navios [cm gente , e que já entrava 
o Verão , e começavam a chegar Armadas 
poderofas , e que fe efperava ainda pelo 
Governador : eíías coufas caufáram grandes 
defconfianças em todos. 

D. Álvaro de Caftro, que tinha pode- 
res em toda a Armada do mar, fendo avi- 
fado que em Surrate fe efperava por algu- 
mas náos de Meca , com confelhb do Ca- 
pitão defpedio Luiz de Almeida com três 
caravelas , de que a fora elle eram Capitães 
Paio Rodrigues de Araújo , e Pedro AíFon- 
fo, dando-lhes por regimento que fe foííem 
pôr na barra de Surrate , e que ahi efpe- 
raífem as náos , que a haviam de ir deman- 
dar. Dada á vela , foram furgir , onde leva- 
vam por regimento ; e paflados alguns dias 
depois de alli eítarem , viram vir de mar 
em fora duas náos enfunadas , huma mui 
grande , e formofa , e a outra de menos 
porte , e levando ancora , puzeram-fe as ca- 
ravelas em armas , e com os traquetes da- 
dos 



Dec. VI. Liv. III. Gap. VIII. 235: 

dos as foram demandar , e como ellas vi- 
nham com vento em poppa , em vendo as 
caravelas, foram virando em outro bordo ; 
mas como as caravelas largaram as velas , 
e eram muito ligeiras , logo as alcançaram. 
Luiz de Almeida abalroou a náo grande , 
em que vinha por Capitão hum Janizaro, 
parente de Coge Çofar , que trazia muita 
gente, e mui boa artilheria , e ferrando hu- 
ma da outra , começaram huma muito afpe- 
ra batalha, trabalhando huns por entrarem, 
e outros por fe defenderem ; mas todavia 
os noífos entraram a náo dos Mouros , e 
dentro fe começou antre todos outra nova 
batalha , em que os noíTo? fizeram tanto , 
que com morte de muitos Mouros fe ren- 
deram os mais , e o Capitão Janizaro acha- 
ram ferido de muitas feridas , e Luiz de 
Almeida o mandou paíTar á íua caravela 
pêra fer curado. Paio Rodrigues de Araú- 
jo bordou á outra naveta , que também 
rendeo. 

Feito iflo , deixáram-fe ficar mais alguns 
dias , em que tomaram algumas embarca- 
ções de mantimentos. Pedro Affonfo rendeo 
hum tabó , que vinha de Ormuz com mui- 
ta fazenda. E acabando-fe-lhes os dias do 
provimento , fe foram recolhendo com as 
náos por poppa , e entraram pela barra de 
Dio com todos os Mouros ? que cativaram , 

en- 



^l > 6 ÁSIA de Diogo de Couto 

enforcados pelas vergas. D. Álvaro de Caf- 
tro eftimou muito o fuccefíb , e mandou 
cortar as cabeças aos Mouros , e lançallos 
no rio com a enchente , e antre ellas foi 
também a do Capitão Janizaro , parente de 
CogeÇofar, que dava por fi trinta e dous 
mil pardaos de ouro, havendo os Capitães 
que fe os acceitaíTem fariam offenfa a tan- 
tos , e tão honrados Fidalgos , e Cavallei- 
ros , como naquelle cerco eram mortos. As 
fazendas das náos foram defembarcadas , e 
em dinheiro de ouro , e prata , e fazendas 
fe fizeram cincoenta e quatro mil trezen- 
tos e oitenta e oito pardaos , ( que tantos 
achámos nas receitas dos Officiaes daquelie 
tempo fobre quem fe carregaram. ) Foi ifto 
huma grande ajuda pêra as defpezas da guer- 
ra, de que pagaram logo a todos feus quar- 
téis, e fazendo os Capitães muitas mercês, 
porque tinham pêra tudo poder. 

Rumecan houvera de morrer de paixão , 
tanto que as cabeças foram conhecidas , por- 
que foram dar á praia junto do exercito. 

No mefmo tempo fahíram alguns navios 
de Baçaim , e Chaul , de cujos Capitães não 
achámos os nomes , que entraram pela en- 
ceada deCambaya pêra defenderem os man- 
timentos , que hiam pêra o exercito , e to- 
maram muitas embarcações carregadas del- 
íes , £ os Gentios , e Mouros delias foram 

en- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. VIII. 237 

enforcados nas vergas em Palancos , e com 
eftas bandeiras fe recolheram a fuás forta- 
lezas. 

Rumecan mandou minar a guarita de 
fobre a porta, em que eíteve António Frei* 
re , e profeguindo-íe na obra , foi fentida dos 
noíTos , a que acudio o Capitão com mui- 
ta prcíteza , e lhe mandou fazer por den- 
tro fuás contraminas , e repairos , porque 
fe cahia aquella torre, ficava por alli a for- 
taleza toda defeuberta. Os Mouros acaba- 
ram a obra da mina a dez dias de Outu- 
bro , em que lhe deram fogo, arrebentando 
com grande furor; mas não fez mais dam- 
no que derribar alguma parte da face de 
fora , ficando dos íoldados , que nella eíla- 
vam , três feridos. Com eftas coufas andava 
Rumecan como doudo , vendo quão mal 
lhe fuecedia tudo , e mandou com muita 
preíTa abrir no muro da fortaleza (naquella 
parte , que ficava fronteira á cifterna ) dous 
grandes buracos , em que mandou aífeftar 
dous camelos pêra a baterem , e derriba- 
rem , o que tudo fefez por baixo das ruas, 
e pontes , fem os noflbs lho poderem de- 
fender, e aos primeiros tiros mandou o Ca- 
pitão prover, porque fe lhe arrombavam a 
cifterna , perder-fe-hiam todos. E ordenou 
com muita preíla huma parede muito grof- 
fa na fronteria da cifterna , que fe fez de 

duas 



238 ÁSIA de Diogo de Couto 

duas faces entulhada , e ficava fervindo de 
beftião , e em íima mandou plantar dous 
camelos de marca maior contra os dos ini- 
migos , e dos primeiros tiros lhos fez re- 
colher. 

Rumecan pafmava da brevidade com 
que os noííbs repairavam tudo, ejá fe não 
íâbia determinar, e todavia determinou de 
cançar os noííbs , mandando logo fazer ou- 
tra mina no baluarte Sant-Iago , que logo 
foi fentida , e atalhada , como as dantes : c 
hum pouco affaílado do baluarte S. Tho- 
iné, mandou o Capitão fazer huma grofla 
parede , que foi correndo até o de Sant- 
iago , porque fe arrebentafle não ficaíTem 
defcubertos , não deixando aquellas honra- 
das mulheres de exercitar feu officio , (pof- 
to que já na fortaleza havia gente baílante 
pêra o trabalho ; mas quizeram ellas até o 
cabo do cerco ter também quinhão em to- 
dos os trabalhos delle.) Acabada a mina, de- 
ram-] he os Mouros fogo ao primeiro de 
Novembro, ecomo tinha contraminas , va- 
fou-fe a força por ellas , e todavia arreben- 
tou hum pedaço de parede pêra fora. 



CA- 



Década VI. Liv. III. 239 

CAPITULO IX. 

De como o Governador D. João de Caflro 
partio pêra Dio , e de Baçaim defpedio 
D. Manoel de Lima pêra a enceada de 
Cambaya , e da guerra que por ella fez : 
e de como as nãos , que partiram do Rei- 
no no anno de 1546. , de que era Capi- 
tão mor Lourenço Pires de Távora , che- 
garam a Cochim , e Lourenço Pires de 
Távora fe partio pêra Dio de foccorro. 

Tinha o Governador aflentado em con- 
felho foccorrerDio em peflba com to- 
do o poder, e refio da índia, pêra o que 
fe fazia preíles com mui grande preíTa , ef- 
perando pêra fe partir pelo foccorro de 
Nayres , que tinha mandado pedir aos Reys 
de Cananor , e Cochim. E pêra ifto tinha 
mandado dar embarcações , ordem , e di- 
nheiro , fe fofle necefiario , e tinha mandado 
recolher todos os mantimentos que pudef- 
fem de toda a coita do Canará \ e em quan- 
to eflas coufas tardavam , negociou a Ar- 
mada , e mandou fazer gente da terra pelas 
Ilhas vizinhas á de Goa , donde fe ajunta- 
ram mil e duzentos piães , de que deo a 
Capitania a Vafco Fernandes , Tanadar mór 
da Ilha de Goa , dando a cada cento feus 
Naiques pêra os regerem, ç mandou fazer 

alar- 



240 ÁSIA de Diogo de Couto 

alardo de todos os Portuguezes que havia 
em Goa , que o podiam acompanhar , e 
achou perto de dous mil , que mandou exer- 
citar aos Domingos, e dias Santos no cam- 
po de S. Lazaro , onde mandou fazer a for- 
taleza de Dio de madeira , e a parede , e 
eftancias dos inimigos , aíTim , e da manei- 
ra que eftavam , (porque lhas tinha D. João 
Mafcarenhas mandado mui bem pintadas , ) 
e com muitas efcadas que repartia pelos Ca- 
pitães , e elle em pefíoa armado , como fe 
houveífe de entrar em batalha de verdade , 
com as bandeiras repartidas , e gente pofta 
em ordem , commettiam as paredes dos ini- 
migos , encoftando-lhes fuás efcadas , en- 
faiando-fe aílim do modo que as haviam 
de arvorar , encoftar , e fubir , no que an- 
davam muito bem exercitados. 

E fendo quinze de Outubro , começa- 
ram a chegar os foccorros de Cananor , e 
Cochim , de muitos navios, e gente, eCo- 
ge Cemaçadim mandou ao Governador hu- 
ma formofa náo carregada de mantimentos , 
arroz, legumes, manteiga, carnes, pefca- 
dos , e lhe efcreveo huma muito honrada 
carta, em que lhe offerecia todo o dinhei- 
ro que houveífe mifter pêra a jornada. E 
porque ainda vinham atrás mais navios, 
quiz o Governador illos eiperar a Baçaim, 
e em dezefete de Outubro fe fez á vela, 

en- 



Dèc. VI. Liv. III. Gap. IX. 141 

entregando primeiro o governo ao Bifpo 
D.João de Alboquerque , e ao-Capitão Dom 
Diogo de Almeida Freire. 

A Armada que o Governador levava , 
eram doze galeões , de que , a fora clle ( que 
hia em S. Diniz) eram Capitães Garcia de 
Sá, Jorge Cabral, D. Manoel da Silveira, 
Manoel de Soufa de Sepúlveda , Jorge de 
Soufa , João Falcão > D. João Manoel La- 
baítro, Luiz Alvares de Soufa, e outros , a 
que não achámos os nomes. Levava mais de 
kíícntB. navios de remo , cujos Capitães eram , 
D.Manoel de Lima , D. António de Noro- 
nha , Miguel da Cunha , D. Diogo de So- 
to-Maior, o Secretario António Carneiro, 
com quem hia feu filho Vicente Carneiro , 
Álvaro Peres de Andrade, D. Manoel De- 
ça , Jorge da Silva , Luiz Figueira , Jerony- 
mo de Soufa , Nuno Fernandes Pegado o 
Ramalho, Lourenço Ribeiro, António Le- 
me , Álvaro Serrão , Cofmo Fernandes , 
Manoel Lobo, hum catureiro , chamado o 
Rey de Zamzibar , Francifco de Azevedo, 
Pêro de Taíde Inferno , Francifco da Cu- 
nha , António de Sá o Rume , Cofmo de 
Paiva , Vafco Fernandes , Tanador mór de 
Goa, que levava á fua conta doze, ou quin- 
ze navios , cotias , e taurins , em que hiam 
os Canarins de Goa , e outros navios deCa- 
nanor , e Cochim ; e dada á vela em féis 
Couto.TomJII.PJ. Q, dias> 



24 2 ÁSIA de Diogo de Couto 

dias, foi (urgir na barra deBaçaim da ban- 
da de fora, onde D. Jeronymo de Menezes 
feu cunhado o foi vifítar, e lhe deo as no- 
vas que havia de Dio , depois da chegada 
de D. Álvaro de Caftro. O Governador por- 
que efperava por mais Armada , que em Goa 
fe ficava negociando , não quiz paflár fem 
ajuntar todo o poder. E por não eftar ocio- 
f o , quiz neíTes dias, que havia de fe deter, 
fazer guerra aCambaya; pêra o que defpe- 
dio D. Manoel de Lima com féis navios li- 
geiros , com regimento , que foífe por den- 
tro da enceada ás prezas dos navios , que le- 
vavam mantimentos pêra o exercito. E af- 
fim defpedio alguns navios pêra fe irem pôr 
na ponta de Dio a efperar as náos Portu- 
guezas , que haviam de vir de Ormuz , pê- 
ra que as fizeíTem arribar a Baçaim pêra o 
acompanharem , pêra mor terror , e efpan- 
to dos Mouros , como fez , porque fizeram 
voltar três , ou quatro , que hiam já na vol- 
ta de Goa. 

D. Manoel de Lima tanto que deo ave- 
la , foi correndo a cofla de Damão até Gan- 
dar , e por vezes tomou trinta cotias de man- 
timentos , mandando efpedaçar toda a gen- 
te que nella achou , tirando feiTenta Mouros 
efcolhidos , que mandou metter nos navios , 
e os pedaços dos corpos mortos mandou 
metter em algumas das cotias as mais pe- 
que- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. IX. 245 

querias , que fe levaram á toa até ás bocas 
dos rios , onde as largaram com a enchen- 
te da maré, que as levou até ás povoações , 
onde foi vifto aquelle terrível , e medonho 
efpeétaculo, que encheo a todos de temor, 
e efpanro, dizendo mal aos que foram oc- 
caíião daquella guerra* D. Manoel de Lima 5 
como pairaram os dias limitados, tornou-fe 
pêra o Governador , aonde chegou com os 
navios embandeirados com os corpos dos 
feíTenta Mouros , que para iflb mandou guar- 
dar. 

O Governador vendo o bom fucceíTo, 
logo o tornou a mandar com trinta navios 
ligeiros , pêra que tornafle pela mefma en- 
ceada , e fizefle por dia toda a guerra que 
pudeíTe , não perdoando a lugar maritimo 
algum , e que o fofle efperar á Ilha dos 
Mortos. D. Manoel de Lima fe fez á vela 
com os navios, cujos Capitães eram. Dom 
Manoel Deça , Álvaro Peres de Andrade, 
Jorge da Silva , Luiz Figueira , Jeronymo 
de Soufa , hum fobrinho de Francifco Si- 
queira o Malavar , Nuno Fernandes Pega- 
do o Ramalho , Lourenço Ribeiro , Antó- 
nio Leme , Álvaro Serrão , Cofmo Fernan- 
des , o Rey de Zamzibar , e outros. Com 
D. Manoel de Lima , e outros Capitães fo- 
ram embarcados todos os Fidalgos Reynois 
(que aflim chamam na índia aos que aguei* 



244 ÁSIA de Diogo de Couto 

le anno vem do Reyno , ) D. Fernando , Dom 
António , D. Duarte , todos Limas , paren- 
tes do Capitão mor; D.Jeronymo, D. An- 
tónio , D. Gemes , todos da geração dos De- 
ças , Bernabé de Sá , Mathias de Soufa , Mi- 
guel Carneiro , filho de Pêro de Alcáçova 
Carneiro , que então era Secretario de EI- 
Rey D. João, e depois foi Conde das Ida- 
nhas , e outros. E em quanto eíta Armada 
vai feguindo fua derrota , daremos razão 
das náos do Reyno que faltam. 

Depois de paííarem o Cabo de Boa Es- 
perança , tendo grandes contraftes , egaftan- 
do-fe-lhcs o tempo, tomaram a derrota por 
fora da Ilha de S. Lourenço , e com mui- 
tos rilcos , e trabalhos foram tomar Cochirn 
aos vinte dias de Outubro. E fabendo Lou- 
renço Pires de Távora , Capitão mór das 
náos do cerco de Dio , e de como o Go- 
vernador ficava em Goa preítes pêra lhe ir 
foccorrer , achando ainda alguns navios que 
a Cidade negoceava pêra lhe mandar , fre- 
tou huma formofa galeota , e fe embarcou 
nella com quarenta Fidalgos, eCavalleiros 
da fua Armada ; e tomando todos os navios 
comíigo , deo á vela pêra Goa mui apreíTa- 
do , e fem fe deterem coufa alguma , foram 
feguindo fua jornada. 

D. António de Noronha , filho do Vi- 
fo-Rey D. Garcia de Noronha , que com el- 

le 



Dec. VI. Liv. III. Cap. IX. 245- 

le vinha defpachado com a fortaleza de Ma- 
laca , negociou huma caravela; e ajuntando 
feííenta foldados, fe embarcou Jogo pêra Dio ; 
e chegando todos á barra de Goa , acharam 
já o Governador partido, e fem fe deterem 
paiTáram adiante. Lourenço Pires de Távo- 
ra , que hia em navio ligeiro , chegando a 
Dabul, foubeeflar alli o Governador ; e fem 
lhe querer fallar , padou adiante , efoi atra- 
veffar a Baçaim , e em dous dias foi haver 
vida da fortaleza de Dio cercada; e entran- 
do pela barra dentro , foi liirgir no cães. As 
vigias , que já tinham perguntado quem eram , 
deram recado ao Capitão, que acudio com 
D. Álvaro de Caítro , e todos os Fidalgos, 
e Capitães; e mandando abrir aporta, o re- 
ceberam , e a todos com grandes alvoroços ; 
e recolhendo-fe na fortaleza , tomou o Ca- 
pitão a Lourenço Pires de Távora por leu 
hofpede, e os outros Fidalgos foram repar- 
tidos pelas eftancias. De todas eftas coufas 
eram os inimigos logo avifados , e todos os 
foccorros que entravam de novo , o mefmo 
dia davam aflaltos , por moftrarem quão pou- 
co temiam todos; eaffim o deram efte, em 
que os hofpedes provaram a mão emdamno 
dos inimigos. E deixallos-hemos agora hum 
pouco por tornarmos a D. Manoel de Lima. 
Que partido de Baçaim, foi tomar o rio 
deSurrate de noite, e de madrugada entrou 

por 



i^6 ÁSIA de Diogo de Couto 

por elle com amare, efoi defembarcar em 
huma mui formofa povoação , que fe cha- 
ina dos Abexins, huma légua pelo rio aífi- 
ma da banda do Levante; e commettendo-a 
com grande determinação , acharam neíla 
mui grande refiítencia , porque foram fcnti- 
dos , e os moradores eftavam já poftos em 
armas ; e todavia depois de grande referta 
foi entrada com morte de muitos Mouros, 
mettendo-a toda a ferro , e a fogo , matan- 
do toda a coufa viva que acharam pêra ma- 
ior terror , e efpanto; e depois deram fo- 
go ás cafas , em que arderam muitos cellei- 
ros de trigo, milho, grãos, e outros legu- 
mes ; e o mefmo fizeram a algumas náos , que 
eftavam no porto , cujas labaredas foram vik 
tas da fortaleza de Surrate, que era de Ru- 
mecan , e onde tinha fua mulher, e filhos, 
que caufou em todos hum grande temor : 
e antre as peffoas que os noflbs cativaram , 
(que foram mais de duzentos , ) não deram 
vida mais que a hum Mouro , a quem cor- 
taram as mãos pêra ir dar fé do que vira. 
Acabado efte feito , fahio-fe a Armada 
pêra fora , e fpi tomar a Cidade de Anfo- 
te, formofa, eeftendida em hum campo ra- 
fo , de grandes , e cuítofos edifícios. Aqui 
defembarcáram os noííos , dando o Capitão 
mór a dianteira a Álvaro Serrão \ e commet- 
tendo a Cidade em muito boa ordem, a en- 
tra- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. IX. 247 

tráramlogo, levando os inimigos diante de 
íi em hum tropel , (que foram os que fahí- 
ram fóra a efperar os noflbs. ) Dentro na Cf* 
dade , poflo que houve grande baralha , to- 
davia os inimigos a defamparáram , e a dei- 
xaram aos noífos, que neila fizeram a mef- 
ma crueza , que na dos Abexins , efpedaçan- 
do muitas , e mui formofas Baneanas , e Bra- 
manas, (porque as havia alli mui beilas, c 
alvas. ) E aflim nellas , como em toda a 
mais coufa viva que acharam , fizeram ta- 
manhas, e tão deshumanas cruezas, que ex- 
cederam a natureza Portugueza ; porque af- 
íim como ella eflremou aos feus em valor , 
e esforço a muitos , affim o fez a todos em 
piedade, e pouca crueza. Dalli fe paíTou a 
Armada a outros lugares vizinhos , que paf- 
fáram a mefma defaventura que ospaflados. 
E aíTim correo D. Manoel de Lima toda 
aquella enceada , por onde fez taes coufas , 
que caufou , e poz efpanto até na Corte de 
Âmadabá ; e o que fe mais fentio foi , a quei- 
ma que fefez de todos os mantimentos que 
tinham recolhidos , pelo que começou o Rcy- 
no todo a padecer mui grande falta delles. 
O Governador D. João de Caílro , tan- 
to que defpedio D. Manoel de Lima , deo 
prefTa a muitas coufas , erecolheo a Arma- 
da que hia chegando pouco e pouco. E 
porque os deDio fe animaííem > defpedio o 

ca- 



248 ÁSIA de Diogo de Couto 

catureiro , chamado António Rodrigues , 
com cartas ao Capitão , e a leu filho , em 
que lhes fazia a faber de fua chegada , cer- 
tificando-lhes que logo feria com elles. Ef- 
te homem em quatro dias foi , e tornou com 
a refpofta ; e affím em quanto fe alli dete- 
ve , cada dous dias tinha recado de Dio , 
porque trazia naqueile caminho três çatures 
ordinários, O Governador depois de recolher 
de todo a Armada , deo á vela , e foi to- 
mar a Ilha dos Mortos , onde fe deteve dous 
dias, em que D, Manoel de Lima chegou 
com toda fua Armada vitoriofa , e cheia de 
prezas, O Governador o recebeo com mui- 
tas honras , e ao outro dia , que foram féis 
de Novembro , fe fez á vela pçra Dio* 

CA P I T U L O X, 

De como o Governador D. João de Cajtro 
chegou d fortaleza de Dio : e do confe-* 
lho que tomou fobre a defembaí> 
cação : e de como fe ordenou pê- 
ra dar batalha aos inimigos., 

OMefmo dia que o Governador pardo 
da Ilha dos Mortos, já fobre a tarde, 
chegou á vifta daquella tão deílroçada , e 
desbaratada fortaleza , o que foi pêra todos 
çaufa de muito grande alvoroço. E tanto que 
delia começaram a enxergar aquella formo- 

fu- 



Dec. VI. Liv. III. Cap. X. 249 

fura dos galeões , e náos , que pareciam mon- 
tanhas que hiam á vela , eaquella multidão 
de fuftalhas , todas embandeiradas com for- 
mofos toldos , eftandartes , e galhardetes > 
que enchiam todo o mar , mandou logo o 
Capitão embandeirar os baluartes todos, e 
defparar toda a artilheria pêra moítrar o al- 
voroço com que osefperavam. Lourenço Pi- 
res de Távora fe embarcou logo na fua ga- 
leota , e foi bufcar o Governador , que vi- 
nha já em outra , a que fe tinha paíTado , to- 
da toldada de borcado rico ; e chegando a 
ella , depois de a falvar , faltou dentro. O Go- 
vernador foi avifado logo de como era Lou- 
renço Pires de Távora , e acudio depreíla 
a bordo ao levar nos braços , tendo com el- 
le muitas palavras de muitos primores , e 
cortezia ; e recolhidos ao toldo , foube delle 
todas as novas do Reyno , e de fua viagem ; 
e por fer já tarde , mandou o Governador fur- 
gir a Armada na ponta da outra banda da 
terra firme, aonde foi ter com elle D.João 
Mafcarenhas , que o Governador recebeo 
com muitas honras; e logo mandou chamar 
Garcia de Sá , Jorge Cabral , Manoel de 
Soufa de Sepúlveda , e outros Fidalgos, e 
Capitães velhos , e com todos praticou íb- 
bre o modo que teria na fahida contra os 
inimigos , porque elle não vinha pêra cftar 
cercado , lènãa pêra defcercar a fortaleza 

de 



ayo ÁSIA de Diogo de Couto 

de EIRey. Depois de debatidas de parte a 
parte muitas coufas , aflemáram » que o Go- 
»vernador com toda a gente delembarcafife 
» de noite, e fe recolhefíe na fortaleza, lem 
» os inimigos o faberem , ficando toda a Ar- 
» mada fora ; e que o dia que fe houveflem 
» de commetter os inimigos , entrafle toda a 
» Armada pela barra dentro ao final de três 
)> foguetes , que deitariam da fortaleza ; e 
» que na reprefentaçao moftrafie que vinha 
» nella o Governador com toda a gente ; e 
» que pêra ifib metteífem pelas perchas das 
y> furtas muitas lanças arvoradas , e que as 
)) fuftas paíTaíTem pela fortaleza , como que 
» queriam ir defembarcar na Alfandega , aon- 
»de forçado os Mouros haviam de acudir; 
» e que o Governador então /fahiíTe da for- 
» Ieza com todo o poder pêra ganhar as pa- 
)> redes , e eílancias mais facilmente , e com 
» menos rifco. » 

Aííentado iflo , tornou-fe o Capitão pê- 
ra a fortaleza , tendo em fegredo o que ef- 
tava afTentado. Toda aquella noite gaílou 
em mandar fazer muita fomma de elcadas 
de corda pêra recolher na fortaleza toda a 
gente em fegredo. O Governador ao outro 
dia foi furgir com toda a Armada na bahia , 
e poufo das nãos, da banda de fora y fal- 
vando a fortaleza , e a Cidade com a mais 
foberba falva de artilheria , que já mais fe 

vio, 



Dec. VI. Liv. III. Cap. X. 25*1 

vio , porque durou muitas horas. Rumecan 
também lhe refpondeo com outra , pêra lhe 
moftrar o pouco que o receava. O Gover- 
nador mandou Luiz de Almeida , António 
Leme , Francifco Fernandes Moricale em 
três caravelas , que foflem furgir defronte 
das eítancias dos inimigos , e lhas bareflem 
de dia , e de noite ; e mandou recado ao 
Capitão do baluarte do mar , que os aju- 
dalle dela. Efías caravelas foram furgir on- 
de o Governador mandou , fazendo gran- 
des arrombadas pêra defensão da artilheria 
dos inimigos, e começaram a dar fua bate- 
ria com grande terror , mas também das ef- 
tancias os varejaram bem. 

Durou iílo três dias , e três noites , em 
que toda a gente da Armada fe metteo na 
fortaleza por efcadas de corda , e o Gover- 
nador com todos os Capitães , e Fidalgos 
velhos pela couraça no mor íilencio que 
pode fer. No exercito tanto que viram o 
grande poder do Governador , que julga- 
vam pelas vaíilhas da Armada, que cubriam 
o mar , começou a haver antre todos vários 
pareceres ; porque bem fabiam elles que o 
Governador os havia de ir bufcar , e que 
não era bem que fe efperaífe tamanho po^ 
der. Rumecan andou por todo o feu exer- 
cito curando aquellas defconfianças , e pro- 
vendo nas coufas que lhe pareceram fer ne- 

cef- 



2^2 ÁSIA de Diogo de Couto 

ceifarias , mandando pôr fobre as paredes 
muitos barris de alcatrão * grande quantida- 
de de pedras, e galgas pêra fe lançarem fo- 
bre os noflbs ao commetter delias ; e deixou 
alli quinze mil foldados pêra íua defensão , 
em que entravam todos os Rumes, Turcos, 
e mais eftrangeiros , por ferem homens de 
mais confiança. E receando-fe que o co:n- 
metteífem pelo baluarte de Diogo Lopes de 
Siqueira, (que ficava da banda domar, aon- 
de a ponta do muro hia fenecer , por ha- 
ver alli huma calheta , em que podiam po- 
jar navios de remo,) o mandou renovar, e 
guarnecer de algumas bombardas groflas , e 
poz nelle fetecentos homens de guarnição. 
E na ponte que atraveífava o rio des da Al- 
fandega até á Villa dos Rumes , mandou 
por outras bombardas , e outros feiscentos 
foldados , temendo-fe que as furtas foíTem 
alli lançar gente ; e aíTim fe deixou eftar tau 
confiado , como quem eftava em fua caía > e 
que tinha a vitoria por certa. 

O Governador tanto que fe vio na for- 
taleza , chamou todos os Fidalgos velhos, 
e Capitães da Armada a confelho , e lhes 
difie » que elle determinava de commerter as 
» eílancias dos inimigos ; e porque elle não 
» queria fazer coufa alguma fem o parecer 
)> de todos , lhes pedia que livremente lho 
» diíTeífem ; » e começando a votar } huns fo- 
ram 



Dec. VI. Liv. III. Cap. X. 2^3 

ram de parecer que fe comtnetteíTem os ini^ 
migos , e outros que não , dizendo » que 
)) não era bem arrifcaíTe a índia em huma fó 
» batalha com tão defigual partido como ti- 
» nham ; porque acontecendo hum defaftre, 
» fe perderia tudo. E que pofto que alcan- 
» çaílem a vitoria, havia EIRey deettranhar 
» muito ao Governador, e a todos que alli 
)) eftavam , conlentirem pôr-fe o Eftado to- 
)) do em hum tombo de dado (como Já di- 
» zem. ) » Sobre ifto fe baralhou todo o con- 
felho, com grandes gritos, porfias, ealter- 
cações, 

O Governador fe alevantou , e mandou 
que íècalaííèm; e difle a Garcia de Sá, (que 
ainda eftava por votar,) que difleíTe feu pa- 
recer, o que elle logo fez , alevantando-fe 
em pé, com aquella fua veneranda, e lon- 
ga barba, que lhe dava pelos peitos, com 
aquella fuaauthoridade, e gravidade, a que 
todos tinham mui grande refpeito, pedindo 
que o ouvilTem , porque ainda fe não quie- 
tavam. E fufpendendo-fe hum pouco aquel- 
]e reboliço , faliando o bom velho com o 
Governador , lhe diífe eílas palavras : 

» Eu , Senhor , nunca lerei de parecer 
)) que deixeis de dar batalha aos inimigos , 
» por duas razões : huma , porque vendo os 
» inimigos que os receais , vos viram com- 
» metter dentro nefta fortaleza ; a outra, por- 

» que 



2$4 ÁSIA de Diogo de Couto 

)) que não convém á reputação do Eíhdo , 
» que o Governador da índia efteja como 
» encurralado , porque pêra iíTo muito me- 
» lhor fora ficardes Senhor em Goa , e man- 
» dar todo eíle poder , que ainda que não 
» fizera mais que fegurar , e defender a for- 
» taleza , não daria ouíadia aos inimigos (co- 
» mo teram ) le vos virem cercado, Eftes 
), Mouros eítam agora medrofos, eacovar- 
» dados , porque tem os olhos cheios da 
» grandeza daquella Armada , em que não 
» devem de cuidar , que em tantas , e tão 
)> grandes vafilhas não haja mais que três 
» mil homens , mas julgam o poder pelo ap- 
» parato delia , e ao menos devem de eípe- 
» rar fete , ou oito mil. E como hão de ef- 
» tar com eíla imaginação , tantos Jhes hão 
)> de parecer os três mil com que lhe haveis 
>) de dar a batalha ; e em vos vendo fahir 
)> deita fortaleza , vos hão de temer , e arre- 
)>cear, e pelejar com temor , e defconfían- 
» ça. Por iflb , Senhor > vede o que fazeis > 
» porque no commetter eítá não fó o credito , 
» e opinião do Eftado , mas ainda a vitoria. 
» E pois temos Deos , que nos ha de ajudar, 
» e favorecer , não temos que arrecear , que 
» fe a eu pudera fegurar com o penhor da 
» peflba , e da vida , por certo que o fizera.» 
Tiveram tanta força eftas palavras , que 
fuípendêram a todos tanto , que bradaram 

por 



Dec. VI. Liv. III. Cap. X, 255 

por batalha. O Governador foi muitb gran- 
de o.feu alvoroço, pedindo a todos que fe 
fizcílem preítes pêra o outro dia , e aquelie 
gaftou todo em ordenar lua gente , por efta 
maneira. 

A dianteira encommendou a D. João 
Mafcarenhas com quinhentos homens , pê- 
ra quem fe paffáram os Capitães , e Fidal- 
gos lèguintes : António Moniz Barreto , Dom 
João Manoel , João Falcão , Garcia Rodri- 
gues de Távora , António da Cunha , Dom 
Manoel da Silveira , Francilco de Azevedo 
Coutinho, Jorge de Soufa , e outros; e af- 
íim lhe deo o Governador Vafco Fernandes , 
Capitão mor dos Canarins , com feiscentos 
efcolhidos , e quinhentos Nayres de EIRey 
de Cochim. 

A feu filho D. Álvaro de Caílro orde- 
nou outra companhia de outros quinhentos 
homens , em que entravam rodos os Fidal- 
gos , e Capitães da fua Armada. 

A D. Manoel de Lima deo outra tan- 
ta gente , com os mais dos Capitães , e Fi- 
dalgos , que com elle fe acharam na enccada 
de Cambaya. 

O Governador ficou com orefto da gen- 
te , que feriam quaíi mil homens , a fora Ca- 
narins , e Malavares , deixando pêra o acom- 
panharem Lourenço Pires de Távora , Gar- 
cia de Sá , Jorge Cabral . e Manoel de Sou- 
fa 



2$6 ÁSIA de Diogo de Couto 

fa de Sepúlveda , ordenando ficar o Alçai* 
de mór na fortaleza com trezentos Toldados* 
Todo aquelle dia paffáram em fe prepara- 
rem , e em fe confelTarem todos , a que fup- 
prio o Cuílodio de S. Francifco com feus 
companheiros , que aqui exercitaram bem o 
officio de verdadeiros, e caritativos Religio- 
fos. 

Tanto que amanheceo , fe armou hum 
formofo Altar no meio do terreiro da for- 
taleza , em que o Cuílodio diíTe Miíla , e 
deo o Divino Sacramento da EuchariíHa a 
todos com muito grande veneração , e de- 
voção, fendo o Governador , Capitães , e 
Fidalgos velhos os primeiros. Acabado ef- 
te folemne auto , (que foi de muito grande 
alegria , e confolaçao pêra todos , ) alevan- 
tou-fe o Governador no meio de toda aquel- 
Ja multidão de foldados , e alçando a voz , 
lhes fez efta breve prática. 

» Muito valorofos , e esforçados Fida!- 
» gos , e Cavalleiros de Chrifto , fe a ale- 
y> gria , e defejo de vos ver ás mãos com os 
)) inimigos , que em todos vejo , cuidaííe que 
)> vos procedia de temeridade , confeflb-vos 
» que eftivera menos confiado do que eftou ; 
» mas como fei mui certo que vos nafce 
» da lembrança de quem fois , e da vonta- 
)) de que tendes de imitar no valor , e esfor- 
)> ço áquelles antigos Portuguezes noíTos an- 

»te- 



Dec. VL Liv. III. Gap. Xí 157 

» tepaíTados , não há coufa que me faça re-^ 
» cear coufa alguma ; porque aquelles não fó 
» fe tiveram por fatisfeitos de vencerem gran- 
» des exércitos em Africa , com pouca , e 
» mal provida gente , mas ainda aos Rema- 
» nos > que nunca foram vencidos de outrem. 
» Lembro-vos as grandes vitorias que no cer- 
» co paffado ha bem poucos annos aqui al- 
» cangámos , de outros inimigos mais esfor- 
» çados , e poderofos que eíles, (que com 
» o favor Divino havemos de vencer muito 
» de preífa. ) Lembro-vos também , que a ba- 
» talha que havemos de ter , ha de fer af- 
» pêra , cruel , e arrifeada ; e tanto j que ou 
» elles , ou nós havemos de acabar naquelle 
» campo. E quando ifto for (o que Deos não 
))permitta) não devem elles de ficar pêra fe 
» gloriarem da vitoria , porque todos have- 
» mos de trabalhar por vingar a morte do 
» companheiro 5 que apar delle cahir ; mas 
» também vosaffirmo, que a mais deita gen- 
)) te anda forçada , e hão de trabalhar todos 
» de faivar as vidas pelas poucas efperan- 
» ças de honra, e de proveito que diílo efc 
)) peram haver ; porque as duas coufas que 
» mais fazem arrifear a vida aos amigos dé 
)> honra , são a honra , e fama nefta vida , 
>; e galardão perpetuo na outra. De nada dif- 
)) to podem eftes ter efperanças , porque as 
)) honras do feu Rey são tratallos como ef- 
CoutQ.Tom.IILP.L K >>cra* 






258 ÁSIA de Diogo de Couto 

» cravos, afama com elles fe acaba , fó no 
» inferno vão gozar do galardão de luas 
» obras em penas perpétuas. Nós não aííim , 
» que os que daqui efcaparmos , temos por 
» muito certas as honras , e mercês do nof- 
» fo Rey , que nos ama como pai ; e os que 
» morrerem , ficaram vivendo no Mundo em 
» fama , e fuás almas iram gozar de huma 
a bemaventurança, que não tem fim. Porif- 
» fo , Senhores Fidalgos s e Cavalleiros de 
» Chriíto i pelejemos confiados , como quem 
» peleja diante de feu Deos , e do feu Rey , 
» defendendo fuás honras , como verdadei- 
» ros Chriftãos , e filhos. Aqui tendes a figu- 
» ra daquelleChriftoJefus Senhor, e Salva- 
» dor nofib , ( a eíle tempo arvorou o Cuf- 
rodio hum devoto Crucifixo fobre huma haf- 
tia no ar , pêra que de todos foíle vifto , ) 
» eíle he o que vos ha de ajudar , e favo- 
» recer , e debaixo de tão piedofa , precio- 
» f a , e poderoía bandeira pelejai feguros , 
»e desbarataremos diante delle todos eftes 
yt inimigos de fua fanta Fé, e Nome. » 

Toda aqueíla multidão , e concurfo que 
eílava fufpenío, e calado, ouvindo depen- 
durado da boca do Governador, ouvindo- 
Ihe com grande attenção o que lhes dizia, 
em vendo arvorar aquella facratiffima figu- 
ra de nolía Redempção , fe proítriram ro- 
dos logo por terra , e com os olhos arra- 

za- 



Dec. VI. Liv. IÍL Cap. X. 25-9 

zados de lagrimas, adoraram aquella Divi- 
na Imagem , pedindo-lhe mifericordia , fa* 
vor , e ajuda , e bradando por batalha. O 
Governador lhes diíle , que fe fizeífem pres- 
tes pêra o outro dia , repartindo aquelle as 
efcadas pelos Fidalgos, e Capitães de mais 
recado , promettendo ao primeiro que fu- 
bifle as paredes , fe foífe Fidalgo , huma via- 
gem de Bengala , ( que então era das mais 
importantes da índia , por fe fazer com na- 
vio de EIRey , e levar refgate feu); e fe 
foííe Cavalleiro , ou foldado , duzentos cru- 
zados em dinheiro. Efte dia á tarde entra- 
ram na Ilha de Dio dous Capitães , Acce- 
decan, e Alucan com finco mil homens i que 
EIRey defpedio de Amadabá , tanto que te- 
ve recado que o Governador ficava eííi Ba- 
çaim» 




R ii DE- 



2 6o 



s 




DÉCADA SEXTA. 
LIVRO IV. 

Dà Hiftoria da índia. 



CAPITULO L 

De como o Governador D. João de Cajlro 
Jahio da fortaleza y e commetteo as ej- 
t anciãs dos inimigos : e do muito primo- 
rofo j e honrofo defafio que tiveram Dom 
João Manoel , ejoão Falcão: e de coma 
os nojjbs ganharam as efiantias : e dos 
grandes > e efpantofos cafos que aconte- 
ceram a alguns Portuguezes. 

A Os onze dias do mez de Novem- 
bro, em que a Igreja Catholica ce- 
lebra a feita de S. Martinho , Bií po , 
e ConfeíTor, em rompendo a manha, man- 
dou o Governador fazer final á Armada com 
os três foguetes , e elle íe poz no terreiro 
da fortaleza com a bandeira de Chriífo , ar- 
ma- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. I. 261 

mado, pondo em ordem as coufas neceífa- 
rias ; e mandou ao Alcaide mor que fe ti- 
raflem as portas fora de feus antigos cou- 
ces , e que ficalTe a fortaíeza aberta. E que- 
rendo já fahir por ellas , chegou o Padre Cuf- 
todio , acompanhado dos Frades que com- 
ílgo levava , e hum Crucifixo arvorado em 
huma lança , e poflo em meio de todos , re- 
zou em voz alta o Evangelho de S. João ; 
e acabado , fez huma Abfolviçao geral a to- 
dos , concedendo-lhes remifsão de todos feus 
peccados , por virtude dos Breves Apoíloli- 
cos , que os Summos Pontífices tinham con- 
cedido a EIRey D.Manoel degloriofa me- 
moria , pêra todos os que morrelíem na guer- 
ra. Com ifto ficaram todos tão animados 3 e 
esforçados , que lhes ferviam os corações 
nos peitos. 

Aqui aconteceo hum cafo efpantofo de 
honra a três foldados Reinois , que tinham 
vindo em companhia de Ruy Lourenço de 
Távora , naturaes do Torrão , pátria de An- 
tónio Moniz Barreto , que eram parentes 
huns dos outros, que não he bem calar- fe. 
Eftes foldados defejofos de ganharem fama, 
e honra , tanto que as bandeiras fe come- 
çaram a pôr em ordem , foram demandar 
António Moniz Barreto , queeílava na dian- 
reira com huma efcada que lhe tinham en- 
commendada ; e chegando a elíe , lhe deram 

hu- 



aóz ÁSIA de Diogo de Couto 

hujna carta de fua mãi , em que lhos eiv> 
commendava muito , pedindo-lhe os favore- 
ceife , e 'agazalhaííe , porque eram naturaes 
daquella Villa , e filhos de homens honra- 
dos. António Moniz Barreto leo a carta , 
que o alegrou muito naquelle tempo , por 
fer de fua mãi , e difle aos foldados , » quç 
» a guardaífem , que fe elle efcapaíle da ba- 
» talha , lha deitem , porque faria tudo o que 
» nelle fofTe, aílim por lua mai lhoencom- 
» mendar , como pelo elles merecerem. » A 
iílo tomou hum delles a mão, edifíc, » que 
» as mercês , e honras que dclie queriam eram 
)>alli , que depois não haviam mifter coufa 
)> alguma ; e fe por aquella carta lhes havia 
a de fazer pelo tempo muitas , fó huma na- 
» quelle queriam delle , e era , lhes entre- 
» gaííe aquella efcada , pêra elles a arvora- 
a rem aonde lhes elle mandaífe. » António 
Moniz Barreto vendo a opinião , ébrio dos 
foldados , lhe entregou a efcada , dizendo* 
» lhes : » Vede-la ahi , e nella vos entrego to- 
la da minha honra ; eu a hei por muito bem 
y> arrifcada nas mãos de foldados de tão hon- 
» rofos penfamentos. » 

A Armada tanto que vio o final que lhe 
fizeram da fortaleza , eftando já preíles , e 
negociada , porque Nicolao Gonçalves (a 
quem aquelle negocio eftava encommenda- 
do) tinha arvorado muitas lanças por to- 
dos 






Dec. VI. Liv. IV. Cap. I. 263 

dos os navios , que eílavam forrnofamente 
embandeirados , e tinha cortados muitos 
nuirrões em pedaços , eaccezos, os repartio 
pelos moços , e marinheiros , pêra que os ini- 
migos cuidaflem que eram efpingardas. E 
arrancando do pofto em que eílava com fef- 
fenta navios de remo , tocando muitos tam- 
bores , pífaros , e outros muitos inílrumcn- 
tos , com tamanhos gritos , e alaridos de 
moços , e marinheiros , que punha medo. 
E como iílo era de madrugada, fazia pare- 
cer aquella coufa mais medonha. Aííím fo- 
ram entrando pelo rio dentro , indo diante 
a galeota do Governador , com feu toldo 
de brocado , e bandeira de Chrifto por qua- 
dra , pêra que cuidaflem os Mouros que 
hia elle ahi ; e voga arrancada , foram paf- 
fando pelas eílancias dos Mouros com aquel- 
las carrancas , como que queriam defembar- 
car na ponte da Alfandega. 

Rumecan parecendo-lhe que vinha alli 
o Governador , deixando as eílancias encom- 
mendadas ajuzarcan com oito mil homens , 
acudio áquella parte acompanhado de Mo- 
jatecan , Aluçan, e Accedecan com todo o 
mais poder. A Armada levava toda a arti- 
Iheria cevada; e tanto que emparelhou com 
as eílancias , foi-lhes dando huma formofa 
falva , de que matou alguns Mouros. O Go- 
vernador que já eílava preftes , tanto que a 

Ar- 



264 ÁSIA de Diogo de Couro 

Armada pafTou pelas eíiançias , fahio da for- 
taleza tocando luas trombetas , e outros mui- 
tos géneros de inftrumentos bcllicos. Dom 
João Mafcarenhas , Capitão delia , que le- 
vava a dianteira , foi cingindo a cava pêra 
ir commetter pelo cabo do muro , naquella 
parte em que eftava o baluarte de Diogo Lo- 
pes de Siqueira, 

Aqui aconteceo hum cafo milagrofo , e 
foi , que eftavam aííèftadas algumas peças 
de artilhem' pêra a ponte , por onde os nof- 
íbs haviam de fahir aos inimigos ; e antre 
cilas entrava aquella grande , medonha , e 
temerofa , que hoje eftá na fortaleza de São 
Gião na barra de Lisboa , que eftava carre- 
gada dejellalas, que he huma moeda de cele- 
bre groíta , e redonda., que tem valia da 
três reis. Os Mouros tanto que os nollos fa^ 
Juram da fortaleza, vendo a ponte entulha- 
da delles, puzeram fogo ás bombardas por 
quatro, vezes , fem de alguma delias o to- 
mar ; e fèm dúvida que fe Deos aílim o não 
permittíra , daqueíle fó tiro fora o Gover^ 
nador desbaratado, E porque não paílemos 
por outro milagre , de que os Mouros fí> 
ram teítemunhas, ellcs mefmos affirmáram, 
que em quanto a batalha durou , viram fo- 
bre arruinas da Igreja huma mulher tão 
formofa y e refplandecente , que com os feus 
raios os cegava a todos ;. e iíto particular- 

men- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. I. 265 

mente teftemunháram os que ficaram cativos 
na batalha. 

E tornando aos da dianteira , tanto que 
fubíram a cava á outra banda , remettêram 
com o muro, em que começaram a arvorar 
fuás efeadas. Os inimigos como eftavam aler- 
ta , defparáram nelles fua artilheria ; e quiz 
a fortuna que hum pelouro acertafle na ef- 
cada de António Moniz Barreto , que leva- 
vam os foldados daVilla do Torrão ; efa- 
zendo-a em pedaços , aííim ella , como as 
rachas delia mataram os três foldados logo, 
araJhando-fc-lhes em frol feus tão honrados 
penfa mentos. 

Aqui fuecedeo outro cafo mui digno de 
memoria, efoi, que eftando em Goa defa- 
íiados D. João Manoel com João Falcão, 
por certas paixões que tiveram, andando o 
Governador pêra fe embarcar, e vendo que 
em tempo de tão grande neceflidade era ra- 
sao que fe poupaífem pêra foccorrerem a 
fortaleza de EIRev , concertáram-fe ambos 
» que o primeiro que fubiífe a parede dos 
» inimigos em Dio , eflfe ganhaííe a honra do 
)>defafio. » E aífim fahindo diante de todos, 
levando cada hum fua efeada , remettêram 
com o muro , aonde as encoítáram quaíi a 
Jium mefmo tempo. D. João Manoel tinha 
pedido a António Moniz Barreto que o 
favoreceífe na fubida , e lhe tiveífe a efea- 
da , 



2Ó6 ÁSIA de Diogo de Couto 

da > como fez ; o mefmo pcdio João Fal- 
cão a outros Fidalgos feus amigos. 

D. João Manoel íubindo pela efcada , e 
lançando a mão direita pêra aferrar da pa- 
rede já em fima, lha cortaram os Mouros , 
e acudindo com a efquerda , lhe fizeram o 
mefmo ; e vendo-fe fem mãos , não fentin- 
do o furor de feu animo a perda delias, foi 
com os cotos dos braços pêra fe pendurar , 
e fufpender do muro , trabalhando por fe 
pôr em fima, porque odefejo da honra lhe 
fazia muito faciíes todos os rifcos , e peri- 
gos : eítando quaíl em fima , lhe deram hum 
golpe pelo pefcoço, que lhe lançaram a ca- 
beça fora , atalhando a morte huma das mais 
honradas opiniões que no Mundo nafceo. 
Era eíie Fidalgo filho de D, Bernardo Ma- 
neei , e de huma filha do Conde de Villa- 
Nova , neto do grande D. João Manoel , 
que foi Camereiro mor de EIRey D. Ma- 
noel , e Guarda mor , e Almotacé mor , e 
Capitão dos Ginetes. 

João Falcão defejefo também de ga- 
nhar a honra do deíafio , fubio pela efcada 
ajudado daquelles aquém fe encommendou ; 
e chegando aborda do muro , foi morto de 
muitas cutilladas, e lançadas, não defmere- 
cendo aqui coufa alguma do outro. Por ef- 
ta maneira fe encoftáram muitas efçadas de 
longo a longo do muro, porque as outras 

duas 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. I. 267 

duas companhias de D. Álvaro de Caílro , 
e D. Manoel de Lima chegaram logo, tra- 
balhando muitos por íubirem , favorecen- 
do*os os debaixo com íua efpingardaria , 
çomeçando-fe de pane a parte hurna muito 
rija, e cruel batalha fobre a entrada; e to- 
davia alguns dos noííos cavalgaram o mu- 
ro , e fe puzeram em fima ás curilladas com 
os Mouros ; e como a coufa foi tão bara- 
lhada , e íiibíram por tantas partes, não fe 
pode averiguar quem foi o primeiro. Mas 
dos primeiros foi Miguel Rodrigues Couti- 
nho, de alcunha Fios fecos , Cidadão no- 
bre de Goa , mui bom Cavalleiro, e Coi- 
mo de Paiva. Eíle homem deo aqui grandes 
mofíras de feu esforço , porque teve íó o pe- 
zo de todos os inimigos , que carregaram 
áquella parte ; e como o muro era largo , 
cercando-o hum monte delles , trabalharam 
pelo matar ; mas elle defendendo-fe de to- 
dos , ferindo, e derribando alguns, fe fez 
tão temido a todos , que não oulando a lhe 
chegarem por diante, o períeguiam por de- 
trás , e pelas ilhargas com muitos arremefc 
fos , andando elle já ferido de muitas feri- 
das ; ecomoeílava em meio de tantos, hum 
Turco teve tempo de lhe dar hum golpe por 
detrás porhuma perna, que lha cortou qua- 
fitoda. Vendo-fe o esforçado Cavalleiro fem 
perna , poz o outro giolho no chão % e af- 

fim 



i6$ ÁSIA de Diogo de Couto 

íiin fe defendeo grande efpaço , fazendo cou- 
las notáveis até que o mataram. Aqui nef- 
te tempo fubio António Moniz Barreto o 
inuro , e achou Miguel Rodrigues Couti- 
nho Fios fccos cercado de muitos Mou- 
ros ; e remettendo com elles , os começou a 
cortar, pondo-fe á ilharga de Miguel Ro- 
drigues Coutinho ; e ambos tiveram hum 
grande pczo dos inimigos que recrefcèram. 

Vafco Fernandes , Tanadar mor de Goa , 
também foi dos primeiros que íubíram ao 
muro , e em íima fe poz como hum leão 
bravo em meio dos Mouros , fem receio da 
morte , fazendo nelles grande eílrago ; e fen- 
do mui perfeguido de alguns Turcos , re- 
metteo com hum , e deo-lhe tal golpe por 
lima 'do turbante , que lho cortou todo, e 
a cabeça até o meio , cahindo-lhe aos pés; 
eabaixando-fe pêra o acabar de matar, cui- 
dando que eíhva ainda vivo , lhe deo ou- 
tro Turco huma cutilada pelas cofias , que 
Mie cortou hum groflb cotão de malha , e 
o fendeo pelo meio , cahindo lobre o Mou- 
ro que tinha aos pés. Já os nofibs fubiam 
com menos trabalho o muro , porque os que 
eflavam em íima o tinham franqueado. 

D. João Mafcatenhas foi correndo a pa- 
rede até o cabo , aonde eftava o baluarte de 
Diogo Lopes de Siqueira , que commetteo 
com grande determinação ; e pofto que nel- 

le 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. I. 269 

le achou mui afpera renitência , o ganhou 
com morte dos mais Mouros que neile ef- 
tavam , não lhe cuftando tão pouco , que não 
perdefiè perto de dez homens , em que en- 
trou Francifco de Azevedo , que eíle dia 
fez couías , em que moftrou bem feu valor, 
e esforço; eertando já em íima do muro no 
meio de hum efquadrão de Mouros , cm que 
fez mui grande deftruição , eeftando obran- 
do couías dignas de quem era , lhe deram 
com huma lança dearremefib, de que aca- 
bou com muito louvor, pa fiado de parte a 
parte. D. João Mafcarenhas depois de ga- 
nhar o baluarte, e o muro daquella parte, 
paflbu-fe ao campo da outra banda , e to- 
cou a recolher os léus á fua bandeira ; e for- 
mando hum formofo efquadrão , foi deman- 
dar os inimigos, que eftavam já em outro, 
e lhe aprefentou batalha já no campo lar- 
go , em que a nofia arcabuzaria jogou bem 
á fua vontade. Aqui fe travou huma muito 
afpera baralha com grande deftruição dos 
inimigos , em que os noflbs pelejaram de 
maneira, que a poder de golpes arrancaram 
os Mouros do campo, e os levaram até os 
metterern dentro na Cidade. 

Os mais Capitães , D. Álvaro de Caftro , 
e D. Manoel de Lima commetteram o mu- 
ro por difíerentes partes ; e depois de mui- 
tos cafos acontecidos , que fe não podem. 

par- 



270 ÁSIA de Diogo de Couto 

particularizar , o fubíram , lançando delle os 
inimigos com grande eítrago leu delles , e 
não iein damno , e mortes de alguns dos 
noiTos. Ganhado o muro, fedefcêram abai- 
xo, e formaram feus elquadroes, e ao fora 
de tambores , e pífaros foram commetter Ju- 
zarcan , que eftava com féis mil homens em 
hum corpo antre o muro , e o exercito , e 
começaram com elle huma muito travada , 
e arrifeada batalha, queefteve por hum ef- 
paço bem fufpenfa da parte dos noífos , por 
eflarem com Juzarcan todos os Rumes , e 
Turcos do exercito , que pelejavam mui va- 
lorofamente. Quando o Governador chegou 
á parede, já achou a paííagem franca, e iu- 
bio por ella com a bandeira de Chrifto apar 
de íi , que levava Duarte Barbudo , mui bom 
Cavalleiro , indo cercada de Lourenço Pi* 
res de Távora , Garcia de Sá , Jorge Ca- 
bral , Manoel de Soufa de Sepúlveda , e de 
outros muitos Fidalgos velhos , que levaram 
fempre o Governador em meio ; e defeen- 
do-íe abaixo, tocou a recolher, e ajuntou a 
fí D. Álvaro de Caílro , e D. Manoel de 
Lima com fuás bandeiras , que andavam em 
batalha com Juzarcan : e tendo já aquelle 
poder junto, deo Sant-Iago nos inimigos, 
que fe travaram com os noílbs mui deter- 
minadamente , com grande damno , e rifeo 
de ambas as partes. Mas como os Portugue- 
ses 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. I. 271 

zes pelejavam diante do feu Governador , 
houveram-fe de maneira na briga , que ar- 
rancsáram os Mouros do campo, fazendo-os 
recolher a fuás eftancias. O Governador man- 
dou que apertaílem com elles , e entraflem 
de envolta, ealfim os de diante commettê- 
ram os vallos, quefubíram a pezar dos ini- 
migos , mas com grande damno , porque 
aqui fe perderam muitos dos noflbs. O Go- 
vernador hia junto da bandeira Real de 
Chrifto , e mandou ao Alferes que lha pu- 
zeffe em fima das eftancias dos Mouros , o 
que elle logo fez , bradando Vitoria , vito- 
ria ; mas como os tiros , e arremeíTos eram 
muitos , deram alguns no Alferes , que o 
derribaram dos vallos abaixo. Aqui torna- 
ram os Mouros a cobrar animo , e rebenta- 
ram das eftancia-s com tamanha fúria , que 
começou a haver nos noífos grande defoi> 
dem. Os Fidalgos que hiaoi com o Gover- 
nador acudiram á bandeira Real , ajudan- 
do a alevantar o Alferes , que com muito 
animo , e rifco feu a tornou a arvorar fo- 
bre os vallos , bradando Vitoria , vitoria. Os 
Mouros tornaram a apertar tanto, e tantos 
arremeíTos choveram fobre elle , que o der- 
ribaram muito mal tratado. Vendo o Go- 
vernador o rifco, e perigo em que eftava , 
e que os feus parecia que afracavao , adian- 
tou-fe com huma adarga embraçada , e hu- 

ma 



1J^ ÁSIA de Diogo t>£ Couto 

ma foKjjiofa , e larga efpada na mão; epon* 
do-ie diante de todos , lhes diíTe : 

» Ah forres, e esforçados Portuguezes 3 
» hoje Jie o dia que voíío nome ha de fut 
» bir por todos os paliados ; não receeis cou-* 
» fa alguma , paliai adiante , que aqui eftá 
» o voílo Governador diante de vós oííere- 
» eido aos meímos nicos , e perigos ; fegui- 
» me , e fazei o que eu fizer. » E chegando á 
bandeira, achou já o Alferes em pé muiro 
mal tratado dos tiros , e arremedos com que 
lhe deram, e levando-a diante , appellidou 
o Apoftolo Sant-Iago , e começou a iubir 
os vailos. Os Fidalgos , Capitães , Cavai- 
kiros, e foldados em vendo o Governador 
diante a trepar os vallos , pegado á bandei- 
ra de Chriílo , remettêram com tão grande 
ímpeto , que defprezando tanto género de 
inítrumentos de mortes , como eram os que 
íbbre elles cahiam , fubíram em fima, lan- 
çando delies os inimigos com muito gran- 
de eílrago , e affim os foram feguindo até 
os encerrarem nas eítancias* 

O Governador foi paliando adiante > com 
duas frechas cravadas na adarga 5 e muito 
alegre , e gentil-homem fez arvorar a ban- 
deira de Chrifto fobre as eítancias , donde 
algumas vezes foi derribado o fett Alferes T 
que logo fe tornou a levantar. Aqui fe ateou 
outra nova batalha ; mas como os noílbs le- 

i va- 






Dec. VI. Liv. IV. Cai>. L %j$ 

vavam aquella fúria , e quafí vitoria , apef* 
taram tanto com os Mouros , que de todo 
lhe ganharam as eftancias. Rumecan tanto 
que teve recado do que paliava , tornou a 
voltar pêra as eftancias , que já achou em 
poder dos noíTos ; e remettendo com elles 
pêra lhas tornar a ganhar, fe tornou a atear 
a mais cruel , e afpera batalha , que até en- 
tão houve, em que todos fizeram coufas e£ 
pantofas ; e aífim os Mouros por ganharem 
as fuás eftancias, como os Portuguezes pe- 
las não perderem , aconteceram caíos muito 
dignos de mui maior efcritura* Em fim, no 
cabo do negocio , depois de muitas mortes 4 
e damnos , os Mouros fe recolheram desba* 
ratados , e os noíTos ficaram fenhores das ef- 
tancias. 

CAPITULO II. 

Be como o Governador D. João de Cajiro 
aprefentou batalha aos inimigos , e da 
crueza delia , e de como os desbaratou , e 
ganhou a Cidade com morte de Rume-' 
can , e cativeiro de Juzarcân. 

TAnto que Rumecan fe vio com as ef- 
tancias perdidas , fe foi retrahindo pê- 
ra o campo , onde fe ajuntou com Juzar- 
can , que fe vinha recolhendo desbaratado 
de D. João Mafcarenhas , e alii formou feus 
cfquadróes pêra pelejar com os Portuguezes 
Couto, Tom, HL P t 3 no 



274 ÁSIA de Diogo de Couto 

no campo largo. O Governador vendo que 
fe preparavam pêra lhe dar batalha, não a 
refufou , antes com grande determinação fe 
fahio dos vallos , e eftancias , e ordenou feus 
efquadroes, dando aquella dianteira a Dom 
Álvaro de Caílro feu filho > que foi com- 
metter os Mouros com mais ordem , dando 
fua furriada de arcabuzaria , de que cahíram 
muitos dos inimigos. Aqui fe baralharam to- 
dos ás cutilladas , retinindo os golpes de ar- 
mas , e atroando o Mundo com os efpan- 
tofos gritos , e alaridos de huns , e de ou- 
tros. Foi aqui a crueza mui grande , por- 
que fe feriam em defcuberto , e íem ampa- 
ro algum ; mas como o poder dos inimigos 
era grande , e de todas as partes lhes foi 
acudindo fempre mais gente , eíKveram os 
iiofíbs quaíl perdidos , e desbaratados ; mas 
chegou áquelle tempo o Padre Fr. António 
do Cafal com o Crucifixo arvorado na lan- 
ça , e paflando por meio dos noflbs , foi 
bradando alto : y> Ah Cavalleiros de Chriflo , 
» aqui tendes a figura de voíTo Deos , que 
» he o que vos guia : esforçai , e palfai ávan- 
» te , porque com tal Capitão não ha que re- 
» cear ; » e com iílo fe foi pôr diante de to- 
dos, chamando por Sant-lago , como Va- 
rão mui animofo , e Religiofo. Tanta for- 
ça tiveram aquellas palavras , e a viíla de 
Chriíio crucificado , que infimdio em todos 

no- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. II. 27$ 

novos efpiritos ; e rebentando como hum 
furiofo torrente , que defce do alto Apenino f 
deram Sant-Iago nos Mouros , fazendo nel- 
les tal eftrago , que a pezar feu , e com mor- 
te de muitos os arrancaram do campo , co- 
meçando-fe a declarar a vitoria pelos nof- 
ibs. Rumecan vendo- fe quaíi perdido, tor- 
liou a voltar animando os feus com pala- 
vras de muita obrigação , e com tanta fúria 
tornou a dar nos Portuguezes , que os fez 
voltar com grande deímancho. 

Aquiacudio o Governador, acompanha* 
do de Lourenço Pires de Távora , Garcia de 
Sá , Jorge Cabral , Manoel de Soufa de Se- 
púlveda, e de outros Fidalgos ; e aprefen- 
tando-fe diante de todos , tiveram o encon- 
tro aos inimigos , não deixando o Governa- 
dor de arrifcar fua peflba , fem os que com 
elle andavam o poderem ter. D. Álvaro de 
Caílro , e D. Manoel de Lima com fuás com- 
panhias eftiveram mui apertados ; e fempre 
acontecera hum grande defarranjo , fe elles 
não trouxeram tanto o tento nos feus , acu- 
dindo-lhes nas mores aíFrontas , e neccílida* 
des , fazendo-os ter , e aprefentando-fe elles 
com os Fidalgos de fua companhia ao en- 
contro dos inimigos. Na volta que fez Ru* 
mecan efteve tudo perdido por todas as 
partes , porque não fó pelejavam contra os 
noíTos os que traziam armas , mas ainda to* 
S ii da 



^j6 ÁSIA de Díodo de Couto 

da aquella multidão de gente inútil , que 
lançavam fobre os noíTos tantas pedras , ti- 
ros , e outros arreimeííbs , que parecia cho- 
verem corifcos , e trovões do Ceo. E como 
o Cuftodio andava diante de todos animan- 
do-os , e 'esforçando-os , permittio o Senhor , 
por dar mor animo aos léus , que daquelles 
números infinitos de pedras que cairiam fo- 
bre todos , acertafle huma em hum braço do 
Crucifixo , que Hio quebrou todo ; e vendo 
aílim o Cuílodio, levantou a voz, e come- 
çou a dizer: 

» Ah Cavalleiros de Chriílo , vedes aqui 
» a Imagem de noflb Deos ferida , e efca- 
» lavrada diante de vós ; que fazeis que não 
» vingais tamanha oífenfa , e injúria , feita 
>a hum Senhor , que vos remio pelo feu pre- 
»ciofo Sangue? Segui-me , filhos meus , e 
% Cavalleiros Chriftaos , vamos vingar no£ 
» fo Deos ; » e com ifto remetteo com os ini- 
migos, bradando por ' Chrifto. 

Ouvindo todos aquellas palavras , e ale- 
vantando os olhos , que lhe viram o braço 
dependurado do cravo pela mão , claman- 
do todos a grandes brados , nrifericordia , 
nrifericordia , arrebentaram com aquella fú- 
ria , que lhes fazia levar o defejo de fatis- 
fazerem , e vingarem aquella injúria feita 
ao Senhor \ e rompendo nos Mouros , com 
grande eítrago delles 3 os arrancaram do cam- 
po, 






Dec. VI. Liv. IV. Cap. II. 277 

po ,• indo matando nelles até os metteretn 
pela Cidade dentro ; mas todavia não foi 
íèm damno, porque allicahíram muitos dos 
noífos mortos, e feridos, e antre eítes Ma- 
noel de Soufa de Sepúlveda, que ficou no 
campo com muitas feridas. 

A'quelle tempo chegou ao cães huma 
fuíta , em que vinha de Baçaim Baftiao de 
Sá, filho de João Rodrigues de Sá , de íè 
curar da frechada que lhe tinham dado em hu- 
ma perna , (como fica dito no fim do Cap. VI. 
do II. Liv. , ) e fabendo eílar o Governador 
no campo , o foi logo demandar com alguns 
companheiros que trazia j e chegando áquel- 
la parte , achou Manoel de Soufa de SepuU 
veda eftirado no campo , e chegando-fe a 
elle , o alevantou. Ellelhepedio que foliem 
ambos juntos em bufca do Governador , por- 
que fe não havia de recolher fem elle. Baf- 
tiao de Sá, que não fe tinha achado naquel- 
le conflidto , não querendo fe acabado fem 
elle, difle-lhe , que não era tempo; e paf- 
fou adiante até chegar aos noffos , que an- 
davam já dentro na Cidade envoltos com os 
inimigos i e pondo-fe na dianteira com os 
primeiros , começou a pelejar como quem 
vinha de repreza , e defejofo de o fazer. Os 
Mouros como hiam já de arrancada , os nof- 
ibs comaquelle animo, e fúria acabaram de 
os desbaratar , e de os efpalhar pela Cida- 
de. 



178 ASIÀ de Diogo £>e Couto 

de. Vendo D. Manoel de Lima ( que pele- 
java na dianteira , e tinha feito grandes cou- 
fas) a vitoria pomos, apartou-fe com ofeu 
efquadrão, e foi apôs hum corpo de Mou- 
ros , que ie hiam recolhendo pela banda da 
praia; e D. Álvaro deCaftro, que aqui me- 
feceo muito , foi fèmpre feguindo Rumecan 
pela Cidade dentro , pelo caminho que vai 
ao Bazar , pelejando fempre. 

D. João Mafcarenhas tanto que desba- 
ratou Juzãrcán , o foi feguindo pela parte 
aonde hoje eftá a Ermida de noíTa Senhora , 
que então era ô lugar da forca , levando-o 
fempre diante até o mètter péla porta da Ci- 
dade , aonde entrou de envolta 5 fazendo 
hum mui grande eftrago nos inimigos. Ju- 
zarcan fé foi ajuntar com Rumecan (como 
Já diííemos ) com parte dos feus. 

O Capitão chegou até o meio da Cida- 
de, donde deípedio recado áo Governador , 
como ficava nella , e os inimigos por aquel- 
h parte desbaratados. Efte recado chegou ao 
Governador a tempo , que também já os 
inimigos queelle feguia , fe punham em des- 
barato ; e prometteo ao homem que lho le- 
vou , grandes alviçaras , porque até então não 
fabia de D. João Mafcarenhas ; e logo o 
tornou a defpedir , mandando dizer ao Ca- 
pitão Dom João Mafcarenhas )> que foí- 
»fe recolhendo os feus , e efperaífe 2011- 

)>de 



Dec. VI. Ljv. IV. Cap. II. 27? 

»de eftava , até fe elle ir ajuntar com 
» elle. » 

D. Manoel de Lima , que foi feguíndo 
os Mouros , que tomaram o caminho da 
praia , levou-os fempre diante de íi , fazen- 
do nelles muito grande eftrago até áscafas 
de EIRey, onde parou , e defpedío recado 
ao Governador , que já tudo era rendido ; 
e em lho dando , deo muitas graças a Deos 
por tamanha mercê , e foi tomando o^ ca- 
minho da praia ; e chegando aonde elle ef- 
tava ? o levou nos braços , dando a elle , e 
a todos muitos , e públicos louvores. Efta- 
va D. Manoel de Lima com a fua bandei- 
ra arvorada fobre a artilheria , que os Mou- 
ros tinham á porta da Alfandega , que eram 
alguns bazalifcos , águias , e falvagens de me- 
tal de maravilhofa grandeza. O Governador 
lhe diífe » que pois elle ganhara aquellas pe- 
» ças , lhe fazia mercê em nome de EiRey 
»de hum daquelles bazalifcos , o maior.» 
D. Manoel de Lima lhe fez fua inclinação 
pela mercê , acceitando-a ; mas diíTe logo , 
que tornava a fazer ferviço delia a EIRey. 
O Governador mandou ver fe eftava alguém 
nas caías do Soltão Mahamude ; e achan- 
do-as vaíías , mandou metter nellas huma 
companhia de cem loldadôs j e tomando Dom 
Manoel de Lima comíigo , tornou a entrar 
na Cidade pela porta da Alfandega , e fa- 

hio 



2,8o ÁSIA de Diogo de Couto 

hio ao Bazar grande, onde achou feu filho 
D. Álvaro de Caftro, que até alli foi apôs 
os inimigos , em quem tinha feiro grande 
deflruição. Dalli o mandou , que com a lua 
companhia correííe a Cidade, e ajuntaíTe a 
íi toda a gente defmandada , e o foííe efpe- 
xar á porta que fahia por aquella parte ao 
campo ; e o Governador com toda a mais 
gente foi encaminhando pêra onde eftava 
D. João Mafcarenhas. D. Álvaro de Caftro 
foi recolhendo os foldados , que com huma 
brutal crueza andavam pelas cafas matando, 
e efpedaçando mulheres , meninos , e velhos , 
não perdoando ainda até os brutos animaes ; 
e foi a crueza tão efpantofa , que corriam 
pelo meio de todas as ruas regatos de ne-> 
gro fangue , carregando- fe todos de prezas, 
que pelas cafas tomavam , de ouro , prata , 
aljôfar , deixando as mais fazendas que eram 
muitas , e ricas , pelas não poderem levar, 
D, Álvaro de Caítro depois de com muito 
trabalho recolher todos a íi , efperou em 
meio do Bazar pelo Governador , que logo 
chegou ; e affim foram marchando até da-r 
rem com D. João Mafcarenhas , que ainda 
eftava ás lans com os inimigos , que tornai 
ram a voltar a elle; mas vendo elles o po- 
der , deixaram tudo , e fe foram recolhen- 
do pêra fora da Cidade. 

O Governador ajuntou a íi todas as ban«* 

dei- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. II. 281 

deiras , e ao fom de tambores , e pífaros 
foi marchando pêra o campo, aonde fahio, 
e vio que fe ajuntava todo o poder dos 
Mouros em hum corpo , e eftavam á fua 
viíla Rumecan, Accedecan , Juzarcan , Mo- 
jatecan , e Alucan com oito mil homens , 
poílos cm fom de batalha , e em muito boa 
ordem , com determinação de tornarem a 
buícar os noffos. O Governador por não ar- 
refecer da vitoria , mandou a D. João Mafca- 
renhas , e a feu filho D. Álvaro de Caílro , 
que cada hum por fua parte commetteflem 
os Mouros , porque elle o queria fazer pe- 
ja teíla do eíquadrão. 

Apartados os Capitães, foram demandar 
os inimigos , c os commettêram com muito 
grande determinação , ateando-fe antre to- 
dos luima muito arrifcada batalha. O Gover- 
nador os foi também demandar , depois de 
andarem já envoltos , e pegou com elles 
com tão efpantoía fúria , que com morte 
de muitos es começou a arrancar do cam- 
po. Os Capitães que pelejavam pelas ilhar- 
gas com D» Jcão Maícarenhas , ecom Dom 
Álvaro de Caílro, tanto que viram que Ru- 
mecan começava a perder o campo, enfra- 
queceram de maneira , que fe puzerám em 
desbarato. Os noíTos vendo iílo apertaram 
tanto com elles , que os fizeram ir retrahin- 
do. com tanta defqrdem, que cabiam huns 

fo- 



a§2 ÁSIA de Diogo de Couto 

fobre os outros. E foram-fe mettendo tanto 
osnoíTos com os Mouros, que hum Gabriel 
Teixeira , mui bom Cavalleiro , paííbu tan- 
to adiante , que chegou ao Alferes da ban- 
deira , e derribando-o de hum golpe , lha to- 
mou das mãos , e fe recolheo com ella ar- 
raftando-a , e bradando Vitoria , vitoria. 

Juzarcan pelejou muito bem ; e depois 
de ter muitas feridas , e andar muito fraco , 
c cançado , cahio antre o tropel dos feus , 
que hiam fugindo; e fendo conhecido dos 
nofíbs, lançaram mão delle , e o levaram ao 
Governador , que o eftimou muito , encom- 
mendando a alguns homens de recado , que 
O levaflem á fortaleza , e o mandaflem cu- 
rar, e ter a bom recado. 

Rumecan vendo-fe de todo desbarata- 
do \ e indo-fe recolhendo muito cançado , 
e fraco, por levar duas efpingardadas , re- 
Ceofo de ir ter ás mãos dos Portuguezes , 
defpio ôs trajos que trazia , e veítio-le de 
huma pobre cabaia por não fer conhecido ; 
e achando hum cavouco com alguns corpos 
mortos , fe lançou antre elles pêra ver fe por 
alli podia efeapar; mas como não ha fugir 
á mão deDeos, alli lhe foi dar huma gran- 
de pedra na cabeça , ou fofle da mão dos 
noífos , ou dos feus , que lha fez em peda- 
ços ; e aífim acabou no mais miferavel ef- 
tado o mais poderofo , e foberbo Mou- 
ro, 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. II. 283 

to , que havia em todo o Reyno de Cam- 
baya , nem em todos os do Oriente naquel- 
le tempo. 

Os noílos foram feguindo a vitoria pe- 
lo campo adiante por efpaço de meia légua , 
até de todo desbaratarem os inimigos. Hum 
Jorge Nunes, bomCavalleiro , que hia por 
aquella parte pêra onde Rumecan fe reco* 
lheo , (que parece levava o olho nelle , ) e 
indo ter ao cavouco , achou aquelles Mou- 
ros mortos, e antre elles vio , e conheceo 
Rumecan, (porque o conhecia mui bem;) 
e còrtando-lhe a cabeça , a lançou ás cortas , 
e a levou ao Governador , que a eftimou 
muito , e prometteo ao foldado de lhe fa- 
zer mercê , como depois lhe fez. Efte ho- 
mem viveo depois muitos annos , cafado na 
Cidade de Damão , e tem ainda neíta era 
de noventa e fete , em que ifto efcrevemos , 
mulher, e filhos, e elle em quanto viveo fe 
chamou Jorge Nunes Rumecan ; e depois 
que faleceo fe enterrou em S. Francifco de 
Damão , aonde hoje apparece fua fepultura 
com huma mão , e huma cabeça pelos ca- 
belios tornada , e hum letreiro , que diz : 
)> Aqui jaz Jorge Nunes , que matou Rume- 
» cnn. » Deita verdade não achámos outra tef- 
temunha mais que eíta ; e parece que lhe deve 
de ficar o direito , pela muito antiga poffe em 
que eftá ; que nós Uiq não queremos tirar. 

O 



284 ÁSIA de Diogo de Couto 

O Governador tanto que vio a vitoria 
arrematada , fe foi recolhendo pêra a Cida- 
de , que entregou liberalmente a faço aos 
foldados , que nella fe cevaram bem ; e el- 
le fe foi ás cafas deEIRey, e nellas achou 
toda a recamara de Rumecan , de ouro, pra- 
ta, peças ricas , cavallos , jaezes, armas de 
muitas fortes , o que tudo mandou pôr a 
bom recado ; e a artilheria toda , que eram 
quarenta peças groíTas de bazalifcos , até ca- 
melos de marca maior, e outras muitas de 
outras fortes. 

AíTolada a Cidade , fe recolheo o Go- 
vernador pêra a fortaleza a defcançar , e a 
dar folga á gente , que andava mui cança- 
da, mandando recolher, e enterrar os mor- 
tos , e curar os feridos com muita diligen- 
cia , e refguardo. Sobre a tarde tornou a fa- 
hir fora com as bandeiras ordenadas , e en- 
trou nas efíancias dos inimigos , aonde fe 
acharam muitas munições , mantimentos , ar- 
mas , e huma grande fomma de alviões, cu- 
diíins , machados , pás , padiolas , efcadas , 
e todos os mais petrechos de minar : tudo 
ifto mandou recolher pêra a fortaleza , no 
que fe gaitou aquelle dia, e o outro. 

Morreram na batalha dos Mouros fin- 
co mil , conforme a huma carta que achá- 
mos do Governador D. João de Caftro no 
Cartório da Sç de Goa , que efcreveo ao 

Bif- 



Déc. VI. Liv. IV. Cap. II. i$? 

Bifpo D. João de Alboquerquc , quando lhe 
mandou as novas da vitoria , em que lhe 
relata em breves palavras efta jornada. 

Foi cativo Juzarcan , e perro de feiscen- 
tos homens de armas. 

Morreo Rumecan , Àccedecan , Alucan, 
e outros muitos Capitães. 

Tomaram-fe muitas bandeiras , armas ? 
e outras muitas coufas , que no triunfo do 
Governador adiante melhor fe veram. 

Portuguezes morreram trinta e finco , e 
ficaram feridos duzentos e fincoenta. O Go- 
vernador defpedio logo hum Cidadão nobre , 
eCavalleiro , chamado Diogo Rodrigues de 
Azevedo , em hum navio muito ligeiro , com 
cartas pêra o Bifpo , Capitão , e Cidade de 
Goa , em que lhes dava as novas da grande 
vitoria que tinha alcançado dos Capitães de 
EIRey de Cambaya. E á Cidade em parti- 
cular efcreveo huma muito honrofa carra , 
em que lhe reprefentava as neceílídades em 
que ficava de dinheiro pêra a reformação 
daquella fortaleza , que lhe pedia lhe qui- 
zeítem empreitar vinte mil pardáos fobre 
huns cabellos da fua veneranda barba , que 
pêra iflò lhe mandou dentro na mefma car- 
ta , promettendo-lhe deos defempenhar tan- 
to que chegafle a Goa : e da jornada defte 
homem acliaute daremos razão. 

CA- 



a86 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO IIL 

Das coufas que mais fuccedêram : e de co- 
mo Lourenço Pires de Távora fe embar- 
cou pêra o Reyno , e levou comfigo Rax 
Nordin , filho de Rax Xarrafo , Guazil 
de Ormuz : e de como o Governador Dom 
João de Cajlro mandou D. Manoel de Li- 
ma a fazer guerra d cojla de Cambaya : 
e de como ãejlruio as Cidades de Goga , 
Gandar , e outras. 

■ 

AO outro dia , depois que o Governador 
defpedio o recado pêra Goa , tornou a 
correr a Cidade , tendo já recado certo , que 
toda a gente que eícapou da batalha , era 
paflada á outra banda da terra firme; e man- 
dou defmanchar a ponte que hia da Alfan- 
dega pêra a Villa dos Rumes , e desfazer a 
parede da contenda , e todas as eftancias dos 
inimigos , que deram a todos muito traba- 
lho , por ferem muitas , e muito forteè , e 
a parede comprida y e muito groíTa. Depois 
de tudo iílo feito , tomou o Governador pa- 
recer com todos os Capitães , e Fidalgos ve- 
lhos fobre a reparação , e fortificação da- 
quella fortaleza ; e de comitium confelho fe 
aflentou , que fe alargaífe mais o íitio , por 
fer dentro muito eflreita , e que fe fizeífem 
outros muros noyos por fora da cava , e fe 

abrif- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. III. 287 

abriíTe á roda outra mais larga , e mais fun- 
da. Aííentado iílo , começou o Governador 
a pôr as mãos á obra com muita prefteza. 

Lourenço Pires de Távora chegando-fe-> 
lhe o tempo de fe ir embarcar , fe deípedio 
do Governador , que efcreveo por elle a El* 
Rey muito largo , dos merecimentos dos ho- 
mens que naquelie cerco fe acharam , e de 
íi muito pouco y porque fe reportava em tu- 
do ao Capitão mor das náos , como tefte- 
munha de vifta. Foi embarcado pêra o Rey- 
no com Lourenço Pires de Távora na fua 
mefma náo Rax Nordin , filho de Rax Xar- 
rafo , Guazil de Ormuz , que levou grande 
cafa. O Governador ficou profeguindo na 
reedificação , e fortificação da fortaleza. E 
porque lhe deram por novas , que em Sur- 
rate feefperava por duas náos de Meca mui^ 
to ricas, defpedio D.Manoel de Lima cora 
trinta navios , em que hiam os mais dos Ca- 
pitães que das outras vezes o acompanha- 
ram , dando-lhe por regimento , que em quan- 
to as náos tardaíTcm , fizeííe por aquella en- 
ceada toda a guerra que pudeííe ; mas quç 
não tocaíTe na Cidade de Goga , por fer a- 
vifado que toda a gente que efeapára de 
Dio eílava alli recolhida. 

D. Manoel de Lima foi feguindo fua 
jornada de longo da coíía pêra dentro da 
enfeada j e ao fegundo dig depois que par- 

tio , 



188 ÁSIA de Diogo de Couí*o 

tio , lhe deo hum temporal da banda do Sul * 
èom que eftiveram os navios quafi perdidos ; 
e correndo com traquetes , foram íurgir nos 
poços de Goga á vifta da Cidade , ficando 
em remanfo por caufa das reftingas , e ca- 
naes , em que os mares quebram. Os da Ci- 
dade tanto que houveram vifta da Armada, 
a começaram a defpejar, e a fe recolherem 
pêra as aldêas do certão. Eftava huma náo 
de Mouros do Zamaluco farta também em 
hum daquelles poços ; e vendo os delia o 
defpejo da Cidade , como levavam cartaz, 
e eram de paz , começaram a capear com 
bandeiras aos noííbs , pêra que acudiffem , 
e defembarcaflem. Os da Armada bem vi- 
ram o capear da náo ; mas não entendendo 
o porque o fazia , pareceo-lhes que era náo 
deCambaya, e que de confiada em lua for- 
taleza , e muita gente que trazia , lhes fa* 
zia aquellas algazaras , e os deíàfiava. Dom 
Manoel de Lima como era homem mui co- 
lérico , e deíconfiado , vendo que o tempo 
lhe não dava lugar pêra ir demandar a náo, 
eftava pêra arrebentar de pezar. E lançando 
a vifta a huma, e a outra parte, vio odef* 
pejo da Cidade , e ir pelo campo grandes 
exércitos de mulheres , e meninos com fuás 
fazendas áscoftas em compridas fileiras, (af- 
íim como fe vem as providas formigas car- 
regadas de feu mantimento a bufcar as co- 
vas 



Dec. VI. Liv. IV. Ca*. III. 289 

vas em que fe agazalham , ) e entendendo en* 
tão que o capear da náo era aviíb que lhe 
dava daquelle defpejo , que fe fazia com re* 
ceio da Armada , mandou chamar todos os 
Capitães, e lhes diííe: 

» Que bem viam , que o tempo lhes não 
^ dava lugar pêra fahirem dalJi ; e que pois 
j) á fua vifta fe defpejava aquella Cidade , e 
^ moftrava tanto temor delles , que pareceria 
» fraqueza não feguirem a vitoria , e porem 
)> aquella Cidade ( que era das maiores de 
» Cambaya ) a ferro , e a fogo , e darem nei- 
a la hum bom cevo a feus foldados. Porém 
» porto que trazia por regimento , que não 
y> tocaílem nella , que a cauía que movera ao 
)> Governador a lho defender , fora, leravi- 
» fado que alli eftava toda a gcntQ que e£> 
)) capara da batalha de Dio , que era muita , 
» pelos não pôr a perigo ; mas que pois viam 
» fugir os inimigos á fua vifía com tanta 
» defordem , parecia que fe aventurava pouco 
» em acabar de deílruir as reliquias do ex- 
» ercito inimigo , fe alli eírava , e que vif- 
» fem todos o que lhes parecia naquelle ne- 
» gocio. )) 

Como todos os que alli eílavam defeía- 
vam tanto , ou mais i que o Capitão mor, 
defembarcar naquella Cidade , todos a hu- 
ma voz diíTeram » que não era bem fe per-» 
» defle huma tão grande occafião como aquel^ 
Couto.Tom.lILP.L T » la \ 



190 ÁSIA de Diogo de Couto 

)>la; que defembarcaflem , e feguiflem a vi* 
» toria em que havia tão pouco rifco , pois 
)) aquelles inimigos hiam desbaratados por íi 
» próprios. » Vendo D. Manoel de Lima a 
refolução de todos , como o tempo hia já 
ceifando , embarcou-fe logo em huma pe- 
quena galueta , e foi fondar o efteiro , por 
onde fe entra á Cidade , (de quem já na quar- 
ta Década no Cap. V. do Liv. VII. dêmos 
larga relação ; ) e vendo que de baixa mar 
era forçado ficarem todos os navios em fec- 
co , notou huma coroa de arêa , que em meio 
do efteiro deixava a maré depois de valia , 
em que asfuftas podiam ficar; porque der- 
redor, diftancia de hum quarto de légua, e 
em partes mais , era tudo vafa , que atolava 
até o pefcoço , por onde ficavam alli fegu- 
aros de poderem fer commettidos. E vifto tu- 
do mui bem, fe tornou pêra a Armada, e 
deo recado aos Capitães , pêra que fe fizef- 
fem prefles. 

E tanto que a maré começou a encher, 
eommetteo a entrada do efteiro ; e pojando 
em terra, defembarcáram todos os Capitães 
com fua gente , e bandeiras , e o Capitão 
mor com o guião de Chrifto ; e pondo-fe 
em ordem, começaram a marchar pêra a Ci- 
dade pela banda do certão , por pontes que 
tinha , que atraveíTavam os efleiros , que a 
cercavam quafi á roda. E com grande deter- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. III. 19 1 

minação a entraram , achando pouca refíf* 
tencia , porque a gente da guerra oceupou* 
fe toda em fal varem as mulheres, e filhos; 
e alguma defobrigada que acudio a defender 
a entrada , foi logo desbaratada. D. Manoel 
de Lima mandou dar fogo á Cidade por al- 
gumas partes , por os léus fe não defman- 
darem no roubo. E como nella havia mui- 
tas terecenas de mantimentos , manteigas , ci* 
fas 5 drogas , e muitas mercadorias , tomou 
tamanha pofíe , e alevantou ao Ceo táo gran- 
des , efpeíTas , e negras nuvens de fumo , que 
cubriam toda a Cidade. Os noííbs foram por 
huma parte delia até fahirem ao campo lar- 
go da outra banda , por onde fe acolhia a 
gente , (de que aquelles campos hiam cu- 
berros , ) fugindo com tanta preíTa , que lhes 
parecia que hiam apôs elles aquellas teme- 
rofas chammas. D. Manoel de Lima houve 
por defneceíTario feguillos , e tocou a reco- 
lher; e primeiro que a maré vafaífe, fe em- 
barcou , levando três Baneanes cativos , e 
com todos os navios fe recolheo pêra a co- 
roa da arêa , onde os ancoraram ; e depois 
da maré valia > ficaram em fecco muito fe- 
guros* 

O Capitão mór foube dos Baneanes, que 
a gente da guerra que eftava na Cidade era 
pouca, e que toda a que viera deDio, ou 
amor parte delia > feefpalhára logo per et 

T ii fe 



292 ÁSIA de Diogo de Couto 

fe certao , e que eíTa que havia , com os 
uaturaes fe foram recolhendo pêra huma Vil- 
la , que e<ttava dalli a huma légua. E infor- 
mando-fe do caminho , e de tudo o mais 
que quiz , tomou confelho com os Capitães 
íobre fe iria commetter aquelJa Villa , aon- 
de todos haviam deeítar defcuidados; eaf- 
fentando-fe que fim , fe fizeram todos pref- 
tes pêra a outra maré , que lhe cahio no quar- 
to d'alva. E defembarcando em terra , dei- 
xando cem homens repartidos pela Armada , 
fe foram marchando com grande ordem , e 
refguardo , levando os Baneanes por guia. E 
antes da manha romper , chegaram á Villa 
fem ferem fentidos , porque não fe recea- 
vam de tal ; e commettendo-a com grande ím- 
peto , tomando todos dormindo, ecançados 
do trabalho da fugida , fizeram em todos ta- 
manha deftruiçao , e ufáram de tão grandes 
cruezas com todo o género de gente que 
acharam > que foi efpanto. E aílim aquelles 
miferosj que foram fugindo da morte com 
tão grande trabalho, aforam achar, quan- 
do cuidavam que delia eftavam mais fegu- 
ros , e na maior quietação, erepcufo. O lu- 
gar foi todo abrazado , e todo o gado que 
pelos campos acharam foi morto , e lança- 
do dentro em feus pagodes , por affronta de 
fua religião , e aífim nos poços , e tanques 
de que bebiam > pêra lhes ficarem immundos , 

e 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. III. 295 

e abomináveis pêra fempre , ( porque aon- 
de toca o langue de vaca , não tem purifi- 
cação alguma pêra iíTo. ) Depois de corta- 
rem , aífolarem ; e deftruirem tudo , mandou 
o Capitão mor enforcar os três Baneanes que 
tomou em Goa , dentro no feu maior Pago- 
de , o que foi pêra os Gentios a maior abo- 
minação , e affronta que podia fer ; e com 
iílo ie recolheram pêra Goga , fem lhes acon- 
tecer defaíire. 

Embarcado o Capitão mór , fe fahio pê- 
ra os canaes; e como lhe o tempo deo lu- 
gar , fe fez á vela , e atreveííbu a enceada á 
outra banda ; e acharam aquelle golfo tão 
furiofo , que eftiveram quaíi perdidos , e ala- 
gados ; e tanto que lhes veio a vaíante , foi- 
lhes neceffario furgirem , o que fizeram em 
alguns poços, porque allisão todo alfaques , 
e em muitas partes de baixa mar ficam def- 
cubertos ; e quem não for muito bom Pilo- 
to daquella enceada, e não tiver muito co- 
nhecimento dos íhrgidouros , ficará fobre el- 
les a muito rifco de fe perder ; e muitas ve- 
zes fe aconteceo ficarem alguns navios , par» 
te fobre elles em fecco , e parte em nado 
dependurados em muito perigo até tornar a 
maré. 

He o fluxo , e refluxo no fundo deita 
enceada tão foberbo , e impetuofo , que fe 
perde a vifta neiiej e fe acertar de dar hum 

na- 



2p4 ÁSIA de Diogo de Couto 

navio em parte que toque , em hum breve 
momento he feito pedaços. E quem eílá na 
Cidade de Cambayete , em começando a va- 
iar a maré , em hum breve efpaço vê tudo 
quanto a vifta alcança, fecco , e efpraiado, 
fomente hum pequeno canal , em que ficam 
os navios efcorados por ambas as partes , com 
vigas que pêra iílb tr3zem; e depois quan- 
do a maré torna a encher , vem com tanta 
foberba fazendo hum macareo tão medonho , 
que parece que quer encapellar toda a Ci- 
dade ; e traz comfigo tamanho terremoto , 
que eftando eu naqueila Cidade , a primei- 
ra noite que o ouvimos nos poz muito gran- 
de medo , porque parecia que fe forvertia a 
Cidade; e em muito pequeno efpaço torna 
tudo a ficar hum mar de agua , que parece 
que não ha coufa que o feque. E querendo 
eu por curiofidade experimentar a ligeireza 
defte macareo , me puz na praia em hum 
bom ligeiro cavalJo Arábio , ( em parte que 
fó aquella pequena onda da reíaca podia 
chegar. ) E em vendo vir o macareo com 
grande terremoto huma grande diftancia , 
lhe puz as pernas ; mas antes de hum tiro 
de pedra paíTou por mim como hum raio, 
deixa ndo-me bem molhado. E quem bem no- 
tar Plinio , e Ariano , Author Grego, fal- 
lando da Cidade de Bagariza , (que fem du- 
vida he a de Cambayete , como em outro 

lu- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. III. 29^ 

lugar móftraremos , ) verá que claramente 
faliam deite macareo ; porque dizem , que a 
Cidade de Bagariza eflá em dezefete gráos , e 
que tem hum grande rio , e revolvimento , 
c ímpeto de aguas. 

E tornando á noíTa Armada , pafíbu to- 
da a noite furta nos poços com grande tra- 
balho ; e chegada a manhã deram á vela , e 
foram ferrar terra defronte da Cidade de 
Gandar , que eflá íituada por hum formofo 
rio aílíma , por onde entraram os navios ; 
e chegando á Cidade , defembarcáram nella , 
e a commettêram com muito boa ordem ; e 
entrando-a , a acharam fem defensão , por 
fer toda povoada de Gentios mercadores , 
que a defpejáram em vendo a Armada; os 
noíTos a mettéram a faço, e acharam nelle 
muitas , e muito ricas roupas , porque íe fa- 
zem alii as melhores de todas as Cidades de 
Camb3ya. Depois que os navios foram che- 
ios , puzeram fogo á Cidade em que toda 
fe confumio. Dalli fe paliaram pela encea- 
da mais dentro , deítruindo todos os luga- 
res marítimos. E porque já eítavam muito 
no faço , tornaram a voltar até Baroche , fa- 
zendo por toda a fua coita grandes damnos , 
e incêndios , tomando muitos navios carre- 
gados de fazendas, e mantimentos. E aca- 
bando-fe-lhes o tempo dos provimentos , 
tornaram a voltar pêra Dio vitoriofos. 

CA- 



5^6 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO IV. 

De como D. João Mafcarenhas deflftio da 
fortaleza de Dio , t o Governador Dom 
João de Caflro a entregou a D. Manoel 
de Lima : e de como António Mmiz Bar- 
reto foi efperar as nãos de Cambaya : e 
de como chegaram a Goa as novas davi~ 
torta : e de hum heróico jeito que fize- 
ram as matronas de Goa. 

DAva o Governador D.João de Caítro 
muita prelTa ás obras da fortaleza por 
fer já em Fevereiro , tempo , em que lhe era 
jieceflario acudir a Goa pêra prover nas cou- 
fas de Malaca, e Maluco. D.João Mafca- 
renhas vendo a mercê que lhe Deos tinha 
feito , determinou de fe ir pêra o Reyno, 
fem embargo de não ter cumprido o tempo 
da fua fortaleza , porque não queria delia 
mais , que a honra que lhe ficava daquelle 
cerco ; e pedio ao Governador que a pro- 
vefTe , porque fem diivida elle fe havia de 
ir com elle pêra Goa. O Governador o quiz 
tirar daquelle propofuo , dando-lhe muitas 
razoes pêra iíTo , e lembrando-lhe , que era 
muito neceflario efperar alli recado de El» 
Rey, que forçado havia de ter muita con- 
ta com fuás coufas : e por muitas que lhe 
difle fobre efte negocio , o não pode acabar 

com 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. IV. 297 

com elle. Vendo o Governador que Jhe era 
neceíTario prover aquella fortaleza ., commet- 
teo alguns Fidalgos velhos com ella , e to* 
dos lè lhe efcufáram , dizendo por fora pu- 
blicamente , que pois D. João Maícarenhas 
havia de levar a honra , e gloria do cerco, 
que Jevafle também os trabalhos da fortifi- 
cação da fortaleza. Iftofoiter ás orelhas do 
Governador 3 de que fe muito enfadou , por- 
que não fe íabia determinar no que fizeíTe; 
e quando chegou D.Manoel de Lima , an- 
dava elle muito melancolizado ; e eftando 
hum dia praticando com elle fobre efte ne- 
gocio , o achou de feição , que fe atreveo ao 
commetter com aquella fortaleza , pondo- 
lhe diante a muita conta queElRey com el- 
le tivera , e o grande ferviço que naquillo 
lhe faria. D.Manoel de Lima poflo que fa- 
bia que muitos lha tinham engeitado , não 
lhe dando poriíTo a defconfiança , IhediíTe, 
» que pois elle havia que niíío fervia a El- 
» Rey, que elle a acceitava com muito goíío.» 
O Governador o metteo logo de pofíe del- 
ia , e elle começou a correr com luas obri- 
gações muito bem, profegi-indo na obra da 
fortificação com muita preífa. 

O Governador como trazia muitas intel- 
ligencias por todo o Reyno de Cambaya , 
foi avifndo que em Surrate fe efperava por 
algumas náos de Ormuz ^ pelo que logo com 

mui- 



Í98 ÁSIA de Diogo de Couto 

muita preíTa deípedio António Moniz Bar- 
reto com quinze navios ligeiros , com regi- 
mento , que fefoíTe lançar na coita de Pôr, 
eMangalor, aonde ellas haviam de vir de- 
mandar a terra , e que as tomaíTe. António 
Moniz Barreto fe foi lançar naquella para- 
gem , aonde fe deixou andar ; e nós também 
o deixaremos , porque he neceífario conti- 
nuarmos com Diogo Rodrigues de Azeve- 
do , que atrás no fim do Cap. II. do Liv. 
IV. deixámos partido pêra Goa com as no- 
vas da vitoria. 

Efte homem fe deo tanta preíTa , que em 
breves dias foi ter áquella Cidade , e deo 
as cartas ao Bifpo , Regentes, e Vereado- 
res y por que fouberam da grande vitoria que 
Deos lhe dera ; e efpalhando-fe as novas pe- 
la Cidade, começou-fe toda a desfazer em 
feitas , e alegrias , ordenando o Bifpo mui- 
to folemnes ProcifsÓes 5 pêra com ellas fe 
darem louvores a Deos pelas mercês que 
lhes tinha feito ; e defpedio logo cartas a 
Cananor , e a Cochim , aonde fe fizeram 
também outras com muito grande devoção. 
Os Vereadores mandaram ajuntar o povo 
em Camará , e o do meio leo a carta do 
Governador , e dentro nella acharam o ri- 
co penhor da fua veneranda barba , embru- 
lhado em outro papel ; e vendo o que di- 
zia na carta , fez fobre iífo huma breve fal- 
ia 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. IV. 299 

la a todos , cm que lhes reprefentava a ne- 
ceílidade em que eítava o Governador , e 
como naquelle negocio hia toda a falvação , 
e remédio da índia ; que aquelle era o tem- 
po em que os bons Portuguezes haviam de 
moftrar o grande amor , e zelo que tinham 
ao íèrviço do feuRey, que os faberia mui 
bem galardoar com honras , privilégios, e 
liberdades. Que era muita razão que todos 
acudiíTem , e empreftaífem ao Governador 
aquillo , que boamente pudeílèm , porque 
aííim o encommendava elJe muito ; e que a 
paga feria nos direitos da Alfandega , e nos 
dos cavallos. 

Vendo os Cidadãos a honrofa carta do 
Governador, e a guedelha de fua branca bar- 
ba , movidos do zelo Portuguez , diíTeram 
» que eftavam muito preftes pêra venderem 
» ( fe fofle neceílario ) os filhos pelo fervi- 
» ço de feu Rey , e pêra a defensão de feu 
» Eílado. » E fahidos dalli , foram a fuás ca* 
fas ordenar o que cada hum havia de dar, 
( porque efte negocio não correo por força , 
nem com as defordens que em femelhantes 
cafos acontecem , fenao por gofto , e amor. ) 

Sabendo as mulheres dos Cidadãos aquel- 
la neceffidade , levadas de hum honrofo ze- 
lo , tiraram as manilhas de ouro dos feus 
braços , e os rcos colares efmaltados de feus 
pefcoços, e os cintos de rica pedraria , com 

que 



3CO ÁSIA de Diogo de Couto 

que fe coftumavam arraiar no3 dias de fuás 
mores feílas ; e as que menos podiam , as 
cadeias , orelheiras , e armeis. E dando tudo 
iílo aos maridos , lhes diíTeram » que tudo 
» fe empenhaíTe , e vendeífe pêra o ferviço 
y> do feu Rey , e pêra a defensão de fua pa- 
» tria. » 

Louvem agora os Efcritores aquella gran- 
de liberalidade , com que as matronas Ro- 
manas mandaram offerecer ao Senado fuás 
jóias pêra as defpezas da guerra , porque ne- 
nhuma delias empreitou mais , que huma on- 
ça de ouro ; porque pela Lei , o pião não 
podia ter mais em jóias lavradas. Os Cida- 
dãos , ajuntando logo o dinheiro, que cada 
hum pode, o levaram acamara, e com el- 
le as jóias das mulheres , que tudo prefazia 
maior quantia de dinheiro , do que o Go- 
vernador pedia. E recolhendo tudo em hum 
cofre , e a guedelha da barba do Governa- 
dor em outro pequeno, guarnecido de pra- 
ta , lhe mandaram tudo pelo mefmo Diogo 
Rodrigues de Azevedo, efcrevendo-lhe hu- 
ma breve carta , em que lhe certificavam , 
» que fe fofTe neceffario empenharem feus fi- 
» lhos pêra o ferviço de feu Rey , que to- 
» dos o fariam com muito gofto. » E em 
quanto efte recado não chega ao Governa- 
dor , continuaremos com António Moniz 
Barreto. 

Ha- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. IV. 30Í 

Havendo poucos dias que eftava furto na 
parte em que o deixámos , veio dar com 
elle huma formofa náo deCambaya, cheia 
de muitos , e mui ricos mercadores da Per- 
fia , dos Reynos do Zamaluco , e Idalxá , 
que fe nella embarcaram , por trazer fegu- 
ro , e cartaz do Governador , que tomou an- 
tes que a guerra fe rompeííe. E indo-a de- 
mandar , amainou logo as velas confiada no 
cartaz; e o Capitão que fe chamava Nacao 
Nacael , com alguns mercadores principaes, 
fe mettêram no batel , e foram demandar a 
fufta do Capitão mor com o cartaz na mão. 
António Moniz Barreto o guardou, e osrç- 
teve , mandando rnetter huma guarnição yde 
foldados na náo pêra a guardarem ; e dan- 
do á vela , fe foi com ella pêra Dio , onde: 
depois da náo chegar, mandou o Governa- 
dor pôr os mercadores a bom recado , e del- 
carregar a náo de toda a fazenda, que im- 
portou de vantagem, de vinte mil cruzados f 
a fora doze cayallos Perlios , muito formo- 
fos. Os mercadores eftrangeiros diííerarn ao 
Governador » que elies eram de Reynos ami- 
»gos , e que fe embarcaram naquella náo 
» por trazer feguro, e cartaz feu j que elles 
» não tinham culpa na guerra , nem eram vaf- 
)> fallos de ElRe}^ de Cambaya , pelo que 
» não podiam perder fuás fazendas, » O Go- 
vernador ouvindo-os de fuà jvíliça , ; os man- 

dou ' 



302 ÁSIA de Diogo de Couto 

dou foltar , dizendo-lhes » que a foflem re- 
)> querer a Goa, que lá lha fariam, fe a ti- 
)> veflem , » mandando a náo pêra Goa, en- 
tregue a Simão Botelho , Veador da Fazen- 
da , pêra lá vender alguma , que ainda lhe 
ficou , e fazer preftes os provimentos pêra 
Malaca , e Maluco ; e na náo mandou em- 
barcar muita artilheria , e outras coufas das 
que fe tomaram na Cidade, 

Nefta conjunção chegou a Dio Diogo 
Rodrigues de Azevedo com as cartas, eem- 
preftimo da Cidade ', e lendo-as o Governa- 
dor , e abrindo os cofres em que vinha o 
dinheiro , e jóias das mulheres dos Cida- 
dãos, fabendo pélas cartas, e de Diogo Ro- 
drigues de Azevedo o amor com que lhas 
mandavam , aílim fe moveo daquelle zelo , 
e liberalidade , que lhe rebentaram as lagri- 
mas pelos olhos fora. E vendo- fe provido 
de dinheiro da náo , fem tocar em nenhu- 
ma coufa das que lhe mandaram , tornou a 
enviar tudo, aílim, e da maneira que veio, 
pelo mefmo Diogo Rodrigues de Azevedo, 
por quem efcreveo á Cidade huma muito 
honrofa carta , cheia de muitos offerecimen- 
tos , e agradecimentos , que fe lhe deo. 

E certo, que fegundo ouvimos a algu- 
mas pefToas daquelle tempo , que quando 
as matronas de Goa viram outra vez as fuás 
jóias, fem fenellas bulir, que fentíram em 

ef- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. IV. 305 

eflremo ; e que antes tomaram que fe des- 
fizeram todas em moedas pêra os gaítos da 
fortificação da fortaleza de Dio , que torna- 
rem-lhas a mandar : tanto pode a affabili- 
dade , virtude , e zelo Chriftão de hum bom 
Governador , que não fó fe faz fenhor das 
fazendas dos homens , mas ainda de feus co- 
rações , e vontades , que Deos fez tão livres 
pêra todos. E quanto ao revéz acontece ao 
Capitão auílero , afpero , e tacanho , porque 
não faz mais que crear nos corações dos 
homens ódio, e aborrecimento. 

E deixando efta matéria , chegadas as no- 
vas deita tomada da náo a EIRey Soltão 
Mahamude , que andava como doudo da 
perda de Dio, foi tamanha fua paixão, que 
arrebentou em furor , mandando levar dian- 
te de íi Athanafio Freire , e Simão Feio , 
com todos os maisPortuguezes que eítavam 
cativos, que eram perto de trinta, e alli os 
mandou cortar , e efpedaçar , recebendo to- 
do aquelle martyrio com grande conftan- 
cia , e paciência , e com os corações poflos 
em Deos, por cujo ferviço, e amor ofof- 
friam. E affirn de crer he , que iriam juntos 
receber aquella gloriofa coroa , que no Ceo 
eílá apparelhada pêra os Martyres de Chrifío , 
que padeceram femelhantes tormentos por 
íeu amor. 

CA- 



304 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO V. 

Do tempo em que os Turcos tomaram a Ci- 
dade de Ba corá : e de como D. Manoel 

* de Lima foi entrar na fortaleza de Or- 
muz : e D. João Mafcarenhas tornou a 
ficar na de Dio. 

ANdava íe o Governador D. João de 
Caftro negociando pêra partir pêra Goa, 
porque tinha já a obra da fortificação em 
boa altura ( por fazer de novo hum muro 
por fora da cava velha, e mais com outros 
baluartes maiores, e mais capazes, com os 
mefmos nomes dos velhos ; e pela banda de 
fora outra cava , que cortava de mar a mar , 
mais larga, e mais alta que a antiga.) Ifto 
tudo pode fazer tão depreíía, porque achou 
todas as coulas neceflarias dentro na Ilha , 
que tinham os inimigos juntas pêra fuás fa- 
bricas , e edifícios , e pedra da parede da 
contenda alevautcu a mor parte dos muros. 
E andando o Governador concluindo com 
eftas obras, chegou huma fufta de Ormuz, 
com cartas do Capitão Luiz Falcão pêra o 
Governador , em que lhe dava conta de co- 
mo os Turcos com o favor de alguns Ará- 
bios havia pouco tinham tomado a Cida- 
de de Baçorá a Mahamede Afenan , Rey del- 
ia, que era amigo doEftado, depois de a 

ter 



D e c." VI. L i v. IV. € a k.1 V. 30? 

ter de cerco muitos dias por mar , e por ter* 
ra ; e que o Rey era recolhido pêra o cer- 
tão ; e que fe ajuntara com Mir Raxete , e 
com Mir Marcar , com Coge de Lamixá , e 
com outros Capitães Arábios daquellas fron- 
teiras \ eque ficavam todos com dez mil ca* 
vallos no campo, fazendo guerra aos Tu r* 
cos; e que os favoreciam os Gizares, (que 
são os Arábios, que vivem nas Ilhas que o 
Eufrates faz naquella parte , que por ferem 
alagadiças não fe receavam dos Turcos, nem 
elles os podiam conquiftar. ) 

O Governador fentio aquellas novas , 
porque os Turcos não eram vizinhos com 
que fe havia de diífimular ; e bem entendeo 
que tanto que alli mettêram o pé , fe haviam 
de eftender por todo aquelle Eftreito ; e que 
ficava a nofla fortaleza de Ormuz tendo nel- 
Jes huma muito ruim vizinhança. E queren- 
do prover naquellas coufas , começou a ne- 
gociar gente , e Armada , mandando reca- 
do a Chaul a D. Manoel da Silveira , que 
lá fe eftava curando , que fe apreííaiTe pêra 
fe vir embarcar pêra Ormuz , porque lhe 
cabia o tempo daquella fortaleza , de qué 
eftava provido. E tendo negociada a -Arma* 
da que havia de mandar , e que efperava por 
D. Manoel da Silveira , lhe trouxeram no* 
vas que era falecido ; porque eftes são os 
brincos da fortuna , quando hum homem 
Couto.Tom.III.PJ. V cui- 



306 ÁSIA de Diogo de Couto 

cuida lograr os frutos de feus trabalhos , en- 
tão acode ella com feus revezes. O Gover- 
nador fentio muito a morte deite Fidalgo 
por fuás muitas , e boas partes. Era cafado 
com huma irmã de Martim Corrêa da Sil- 
va , de quem tinha hum filho menino , que 
fe chamava D. Martinho da Silveira , que 
foi Capitão de Dio , como em feu lugar di- 
remos. E porque D. Manoel de Lima era 
provido deita fortaleza de Ormuz , apôs 
D. Manoel da Silveira lhe mandou o Go- 
vernador que fe fizeíTe preítes , e fe embar- 
caíTe logo , tratando de prover a fortaleza 
de Dio de Capitão ; masnãooufava decom- 
metter Fidalgo algum , porque lha tinham 
já engeitado muitos , ( como diífernos atrás 
no Cap. IV. deite IV. Liv. , ) de que andava 
muito defgoítofo. D. João Mafcarenhasenten- 
dendo-lhe fuás melancolias , e que andava 
defconfiado dos Fidalgos dizerem , que pois 
elle havia de levar as honras , e fatisfaçôes 
do cerco , JevaíTe também o trabalho da re- 
edificarão da fortaleza, fe foi ter com o Go- 
vernador , e fe lhe offereceo pêra tornar a 
ficar naquella fortaleza até avinda dasnáos, 
porque entendia cumpria affim ao ferviço de 
EIRey. O Governador lho agradeceo com 
palavras muito honrofas , e logo o metteo 
de poífe , e a D. Manoel de Lima defpachou 
pêra Ormuz > com dous galeões , e alguns 

na- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. V. 307 

navios deremo; e D. Paio de Noronha , que 
com elle hia em hum galeão , havia de an- 
dar no Eftreito de Baçorá , favorecendo os 
Arábios contra os Turcos. 

Chegou D. Manoel de Lima a Ormuz 
por todo o Abril , e tomou poíle da forta- 
leza , e ordenou logo com EIRey , e Gua- 
zil proverem-fe as de Catifa , e Barém de 
gente, e munições , mandando-as reformar 
muito bem. È porque adiante havemos de 
tratar do quenefte Eftreito aconteceo , o dei- 
xaremos agora , por concluir com as coufaá 
de Dio, 

Depois que o Governador teve a forti- 
ficação da fortaleza em eftado defenfavel , 
ordenou-lhe quinhentos homens de preíidio 
com feus Capitães pêra lhes darem mezas; 
e deixou muito dinheiro pêra fe lhes paga- 
rem quartéis, e muito trigo, arroz, vacas 9 
manteigas, legumes pêra lhes darem; e mui- 
tas munições , e artilheria , que foi dos Mou- 
ros , repartio pelos baluartes ; e fó aquella 
peça muito façanhofa ( que depois mandou 
ao Reyno por efpanto , que agora cftá no 
forte de S. Gião ) fez embarcar em huma 
muito grande barcaíTa , que cuílou muito 
grande trabalho a metter dentro. E na náo , 
em que foi pêra o Reyno , por não poder 
entrar pelo cisbordo , a abriram ao lume da 
agua p por onde a mettêram.; e em Portu- 
V ii gal, 



308 ÁSIA de Diogo de Couto 

gal , fegundo ouvimos , nunca fe pode ti- 
rar, fenão depois da náo eílar no eftaleiro- 
Efla peça com outras grandes , que ainda 
hoje eftam nos baluartes de Dio , ficaram do 
primeiro cerco de António da Silveira, por- 
que o Baxá Solimão não as pode embarcar. 
O Governador mandou lançar pregoes 
por Gogalá , e pelas aldeãs vizinhas , em 
língua Guzarate » que todo o mercador af- 
3> fim natural , como eftrangeiro , Mouro , 
» ou Gentio , que fe quizefle paííar pêra a 
» Cidade de Dio ; e aílim todos os mais of- 
» ficiaes de toda a mecânica , o pudeííem li- 
» vremente fazer, porque fe lhes guardariam 
>> todos osfeus coílumes , e fe lhes faria fa- 
a vor , ejuftiça. » Com iílo começaram a en- 
trar alguns , e pouco a pouco fe tornou a 
Cidade a povoar. E porque nas coufas da 
Alfandega não havia por então que prover, 
(por fer já entrado o inverno,) não bulio 
nellas; e ordenou ficarem alli todos os pe- 
dreiros , cavoqueiros , e mais officiaes que 
de Goa levou , a que fez muito boas pa- 
gas. E de toda aquella fabrica decudolins, 
picões , ceílos , enxadas , padiolas , e de tu- 
do o mais , deixou por olheiro hum Fero 
Fernandes , homem de baixa forte , Galle^ 
go , por fer muito diligente, e efperto. 

Deite fe conta , que efereveo nas primei- 
ras náos huma carta a EIRey D* João , em 

que 



De a' VI. Liv. IV. Cap. V. 309 

que lhe dava conta de como o Governador 
o deixara encarregado daquelle ferviço , e 
de como aquelleanno fe fizeram tantas bra- 
ças de muro , tantas de cava , tantos for- 
pos de cal , e que andavam na obra tantos 
pedreiros , e deftas particularidades muito. 
Elta carta eftimou EIRey , e folgou de a 
ver, e lhe refpondeo , encommendando-lhe 
que todos osannos oavifaífe de todas aquel- 
las coufas ; o que elle fempre fez , e EI- 
Rey lhe refpondia. 

Sabido iíto pelos Fidalgos , fizeram de 
Pêro Fernandes o Pafquim de Roma , efere- 
vendo alguns a EIRey em nome de Pêro 
Fernandes , tudo o que queriam que elle fou- 
beíTe do governo de Portugal, e da índia i 
em que fe defenfadavão bem. E depois que 
as coufas da Alfandega fe puzeram em or- 
dem , proveo EIRey os cargos delia em al- 
guns Caílelhanos , criados da Rainha Dona 
Catharina , o que não cahio no chão a Pê- 
ro Fernandes, ou aos que fallavam por el- 
le, e eferevêrarn huma carta a EIRey, em 
que lhe davam conta das obras, primeiro que 
tudo , e depois lhe dizia : » Huma coufa fe 
» vio cá , que efeandalizou muito a todos , 
» que foi prover V. A. os cargos deíla Al- 
» fandega em Caílelhanos , criados da Rai- 
» nha , havendo cá muitos Cavalleiros , que 
)) pelejaram em ambos os cercos, e ficaram 

)) alei- 



3io ÁSIA de Diogo de Couto 

D) aleijados , que os mereciam melhor: tenha 
» V. A, daqui por diante mais conta aos Por- 
» tuguezes , que ficaram aleijados pela de- 
y> fensão da fua fortaleza , e achará quem o 
» firva com goílo em femelhantes perigos.» 

Efta carta foi dada aEIRey, que aleo, 
e diflimulou ; mas não refpondeo mais ao 
Pêro Fernandes. E certo , que quanto a nós, 
a carta era fua , porque era hum homem íbl- 
to , e ( faIlador , e dizia tudo ; pelo que era 
odiado dos foldados , porque poufava no ter- 
reiro da fortaleza , e todas as madrugadas 
fe fubia a hum eirado alto que tinha , e co- 
mo Mouro em fima do Alcorão , bradava 
tão alto, que o ouviam por toda a fortale- 
za , chamando aos officiaes ao trabalho ; e 
muitas vezes chamava por alguns foldados 
conhecidos, nomeando-os : foão , fahi de ca- 
fa de voíía amiga foã ; e vós foão da vof- 
fa tal ; e aífim hia dizendo huma ladainha 
do que elle queria. 

O Governador depois de ter dado or- 
dem a tudo, fedefpedio do Capitão, e dos 
Fidalgos , e Cavalleiros , que aíli ficavam , e 
fe embarcou pêra Goa , deixando D. Jorge 
de Menezes com féis navios pêra andar o 
refto do verão na enceada de Cambaya , de- 
fendendo os mantimentos , que não paífaf- 
fem aCambaya. O Governador como leva- 
va o vento em poppa , foi em quatro dias a 

Goa, 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. VI. 311 

Goa, e furgio naquella-barra, onde foi vi- 
fitado do Bifpo , Regentes , e Cidade , e os 
Vereadores lhe pediram » fe detivefle alguns 
» dias y porque lhe eílavam preparando o re- 
»cebimento; porque era razão que triunfaf- 
» fe de huma tão grande vitoria , como lhe 
»jk>íTo Senhor dera.» Elle o fez aífim, fi- 
cando em Pangim dando defpacho a mui- 
tas coufas. 

CAPITULO VI. 

Do grande triunfo com que o Governador 
D. João de Cajlro foi recebido na Ci- 
dade de Goa. 

ESteve o Governador em Pangim três 
dias , porque chegou aos onze de Abril , 
huma quarta feita; e ao Domingo feguinte, 
que foram quinze do mez , fez lua entrada. 
Tinha a Cidade mandado fazer no Bazar de 
Santa Catharina hum formofo cães , pêra nel- 
le defembarcar o Governador , por querer 
entrar por aquella parte ; e porque a porta 
do muro alli era pequena , rafgou-fe-lhe to- 
da de alto abaixo , e cubríram-fe as pare- 
des de huma parte , e de outra de peças de 
borcados , e de veludos de cores : em fíma 
das paredes de huma , e da outra banda 
eílavam dous grandes galeões de pedra com as 
gargantas ; e cabeças douradas 7 e nos pei- 
tos 



512 ÁSIA de Diogo de Coxíro 

tos formoíbs efcudos com as armas dos Caf- 
tros , que são féis arruelas azues em campo 
de prata , como as trazem os da cafa do Go- 
vernador do Civel. O cães entrava muito na 
agua , e eftava todo cuberto com formoíbs 
arcos de peças de fedas, e delle até a por- 
ta do muro que ferafgou, era hum formo- 
fo bofque de arvoredo , que fazia tudo mui- 
to fombrio. E todo aquelle campo de lon*- 
go do muro , por onde havia de ir até o 
cães dos Paços dos Vífo-Reys , èftava tolda- 
do, alcatifado, e enramado , e pela banda 
do niar muitas peças de artilheria cevadas :", 
todas enramadas, e com fuás bandeiras"; e 
o mefmo todas as náos , e galeões que ef- 
tavam no rio. Acudiram mais todas as al- 
inadías de Goa , e de todas as Ilhas vizi- 
nhas (que eram infinitas) enramadas, e em- 
bandeiradas ; e era de feição, que cubriam 
o rio, que ficava parecendo hum verde bof- 
que. As ruas do cães até á Mifericordia , e 
delia á Sé eftavam cuftofamente guarneci- 
das, easjanellas armadas de pannos de ou- 
ro , e fedas com muitas , e muito cuftofas 
invenções. Tinham os Vereadores ordenado 
•ria boca do terreiro > que hoje he do Paço , 
huma fortaleza de madeira , cuberta de pa- 
pel , ou teadas , com feus baluartes, e cu- 
bellos , pela traça da de Dio , e dentro nel- 
-Ja muitos lafcarins com foguetes , bombas 

de 



Dec. VL Liv. IV. Ga?. VI. 313 

cie fogo > e algumas bombardas , e eípin^ 
gardas, muitas panellas de pólvora , e ou- 
tros artifícios de fogo. Pela mefma maneira 
tinham ordenado muitas folias, e danças de 
invenções , muito cuftofas ; e deftes regozi* 
jos tudo o que o tempo lhes deo lugar. 

O Governador ao Domingo á tarde a- 
balou de Pangim nefta ordem. As náos, ga- 
leões , caravelas , e todas as mais vaíilhas 
de alto bordo diante , com todas as velas 
-dadas, formofamente embandeiradas; e lo^ 
go atrás aquella fomma de fuíías , que eram 
mais de oitenta , em ordem com muitas cha- 
ramelas , trombetas , atabales , tambores , pí- 
faros , pandeiros , folias , e outros inftru- 
mentos alegres, todas enramadas , eemban» 
deiradas , fazendo hum tamanho eftrondo ,. 
que parecia que fe desfazia o rio de Goa» O 
Governador hia detrás de toda a Armada 
em huma galeota toldada de borcado , e 
embandeirada de formofas bandeiras , e ef- 
tandartes de fedas de cores. Hiam com et* 
]e embarcados todos os Fidalgos velhos da 
Armada. 

Nefta ordem foram entrando pelo rioaC- 
íima , por meio daquelle formofo , e alegre 
bofque de almadías , batéis , e outras em- 
barcações embandeiradas. E chegando os ga- 
leões defronte da fortaleza , furgio o São 
Diniz , que era do Governador y que hia di* 

ante 



314 AS1À de Diogo de Co ir to 

ante de todos com a bandeira Real na ga- 
via , e falvou a fortaleza com as velas em 
íima ifladas nos palancos ; e pela mefma ma- 
neira todos os mais galeões , e náos , que 
foi a mais foberba coufa que fe podia ver. 
Acabada a falva , chegou a Armada de re- 
mo , e deo a fua ; e abrindo- fe as fuftas de 
huma parte , e de outra , foi paíTando o Go- 
vernador por meio delias , e poz a proa no 
cães. O Condeftabre mór, a quem era en- 
carregado aquelle negocio , mandou defpa- 
rar toda a artilheria que eftava em terra , 
que era muita , que também foi outro mui 
grande terror , e efpanto. 

O Governador defembarcou no cães , 
que entrava muito pela agua , ao fom de 
muitos inftrumentos. Vinha veftido em hu- 
ma roupa Franceza de fetim cramezim , to- 
da guarnecida de ouro , com golpes pelas 
mangas , tomadas com botões ricos , e hum 
jubão do mefmo theor , huns altos de grã 
á Portugueza antiga , com alguns golpes ; 
porílma do jubão levava huma coura de la- 
minas, afTentada emborcado, e cravada de 
pregos de prata ; na cabeça levava huma 
gorra de veludo preto com formofas plu- 
mas , e efpada , e adaga de ouro. No cães 
o eílavam efperando o Capitão da Cidade 
D. Diogo de Almeida Freire , e os Verea- 
dores , que o receberam com muito gran- 
des 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. VI. J15 

tlcs cortezias. O Governador fe deteve alli 
até defembarcar toda a gente da Armada , 
e fe pôr em ordem , aífím como entraram 
na batalha , com fuás bandeiras defenrola- 
das , ao fom de tambores , e pífaros, não 
poftos em fileiras por caufa das coufas do 
triunfo , que haviam de ir no meio , mas a 
modo de procifsão de longo das paredes. 

Pofto tudo em ordem, abalou o Gover- 
nador do cães em meio do Capitão , e Ve- 
readores ; e chegando á porta do muro que 
fe rompeo , achou hum Cidadão , chamado 
Thomé Dias Cayado , que lhe fez huma fal- 
ia em Latim mui eloquente , c elegante, to- 
da em louvor da vitoria r que lhenoílb Se- 
nhor deo dos Capitães de EIRey de Cam- 
baya , com que toda a índia ficava fegura , 
e fora de receios , louvando-lhe fua prudên- 
cia , fegurança , e prefteza. Acabada a fal- 
ia , desfizeram-fe os inftrumentos todos , que 
parecia que o Mundo fe fundia. Aqui fe 
defparáram algumas peças de artilheria de 
boca larga , que citavam apontadas pêra o 
ar com pouca pólvora , cheias todas de ma- 
çapaes , empenadilhas , farrens , e outras cu- 
riofídades defta fcrte , que em lhes dando o 
fogo, as lançou a força da pólvora por ef- 
fes ares ; e como hiam fracas , tornaram a 
cahir fobre grandes cardumes de moços, 
Mouros , Gentios , e de todo o mais povo. 

Os 



316 ÁSIA de Diogo de Couto 

Os Vereadores efíendêram hum muito rico 
pallio , e tomaram o Governador debaixo 
delle > e hum Cidadão chamado Triftão de 
Paiva , que era Procurador da Cidade , che- 
gou a elle , e lhe tirou a gorra da cabeça 
com muita cortezia , e reverencia , e a poz 
çm hum formofo prato de baftiães doura- 
do, e a levou diante do pallio alto ; e ao 
4nefmo tempo hum Vereador lhe poz na ca- 
beça huma coroa de palma , e na mão hum 
formofo ramo delia ; e affim começou a en- 
trar pela Cidade pela rua do Hofpital , que 
vai de longo do muro pêra o terreiro do 
Paço. Hia junto delle feu filho D. Álvaro de 
Caftro, e diante do pallio o Padre Fr. An- 
tónio do Cafal, Cuftodio de S» Francifco, 
veílido em huma fobrepelliz , e com o mef- 
roo Crucifixo que tirou na batalha , levan- 
tado na haítea da lança, cem o braço que- 
brado da pedrada que lhe deram. 

Diante hum pouco delle hia a bandei- 
ra Real das Armas de Portugal , e diante 
delia Juzarcan , Capitão deElRey deCam- 
baya , que foi cativo na batalha , veílido 
em huma cabaya de veludo pardo , em meio 
do Secretario Coime Anes , e do Ouvidor 
Geral António Martins. Levava as mãos cru- 
zadas , os olhos baixos ; diante delle hiam 
íete bandeiras dos Capitães de EIRey de 
fcambaya > e hum muito grande guião ar- 

raf- 



Dêc. VI. Liv. IV. Cap. VI. 317 

faftando-fe todas pelo chão. Diante delias 
Iiiam as dos noflbs Capitães arvoradas , e 
antre humas , e outras hiarn todos os cati- 
vos de Cambaya , que paíTavam de feiscen- 
tos , mettidos todos em correntes, que le- 
vavam arraíhndo. Diante delles hiam dous 
Trabucos , c algumas carretas dç artilheria 
miúda, porque a grofla não pode levar-fe f 
nem ainda menear-fe. E diante outras mui-* 
tas carretas , carregadas dos defpojos da guer- 
ra , armas , efpingardas , faias de malha , 
lanças , croques , mafcaras de ferro , e ou- 
tras muitas invenções de petrechos de guerra. 
Nefta ordem foram até o terreiro do Pa- 
ço , onde eftava a fortaleza armada , que 
começou a defparar fua artilheria pêra o ar, 
e defpedir bombas de fogo , e foguetes , e 
arremeflar panellas de pólvora pêra huma 
parte , que pêra iíTo eftava defpejada , tudo 
com muito boa ordem , e compaíTo ; cou- 
fa que o Governador folgou muito de ver. 
Dal li atraveíTou toda a rua direita, que ef- 
tava formofa coufa pêra ver , com muitas 
Damas pelas janellas , com rofas , boninas , 
aguas de cheiro , que de íima derramavam 
fobre o Governador. Os Gentios , e pffi- 
ciaes de todos os officios foram alli offe- 
recer coufas pertencentes a feus officios : os 
ourives do ouro , ouro batido feito em pe- 
dacinhos j os da prata o mefmo; os. merca* 
- . do- 



318 ÁSIA de Diogo de Couto 

dores das fedas , eftendiam por baixo dos pés 
do Governador pedaços de peças , e lança- 
vam peio chão finos caramabandos ; e os das 
roupas finas, beitiihas, beirames , e outras 
muitas peças , tudo com mui grande rego- 
zijo de todos. 

O Governador foi todo o caminho mui- 
to alegre , e rifonho ; e aílim deita maneira 
chegou á Mifericordia , aonde entrou , e fez 
a fua oração , e offereceo fobre o Altar hu- 
ma rica peça de borcado. Daili foi pela rua 
do Crucifixo , e virou pêra S. Francifco , 
aonde os Frades eftavam efperando em pro- 
cifsão da banda de fora, e o receberam com 
BenediSius, qui venit in nomine Domini , can- 
tando ; e aílim entrou na Igreja , aonde fez 
devota oração , e offereceo outra peça de 
borcado. Daili fe foi á Sé , a cuja porta es- 
tava o Bifpo D. João de Alboquerque vef- 
tido em Pontifical , acompanhado de todos 
os Cónegos , e Clerefia em procifsao , efpe- 
rando ao Governador com o Santiílimo Le- 
nho da Cruz em fuás veneráveis mãos. O 
Governador tanto que chegou a elle , fe de- 
bruçou, e lançou afeus pés com grande aca- 
tamento , e reverencia , com o rofto , e ve- 
nerandas cans banhadas em lagrimas , e 
beijou a fantiffima Relíquia , e detrás a foi 
acompanhando até o Altar , aonde o Gover- 
nador fez fua oração ; e offereceo duas for- 
mo- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. VI. 319 

mofas peças de borcado. E pofto que era 
coflume não acompanharem os Vereadores 
aos Governadores mais que até á Sé, qui- 
zeram eftes pelo mais honrar , trazello até 
fuacafa, que eram as do Sabayo. E ao en- 
trar do terreiro, que eftava todo feito hum 
formoíiílimo , e efpeíTo bofque , largaram 
muitas lebres , perdizes , rollas , e outros 
paííaros , que huns começaram a correr por 
antre a gente , outros a avoar por efTes ares , 
que foi huma das mais formofas coufas que 
fe podia ver. Com cita alegria, e regozijo 
chegaram aos Paços , onde os Vereadores fe 
dei pediram do Governador, já de noite , que 
toda fe paílbu em folias , tangeres , e ou- 
tros íinaes de alegria , andando o povo pe- 
las ruas bradando a altas vozes : Viva onofi 
fo Libertador da pátria , titulo tão bem me- 
recido , e tão bem dado , como os Roma* 
nos deram a Furio Camillo. 

E querendo-o os Vereadores gratificar 
pelo amor que a todos moftrava , e pelo 
muito que merecia , o mandaram tirar pelo 
natural em hum formofo painel , e o puze- 
ram na Camará de Goa , junto de Affonfo de 
Alboquerque. Efte auto fe fez com grandes 
feitas , e ceremonias > que tudo o Governa- 
dor agradeceo , aíTim com palavras , como 
com obras , foliritando com EIRey muitos 
favores pêra aquclla Cidade. Não faltou a 

ef- 



3^q ÁSIA de Diogo de Coxjtò 

eíte triunfo pêra fe igualar com todos os 
dos Romanos, mais que aquelles carros de 
cavallos, que coftumavam levar por ornato 
de feus triunfos. E foou tanto por toda a 
Europa efte , que quando o contaram a Rai- 
nha D. Catharina , diíTe » que D. João de 
» Caílro vencera como Chriítão , mas que 
» triunfara como Gentio. » 

Naquella parte do/ muro , que fe rom- 
peo pêra o Governador entrar, mandou el- 
le logo fazer hum Altar ao Bemaventurado 
S. Martinho , em cujo dia houve aquella 
grande vitoria , com hum formolb retabo- 
lo de óleo ; e ordenou com a Cidade » que 
» todos os dias daquelle Bemaventurado San- 
» to fe fizeffe huma folemne Procifsão , e 
» fe diíTeífe MiíTa , e houveílè pregação em 
» memoria da vitoria que Deos noíto Senhor 
» lhe deo naquelle dia ; » o que fe guardou 
até hoje , e deve de guardar fempre , por 
fer coufa memorável , e de louvor de nof- 
fo Senhor , de cuja mão nos vem todos os 
bens. 



CA~ 



Década VI. Liv. IV* 321 

CAPITULO VIL 

Das coufas , que nefie tempo aconteceram 
em Ceilão : e de corno o Governador Dom 
João de Caftro mandou António Moniz* 
Barreto com huma Armada em foccorro 
de EIRey de Candea : e de como D. Jorge 
de Menezes tomou a Cidade de Barocbe. 

NO Cap. IV. do Liv. II. da quinta Dé- 
cada demos larga conta das grandes 
guerras que fe levantaram em Ceilão , antre 
os Reys de Ceitavaca Madune Pandar , e 
Banoega Bao Pandar da Cota feu irmão , por 
lhe querer tomar feu Reyno ; e como por 
fe livrar delle o Rey da Cota , cafou fua 
filha com Tribuly Pandar , por não ter fi- 
lho macho que lhe herdade o Reyno. Dan- 
tre efte cafamento nafceo Drama Bolla Bao 
Bandar, que foi o que EIRey D. João ale- 
vantou em Lisboa por Príncipe , e herdeiro 
do Reyno da Cota , defpedindo os Embai- 
xadores que a iífo foram , em cuja compa- 
nhia mandou alguns Frades de S. Francifco , 
cujo Cuftodio foi o Padre Fr. António do 
Padrão , Varão Religiofo , que foi o pri- 
meiro Commiííario Geral que á índia paf- 
fou. Eftes Frades foram aíTinados pêra fe re- 
partirem pela Ilha de Ceilão , pêra planta- 
rem naquellas terras bravias a Doutrina do 
Ceuto.TomJILPJ. X Evan- 



322 ÁSIA de Diogo de Couto 

Evangelho, (porque os Reys de Portugal 
fempre pertendêram neíiaConquifta do Ori- 
ente unir tanto os dous poderes , efpiritual % 
e temporal , que em nenhum tempo fe ex- 
ercita/Te hum íem o outro, ) Chegados eftes 
Varões Apoftolicos a Ceilão em companhia 
dos Embaixadores , foram mui bem recebi- 
dos de EIRey da Cota , dando-lhes licença 
pêra poderem pregar a Lei de Chrifto por 
todos feus Reynos. E não fe defcuidando 
eftes conquiítadores Evangélicos de lua obri- 
gação , começaram a romper em algumas 
partes o mato bravio, e femear nelle a Te- 
mente Evangélica , que começou a frutifi- 
car como aquelle grão de moftarda do E- 
vangelho, alevantando alguns Templos , em 
que o Altiffimo Deos começou a fer honra- 
do , e venerado de todos, E os primeiros 
lugares em que fe fizeram , foram Panatu- 
ré, Macú, Berberi, Galle, Belliguão , tu- 
do portos de mar , em que trouxeram ao 
grémio da Igreja hum grande número da- 
quelles Gentios. 

E pafiando ao coração da Ilha, chega- 
ram aoReyno de Candea hum Fr. Pafcoal, 
com dous companheiros , que foram bem 
recebidos daquelle Rey Javira Bandar, pri- 
mo com irmão do Madune , filho de hum 
irmão de feu pai , que os favoreceo em tu- 
do j tanto y que lhes deo hum grande chão , 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. VII. 31 j 

e todo o hecefíario pêra fazerem huma Igre- 
ja , e cafas , em que fe agazalhaflem. Alli co- 
meçaram a lavrar aquella terra infrudtuofa , 
e efteril , que não dava outros frutos mais 
que cardos , e efpinhos de idolatrias nefan- 
das , temeando em leu lugar a femente da 
vida. E achando fítio em EIRey pêra o con- 
vidarem ásvodas do Senhor , o apalparam, 
praticando com elle em coufas danoílaFé', 
e Lei 5 moftrando-lhe claramente a verdade 
delia , e a cegueira , e engano de teus ído- 
los ; e tanto o vieram a molificar , que o ren- 
deram , porém não que recebeíTe a agua do 
fanto Bautifmo , porque teve grande medo 
de o matarem os teus. E não querendo os 
Padres que te perdeíTe aquella ovelha ámin- 
goa , fizeram com elle* que efcreveíTe ao Go* 
vernador da vontade que tinha , e que lhe 
pedifle hum Capitão com gente pêra o fa- 
vorecer contra os teus , te tentaífem alguma 
alteração com a mudança da Lei. Com ef- 
ta carta foi hum daquelles Padres , que che- 
gou a Goa poucos djas depois do Governa- 
dor D. João de Caftro triunfar. E vendo-fe 
com elle, edando-lhe conta de tudo, e len- 
do a carta , e entendendo por ella a vonta- 
de daquelle Rey Gentio , não quiz perder 
aquella tão boa occafião ; porque fabia mui 
bem , que a principal droga , e a mais rica 
pedraria, que os Reys de Portugal perten- 

X ii diam 



324 ÁSIA de Diogo de Couto 

diam deita Conquifta do Oriente , eram al- 
mas pêra oCeo. E movido também defeu 
bom zelo , poz aquelle negocio em confe- 
U10 , e aííentou-fe nelle » que lhe mandaf- 
2> fem hum Capitão com duzentos homens 
» pêra invernar, e affiftir com aquelle Rey, 
o;até o fegurarem na Fé, e no Reyno. » 

Pêra efta jornada elegeo o Governador 
logo António Moniz Barreto, a quem deo 
íete fuílas , em que levaria cento e íincoen- 
ta homens , defpedindo-o com muita prefla , 
dando-lhe Provisão pêra em toda a parte a 
que chegaííe , em que achaíTe navios nof- 
fos , os levaíTe comfigo j efcrevendo por el- 
le cartas de muitos mimos áquelle Rey , e 
mandando-lhe peças , e brincos curiofos. An- 
tónio Moniz Barreto Fe fez a vela já em fim 
de Abril , e de fua jornada adiante daremos 
razão. 

Poucos dias depois defta Armada parti- 
da , chegou a Goa Fernão de Soufa de Tá- 
vora com os Caftelhanos , que o Governa- 
dor recebeo muito bem , mandando-lhes lo- 
go pagar quartéis, e dar mantimentos, dan- 
do licença pêra os que quizeíTem ir pêra o 
Reyno, o poderem fazer, dando-lhes pêra 
iíTo ajuda de curto ; e os que quizeram fi- 
car na índia , fempre foram favorecidos dos 
Governadores. Com efte recado defpedio lo- 
go o Governador hum galeão , que já ef- 
ta- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. VIL 32? 

tava preftes com provimentos pêra Maluco ; 
e juntamente proveo em outras coufas ne- 
ceifarias, porque fe hia acabando o verão, 
por ficar deíbccupado pêra as coufas do Idal- 
xá , de que logo daremos razão , porque o 
cerco de Dio nos não deo até agora lugar 
pêra iíTo ; e entre tanto concluiremos com 
rodas as coufas do verão , porque nos não 
fiquem, que temos ainda D. Jorge de Me- 
nezes na enceada de Cambava , com quem 
he neceíTario continuemos. 

Tanto que o Governador o defpedio , 
andou por toda e!la defendendo , que não 
paíTaífem mantimentos a Cambaya , toman- 
do algumas cotias carregadas delles. E an- 
dando ao mar da Cidade deBaroche, achou 
huma almadía pefcando bem ao pego ; e to- 
mando-a , fez aos que eftavam nella pergun- 
tas , do modo em que eflava aquella Cida- 
de; e os pefcadores lhe diíferam , que Ma- 
dre Maluco , genro de Coge Çofar, (que 
era fenhor delia , ) era ido á Corte de A- 
madaba , e que tinha partido o dia dantes ; 
e que a Cidade eítava fó fem mais gente, 
que os mercadores , e officiaes , porque to- 
da a da guerra leva'ra comíigo. D. Jorge ef- 
timou muito aquellas novas ; e mettendo 
dentro no fcu navio os pefcadores , foi de- 
mandar Baroche de noite, E entrando por 
aquelle rio aíTima ; chegou á Cidade de ma- 

dru- 



326 ÁSIA de Diogo de Couto 

drugada , e defembarcando logo , primeiro 
que foflè fentido , eentrando-a, tomou fcus 
moradores nas camas, edefcuidados de tal 
fobrefalto , em que fizeram grandes cruezas , 
não perdoando a fexo , nem a idade. To- 
dos os que puderam efcapar fe foram re- 
colhendo pêra o certao , com tanta prefla , 
que os pais deixavam os filhos , e mulheres , 
e ellas os tenros filhos , e crianças em feus 
braços , tratando de falvar cada hum fuás 
vidas. As cafas foram entradas dos noflòs , 
matando , e efpedaçando os que achavam ; 
e aífim foram correndo a Cidade como leões 
famintos até chegarem aos muros , onde a- 
cháram muita , e mui formofa artilheria , e 
algumas cafas cheias de munições. 

D. Jorge de Menezes tomou alli confe- 
lho fobre o que faria , e aflentou-fe » que 
>pela grandeza da Cidade fe não podia fuf- 
3> tentar com menos de feiscentos homens ; 
)> que fe arrebentaífe a artilheria , já que fe 
y> não podia embarcar ; e que fe recolheiTem 
:» primeiro , que houveffe algum defmancho.» 
D.Jorge de Menezes mandou embarcar al- 
gumas peças pequenas , e todas as mais man- 
dou carregar de pólvora até ás bocas , dei- 
xando por todo o muro grandes carreiras 
delia , e fahindo-fe dos murros lhe deram 
fogo 3 e chegando ás bombardas arrebenta- 
ram por eíles ares , com tamanho eftron- 

do, 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. VIL 327 

do , e braveza , que parecia fundir-fe o Mun- 
do. 

Feito iftè, embarcaram-fe osnoíTos che- 
ios de defpojos , pondo primeiro fogo á mor 
parte das cafas. Eftá efta Cidade fundada em 
hum alto , que quer imitar ao Caftello de 
Lisboa : fera do tamanho de Santarém , cer- 
cada toda á roda de muro de ladrilho, que 
fica cingindo o monte pelo pé, com muitos 
baluartes, e guaritas. Por íima delias fedef- 
cobre toda a Cidade da banda do mar , e 
fica como alevantada no ar. Todaellahe de 
formofas , e altas caiarias de dous , e três 
fobrados , tão cuílofas , e ricas , que havia 
muitas janellas de facadas pêra fóra comge- 
lofias , que affirmáram cuftarem dous , etres 
mil cruzados ; de formofas obras de mace- 
naria , com grades , e tornos de marfim , e 
páo preto , mui polido tudo , e com gran- 
des , e claras vidraças , e outras curioíida- 
des deftas. São as ruas tão eílreitas todas , 
que não podem por ellas pafiar dous ho- 
mens a cavallo juntos , ou ao menos pelas 
mais delias. Ha nefta Cidade officiaès mui 
primos de toda a forte de mecânica , prin- 
cipalmente tecelões das mais finas roupas , 
que fe fabem no Mundo , que são os bo- 
fetás de Baroche tão eftimados. 

Pofluia o Madre Maluco efta Cidade com 
outras Villas de redor, e mais de quinhen- 
tas 



328 ÁSIA de Diogo de Couto 

tas aldeãs. Suftentava finco, e féis mil ho- 
mens de cavallo , e muito grande cafa que 
tinha. D. Jorge de Menezes fe fahio pêra 
fora do rio muito a feu falvo , e defpedio 
logo hum catur , de que era Capitão hum 
Henrique Salgado , com cartas pêra o Go- 
vernador , e com algumas peças de artilhe- 
ria , que em Baroche tomou , deixando-fe el- 
le ficar na enceada fazendo guerra por to- 
dos aquelles portos. 

O Catur chegou a Goa em breves dias ; 
e efpalhando-fe as novas, foram muito fef- 
tejadas , e invejadas de todos , porque foi 
muito venturofo feito. Dalli por diante ficou 
D. Jorge de Menezes tomando aquelle mui- 
to honrado fobre appellido de Baroche , por- 
que foi muito conhecido de todos. 

Madre Maluco foi logo avifado da def- 
truição da fua Cidade ; e deixando tudo , acu- 
dio a ella com muita preíTa , achando-a to- 
da abrazada , eaíTolada. EIRey deCambaya 
fentio em eítremo aquellas coufas, e aflen- 
tou com feus Capitães de ir em peílba com 
todo o feu poder cercar a fortaleza de Dio , 
e não fe ir de fobre ella até de todo a def- 
truir, mandando logo fazer grandes prepa- 
ramentos , e chamamento de vaífallos por 
todos os feus Reynos. 

CA- 



Década VL Liv. IV. 329 

CAPITULO VIIL 

De como o Madune perfuadio a E/Rey âe 
Candea alevantar-fe contra os Portugue- 
ses : e do que aconteceo a António Mo- 
niz Barreto na jornada : e de como atra- 
'vejjòu toda a Ilha de Ceilão com as ar- 
mas nas mãos , pelejando com o poder da- 
quelle Rey. 

SAbendo o Madune de como EIRey de 
Candea tratava de fe fazer Chriftão , e 
que tinha mandado pedir ao Governador 
D. João de Caftro favor , e ajuda pêra ií- 
fo , receando que fofle aquillo meio de fua 
dcftruição, e que ficaíTe tendo todos aquel- 
les Reys por inimigos , tratou de atalhar a 
tudo , com mandar perfuadir a EIRey de 
Candea, que ienão íjzefle Chriftão; porque 
tanto que o foííe, lhe haviam osPortugue- 
zes de tomar o Reyno ; e que quando o 
elles não fizefíem , que feus próprios natu- 
raes haviam de tratar de o matar, por não 
ferem governados por homens de differen- 
te Lei. Os homens que o Madune mandou 
com efte negocio , tantas ccufas diíferam 
áquelleRey, e aílim lhe reprefentáram me* 
dos , que não fó o traftornáram de todo , 
mas ainda aíTentáram com elle de matarem 
todos os Portuguezes ; que hiam com An* 

tG- 



330 ÁSIA de Diogo de Couto 

tonio Moniz Barreto , do que já tinham avi- 
fo ; tratando-fe eíle negocio com tanto fe- 
gredo , que os Padres o não entenderam , 
nem alcançaram. 

António Moniz Barreto feguindo fua via- 
gem y até dobrar o cabo do Çamorim , e 
de longo da outra coíla , foi até paflar os 
baixos de Manar , aonde armou dous na- 
vios que alli achou , e os levou comfigo , 
e deo volta á Ilha pêra ir tomar o porto 
de Batecalou, aonde levava por regimento 
defembarcar , pêra dalli paflar ao Reyno de 
Candea 5 como levava por ordem do mef- 
mo Rey. Em Gale tomou mais alguns na- 
vios que alli achou , que ainda que tinha 
pouca gente , foi-lhe alllm neceíTario pêra fe 
efpalhar a fama pela terra , que levava mui- 
ta Armada. 

E chegando ao Porto deBatecalou com 
doze navios de remo , defembarcou em ter- 
ra , e mandou tirar alguns berços, e muni- 
ções , e efcolheo cento e vinte homens , por- 
que os mais deixou em guarda dos navios, 
e foi caminhando pêra Candea , guiado dos 
Embaixadores daquelle Rey , que foram a 
v Goa em companhia do Frade de S. Francif- 
co ; e aífim caminhou alguns dias até che- 
gar á Cidade de Candea ; e entrando já por 
ella , foi avifado da determinação daquelle 
Rey, e de como eílava concertado com o 

Ma- 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. VIII. 331 

Madune pêra o matar a elle, e a todos os 
da lua companhia ; e não ie foube de que 
parte fe Jhe deo o avifo. António Moniz 
Barreto vendo aquelle negocio , e que não 
foffria dilação alguma , tomou huma mui 
apreífada, e refoluta determinação, que foi 
mandar logo no mefmo inftante queimar 
todo o fato que comílgo levavam , fem dei- 
xar mais que o que tinham nos corpos, com 
hum pouco de bifcouto > e as armas , e dif- 
fe aos feus : 

» Bem vedes , valorofos foldados , e com- 
» panheiros meus , o apreffado avifo que nos 
» deram ; pêra o que he neceííario outra a- 
» preflada determinação pêra fegurarmos nof- 
» fas vidas ; e não fe me ofFereceo outra me- 
» lhor que efta , de nos pormos á ligeira , 
» e caminharmos com as armas nas mãos pe- 
» ra a parte de Triquinimalle , pêra dahi 
» nos paliarmos á Cota , onde temos Rey 
» amigo , porque pêra tornarmos pêra a Ar- 
» mada , receio tenhamos os caminhos to- 
» mados 5 e que todos nos feram inimigos ; 
» e pêra eíloutra parte temos hum Rey , que 
)> nos ha de recolher , e agazalhar mui bem ; 
» por iíTo lembro-vos , que a vida de cada 
» hum eftá na defensão de feus braços , e de 
» fuás mãos , ( deixando ás de Deos , que 
relias são as que nos hão de defender , e 
» livrar nefta jornada ,) por iíTo fegui-me : )> 

e 



33^ ÁSIA de Diogo de Couto 

e tomando a efpingarda ás coftas , começou 
a marchar pêra fora da Cidade. 

EIRey de Candea , que eftava diffimula- 
do , efperando por elles pêra depois de aga- 
salhados , e efpalhados lhe fazer a traição , 
tanto que teve recado da determinação de 
António Moniz Barreto , e do que fizera , 
bem entendeo que fora avilado ; e fufpei- 
tando que feria dos Frades, os mandou lo- 
go prender , e defpedio com muita prefla 
alguns Modiliares com muita gente, pêra 
irem apôs os noíTos , como fizeram ; e dan- 
do- fe prefla , os encontraram já huma boa 
diftancia fora da Cidade ; e commettendo-os 
com grande determinação por algumas par- 
tes, não deixou António Moniz Barreto feu 
caminho, no mefmo compaíTo que levava, 
pondo-fe elle na retaguarda pêra mor fegu- 
rança dos feus ; dando ordem pêra que a 
éfpingardaria foíTe laborando de feição , que 
nunca ceíTafle , pêra com iflo irem entreten- 
do os inimigos , como fizeram. E aílim fo- 
ram caminhando todo o dia com muito tra- 
balho , fem terem tempo de repoufarem hum 
momento , nem comerem , fenão maftigan- 
do o bifcouto fecco , e pelejando. Tanto que 
anoiteceo , tiveram mais algum fôlego , e fo- 
ram caminhando fempre , mas com menos 
trabalho ; porque ainda que os inimigos fem- 
pre os períeguíram x foi mais floxamente ; 

mas 



Dec. VI. Liv.JV. Cap. VIII. 333 

mas tanto que amanheceo , tornaram a aper- 
tar com grande determinação , porque recref- 
cêram tantos, que paliavam de oito mil. 

Os noífos vendo que lhes era neceííario 
defendera^ vidas , eque'nao podiam terfoc- 
corro de parte alguma , fizeram todos tão 
grandes coufas, que não ha cópia de pala- 
vras com que fe poíTam encarecer ; porque 
chegaram muitas vezes a andarem baralha- 
dos com os inimigos a braços , e todavia 
fempre elles ficaram efcalavrados , ficando- 
Ihes de huma vez nas mãos hum Modeiiar 
cativo , que António Moniz Barreto eftimou 
muito , e o mandou levar no meio a bom 
recado , pêra fe aproveitar delle quando lhe 
foíTe neceííario. 

Deite Modeiiar foube que os inimigos 
determinavam de apertar com elle em huma 
ponte queeftava adiante, aonde haviam que 
todos os noflbs lhes ficariam nas mãos , por 
fer o paíTò muito eftreito. Iíto não poz , nem 
cauíbu temor algum em António Moniz Bar- 
reto , nem em todos os mais , fomente em 
hum Gallego , que dando-lhe o medo da 
morte , defejando de falvar a vida , foi fa- 
zendo feus difcurfos , e aíTentou de fe en- 
tregar aos inimigos; e porque não podia fer 
de outra maneira, fez quecançava, deixan- 
do-fe cahir no chão como morto, dizendo 
que já não podia mais. António Moniz Bar- 
re- 



354 ÁSIA de Diqgo de Couto 

reto como não fó trabalhava por fe fahir 
dos inimigos , mas ainda por não perder 
hum fó homem , acudio alli esforçando ao 
GalJego com palavras brandas , dizendo-lhe 
que omór trabalho era já paífado , queDeos 
que os tinha livrado até então , o faria de 
tudo o mais que eftava por paliar. OGalle- 
go lhe diíTe , quejá não podia comligo , 
nem com as Armas , que o deixaífe alli mor- 
rer. António Moniz Barreto o fez alevan- 
tar, e lhe tomou aefpingarda, e a poz ás 
fuás próprias coitas , e afiim mefmo tudo o 
mais que o podia pejar, eometteo nomeio 
dos foldados , e o fez caminhar; m2s como 
elle levava já a morte reprelentada na ima- 
ginação , dando-lhe grandes accidentes , tor- 
nou a cahir no chão, fazendo-íè morto. An- 
tónio Moniz Barreto , que levava oolhonel- 
le , acudio logo pêra o levantar , o que el- 
íe não quiz , dizendo que o deixaífe , que 
não havia de paífar dalli. 

Entendendo António Moniz Barreto 
que aquillo eram melancolias de medo , dif- 
fe a hum foldado que lhe cortaíTe as pernas , 
ou o matafle logo , porque não queria que 
depois difleiTem os inimigos, que lhe toma- 
ram hum Portuguez. E querendo-lhe o fol- 
dado dar, faltou o Gallego tão vivo, eef- 
perto , como fe nunca tivera paííado traba- 
lho algum > e começou a caminhar em meio 

de 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. VIII. 33? 

de todos. Os inimigos nunca largaram os 
noflbs, e todavia de longe, porque a efpin- 
gardaria tinha feito nelles grande eftrago ; 
porque comoelles haviam que tinham o ne- 
gocio acabado ao paliar da ponte , não íè 
queriam arrifcar ; mas de longe varejavam 
os noflbs com nuvens de frechas , de que 
quafi todos hiam empenados. Defta maneira 
foram até á ponte , aonde apertaram com os 
noflbs rijamente ; e foi a coufa de feição, 
que fe viram perdidos. 

António Moniz Barreto fez aqui o of- 
ficio de muito experto Capitão , e de valo- 
rofo íbldado , obrando taes coufas por feu 
braço , e aflim mefmo todos os companhei- 
ros , que fe defazíram dos inimigos , que 
hiam já de miftura com elles. 

Aqui acudio outra apreflàda , eproveito- 
fa determinação a António Moniz Barreto, 
que foi mandar cortar as pernas ao Mode- 
liar, que levava cativo , que era peflba prin- 
cipal , e deitallo no caminho , pêra que os 
inimigos fe embaraçaíTem com eile , como 
fizeram ; porque indo perfeguindo os noflbs, 
deram com o Modeliar daqueJla feição , e 
detiveram-fe em o levantarem , eem o man- 
darem pêra fer curado. Neíle pequeno efpn- 
ço fe aproveitaram os noflbs do tempo , e 
do caminho , de feição , que chegaram á pon- 
te, ainda que perfeguidos de alguns. Antó- 
nio 



336 ÁSIA de Diogo de Couto 

nio Moniz Barreto tanto que a tomou , fc 
deixou ficar na retaguarda com os mais es- 
forçados , e mandando paliar os mais , fi- 
cando elles tendo o encontro aos inimigos 
com a eípingardaria , até paflarem poucos, 
e poucos ; e elles o foram fazendo com in- 
finitos trabalhos , franqueando também os que 
já eftavam da outra parte a paífagem com 
a arcabuzaria , que laborava fem ceifar. An- 
tónio Moniz Barreto , como foi da outra 
banda v mandou desfazer parte da ponte , 
por os inimigos o não feguirem , porque a- 
quelle rio era tão alto , que fe não podia va- 
dear por parte alguma. Com ifto ficaram os 
nolTos defaífombrados , e foram caminhan- 
do fem opprefsao até Triquinimalle \ e dal- 
li fe paíTáram a Ceitavaca , aonde aquelle 
Rey os recebeo , e agazalhou muito bem , 
raandando-lhes dar todo o neceífario. 

Agora engrandeça Tito Livio o feu De- 
cio , quando eílando cereado no monte Gau- 
ro dos Samnites , que com poucos Romanos 
fahio de noite por meio dos inimigos, fal- 
vando-fe com todos \ que pofto que nós não 
temos tanta cópia de palavras , nem tão elo- 
quente eílilo pêra realçar efte feito , elle por 
fi he tal , que contado aílím fem mais or- 
namento , moftra quanta mais vantagem faz 
ao feu Decio ; porque efte Capitão não fa- 
hio de noite perantre os inimigos, aonde a 

ef- 



bic. VI. Lm IV. Cap. VIIÍ. 337 

fefcuridadé delia fez parecer aos Samnites 
muito maior o exercito inimigo ; mas na 
força do dia , e por meio da Cidade do ini- 
migo , cercado de todas as partes , rompen- 
do por meio delles, Vendo* íe bem que não 
paliavam de cento e vinte, e não porefpa- 
ço de meia Jiora , mas por três dias contí- 
nuos , fem perder hum dos feus companhei^- 
ros. 

O Madune iíaâ práticas que teve com 
António Moniz Barreto lhe deo a enten- 
der , que feu irmão Rey da Cota induzira 
ão Rey de Candea , pêra que o mataííe com 
todos os Portuguezes ; e que elle havia de 
moílrar quanto mor fervidõr de EIRey de 
Portugal era , que todos os Reys daquellâ 
Ilha, offerecendo-fe-lhe pêra tudo o quê lliè 
cumprifle. António Moniz Barreto teve com 
<elle feus cumprimentos, e fe defpedio dei* 
le ; perfuadindo os Modeliares a EIRey » 
que o mataíTe com todos os Portuguezes , 
o que elle não quiz fazer pelo que lhe re- 
levava , e importava. António Moniz Bar* 
reto chegou a Columbo, aonde poucos dias 
depois chegaram Embaixadores de Candea , 
por quem aquelle Rey mandou dizer a An*- 
tonio Moniz Barreto , que eftava muito ar- 
rependido de tomar o confdho do Madu* 
Jie , que lhe fez fazer àquelle defatino ; e 
lhe mandou os berços aue lá ficaram, edez 
Couto.Tcm.UI.PJ. Y mil 



338 ÁSIA de Diogo de Couto 

mil pardáos em dinheiro pêra repartir corri 
os foidados. E efcfeveo aos Frades de São 
Francifco , que António Moniz Barreto le- 
vou coinfigo , que fe tornaíTem pêra elle , 
porque queria cumprir lua palavra" ,■ efazer- 
fe Chrifíão * o que António Moniz Barre- 
to não conferido até ir dar conta ao Gover- 
nador j e como foi tempo , fe embarcou pêra 
Goa. 

CAPITULO IX. 

De como o Jdalxâ mandou alguns Capitães 

fçbre as terras de Salfete : e de como 

D. Diogo de Almeida , Capitão de 

Goa , o foi bufe ar 7 e desbaratou. 

JÁ que temos concluído com as coufas 
defte verão , entraremos nas do Idalxá, 
que guardámos pêra eíle lugar depropoíito y 
por fer affim neceííario pêra a ordem da 
hiftoria. Na quinta Década Cap. XI. do Liv, 
IX. fica dito , como o Idalxá fe concertou 
com Martim AíFonfo de Soufa , fendo Go- 
vernador , que lhe daria as terras de Salfe- 
te , e Bardes , de que lhe logo fez entrega ; 
com condição , que mandaria Mealecan ou 
pêra Portugal, ou pêra Malaca, o que lhe 
jiãocumprio. E depois do Governador Dom 
João de Caftro eftar na índia, lhe mandou 
requerer por algumas vezes » que lhe cum- 

» prif- 



£>ec. VI- Liv. IV, Càp. IX. 339 

» priffe ofc contratos que eftavam feitos án- 
>> tre ellé ò e o Governador Martim AíFori* 
» fo de Soufa , com mandar Meakcan pêra 
» fora de Goa , ou lhe tornafle a fazer en- 
» trega das fuás terras » a que nunca o Gò* 
vernador lhe deferio. E vendo a pouca con- 
ta que fe com elle tinha neíie particular , ha- 
vendo por afFronta foffrer tanto , porque não 
fó não mandara Mealecan pêra fora , como 
eííava aflentado , mas ainda lhe tinha dado 
em Goa muito honrada caía 5 coufa que el- 
le fentia emeítretno, E vendo efte verão oc- 
Cupado o Governador na guerra de Cam- 
bayá , e cerco de Dio , defpedio alguns Ca- 
pitães com muita gente , que efte Janeiro paC- 
fado entraram pelas terras de Salfete , e Bar- 
des j e fem contradicção alguma fe fenhoreá- 
ram delias , e começaram a arrecadar feus 
foros , e rendimentos- D. Diogo de Almei- 
da Freire , que era Capitão de Goa , a quem 
logo chegaram eftas novas , praticando-as 
com o Bifpo , Regente , e mais do Confe- 
lho , â flentáram »que pois em Goa não ha- 
» via cabedal pêra fe acudir áquillo , por 
»fer todo ao foccorro de Dio , que fe pro- 
» veíTe a fortaleza de Rachol de gente , e 
» munições , e os rios de Goa de algumas 
» manchuas pêra fua guarda , até verem as 
3>couías de Dio em que paravam ; e que 
» vindo o Governador , proveria naquel- 
Y ii las 



34o ÁSIA de Diogo de Couto 

» las coufas de propofito;» e aífim fe fez j 
ficando as terras em poder dos inimigos. 

Depois do Governador D, João de CaP- 
tro chegar de Dio , e de prover nas coufas 
<le Malaca , e Maluco , começou a tratar 
deitas ; e pondo-as em confelho , fe alTentou , 
» que fe mandaííe acudir áquelle negocio com 
» cabedal , e que fe foííem bufcar os inimi- 
» gos aonde eítivefíèm j e que fe arrifeafle 
» tudo até os lançar fora , porque viífem que 
» todas as vezes que a ellas vieíTem ? os po- 
» deriam ir buícar. » Com ifto ordenou o Go- 
vernador , que paíTalTe a Salfete o Capitão 
da Cidade D. Diogo de Almeida , affinan- 
do-lhe oitocentos Portuguezes , em que en- 
travam cento e vinte de cavallo , Cidadãos 
de Goa , e mil Lafcarins da terra. O Gover- 
nador fe foi pôr em Agaçaim pêra dar or- 
dem áqueJla guerra , donde defpedio o Ca- 
pitão que fe poz da outra banda , e foi en- 
trando pelas terras até á Villa deMargão, 
fem achar quem Jhe reíiíliíle. Alli porefpias 
que trazia foube eftarem os inimigos nas al- 
deias deCocoly, e que feriam quatro milj 
com o que poz a fua gente em ordem , e 
paííou a ribeira á outra banda y e foi hum 
dia de madrugada marchando pêra onde el- 
leseítavam, levando diante alguns cavallos 
ligeiros , em que hiam defcubrindo o cam- 
po. 

Os 



Dec. VI. Liv. IV. Cap. IX. 341 

Os Mouros , que também traziam fuás ef* 
pias , foram avifados cie como o Capitão de 
Goa os liia bufcar ; e nao oufando ao efpe- 
rar , fe foram recolhendo pêra o certão , dei- 
xando todas aquellas terras livres , e defem- 
bargadas. Os noífos chegaram a Cocolv , que 
acharam defpejado com medo , e logo man- 
dou D. Diogo de Almeida pergoar feguros 
Reaes , pêra que livremente pudeílem vir 
grangear, e poíluir luas terras, e fazendas, 
acudindo a EIRey de Portugal com os fo- 
ros, pelos mefmos foraes dos Mouros. Com 
ifto acudiram todos os Gancares , e Pateis 
das aldeias , e foram dar de novo obediên- 
cia ao Capitão , que os recebeo bem , e os 
fegurou. Daqui defpedio fuás efpias , e fou- 
be por ellas , que os Mouros eram paffados 
pêra Pondá , do que avifou ao Governador , 
que lhe mandou fe recolhefle , e deixafle 
hum Tanadar nas terras com quinhentos 
piaes, como fez. 

Recolhido elle , mandou o Governador 
a Francifco de Mello Pereira , que tinha vin- 
do rico de Banda , que foíle eftar em Ra- 
chol com duzentos foldados Portuguezes pê- 
ra fegurança das aldeias ; e lhe deo titulo 
de Capitão mór das terras de Salfete , e mil 
pardáos de ordenado cada anno , pagos nos 
foros daquellas aldeias. Francifco de Mello 
Pereira fe paflou á outra banda , e de Mar- 

gão 



342 ÁSIA de Diogo de Couto 

gao pçra Rachol gaílou todo o inverno ^ 
quietando , e fegurando as terras , e arreca- 
dando os foros delias* O Idalxá tanto que 
foube da fugida do$ feus , e de como os nof- 
los ficavam lenhores das terras , fentio-o em 
eftremo ; e defpedio logo outro Capitão com 
mais quatro mil homens , pêra ir diante tor- 
nar a tomar as terras , em quanto elle ne- 
gociava mor exercito. Em companhia defte 
foi Gonçalo Vaz Coutinho, homem Fidal- 
go j que lá andava homiíiado por cafos gran- 
des , que hia por Capitão de huma compa- 
nhia , em que entravam alguns Portuguezes * 
que lá andavam arrenegados. Eftimava q 
Idalxá muito efte homem , por íèr esforça- 
do , e de grande animo , e aífim o moílrou 
bem lá antre os Mouros ; e tinha naquelíe 
Reyno rendas , e aldeias, Efla companhia 
partio da Corte de Vifapôr efte Julho em 
que andamos; e do que paliou, adiante da- 
remos razão , porque lie neceíTario que con- 
tinuemos çom ^ernaldim de Soufa , e com 
algumas coufas , que nçíle tçmpo. ílicççdê- 
ram em Malaca. 



DE- 



\ 



343 

DÉCADA SEXTA. 
LIVRO V. 

Da Hiftoria da índia. 

CAPITULO I. 

J)o que acontece o na jornada a Bernalâim 
de Soufa : e de como huma Armada dos 
Achens foi a Malaca : e de como Dom 
Francifco Deça fahio apôs ella , e do que 
lhe aconteceo. 

Artido Bernaldim de Soufa de Mala- 
ca , (aonde o deixámos,) corno fica 
dito no Cap f IV. do I. Liv. , foi na 
entrada de Dezembro paliado tomar a Ilha 
de Ternate, efurgio defronte da fortaleza, 
e Jogo fe embarcou em hum batel com feus 
criados, deixando EIRey na náo , e defen- 
dendo a todos os que com elle hiam , que 
não diffeííem que eílava elle nella. Chega- 
dos a terra , foi á fortaleza , e no caminho 

achou 



344 ÁSIA de Diogo de Couto 

achou Jordão de Freitas, que não tinha ain-* 
da recado de coufa alguma ; e vendo a Bei> 
naldim de Soufa , ficou íbbrefaltado , por-? 
que logo lhe pareceo que hum homem da- 
quella maneira não hia lá fenão a coufas 
grandes ; e depois de o receber , fe recolhe* 
ram pêra a fortaleza , aonde acudiram to- 
dos os offiçiaes, e aprefentou fuás Patentes y 
por cuja virtude tomou logo poífe da forta- 
leza. Os filhos de EIRey acudiram logo a 
ella , fem faberem do pai. Bernaldim de Sou- 
fa os recebeo bem, e IhesdiíTe, que o fof- 
fem defembarcar que eítaya na nao. Elíes 
como não fabiam coufa alguma , foi tão 
grande o feu alvoroço , que como doudoá 
íe foram á praia, e defembarcáram EIRey, 
a quem Bernaldim de Soufa foi elperar á 
praia com todo o povo, Defembarcado EI- 
Rey , foi recebido com muito alvoroço* c 
alegria de todos, levando os grilhões, com 
que foi prezo pêra a índia , alevantados no 
ar na mão direita , pêra que lhos viífem to- 
dos , e aílim ferecolheo pêra fua cafa. Da- 
Jii a três dias o mandou Bernaldim de Sou- 
fa chamar , e a todos os Regedores , e po- 
vo , que todos fe vieram pêra a fortaleza > 
aonde eftavam os offiçiaes; e como os teve 
todos juntos no terreiro delia , tendo já preA 
íes as coufas neceífarias pêra aquella cere- 
Hionia > fes novamente çntrega daquçJiç Rey-* 

no 



Dec. VI. Liv. V. Cap. I. 345: 

no a EIRey Aeiro , em nome de EIRey de 
Portugal , dando-lhe alli a polTe delle ; e os 
Regedores também lhe deram a obediência 
a íeu modo. De tudo ifto mandou Bernal- 
dim de Soufa fazer autos , e papeis aflina- 
dos por todos. Efte auto fe celebrou com 
muitas feftas de todo o povo , ficando EI- 
Rey Aeiro dalli em diante correndo com as 
obrigações do Rèyno. E porque no princi- 
pio do feu governo não houve coufa notá- 
vel , o deixaremos , porque he razão conti- 
nuemos com ascoufas, que neíle tempo íuc- 
cedêram em Malaca. 

EIRey de Viantana Soltão Alaudixá 
(que foi o que Pêro Maícarenhas deitou de 
Bintão , como na quarta Década Cap. III. 
do Liv. II. temos dito ) tendo alguns ag-> 
gravos de EIRey de Patane feu vizinho ; e 
havendo-fe por muito aíFrontado , e ofFen«> 
dido de elie por coufas que não são da ef- 
fencia de noíTa hiíloria 3 convocou os Reys 
de Perá , Pão , e outros vizinhos pêra o 
irem deftruir , formando todos humaArma-? 
da de trezentas velas , em que entravam ga- 
lés , lancharas , bantins, e outras embarca-^ 
coes , em que embarcaram oito mil homens. 
Eíla Armada fe ajuntou no rio de Jor. De 
tudo iílo foi avifado Simão de Mello , Ca-? 
pitão de Malaca , e com muita prefla def- 
pedio hum bantim muito ligeiro , por quem 

ef- 



346 ÁSIA de Diogo de Couto 

çfcreveo a Diogo Soares de Mello , que efe 
tava por Capitão no porto de Patane , em 
que o avifava daquella Armada , e lhe pe^ 
dia » que logo fe fofle pêra Malaca, enão 
)) fe quizefle achar naquella envolta , porque 
» como aquelles Reys eílavam amigos do Ef- 
)> tado , não era bem que fe achafle em Pa- 
» tane , porque então feria necelTario favore- 
» cer aqueile Rey contra eftoutros 5 pois ek 
» tava em fua terra , do que poderia reful- 
» tar algum grande efcandalo j porque de 
)) toda a maneira que fuccedefle , feria gran- 
» de defgoílo ; e desbaratando^fe os Reys da 
}> liga , haviam de lançar a culpa aos Portu- 
))guezes, que favoreceram o inimigo, eto- 
amariam dahi occaíião pêra darem traba- 
»lhos a Malaca. E fe o Rey de Patane foi-? 
)> fe vencido , não podia fer fem grande da-? 
» mno dos Portuguezes ; que eítava certo 
)> ferem os primeiros que o recebeífem , por* 
» que fobre elles havia de carregar todo o 
» pezo da guerra ; pelo que melhor feria ef- 
» cufar deigoílos , e recolher-fe a Malaca. » 
Efta carta deram a Diogo Soares de 
Mello ; e parecendo-lhe bem o confelho de 
Simão de Mello , defpedio logo alguns na- 
vios de Portuguezes , que eftavam alli pêra 
a China; e elle fe embarcou nas luas galeor 
tas com fetenta Portuguezes , em que entra- 
vam eíles Fidalgos : Manoel de Mello feu 

ir- 



Dec. VI. Liv. V. Gap. I. 347 

irmão , ( que era Capitão de huma das ga-* 
leotas , ) Ruy de Mello , hum foao de Sam? 
paio , Belchior de Siqueira , Balthazar Soa-? 
res de Mello , filho do mefmo Diogo Soa- 
res de Mello , e outros. E tomando o ca- 
minho de Malaca , tanto avante como os 
Jlheos deCalatão, (que eílam em féis gráos 
e meio da banda do Norte , perto de vinte 
e finco léguas de Patane , ) houveram vifta 
da Armada dos inimigos , que cubria o mar. 
E como aquelíes Reys eftavam todos amh 
gos do Eftado , pareceo-lhe a Diogo Soa- 
Tes de Mello que era obrigação vifitallos 3 
já que fe não podia defviar delles; e aflim 
foi demandar a galé de EIRey de Vianta^ 
na , e com muita confiança entrou dentro* 
EIRey , que já íabia quem elle era , o recebeo 
bem , fazendo-lhe grandes gazalhados. Dio-? 
go Soares de Mello teve com elle grandes 
cumprimentos; edefpedindo-fe logo dell.e , 
foi vifitar os outros Reys , que o agazalhá- 
ram honradamente. EiRey de Pão lhe deo 
huma carta pêra os feus Regedores , em que 
lhes mandava » que tomando Diogo Soares 
)) de Mello o feu porto , e querendo nelle 
» efperar a monção pêra Malaca , ( que ha- 
)> via de fer no fim deAgoíto,) o recolhei? 
» fem , e lhe déflfern todas as cpufas de que 
» tiveííe neceffidade. » E por virtude defta 
carta tomando aquelle porto , Ihedçrarn tu-? 

do 



348 ÁSIA de Diogo de Couto 

do o que pedio , defpejando os navios , e 
varando-os, porque fe haviam de deter mais 
de hum mez. 

Neíle tempo , que feria em Julho , fuo 
cedeo lançar o Rey de Achem huma Arma- 
da de vinte velas , em que entravam quatro 
galés muito formofas , de que era Capitão 
mór hum Mouro muito atrevido. Efta Ar- 
mada fe foi pôr no Eílreito de Sabão , aon- 
de fez algumas prezas em juncos, que hiam 
pêra Malaca ; e depois que por alli andou 
hum mez e meio , voltou pêra Malaca , aon- 
de chegou de noite. E chegando-fe bem á 
terra, vendo que não era fentido , defem- 
barcou da banda dos Chelins , pêra ver fe 
podia fazer alguma preza ; mas como tudo 
eftava fechado , não achou mais que huns 
patos , que ficaram de fóra a hum Chelim 
rico , e conhecido do Achem , e tomando-os, 
tornou-fe a embarcar. Todavia ifto não po- 
de fer tão encuberto , que não foííem fen^ 
tidos; e dando- fe rebate na fortaleza, acu- 
dio o Capitão Simão de Mello , que man- 
dou logo fahir fóra D. Francifco Deça feu 
cunhado com alguma gente , e achou a po^ 
voaçao dos Chelins toda alvoroçada , e po£ 
ta em armas ; e acudindo á praia , vio que 
os inimigos eram já embarcados , que fe hiam 
recolhendo muito ufanos com os patos que 
levavam ao Achem ^ de finai de como det- 
ém- 



Dec. VI. Liv. V. Cap. I. 349 

embarcaram em Malaca , e foram correndo 
a cofta de Perá , e Queda ás prezas. 

Simão de Mello mandou hum bantim li- 
geiro a efpiar efta Armada , e negociou com 
muita prefla alguns navios que havia no por- 
to , pêra mandar apôs elles. E andando nef- 
te trabalho, chegou á barra de Malaca Dio- 
go Soares de Mello com duas galeotas, o 
que Simão de Mello eftimou muito, porque 
com ellas fazia Armada baftante pêra ir buf- 
car os inimigos. Tinha já negociados dous 
caravelões de mercadores , de que eram Ca- 
pitães Diogo Pereira , que depois foi fogro 
de D. Pedro de Caftro; e Gemes Barreto, 
e féis fuítas , de que tinha feitos Capitães feu 
cunhado D. Francifco Deça , que havia de 
fer cabeça de toda a Armada, AfFonfo Gen- 
til , André Tofcano , João Soares , Belchior 
de Siqueira , e D. Manoel Deça , com alguns 
bantins, de que eram Capitães António de 
Lemos , Fernão de Alvares , e alguns Che- 
lins ; e as duas galeotas de Diogo Soares de 
Mello , em que elle hia , e feu irmão Ma- 
noel de Mello. 

Preftes a Armada , em que hia todo o 
cabedal de Malaca , a defpedio o Capitão , 
dando por regimento a D. Francifco Deça , 
que foííe apôs os inimigos ; e que paíTados 
dez dias , ( porque não levavam mantimen- 
tos pêra mais , ) fe tornaíTe a recolher ; en- 

com- 



3^o ÁSIA de Diogo de Couto 

commendando-lhe muito , que não fizefle 
eoufa alguma , fem confelho dè Diogo Soa* 
res de Mello* 

Efta Armada foi correndo a cofta de Pê- 
ra , .fem achar novas dos inimigos ; e paf- 
fando adiante, chegaram a Pulo Botum , que 
lie Ilha j entrando por antre ella , e a terra 
firme , e alli acharam novas que eftavam 
em Queda. E querendo D* Francifco Deça 
ir bufcar a Armada , houve reboliço na gen- 
te delia , dizendo os mais dos Capitães » que 
)) não haviam de paífar a Queda , que era 
j) longe, pofque fe lhespaílavam já os dias 
5) do provimento;» e affim fequizeram tor- 
nar alguns. D. Francifco Deça tratou de os 
quietar com brandura, mas não pode. A if- 
to acudio Diogo Soares de Mello , eftandò 
todos prefentes , e diífe eom paixão : » Que 
-» todo o que trata fle de deixar o feu Capi- 
» tão mói , que o havia de apregoar por 
;»Judeo> e covarde?; e que jurava a Deos y 
y> que o havia de matar , e que pêra iífo ha* 
)> via de tornar a Malaca apôs elles , por- 
» que por iflb lhe havia EIRey de fazer mui- 
» ta mercê , pois eram occaíião de fe não to- 
» mar huma Armada y que tinha feito tão 
» grande aíFronta áquella fortaleza , tendo-a 
» nas mãos 5 e em parte que lhe não podia 
)) eícapar. » Difto diffe tanto * que fez calar 
a iodos; e quietando-fe , foram feguindo o 

feu 



Déc. VI. Liv. V. Cap. I. tft 

feu Capitão mór. Chegados a Queda , do- 
ze léguas dePuloBotum, fouberam que as 
galés eftavam mais adiante oito léguas , em 
hum rio que íe chama Parles* Aqui houve 
nos da Armada outro reboliço , dizendo : 
» Que aquillo era já defatino , andarem de 
» rio em rio , » e quizeram*fe tornar alguns 
efeondidamente. Difto foi o Capitão mór avi- 
fado , e acudio a iflb com muita prudência , 
temperando-os , e affirmando-lhes , que fe 
os não achaflem em Parles , que fe torna- 
riam ; porque já que tinham chegado até ai-* 
li , não era razão que por mais oito léguas 
deixaffem de ir bufcar os inimigos , já que 
na jornada eftava mettido tão grande cabe- 
dal. E fazendo alli aguada , e negociando 
as armas á fua vontade , fe detiveram aquel- 
le dia , e a outro fe partiram. 

CAPITULO IL 

De corno a nojja Armada achou os inimi- 
gos no rio de Parles : e da vitoria que 
os nojfos alcançaram : e de como foi re- 
velado ao Padre Mefire Francifco Xavier 
da Companhia de Jefus > efiando pregan- 
do y e a denunciou logo a todos. 

PArtida a nolfa Armada do rio de Que- 
da , ao outro dia fobre a tarde chega- 
ram a Parles , onde furgíram da banda de 
fora. E alli fouberam de huma embarcação 

ef- 



3$z ÁSIA De Diogo de Còútô 

eítar a Armada dentro pelo rio aíUma , treà 
léguas junto daquella Cidade* O Capitão 
môr tomou confelho com todos os Capitães 
fobre o que faria naquelle negocio , e af- 
fentou-fe , que foíTem bufcar os inimigos i 
e pelejaíTem com elles , onde quer que eíti- 
veffem. Com aquella refolução eneommen- 
dou a Diogo Soares de Mello que fofle 
fondar a barra pêra ver fe podiam as cara- 
velas entrar por ella , promettendo-lhe a di- 
anteira daquelle negocio. Diogo Soares met> 
teo-fe logo em hum balão ligeiro com hum 
Piloto , e foi entrando a barra ; e fondando 
os canaes por todas as bandas , achou que 
poderiam as caravelas entrar defcarregadas ; 
e chegando a terra , mandou cortar grandes 
ramos de arvores , com que abalizou o ca- 
nal por onde haviam de entrar, porque por 
derredor eram bancos , e baixos. 

Feito ifto, e dada informação ao Capi- 
tão mor, mandou defcarregar as caravelas, 
repartiò o fato delias pelos navios, e á toa 
as metteo Diogo Soares dé Mello dentro , 
furtas da boca do rio pêra dentro junto da 
terra. Já fobre a tarde defpedío o Capitão 
mór hum João Soares com finco companhei- 
ros em huma almadía ligeira , pcra quefof* 
fe efpiar os inimigos , e notar a ordem em 
que as galés eftavam. João Soares foi pelo 
rio aíTima até defcubrir a povoação , e de- 
ram 



Dèo* VI. Liv. V. Cap, II. 35-3 

ram com huma almadía que andava tarra- 
fando ; e porque os não conhecelTem , por 
não darem avifo aos Achéns , tornaram a 
remar pêra traz fem virar, (porque a alma- 
día tinha dous lemes , ) e todavia não pu- 
deram fazer ifto tão apreííado , que os pes- 
cadores não enxergaífem os murrioes que le* 
vavam nas cabeças , e rehizião ao longe ^ 
notando que aquella gente era nova; E vi- 
rando pêra â povoação, deram conta ao Ca^ 
pitão mor das galés , daquillo que viram * 
e que lhes parecera gente defacoítumáda. O 
Mouro mandou logo algumas peflbasj que 
foífem a algum outeiro alto , donde deícu- 
brifTem a barra , pêra verem fe havia nella 
alguns navios. Eíles enxergaram fó os maf- 
tos , e gáveas das caravelas , e as fuftas não , 
por eftarem cozidas com a terra. Com eftas 
novas fe tornaram ao Mouro , Capitão mor 
da Armada , que 3ÍTentou que aquillo eram 
navios de mercadores j que hiarn fazer pi- 
menta ; com o que fe fegurou i e quietou * 
havendo-os por tomados ; e porque já era 
noite, fe deixou eílar pêra o outro dia os 
mandar bufcar. João Soares tornou com o rec- 
eado a D. Francifco Deça , dizendo-lhe » que 
» não pudera chegar a reconhecer bem as ga* 
j> lés por caufa da almadía que encontrou , 
» e qne por não Cer reconhecido fe tornara. )> 
Eíta noite pa (Taram es noííos em gran- 
Couto.Tom.IILP.1. Z de 



35*4 ÁSIA de Diogo de Couto 

de vigia com as armas nas mãos. Ao ou- 
tro dia , que foi Domingo féis de Dezem- 
bro , dia de S. Nicolao Bifpo , fe poz a noí- 
fa Armada em ordem j e levando ancora , fe 
foram pelo rio aílima a bufear os inimigos* 
Diogo Soares de Mello levava a dianteira , 
e as luas duas galeotas j e Belchior de Si- 
queira, ejoão Soares levavam á toa as ca- 
ra vel las de Diogo Pereira 1 e Gemes Barre- 
to. O Capitão mor dos Achéns também tan- 
to que arnanheceo, deípedio duas galés, e 
doze lancharas, pêra que lhe trouxeífem os 
navios que eílavam na barra; e vindo pelo 
rio abaixo , houveram os noííos vifta del- 
les. O Capitão mor D. Francifco Deça tan- 
to que os vio , defpedio quatro bantins y 
António de Lemos, Fernão de Alvares , e 
outros , pêra que foííem diante commetter 
os inimigos , a fim de elles defpararem nel- 
]es a primeira carga , porque por reíleiros 
lhes não podiam fazer damno , e terem os 
mais navios tempo de ferrarem delles. Os 
bantins foram com remo empunho deman- 
dar as galés, e atiráram-lhe algumas berça- 
das , e os inimigos de foífregos , alheios de 
mais confideração , difparáram toda a fua 
artilheria , que toda lhes foi por alto. 

Era iíio na volta de huma ponta que 
entrava no rio , que ficava encubrindo am- 
bas as Armadas ; a noíTa hia de longo da 

ter- 



Dêg. VI. Liv. V, Cap. IL 357 

terra , e em voltando a ponta , deram de rof- 
to com elles. E como os inimigos vinham 
já com a fua artilheria defcarregada , deo- 
ihes a noíía Armada htima formofa íalva , 
acertando hum camello , que fe atirou da 
caravela de Diogo Pereira em huma das ga- 
lés ; e tomándo-a hum pouco diante da proa , 
a foi varando de parte a parte, mettendo-a 
logo no fundo* Ecomo os noífos hiam avia- 
dos pêra ííma, e os inimigos vinham com 
a mefma fúria pêra baixo , não podendo vol- 
tar, inveílio-os logo Diogo Soares de Mel- 
lo , e ferrou da outra galé , e os mais na- 
vios cada hum do feu , começando-fe antre 
iodos huma muito cruel batalha , em que to- 
dos os noflbs moítráram bem o valor, e es- 
forço Portuguez. O Capitão mor afferrou 
de huma lanchara, que logo axorou , epaf- 
iòu adiante a favorecer os mais , que pele- 
javam muito valorofamente. 

Diogo Soares de Mello como levava 
hum navio muito poííante com fincoenta 
bons, e esforçados companheiros, tanto tra- 
balhou , que a poder de golpes fe lançou 
na galé inimiga acompanhado dos íeus , e 
dentro nella á efpada fe averiguou aquefle 
negocio , matando todos os inimigos . íem el- 
capar hum fó vivo ; e tomando a galé á toa , 
a trouxe comíigo. Os mais navios, qtie eíla- 
vam invertidos dosnoílbs, foram rendidos j 
Z ii e 



3^0 ÁSIA de Diogo de Coufo 

e finco delles mettidos no fundo ; e foi ã 
deítruição tão grande nos inimigos , que o 
rio fe tornou da cor do fangue. Acabou-fe 
de arrematar a vitoria ás nove horas do dia. 
E depois de tomarem alguma refeição , e 
a darem aos marinheiros , chamou o Capi- 
tão mor todos a confelho , e lhes diííe : )> Que 
» pois Deos lhes tinha feito mercês tão gran- 
» des , que o bom feria não arrefecerem , 
» nem deixar enxugar o fangue das efpadas , 
»e paflarenv avante a acabar de concluir 
» com aquella Armada , porque os inimigos 
» haviam de eftar medro fos , e que havia 
» pouco que fazer com elles. » Os cafados 
de Malaca difleram >; que deviam de fe con- 
sternar com a vitoria que tinham alcança- 
ndo ; que além dos inimigos eflarem bem 
-» caftigados de feu atrevimento, e oufadia -, 
» não era bem que foffem pelejar com a 
» mais Armada nas barbas do Rey da ter- 
» ra , que era amigo do Eftado , e Mouro 
» como os outros , e que forçado fe havia 
» de efcandalizar , e aífrontar daquelle ne- 
1) gocio ; que melhor era darem-lhe a enten- 
» der , que fe lhe tinha aquelle refpeito , 
» porque os noíTos navios cofiumavam ir ai- 
■» li todos os annos a fazer fuás fazendas.» 
Não pareceo illo mal ao Capitão mor , e 
ao outro dia mandou tirar os navios pêra fo- 
ra i e querendo-fe ir pêra Malaca , fe def- 

pe- 



Dec. VI. Liv. V. Cap. II. 357 

pédio delle Diogo Soares de Mello , porque; 
lhe era necelTario chegar a Pegú , e lhe pe- 
dio a galé dos Achéns , que elle rendeo , e 
a levou comíigo , e foi pêra Pegú , onde o 
deixaremos até que tornemos a contar as cou- 
fas que naquelle Rey no lhe aconteceram , 
que foram muito grandes. 

D. Franciíco Deça fe fez á vela pêra Ma- 
laca ; e em quanto não chega , daremos razão 
do-que fuccedeo naquella fortaleza. Atrás 
no I. Cap. do V. Liv. demos conta de co- 
mo o Rey de Viantana com outros amigos , 
e confederados ajuntaram huma grande Ar- 
mada contra o Rey dePatane; e depois que 
fizeram efte negocio , que foi concertarem- 
fe , tornaram a voltar pêra Jor. E fabendo 
como a noífa Armada era em bufca da do, 
Achem , e que Malaca ficava com pouca 
gente , como andava efpreitando todas as 
occaíiões pêra ver fe podia lançar mão de 
alguma em que tomaíTe aquella fortaleza , 
que fora dos Reys feus antepaííados , foi-fe 
com toda aquella Armada pôr no rio de 
Muar, féis léguas de Malaca; e dalli deí- 
pedio hum feu Capitão com huma carta a 
Simão de Mello , que eftava por Capitão da- 
quella fortaleza , em que lhe dizia : » Que 
» elle fora informado , que a Armada do 
)> Achem desbaratara a dos Portuguezes , de 
» que eílava muito anojado; que elle como 

» ami- 



358 ÁSIA de Diogo de Couto 

)> amigo , e irmão de EIRey de Portugal , 
» a cujas coufas mofírára feinpre ter grande 
»amor, não fe quizera recolher fem tomar 
» fatisfação dos Achéns *, que lhe pedia lhe 
» défle licença pêra furgir naquelle porto com 
» toda fua Armada , porque tinha por cer- 
» to , que os Achéns triunfadores da vitoria 
» dos Portuguçzes , pertendiam vir íbbre a-' 
» quella fortaleza , por lhe parecer que fe* 
» ria muito fácil tomalia. E que elle eftava 
y> preftes pêra arrifcar toda ília Armada , 
» Reyno , e ainda a vida pelo ferviço de EI- 
5) Rey de Portugal, epela defensão daquela 
» la fortaleza ; e que até não ter refpofta fua , 
» fe não bulliria daquelie lugar. » E avifou 
ao que levava as cartas, que notaífe a gen- 
te que havia jpa fortaleza y e o modo de co* 
mo eítava, 

Efta carta caufou em todos grande con- 
fusão ; mas o Capitão Simão de Mello com 
muita fegurança , aífím porque o Embaixa-» 
dor lha notaífe, como por curar asdefcon- 
fianças que havia nos roftos de muitos, lhe 
refpondeo com os mefmos cumprimentos , 
e offereciroentos , affirmando-lhe » que pêra 
)> o fervir contra feus inimigos tinha muita 
» gente, muitas armas, e muitas munições, 
» e fobre tudo vontade , e o amor que fem- 
y> pre tivera a fuás coufas, E que quanto ás 
» novas da Armada y que eram falias as que 

» lhe 



Dec. VL Liv. V. Cap. IL 35-9 

n lhe deram , porque elie tinha já recado , 
» que os feus desbarataram aos Achéns , e 
» que efperava por horas por toda a Arma- 
» da ; e que com ella o poderia ainda fer- 
» vir , le quizeíTe tornar contra feu inimi- 
)) go. Por onde podia efcufar o trabalho , 
» que lhe elle ferveria muito bem , e reco- 
»Jhcr-fe pêra feu porto. » E com iílo def- 
pedio o Embaixador , que deo novas a El- 
Rey do que vira , e da confiança que no- 
tou no Capitão, e da certeza que tinha de 
íua Armada ter vencida a dos inimigos, Eí- 
ta nova por animar a todos tinha elle man- 
dado efpalhar pela terra , com o que o Rey 
Malayo não bullio comíigo; mas deixou-fe 
ficar no rio de Muar vinte e três dias , que 
pareceram aos noflbs outros tantos annos ; 
porque com não terem certeza da Armada , 
e verem hum inimigo tão poderofo , lhe ti- 
nha tirado o fomno a todos ; e todavia o 
Capitão Simão de Mello proveo a fortale- 
za de guarda o melhor que pode , e lançou 
efpias fobre os inimigos de que cada dia era 
avifado. 

Eítavam todos neíle eílremo , e receio, 
que o Padre Meftre Franciíco Xavier traba- 
lhou por remediar com práticas mui elpiri- 
tuaes , e confolatorias, que muitas vezes fez 
em público • até que citando pregando o mef- 
mo Domingo cm que os noíTos. alcançaram 

a 



^6o ÁSIA de Diogo de Couto 

a vitoria , naquelle mefmo ponto que fe con-» 
cluio , fez huma extraordinária mudança no 
rofto ; e deixando o fio do Sermão, fiftou 
os olhos no Ceo hum pequeno efpaço , ç 
depois arrebentando num efpirito iuflamma- 
do , diííe : » Que deíTem graças a Deos nofc 
» fo Senhor , que acabara a noíla Armada, 
» de vencer a do Achem, » E aíTim deo re- 
lação da batalha , como feeítivera prefente a 
ella, porque particularizou os calos delia; 
com o que todo o auditório arrebentou em 
lagrimas, dando graças aoAltiílimo, e po- 
derofillimo Deos. E logo o mefmo dia á 
tarde fez na Ermida de noíía Senhora ou- 
tra prática efpiritual , em que tornou a de- 
clarar, e fallar mais particularmente na ba- 
talha , o que deo tal animo a todos , que 
já não havia triílezas , nem dçfconfianças. 
Poucos dias depois chegaram novas , que o 
Rey Malayo era recolhido , e depois a nofc 
fa Armada vitoriofa, com que a fortaleza fe 
desfazia em fçítas , e louvores de Dços noí- 
fo Senhor, 



CA- 



Década VI. Liv. V. -$6i 

CAPITULO III. 

De como o Idalxd mandou outros Capitães 
fobre as terras ãe Salfete : e do recado 
que o Governador D. João de Caflro teve 
de Dio : e das Armadas que ejie anno 
partiram do Reyno. 

X? Içou o Idalxá tão affrontado de lhe Ian- 
J? çarem os feus Capitães fora das fuás ter- 
ras , que determinou de entrar naquelle ne- 
gocio com todo o cabedal que pudeíTe. E 
depois que defpedio os Capitães , de que 
atrás falíamos no Cap. IX. do IV. Liv. , en- 
viou logo apôs elles outros com mais finco 
mil homens , e hum Capitão dos principaes 
do feu Rçyno fobre todos , com regimen- 
to , que logo fe tornaíTe a apoílar de fuás 
terras , o que elles fizeram , lançando outra 
vez mao delias , fem fazerem mal aos mo- 
radores , antes lhes deram liberdades , e lhes 
fizeram favores. Os noílbs fe recolheram na 
fortaleza de Rachol fem lhes poderem re«* 
liílir , por fer o poder grande. 

Tanto que o Governador teve recado , 
bem vio que lhe havia aquelle negocio de 
dar trabalho, e defpedio com muita preífa 
alguns navios pêra andarem nos rios , e em 
guarda daquella fortaleza ; e mandou Dom 
Diogo de Almeida , Capitão de Goa , com 

cea- 



362 ÁSIA de Diogo de Couto 

cento e vinte de cavallo , e trezentos de 
pé , e mil Lafcarins da terra , pêra ajun- 
tar a íi o mais cabedal , que trazia Francis- 
co de Mello Pereira , e pela banda de Ra- 
chol ir bufcar os inimigos, Efta gente foi 
toda por mar; e chegados a Rachol , aíTen- 
táram feu arraiai fora no campo , e dalli fi- 
zeram algumas entradas pelas terras até Maiv 
gao , tendo algumas cícaramuças com os ini- 
migos, fem nunca fe encontrar o poder jun- 
to ; e todavia os Mouros ficaram arrecadan- 
do os foros , e fenhoreando as terras, fem 
Os noííbs lho poderem defender, 

O Governador poz eíte negocio emcon- 
felho , porque tratava de paíTar em pelToa ; 
e aflentou-fe » que não podia por então fer , 
» porque era a força do inverno , e as ter- 
» ras eftavam alagadas , e intratáveis pêra os 
)> Portuguezes poderem andar porellas; que 
» fe efperaífe o verão , que viriam as náos 
» do Reyno com gente , e que então fe fí* 
» zefie aquelle negocio : que fe fegurafle Ra- 
» chol com gente , e fe recolheíle o Capi- 
» tão , porque não fazia mais , que gaitar o 
» tempo em vão , e fazer defpezas ; » no que 
logo o Governador proveo em tudo muito 
bem , mandando dar muita preíla á Arma- 
da , porque determinava de ir fora no ve- 
rão ; viíitando elle todos os dias a ribeira , 
e veado com os olhos os galeões y e os mais 

na- 



Dec. VL Liv. V. Cap. III. 363 

navios. E aos Domingos, e dias Santos fa- 
zia exercitar os bombardeiros , e os Tolda- 
dos no campo , em barreiras que pêra iíío 
tinha ; porque efte he o verdadeiro officio 
do Governador , e eíla era a razão , por que 
então os foldados fe prezavam das armas , 
e fe efmeravao em as trazerem limpas , e 
concertadas , e não empenhadas. E tanto fa- 
vorecia efte Governador os foldados que ti- 
nham boas armas , e fe prezavam delias , 
que paífando hum dia pela rua de nofla Se- 
nhora da Luz, poz os olhos em huma ca^ 
fa térrea , em que poufava hum foldado , 
que fe chamava Francifco Gonçalves , e vio- 
Ihe de fronte da porta hum cavide com al- 
gumas efpingardas , efpadas , e alabardas > 
mui limpo tudo , e concertado ; e tendo o 
quartáo em que hia , chegou-fe bem á por^ 
ta, e perguntou quem poufava alli? O fol- 
dado acudio de dentro á porta , e elle o fef- 
tejou muito , gabando-lhe as armas ; e man- 
dou que IhedéíTem logo trinta pardáos pê- 
ra azeite pêra as untar, ediíle-lhe, que co- 
mo fe lhe acabafle, pediíle mais azeite ', e 
o mefmo fez a outros muitos foldados , por- 
que naque!!e tempo folgavam os Governa- 
dores de fallar com elies , e de os favores 
cer , e honrar. 

Era já entrado o mez de Agoílo , e o 
Governador andava dando prefía ás coulas , 

por- 



364 ÁSIA de Diogo de Couto 

porque tinha muito que fazer aquelle verão. 
E fendo vinte e dous dias domez, chegou 
á barra de Goa hum catur , que vinha de 
Dio, de que era Capitão Francifco de Mo- 
raes , que trazia cartas de D. João Mafca- 
renhas , que o Governador vio , enellas lhe 
affirmava » que BIRey Soltão Mahamude ti- 
>j nha hum muito groífo poder , pêra com 
» elle vir em peífoa fobre aquella fortaleza ; 
)) que o bom feria acudir elle logo em prin- 
» cipio do verão, porque como lá o viíle , 
)> poderia fer fe retrahifle , e mudaíTè o pen- 
» famento. » O Governador com eftas novas 
defpedio logo recado á Cidade deCochim a 
pedir-lhe, que o quizeíTem ajudar nefta ne- 
çeílidade , que de novo fe lhe oíFerecia , com 
os mais navios , e gente que pudefle. O rnef- 
mç efcreveoáquelle Rey , pedindo-lhe dous 
mil Nayres , mandando ordem pêra fe lhe 
darem embarcações, e todo ornais neceíTa- 
rio. E defpedio o mefmo Francifco de Mo- 
raes , com cartas a D. João Mafcarenhas , 
em que lhe fazia a faber , que fe ficava fa- 
zendo preftes ; e que tanto que as náos do 
Reyno chegaííem , logo fe embarcaria. E 
efcreveo por elle ás Cidades de Chaul , e 
Baçaim , encommendando-lhes que eftivef- 
fem preftes pêra o acompanharem todos os 
que pudeíTem , porque folgaria de os achar 
iiegociados, por fe não deter, Eftas novas 

cor- 






Dec. VI. Liv. V. Cap. III. $6f 

correram logo pela Cidade de Goa; eajun- 
tando-fe os Vereadores em Camará , fizeram 
chamamento do povo , e lhe lembraram a 
neceffidade que de novo fe ofFerecia , e que 
era razão que não faltaflem a ella ; que fe- 
ria bom fazerem feus offerecimentos ao Go- 
vernador , pois elle era tal , que da outra 
vez lhe não quizera acceitar coufa alguma. 
E parecendo bem a todos , foram os Verea- 
dores ao Governador , e lhe fizeram feus 
cumprimentos , certificando-lhe que eftavam 
todos preftes pêra o fervirem com o amor , 
e vontade que fempre nelles achou. O Go- 
vernador lhes agradeceo aquillo com pala- 
vras muito honradas , e lhes pedio dez mil 
pardáos, que lhe elles logo negociaram. 

E paliando nefta matéria ainda mais adian- 
te, além do dinheiro que lhes pediram , hou- 
ve muitas mulheres de Cidadãos ricos , e 
honrados , que tomaram fuás jóias em co- 
fres , e bocetas , e as mandaram por fuás fi- 
lhas meninas aprefentar ao Governador , pe- 
dindo-lhe» que pois da outra vez que lhas 
» mandaram \ as não quiz gaftar , ou porque 
» não foíTe neceífario , ou por outra alguma 
)> razão , que pêra iíTo teria ; que eftimariam 
» muito fervir-le elle por então delias > pois 
» era pêra coufa ião importante , e necef- 
» faria. » Vendo o Governador aquella gran- 
de lealdade , amor , e liberalidade , ficou 

ad- 



%66 ÁSIA de Diogo de Couto 

admirado; e não tocando nas jóias , lhas tor- 
nou a mandar com palavras de grandes agra* 
decimemos , dizendo : » Que mais eftimava 
»aquelle amor , e vontade , que todos os 
)> thefouros da terra ; » e ás meninas , que le- 
vavam as jóias , deo peças de damaíco , e 
de outras fedas. E por aqui fe verá o amor , 
e gofto com que todos íerviam o feuRey, 
porque achavam nos feus Governadores ef* 
te primor , honra , e verdade* 

x\ndando o Governador dando preíía á 
Armada , mandando-a lançar ao mar , e pro- 
vella de mantimentos , munições , e de to- 
das as mais coufas neceíTarias , fendo dez 
dias de Setembro , chegaram á barra de Goa 
duas náos, de féis que partiram doReyno, 
fem trazerem Capitão mor , de que eram Ca- 
pitães Balthazar Lobo de Soufa , e Francif* 
co de Gouvea. Das quatro náos que falta- 
vam , eram Capitães D. Francifco de Lima , 
que trazia a Capitania de Goa , que vinha 
na náo S. Filippe , e Francifco da Cunha 
no Zambuco. Eftas duas náos partiram tar- 
de do Reyno , e chegaram a Goa a vinte 
e três de Setembro. Da outra náo , que era 
a Burgaleza , era Capitão Bernardo Nacer , 
que foi tarde tomar Sacotorá , onde inver- 
nou , e foi tomar Goa em Maio. Da outra 
náo que faltava , era Capitão D. Pedro da 
Silva da Gama , filjio do Conde Almiran- 
te , 



Dec. VI. Liv. V. Cap. III. 367 

te , que hia provido corn a fortaleza de Ma- 
laca , que por ruim navegação do feu Pilo- 
to fe foi perder nas Ilhas de Angoxa ; mas 
falvou-fe toda a gente , que fe paliou a Mo- 
çambique , e foi á índia repartida pelas ou- 
tras náos de Francifco de Gouvea , e Bal- 
thazar Lobo. 

Eíleanno mandou EIRey ao Governador 
» que logo lhe mandaffe fazer huma forta- 
» leza em Moçambique muito forte 3 e ca- 
» paz de recolher todos os moradores , por- 
» que fe receava de Rumes ; e que a fizeífe 
» na ponta de fobre a barra , aonde eílava 
» a Igreja de noíía Senhora do Baluarte ; 
» porque tratava de fegurar feus vaíTallos , 
» ainda que foíTe com defpezas de fua Fazen- 
» da , e commercio das Minas de Çofala , 
y> e Cuama , e também por fer a principal 
» efcala das náos do Reyno , aonde fe vão 
» refazer , e prover de tão longa viagem ; 
» e mettendo alli pé os Rumes , além de fer 
» perda notável , dariam grande opprefsao 
» a toda a índia. » 



CA- 



368 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO IV. 

De como o Governador D [João de Caflrd 
partio pêra Pondá , e tomou aquella for- 
taleza : e de hum Embaixador que o Rdú 
mandou ao Governador : e das pazes que 
com elle fe ajjentáram. 

CHegadas as náos do Reyrio , fe come- 
çou Jogo o Governador a fazer preftes 
pêra paliar , e bufcar os inimigos ás terras 
deSalfete; e fazendo alardo da gente Por- 
tugueza , achou três mil foldados , que re- 
partio em íinco bandeiras , de que deo as 
Capitanias a feu filho D* Álvaro deCaftro, 
e a D. Bernardo , e D. António de Noro- 
nha , filhos do Vifo-Rey D, Garcia de No- 
ronha , e a Manoel de Soufa de Sepúlveda, 
e a Vafco da Cunha ; e D. Diogo de Al- 
meida Freire ) Capitão da Cidade , levava 
duzentos de cavallo , em que entravam to- 
dos os moradores de Goa. Das Tanadarías 
vizinhas fe ajuntaram todos os piâes da ter- 
ra , que com os que eíiavam em Rachol , fa- 
riam número de mil e quinhentos. O Go- 
vernador mandou recado a Francifcp de Mel-* 
lo , que eftava em Rachol com trezentos ho- 
mens , e quinhentos piâes , que efliveííepref- 
tes , pêra como efle entralíe nas terras pela 
banda deAgaçaim, que partiíTe elle de Já 3 

e 



Dec. VI. Liv. V. Cap. IV. 369 

è fe ajunrafíem naVilla deMargao. Os ínU 
migos tiveram logo aviío dos preparameri- 
tos, que o Governador fazia peia es ir buf- 
car ; e tomando antre íi conielho , aíTentá- 
ram de não efperarem aquelle poder , e de 
fe pairarem á fortaleza de Pondá ,■ como fi- 
zeram , deixando as terras em poder dos 
Rendeiros. O Governador eíiando ultima* 
mente pêra fe pâíTar á outra banda , teve re- 
bate de como os Capitães do Idaixá eram 
recolhidos a Pondá ; e tomando parecer fo- 
bre o que faria , aíTentou-fe » que lá fe fof- 
» íèm bufear, e que os desbarataflem de to- 
ado, porque não convinha ao Governador 
» acudir ao Norte, deixando aqueiies Capi- 
» taes juntos tão perto; que em fe elle em- 
» barcando , logo fe haviam de tornar a 
» metter nas terras. » Com iílo fe foi o Go«* 
Ternador pôr em Beneílarim , donde corne» 
çáram a paíTar as bandeiras ; e como eílive- 
ram da Outra banda , dormiram alli aquella 
noite. Ao outro dia de madrugada paífou o 
Governador, e começou logo a marchar pê- 
ra Pondá; e chegando a huma ribeira, que 
eflá a meio caminho , acharam da outra ban- 
da huma companhia de dous mii homens , 
que os eíperavam pêra lhes defenderem a 
paííagem. D. Álvaro de Caftro , que levava 
a dianteira, tanto que chegou á ribeira , o 
começaram da outra banda a feftejar com a 
Couto. Tom. III. P. I. A a ar- 



^yo ASIÀ de Diogo de Couto 

arcabuzaria. Elle como levava boas efpias, 
o encaminharam pêra huma parte por onde 
começaram a paífar a váo , eom a agua por 
íima dogiolho, jogando também a fua es- 
pingardaria em roda viva. As mais bandei- 
ras também chegaram á ribeira , e foram to- 
das commetter a paíTagem por differentes 
váos. 

Dé Álvaro de Caílro fe poz da outra 
banda , aonde travou com os inimigos hu- 
ma boa efearamuça , em que os ncíTos aper- 
taram tanto com elles , que os arrancaram 
do campo, e fe foram recolhendo pêra Pon- 
dá. O Governador paífou a ribeira á outra 
banda , e foi marchando em muito boa or- 
dem , levando agente de cavallo pelas ilhar- 
gas do exercito ; e por todo aquelle cami- 
nho foram achando muitos eftrepes , em que 
alguns dos noííos fe encravaram , levando 
iempre os inimigos diante , jogando com 
lua efpingardaria ; e aflim foram até chega- 
rem á vifta da fortaleza. E da banda de fo- 
ra acharam todos os Capitães doldalxápof- 
tos em fom de batalha. 

O Governador mandou a feu filho, que 
rompetle nelles por huma parte, e D. Dio* 
go de Almeida , Capitão de Goa , com to- 
da a gente de cavallo por outra ; e arran- 
cando elles com grande fúria , appellidando 
o Apoftolo Sant-Iago , aos primeiros gol- 
pes 



Dec. VI. Liv. V. Cap, IV. 371 

pes viraram os inimigos as coitas , e foram 
fugindo j não pêra a fortaleza , mas pêra o 
certao , porque fe não atreveram a defen- 
delia. D. Álvaro de Caftro chegou a eila , 
e da banda de fora efperou o Governador > 
que lhe mandou que entrafle dentro, como 
fez, fem achar peííoa viva, nem fato i mais 
que algumas coufas de pouca importância i 
por onde pareceo que tinham já os inimi- 
gos recolhido tudo , com tenção de larga- 
rem a fortaleza. 

O Governador tomou parecer fobré o 
que faria naquelle negocio ; e aífentou-fe 
» que fe recolheíTem fem tocar na fortaleza j 
yi nem derriballa ; porque viíTe o Idalxá o 
)> pouco caio que delia fazia , porque todas 
» as vezes que a quizeííem tomar, o podia fa- 
» zer. » O Governador tornou a voltar pê- 
ra Goa , aonde chegou aquelle dia , tratan- 
do logo de fe embarcar ; è eftahdo pêra o 
fazer, chegou hum Embaixador de ElRey 
de Cariará , mui grandemente acompanhado. 
Reinava então naquelle Reyno Cidoça Ráo i 
que andava havia muitos annos em grandes 
guerras com ò Idalxá. Eííe fabendo as dif- 
ferenças que havia antre eííe , e o Gover- 
nador , defejando de fe confederar com os 
Portuguezes , pêra juntamente comelles lhe 
fazer guerra ,. e o deílruir de todo , defpe- 
dio eíic Embaixador, que era hum dos prin- 
Aa ii ci- 



372 ÁSIA de Diogo de Couto 

cipaes Capitães do feu Rcyno , e dos mais 
chegados de fua cafa. 

Sabendo o Governador da fua chegada y 
lhe mandou ordenar grande recebimento * 
como fe lhe fez , e o recebeo em fala com 
grande apparato ; e depois de pafladas as 
palavras da viíiração , lhe deo as cartas de 
EIRey , e algumas jóias ricas > e curiofas $ 
que lhe mandava de prefente. O Governa*- 
dor como eftava de caminho 5 o ouvio lo- 
go ao outro dia , e o Embaixador lhe difc 
fe » que EIRey feu Senhor defejava mui- 
» to de ter paz , e amizades com elle Go- 
» vernador ; e que eftava preítes de fua par- 
» te pêra tudo o que foíTe jufío, ehoneíto; 
» porque fempre os Fveys feus antecelTores 
» correram em muita paz , e amizade com 
)> os Governadores paíTados. » O Governa- 
dor lherefpondeo » que eftimava muito que- 
» rer EíRey Cidoça Ráo íer amigo de El- 
» Rey de Portugal feu Senhor j que elle 
» efíava de caminho pêra fora , e por con- 
» cluir primeiro aquelle negocio , elle remet- 
» tia o affento das pazes ao Veador da Fa- 
» zenda , e Secretario , e que fe ajuntaífe lo- 
» go com elles , e as concluilTem , porque 
» elle defejava muito de fervir EIRey de Ca-* 
» nará em tudo. » O Embaixador folgou com 
aqueiia refoluçao ; e ajuntando-fe os Offi* 
ciaes aíTima nomeados com elíe > dando huns , 

e 



Dec. VI. Liv. V. Ca?. IV. 373 

e outros Teus apontamentos, vieram a con- 
cluir os Capitulos íeguintes : 

» Que EIRey de Portugal , e o de Ca- 
» nará leriam amigos de amigos , e inimigos 
» de inimigos ; e que fendo neceífario , fe aju- 
» daria hum ao outro com todas as forças , 
)) e pocler que tiveííem contra todos os Reys 
» da índia , tirando o Zamaluco. 

» Que lhe deixariam tirar da Cidade de 
» Goa todos os cavallos que a cila vieíTetn 
» de Períia , e de Arábia , e que nenhum paf- 
» faria ao Idalxá , nem a porto feu : e que 
»elle EIRey deCanará feria obrigado a fa* 
» zer comprar todos os que fe Ievafíem a 
» feus portos , e faria dar breve defpacho aos 
» mercadores que com elles foííem. 

»Que EIRey deCanará náo confenti- 
» ria que mantimento algum , de qualquer for- 
» te que foíTe , íabiíle de porto algum feu 
» pêra os Reynos do Idalxá ; e que todos 
» fe ajuntariam em Onor , eBarcaior, aon- 
» de EIRey de Portugal teria Feitores pêra 
» os comprarem todos : e que os Governa- 
» dores da índia feriam obrigados a manda- 
» rem lá os mercadores Portuguezes aos com- 
» prar. E que pela mefma maneira ElPvey 
)) de Canará defenderia , que de nenhum por- 
)> to feu, nem lugar do certao, paífaffe pe- 
)) ra o Reyno do Idalxá ferro , nem falitre ; 
)) e que os mercadores dos lçus Reynos lc~ 

í> va- 



374 ÁSIA de Diogo de Couto 

» variam eftas fazendas aos portos marítimos 
>> do Reyno de Canará , onde os Governa- 
» dores da índia os mandariam comprar lo- 
» go , porque os donos não recebelTem perda, 

)> Que rodas as roupas do Reyno de Ca- 
>) nará não iriam a algum dos portos do Idal- 
» xá , mas que iriam a Ancoiá , e a Onor; 
» e que pela mefma maneira obrigariam os 
>) Governadores aos mercadores Portuguezes 
» a que as fofíem lá comprar > e lhes leva- 
)> riam cobre , coral , vermelhão , azougue , 
$ fedas da China , e todas as mais mercado- 
» rias que vinham do Reyno ; e que clle lè 
>> obrigava a lhas fazer comprar. 

» Que vindo alguma Armada de Turcos 
» á índia, ou qualquer navio feu particular , 
3> que elle Rey de Canará os não agazalha- 
» ria em porto algum dos léus ; e todos os 
» Turcos que nelles vieííem , os mandaria 
aprender, e prezos os enviaria ao Governa- 
)) dor da índia , que pelo tempo foííe. 

» Que concertando-fe EIRey de Canará 
» com o Governador da índia, pêra ambos 
» fazerem guerra ao Idalxá , que em tal ca- 
» ío todas as terras que fe tomaífem feriam 
>) do Rey de Canará , excepto as que jazem 
y> do Gate pêra baixo , defde Banda até o rio 
>) de Çintacorá , porque todas eíías por an- 
» tiguidade pertencem ao fenhorío , e jurií- 
)) dicção da Cidade de Goa 7 e que eílas fi- 

» ca- 



Dec. VI. Liv. V, Cap. IV. 375- 

» cariam pêra todo fempre da Coroa de Por- 
» tugal. » 

ESies contratos , que foram efcritos pelo 
Secretario Coime Armes , íè juraram logo 
pelo Governador , e pelo Embaixador de 
Canará , com as folemnidades coftumadas , 
e logo fe pregoaram por toda a Cidade de 
Goa com grandes feitas. Feito tudo ifío , 
defpedio o Governador o Embaixador , man- 
dando por elle a EIRey hum muito rico 
prefente de cavallos formofos , peças de ef- 
carlatas , e de veludos de cores j e deo ouv- 
iras ao Embaixador , com que fe foi mui- 
to fatisfeito. O Governador fe começou a 
embarcar; e em quanto o fez 5 nos pareceo 
bem darmos razão do fundamento defle Rey- 
no de Canará , e de todos os feus Reys por 
fer coufa muito curiofa , e que até hoje nin- 
guém efereveo, 

CAPITULO V. 

Do fundamento ãefte Reyno Canará , e oru 

gem de feus Reys com todos os que até 

hoje reinaram : e donde nafceo eh a- 

marem a efe Reyno de Bifnagã , 

e de Narfnga. 

ESte Reyno de Canará , fegundo fuás 
eferituras , teve principio quafi nos an- 
nos de mil duzentos e vinte de noíía P\e- 

dem- 



37^ ÁSIA de Diogo de Gouto 

ilempção. O feu próprio nome he Charná 
Thacá, que de corrupção em corrupção íç 
veio a chamar Cariará. E porque , como já 
muitas vezes remos dito , todos eítes Gen- 
tios do* Oriente fabulao mil patranhas , pêra 
virem dar hum honrofo principio a kiis 
Reys , aífim eftes o fazem , e contam mui- 
tos desbarates. 

E continuando ao pé da letra com fuás 
eferituras , affirmam que todos eíles Reynos , 
antre o Indo , e Gange , foram povoados 
de diverfas cartas de Gentios , repartidos em 
muitos Senhorios, e Reynos , com eite ti- 
tulo de a Ayas , que eram como Juizes, e 
cabeças de Tribus , debaixo de cujo gover- 
no vigeram muitas centenas de annos em 
mui grande liberdade , fem conhecerem Rey* , 
Imperador, nem até os annos aílima ditos ; 
e que naquella parte aonde .depois fe fun- 
dou a formofa , e rica Cidade de Bifnagá 
(como logo diremos) fe levantou hum Brag- 
mane de vida fama, e religiofa antre ellçs, 
e lhes começou a pregar, edar leis, e cof- 
íurnes novos. Deite affirmavam que nao co- 
mia mais que huma vez na femana , e ain- 
da eíía hum pouco de leite, que lhe coíiu- 
mava a levar hum pâílor daqueiles campos, 
que bio ao mato aonde fe elle apofentava , 
e aonde muitas vezes o achava enlevado cm 
contemplação. Tanto continuou efle paílpr 

ifto, 



Dec. VI. Liv. V. Cap. V. 377 

ífto , que nunca lhe faltou com o feu ordi* 
nario ferviço , aquelle dia determinado. E 
lium delles o achou em hum grande extafe , 
e arrebatamento , que lhe durou grande ef- 
paço. E tornando em íi, achou o paftor apar 
de íi com a reção do leite ; e pondo-lhe a 
mão na cabeça , o benzeo , dizendo-lhe : » Tu 
» feras Rey , e Imperador de todo eíle In- 
x> duftao , eeuo pedirei a Deos. » 

lílo fe foube logo antre os paftores , e 
começaram a tratar aquelle com difFerente 
veneração , e o fizeram cabeça de todos. El* 
le como era fagaz , e aftuto , ajuntando hum 
grande exercito delles , fe fez jurar por Rey , 
e fahio a conquiftar aquelles Rayas , e feus 
Eftados, que eftavam já reduzidos a finco; 
porque fazendo a cubica feu officio , os que 
mais puderam , lançaram mão dos Eítados 
dos outros i e affim tinham conftituidos fin- 
co Reynos mui profperos , e grandes , que 
eram os do Canará , Taligás , Canguiva- 
rao , Negapatao , e o dos Badagás. E af- 
fim o favoreceo afortuna, que fe fenhoreou 
de todos eftes Reynos , e Eítados. E ven- 
do- fe tão grande Senhor, fe intitulou Boca 
Ráo , que quer dizer Imperador. Sabendo 
hum Rey do Dely como aquelle paftor fe 
tinha alevantado com tantos Reynos , o foi 
bufcar com muito grande exercito , e jun- 
tos ambos em huns campos, que fe chama- 
vam 



378 ÁSIA de Diogo de Couto 

vam Quis Queda , vieram a batalha , em que 
o Rey do Dely foi desbaratado ; e em me* 
moria daquella vitoria fundou o Boca Ráo , 
no meímo lugar em que a batalha fe deo, 
huma formofiffima Cidade , a que poz no- 
me Vifajá Nager , que quer dizer , Cidade 
de vitoria , a que nós corruptamente chama- 
mos Bifnagá, e ainda damos delia o nome 
a todo o Reyno , não fe chamando antre os 
naturaes fenão o Reyno de Canará, 

Efte Boca Ráo , tendo reinado vinte e 
finco annos , entregou o Reyno a hum filho 
feu , chamado Harcará Rayo, e elle fe re? 
colheo a acabar em vida folitaria , no mef- 
nio lugar em que aquelle Bragmane fanto 
viveo. O filho que lhe fuccedeo foi homem 
valorofo , e conquiftou muita parte dos Rey- 
nos do Decan ; e depois de reinar quaren- 
ta annos faleceo , deixando por herdeiro hum 
filho, chamado Dava Rayo , que conquiftou 
todos os Rey nos doBalagate, e reinou vin- 
te annos. Por fua morte lhe fuccedeo no 
Reyno feu filho Vifia Ráo , que foi valoro- 
fo , e muito rico de thefouro , teve grandes 
guerras com o Rey do Dely , que era Mou- 
ro , com quem confinava da parte do Norte; 
e em huma batalha que ambos tiveram, foi 
efte Vifia Ráo morto , tendo reinado vinte 
annos. Succedeo-lhe nos Eftados feu filho 
Diva Ráo 3 que foi vingar. a morte dopai, 

e 



Dec. VI. Liv. V. Cap. V. 379 

e conquiftou os Reynos do Dely , e man- 
dou, e reinou dez annos, ficando- lhe dous 
filhos meninos , a que não foubemos os no- 
mes, que ambos reinaram , iium doze ân- 
uos, e outro dezefeis, E em tempo do pri- 
meiro irmão , que ficou menino em poder 
de tutores , tornáram-fe-lhe a rebellar os 
Reynos do Dely , e Mandou , e aquelie Rey 
(que era Xano Saradim , como João de Bar- 
ros lhe chama, e aseícrituras Canarás , Ta* 
galaca , como já na quinta Década temos di* 
to ) entrou pelos Reyijos do Decan , perto 
dos annos de mil trezentos e doze , com gran- 
des exércitos , e os conquiftou todos , dei- 
xando nelles hum fobrinho por Governador. 
O Rey do Canará ficou recolhido na Cida- 
de de Vifaya Nager , com todos os Reynos 
que poíTuíram feus primeiros fundadores , 
que são os finco que atrás ficam nomeados. 
Falecidos eftes dous irmãos , filhos de 
Diva Ráo, fem terem herdeiros, lhes fuc- 
cedeo no Reyno hum tio irmão de feu pai , 
chamado Narfinga , que foi muito valoro- 
fo. Efte não quiz tomar o titulo de Rão , 
quche de Imperador, nem o de Rayo , que 
he o de Rey, (como alguns dosReyspaf- 
fados fe intitularam , ) mas tomou o de Na i- 
que por mais humilde, que he tanto como 
dizer Capitão , ou Duque , e aífim fe ficou 
chamando Narfinga Naique. E porque efte 

vi- 



38c ÁSIA de Piogo de Couto 

viveo muitos annos , e foi valorofo , e fez 
fempre muitas guerras aos Mouros , foi muw 
to nomeado no Mundo ; e os Eftrangeiros 
Italianos , que antes dos Portuguezes vieram 
á índia por terra , como efte Reyno era o 
rnais rico de todos os do Oriente, e o Rey 
Naríinga grande favorecedor de Eílrangei- 
ros , e todos o continuavam mais > diziam 
cá na Europa , que vinham do Reyno de 
Naríinga , ou que hiam pêra o Reyno de 
Narfínga, dando a todo o Reyno o nome 
âo Rey ; e afíim o nomeam João de Bar- 
ros , e Damião de Góes , porque lhes não 
fouberam dizer a razão defte nome. 

Viveo efte Rey vinte annos , e fuccedeo- 
Ihe Crifna Ráo , que foi o mais valorofo 
Rey de todos > e tornou a conquiftar o Rey- 
jio do Dely , onde já reinava Soltão Ha- 
med , filho de Togalaca. E aos vinte e oir 
to annos do reinado deite Crifna Ráo fe 
levantou o grande Tamurlang, que foi pçr- 
to dos annos de Chrifto de mil trezentos e 
noventa e quatro , e teve com efte Crifna 
Ráo aquella afperiílima batalha , que conca 
Ruy Gonçalves de Clavijo no feu Itinerá- 
rio , quando foi por mandado de ElRey 
D. Henrique IV. ao Grão Tamurlão ( como 
já na quinta Década temos dado mais par- 
ticular razão. ) 

E porque efte Crifna Ráo levava no feu 

ex- 



Dec. VI. Liv. V. Cap. V. tft 

exercito grande número de Chriftãos , dos 
que fez o Apoftolo S. Thomé , que eram 
feus vafíallos , houve Ruy Gonçalves de Cia- 
vijo , que aquelle Rey era Chriítão ; e aílini 
o affirma no feu Itinerário. Reinou eíte Crif- 
na Ráo trinta annos. Succedeo-lhe Rama 
Ráo , que reinou feíTenta e dous , e já em 
feu tempo o Decan era todo poíluido de 
Mouros. Por fua morte herdou o Reyno 
Marfanay Ráo , e fuccedeo-lhe feu filho Crit 
na Ráo , que teve grandes guerras com o 
Idalxá , porque em feu tempo fe alevantá- 
ram aquelles Capitães com os Reynos de 
Decan ( como na quinta Década diffemos. ) 
E o Idalxá lhe tomou as fortalezas de Ra- 
chol , e Mundager , que eram os eílremos 
de feus Reynos. Reinou eíle vinte e íinco 
annos , e em feu tempo defcubrio aquelle 
valorofo Capitão Vafco da Gama a índia. 
Efegundo Fernão Lopes de Caftanheda , ef- 
te foi o que mandou oíferecer as terras de 
Salfete , e Bardes a Ruy de Mello , Capi- 
tão de Goa , fendo o Governador Diogo 
Lopes de Siqueira no Eftreito de Meca; mas 
João de Barros diz , que no desbarato do 
Idalxá, depois que eíle Crifna.Ráo lhe deo 
batalha , e tornou a ganhar as fuás fortaie- 
2as , que lançaram mão das terras de Salfe- 
te , e Bardes huns Gentios , de alcunha os 
Gijs, que efíavam em poder de hum Mou- 
ro, 



382 ÁSIA dé Diogo de Couto 

ro vaíTalio doldalxá, e que efte vendo que 
os Gentios fe levantaram contra elle, man- 
dáram recado a Ruy de Mello , Capitão de 
Goa , que foífe tomar poíTe daquellas terras 5 
como fez ; mas como quer que foífe , ellas 
foram dadas a EIRey de Portugal. 

Por morte de Crifna Ráo luccedeo feu 
filho Trimal Ráo , que ficou continuando a 
guerra com o Idalxá. Efte faleceo depois de 
reinar dezefeis annos , iem deixar herdeiro , 
e fuccedeo-lhe hum tio feu , chamado Uche 
Tima Ráo , que era hum doudo 5 como o 
nome o declara , porque Uche em língua 
Canará quer dizer doudo > e Tima era o 
feu nome próprio. Efte fez tantos defatinos , 
e tantas deftruições nos Reynos , e thefou- 
ros , que não o podendo foffrer os povos, o 
mataram r tendo reinado três annos ; e ale- 
vantáram por Rey hum fobrinho de Crifna 
Ráo , filho de feu irmão , chamado Achita 
Ráo , que reinou quinze annos , e faleceo 
fem herdeiro. Os Grandes alevantáram por 
Rey hum menino de pouco mais de treze 
annos , chamado Cidoça Ráo , que era ne- 
to de Crifna Ráo, e heefte, em cujo nome 
vieram os Embaixadores do Capitulo atrás 
ao Governador D. João de Caftro. 

Tanto que efte moço foi jurado por Rey , 
acudio á Cidade de Bifnagá Rama Rayo > 
que era cafado com huma filha de EIRey 

Críf- 



Dec. VI. Liy. V. Cap. V. 383 

Crifna Rao , e Capitão geral de feu Rey- 
no , que eftava governando aquella parte dos 
Badaguas , e Taligas \ e como era muito po- 
deroio , e grande Capitão , metteo-fe na Cor- 
te , e lançou mão doRe^ moço, e o met- 
teo em huma torre fortiííima , com grandes 
vigias , e portas de ferro , aonde o teve em 
quanto viveo, como huma eftatua , com o 
nome íb deRey; mas com todas as defpe- 
zas , gaftos , e apparatos que pudera ter , fe 
fora , e eftivera livre. Tinha efte Rama Rayo 
outros dous irmãos , antre quem repartio o 
governo do Reyno ; convém a faber , Atri- 
malRayo, a quem deo tudo o que perten- 
cia á Juftiça ; a Vingata Rayo tudo o da Fa- 
zenda , ficando elle fó com o cargo de Ca- 
pitão geral , e Governador de todo o Rey- 
no. E pêra encubrirem fua tyrannia , hiam 
todos três hum dia no anno á torre aonde 
eftava oRey, e fe lhe profira vam pelo chão , 
fazendo-lhe fua veneração como vaífallos , 
e cativos , fendo-o na verdade o Rey del- 
ks. Efte Rama Rayo foi grande Capitão, 
efez grandes guerras a todos os Reys Mou- 
ros do Decan , como pelo difcurfo da hif- 
toria com o favor Divino contaremos. E 
defta maneira fica bem clara , e entendida a 
origem , e principio defte Reyno , de feus 
Reys , e tirada a confusão que havia em feus 
nomes. 

CA- 



384 ÁSIA dê Diogo de Couto 1 

CAPITULO VI. 

Da grande Armada com que o Governador 
Z). João de Cajtro partio pêra o Nor- 
te : e de como mandou feu filho D. Ál- 
varo de Cajlro a Surrate , e do que lhe 
aconteceo. 

DEfpedidos os Embaixadores do Rey 
do Canará , íè embarcou logo o Go- 
vernador em navios ligeiros , pondo- fe no 
mar com huma Armada de cento e fefíen- 
ta fufias , em que entravam algumas que já 
eram chegadas deCochim, com que íefez 
á vela. Os Capitães que nellas o acompa* 
nháram , foram , D. Álvaro de Caílro feu 6* 
lho, D. Roque Tello , D. Pedro da Silva 
da Gama , D. João de Abranches , D; Jor- 
ge Deça , D. Bernardo da Silva , Vafco da 
Cunha , D. Francifco de Lima , Francifco 
da Silva de Menezes , D. Jorge de Mene- 
zes Baroche , Manoel de Soufa de Sepúl- 
veda , Cide de Soufa , Duarte Pereira , Dio- 
go de Soufa , Garcia Rodrigues de Távo- 
ra , D. João deTaíde , D. João Lobo, Gaf- 
par de Miranda, D. Braz de Almeida, Jor- 
ge da Silva , D. Pedro de Almeida , Pêro 
de Taide Inferno , António Moniz Barre- 
to , Cofme Anes Secretario, Belchior Cor- 
rêa , Baílião Lopes Lobato , António de Sá 

o 



- Dec. VL Liv. V. Cap. VL $$? 

o Rume , Álvaro Serrão , D. António dè 
Noronha, Diogo Alvares Telles, António 
Henriques , Aleixos de Abreu ? António Dias, 
Balthazar Lopes da Coita i Damião de Sou- 
fa j Manoel de Sá , Fernão de Lima , A£* 
fonfo de Bonifácio, António Rabello , An- 
tonio Rodrigues , António Dias Pereira , Bel* 
chior Cardoíb 5 Cofme Fernandes , Nu- 
no Fernandes , Francifco Marques , Duar- 
te Dias , Diogo Gonçalves , Franeifco Al- 
vares , Francifco Varela , Luiz de Almei- 
da , Francifco de Brito , Gonçalo Gomes i 
Gregório de Vafconcellos , Gomes Vidal , 
Capitão da guarda do Governador , Antó- 
nio Peffoa , Veador da Fazenda da Arma- 
da , Gonçalo Falcão, Gonçalo de Vallada- 
res , Galaor de Barros, Gafpar Pires, João 
Fernardes de Vafconcellos , Fernão de Al- 
varez Cernache , João Soares , Ignacio Cou- 
tinho , João Cardofo , João Nunes Homem , 
João Lopes, Lopo de Faria, Manoel Pin- 
to , Lopo Soares , Manoel Pinheiro , Lopo 
Fernandes , Manoel AfFonfo , Marcos Fer- 
nandes , Nuno Gonçalves de Leão, Pêro de 
Cáceres , Pêro de Moura , Ruy Paes , Pe- 
dro AfFonfo , Pêro Preto , Luiz Lobato , Si- 
mão de Arede , Francifco da Cunha , Simão 
Bernardes, Thomé Branco, Patrão mor da 
ribeira , que hia no galeão S. João , carre- 
gado de mantimentos , e munições , Coge 
Couto.Tom.III.PJ. Bb Per- 



3SÓ ÁSIA dé Diogo de Couto 

Pcrcoli , Jingua. E os navios que vieram de 
Cochim , de que eram Capitães , Francifco 
de Siqueira, Vafco Nunes, Balthazar Dias 
.Nobre 5 Francifco de Siqueira o moço , Fran- 
cifco iernandcs o Moricale , que traziam 
quinhentos Nayres, que EIRey de Cochim 
mandava, e mais navios de Cochim , eCa- 
iianor, que chegaram, indo já o Governa- 
dor á vela , de que eram Capitães , Luiz da 
Veiga, Guilherme Pereira , Gomes Carva- 
lho , João Fernandes , Pedral vares , Lança- 
rote Gonçalves , Paulo de Pedrofa , Pedro 
Anes , Rodrigo Ribeiro , Simão Ferreira 9 
João de Magalhães , Cofme Brandão , e ou- 
tros muitos Fidalgos , e Cavaileiros , que 
nefta jornada foram em navios feus , a que 
não achámos os nomes. Com toda eíla fro- 
ta foi o Governador furgir na barra deBa- 
çaim , donde defpedio eipias a Cambaya f 
pêra faber da determinação de EIRey, Eef- 
creveo a D. João Mafcarenhas , como já fi- 
cava tão perto delle , pêra que o avifalte de 
todas as coufas. 

Eftando o Governador aqui dando defe 
pacho a muitas coufas, teve avifo que Ca- 
racen , Genro de Coge Çofar , eftava por 
Capirão de Surrate , e que tinha muito pou- 
ca gente , e tão defcuidado , que muito fa- 
cilmente fe podia tomar aquella fortaleza* 
O Governador como não dormia nefta ma- 
te- 



Dkc. VI. Lív. V. Cap. VI. 387 

teria, nem hia bufcar alvitres, nem fazen- 
das, defpedio logo feu filho D. Álvaro de 
Caílro com oitenta navios, dos melhores da 
Armada , dando-lhe por regimento , que to* 
maíTe de noite o rio deSurrate, e mandaf- 
fe em muito fegredo efpiar a fortaleza ; e 
achando que eílava com tão pouca gente , 
como lhe tinham dito , lhe déile hum aíTa!-* 
to , e a commerteííe , e levaííe nas mãos , 
porque elle hia logo apôs elle. D. Álvaro 
de Caílro deo á vela , e ao terceiro dia che- 
gou a Surrate ; e entrado de noite o rio $ 
iurgio no primeiro poço , e defpedio logo 
fete navios ligeiros , pêra que foííem até ha- 
ver vifta da fortaleza , e a reconheceílèm 
bem , e trabalhaífem por tomar alguma ef- 
pia , que lhes défle razão do eílado em que 
eila eílava. Eíles navios foram entrando o 
rio com o começo da enchente , e chega- 
ram até haverem vifta da fortaleza , donde 
lhes atiraram algumas bombardadas , porque 
foram fentidos ; e íem aguardarem mais , vol- 
taram pêra o Capitão mor, bradando Dom 
Jorge Baroche ( que era hum dos Capitães) 
» que nâo fe recolheífem fern verem de que , 
> porque as bombardadas não os comiam; » 
e todavia elles fe foram retrahindo. E corno 
já eram fentidos de todos , paífando por hu- 
ma efíancia , que eílava da banda da-ViIIa 
dos Abexins , lhes atiraram algumas bom- 
Bb ii bar- 



388 ÁSIA de Diogo de Couto 

bardadas ; e como elles hiam já defconfía- 
dos , chegando á falia , afientáram que déf- 
lem naquella eílancia , por fe não recolhe- 
rem fem fazerem alguma coufa. E arman- 
do-fe , puzeram as proas em terra , onde fal- 
taram com grande determinação ; e remet- 
tendo com as eítancias , as entraram a poder 
de golpes , matando alguns Mouros , que 
alli citavam em guarda de algumas peças de 
artilheria , que alli tinham pêra defenderem 
aquelie canal , que tomaram todas , e em- 
barcaram muito a feu falvo, e foram- fe re- 
colhendo com a vafante da maré. 

D. Álvaro de Caftro , depois de defpe- 
dir eftes fete navios , o fez logo a outros dous , 
de que eram Capitães Francifco da Silva de 
Menezes , e João Fernandes de Vaíconcel- 
los , pêra que foíTem ver fe podiam tomar 
alguma peffoa em terra, de quem fepudef- 
fem informar do que paliava na fortaleza. 
Eftes foram pelo rio aíTima com a mefma 
maré até hum Pagodinho , que eftá antes da 
Villa dos Abexins , que he hum poço, em 
que furgem as nács de Meca , e alli defem- 
barcáram em terra, mandando Francifco da 
Silva os marinheiros do feu navio com al- 
gumas vafilhas, pêra fazerem agua em hum 
tanque que eílava hum tiro de efpera pela 
terra dentro , ficando os Capitães com fua 
gente em terra pêra os favorecerem. Caracen , 

Ca- 



Dec. VI. Liv. V. Cap. VI. 389 

Capitão de Surrate , tanto que vio voltar os 
noíTos navios , e ouvio as bombardadas nas 
eftancias dos Abexins, deitou logo quinhen- 
tos homens , pêra que foiTem íoccorrer os 
feus, porque logo entendeo que pelejavam. 
Eftes quando chegaram , acharam já a el- 
tancia , e artilheria perdida; e paílando adi- 
ante, foram até o pagode , aonde os outros 
dous navios eílavam , iem faberem huns dos 
outros , fomente terem os noiYos rebate por 
alguns moços que andavam defviados , que 
appareciam Mouros. 

Francifco da Silva de Menezes ficou en- 
fadado, porque os feus marinheiros citavam 
fazendo aguada , e fe lhos mataffem , ficaria 
elle arrifeado a fe perder , ou ao menos o 
navio; e diífe a João Fernandes deVafcon- 
cellos , que elle havia de ir bufear os feus 
marinheiros , e arrifear-fe a tudo. João Fer- 
nandes lhe diíTe , que o acompanharia. E af- 
fim fe foram com fetenta foidados , que am- 
bos tinham , em que entravam trinta de ef- 
pingardas ; e póííos em muito boa ordem , 
foram demandar o tanque, e recolheram os 
marinheiros todos. E voltando pêra as fuf- 
tas por antre hum palmarinho, que alli ef- 
tava , acharam mais de duzentos Mouros 
mettidos nelle , que lhes tinham tomado o 
caminho das fuftas. Os noífos cerráram-fe 
em hum efquadrão , repartindo as efpingar- 

das 



390 ÁSIA de Diogo de Couto 

das pelas ilhargas ; e affim com muita de- 
terminação commettêram os inimigos, def- 
parando íua arcabuzaria. E paflando avan- 
te, os dividiram , rompendo por antre elles ; 
e naquella ordem fe foram recolhendo , e 
pelejando pêra todas as partes fem ceifar a 
arcabuzaria , com que derribaram muitos 
Mouros. Defta maneira chegaram aviltadas 
fuílas a tempo, que as íete defima vinham 
emparelhando com aquelle lugar. E vendo 
D. Jorge Baroche os dous navios furtos , e 
ouvindo a efpingardaria em terra , poz nel- 
]a a proa , e defembarcou com os léus foi- 
çados , e achou ainda os noffcs baralhados 
com os inimigos; e dando derefrefco nel- 
]es , os fizeram recolher , e com ifto todos fe 
embarcaram a feu falvo com poucos feridos , 
e com hum fó menos, quedos Mouros ma- 
taram, porque o acharam no palmarinho fu- 
bido em huma palmeira pêra lhe tirar os co- 
cos i e depois de morto o defpíram , e lhe 
acharam derredor da cinta hum corrião com 
duzentos Venezeanos , que não fiava fenao 
de íi , com que determinava de fe embarcar 
aquelle anno pêra oReyno. Embarcados os 
noííos , fe foram ao Capitão mor , aonde 
já eítavam os outros féis navios , que tinham 
dito a D. Álvaro deCaftro tantas carrancas 
da fortaleza de Surrate , que defiílio do ne- 
gocio j poílo que D.Jorge Baroche gritou, 

e 



Dec. VL Liv. V. Cap. VII. 391 

e bradou fobre iíTo , dizendo a D. Álvaro 
de Caíiro , que lhe roubavam fua honra. 
D. Álvaro deCaftro defpedio hum catur li- 
geiro ao Governador com novas de tudo 
o que era pa fiado , deixando-íe elle ficar fm> 
to nos canaes da barra. 

CAPITULO VII. 

Das coufas que o Governador D, João de 
Cafiro fez : e de como chegou a Surrai e , 
e pajjbu a Baroche , onde achou EIRey de 
Cambaya com hum poder of o exercito : e 
de como defemb arcou á fua vifla : e do 
mais que lhe aconteceo. 

O Governador depois de defpedir feu fi* 
lho D. Álvaro de Cafiro , ficou dando 
ordem , e defpachou a algumas coufas. E 
como além de fer muito Cavalleiro , era fon- 
farrão , e roncador , íabendo que andava 
gente de Cambaya naquella Cidade , que for- 
çado havia deefcrever lá novas, deitou fa- 
ma que havia de ir até á Cidade de Ama- 
dabi , e tomar EIRey ás mãos, e que o ha- 
via de efpetar , e aífar vivo. E mandou fa- 
zer na ferraria ( que elle muitas vezes vifi- 
tava) huns eípetos de ferro mui grandes , 
dizendo» que eram pêra afiar EIRey, e os 
)> feus Capkães. » E porque fobre iíto acon- 
teceo huma galantaria de hum íbldado com 

o 



3<?2 ÁSIA de Diogo de Couto 

o Governador , não deixaremos de a con- 
tar. 

Eítando o Governador hum dia na praia , 
onde eílava a ferraria vendo os eípetos , 
atraveiTou hum pouco affaftado hum Tolda- 
do, chamado Fauíto Serrão de Calvos , fi- 
lho de Vaíco Serrão , que foi Juiz do Ter- 
reiro do trigo de Lisboa. Hia efte foldado 
çm corpo , com fuás armas , como todos an- 
davam , e levava na cinta detrás huma ma- 
chadinha de Rume mui bem feita , que era 
coufa que coftumavam a trazer os foldados , 
porque lhes fervia , quando entravam em al- 
gum navio de inimigos, de cortar huma en- 
xarcea , huma driça , e huma amarra ; e além 
diíío fervia também de arrombar caixões , e 
fardos pêra tomarem fuás prezas. Ifto en- 
tranhava o Governador muito , e tinha má 
opinião do foldado que trazia eftas macha- 
dinhas ; porque dizia, que mais andava com 
o tento em roubar, que em pelejar. E co- 
mo elle conhecia efte Faufto Serrão do Pa- 
ço , aonde fervio EiRey limpamente , ven- 
do o paflar , chamou-o , e lhe difte : )) Se 
» quer vós fenhor foldado , pêra que trazeis 
» eíía machadinha ? » O outro entendcndo-o 3 
Jhe refpondeo : » Trago-a , Senhor , pêra ef- 
» quartejar EIRey de Cambaya , e feus Ca- 
» piíães , quando os voíía Senhoria mandar 
)) aífar neíles efpetos ># porque inteiros não o 

» po- 



Dec. VI. Liv. V. Cap. VIL 393 

$ poderáõ fazer bem. » O Governador lhe 
gabou muito a refpofta , e lhe difle 5 que 
folgava muito com aquillo. 

Acabados os negócios que o Governa- 
dor tinha pêra fazer , fe embarcou , e foi ter 
á barra de Surrate, aonde D. Álvaro feu fi- 
lho havia oito dias que eftava. E de huma 
efpia que D. Jorge Baroche tinha tomado de 
novo , foube como a fortaleza eftava foccor- 
rida de muita gente ; e não fe querendo de- 
ter alli , foi paífando adiante até á barra de 
Baroche , onde entrou , e mandou Francif- 
co de Siqueira , Capitão dos Nayres de EI- 
Rey de Cochim , que foíle fondar todo o 
rio, eefpiaíTe a fortaleza , e trabalhalíe por 
íaber do modo que eltava. Elle ofezaííim, 
e foi pelo rio aííima até perto da fortaleza , 
e vio nos campos delia (que são mui gran- 
des) aíTentado o exercito deElRey deCam- 
baya , em que havia mais de cento e fin- 
coenta mil homens , que tinha alli chegado 
aauelle dia em foccorro das fortalezas de 
Baroche , e Surrate , por lhe terem dado avi- 
fo , que o filho do Governador eftava fo- 
bre Surrate , e que elle ficava em Baçaim 
com grande poder pêra fe ir ajuntar com 
elle. O Siqueira tanto que íoube as novas 
pela gente de huma almadía que tomou , vol- 
tou pêra o Governador , e lhe diíle tudo o 
que vira. E como elle eftava já determina- 
do 



394 ÁSIA de Diogo de Couto 

do a entrar dentro , e haver vifta da forta- 
leza , dando-lhe a defconfiança , não queren- 
do que em algum tempo fe diíTeíTe que fe 
recolhera de medo de EIRey de Cambava , 
determinou de lhe dar viíla. E para iíío man- 
dou embandeirar toda a Armada, e pôr to- 
da a gQnto em armas ; e tanto que a en- 
chente começou , entrou pelo rio aííima com 
aquella multidão de fuftas , que o entulha- 
vam todo. E chegando á viíla da fortaleza, 
menos de meia légua delia , poz a proa em 
terra , e mandou defembarcar todo o po^ 
der , ordenando , e formando hum muito 
formofo efquadrao. Eftava EiRey de Cam«* 
baya á viíla do Governador pêra o certão , 
com o feu exercito em forma de lua , com 
oitenta peças de artilheria de campo na tef- 
ta delle, e diante delia lançou féis mil ho- 
mens pêra a encubrirem , porque fe os nof- 
íos o commettelTem , o foííem eftes levando 
até os metter na artilheria , com que elpe- 
rava de o desbaratar , como já o fizera o 
Turco Selym , quando nos campos Calde- 
ranes desbaratou o Xeque Ifmael. 

Eftavam antre o noíío exercito , eo de 
EIRey de Cambaya humas grandes várzeas 
de milho já alto , e crefcido , por antre quem 
fe mettéram alguns Portuguezes defmanda^ 
dos com feus arcabuzes , pêra verem fe po- 
diam derribar alguns dos inimigos, O Go- 

ver- 



Dec. VI. Liv. V, Cap. VIL 39? 

vernador ajuntando os Capitães , lhes diíTe , 
» que a elle lhe parecia bem dar batalha a 
ȃlRey de Cambaya , por honra, e credito 
)) do Eftado da índia ; porque não era bem 
»que diíTeíTem, que o Governador delia fe 
» recolhera , e refufára batalha alguma; que 
» elle efperava em Deos havia de alcançar 
» huma muito honrofa vitoria com pouco rif- 
» co , e perigo ; e que quando léus pecca- 
»dosfoíTem grandes , retrahindo-fe com as 
)) cofias na fua Armada , que eftava com as 
» proas em terra, cuja artilheria varejava to- 
» do aquelle campo , não podia acontecer 
»defaítre,» dando-lhe fobreifto outras mui- 
tas razoes. Os Capitães todos não fó foram 
de contrario parecer , mas antes lhe reque- 
y> rêram » que não quizeíle pôr a índia em 
» balanço , porque o poder do inimigo era 
» muito grande , e que já começava a cingir 
)> todo aquelle campo. » (E affim era , porque 
EIRey de Cambaya , tanto que vio o Go- 
vernador em terra, adernou de lhe dar ba- 
talha ; e fez o íeu exercito em forma de lua , 
vindo cingindo todo o campo , fahindo até 
o rio com duas pontas , em que havia dis- 
tancias de huma a outra de mais de huma 
légua , ) dizcndo-lhe os Capitães » que atten- 
» taffe bem naquelle negocio ; porque fe an- 
» rre os nofibs foldados , que eram bifonhos , 
» comejaíTe a haver deímancho , que pode- 

» 1 ia 



3<?ó ÁSIA de Diogo de Couto 

» ria acontecer huma grande defaventura á 
» embarcação ; que o bom feria contentar- 
» fe com aquella honra de efperar alli na- 
»quelle lugar EIRey de Cambaya , com as 
» coitas na fua Armada , pêra fe EIRey de 
» Cambaya o quizeífe commetter , o efpe- 
)> rar de roíto a roíto ; e que fe contentafle 
»com o que fez o Imperador Carlos V. , 
» quando efperou o Turco Soleimão em Vie- 
» na , porque tudo o outro mais era teme*- 
» ridade. » O Governador vendo todos con- 
tra li , deíiítio de fua opinião. 

Vendo D.Jorge Baroche, que o Gover- 
nador mudara o confelho , pedio-lhe qui- 
nhentas efpingardas pêra fe metter antre a- 
quelJes milharaes , pêra dar dous pares de 
cargas nos inimigos \ e que efperava em Deos 
de lhes derribar huma cópia delles , e que 
não quizeífe mor honra , que fazer-fe aquel- 
la affronta nas barbas do feu Rey. O Go- 
vernador Jho concedeo ; e andando D.Jor- 
ge ajuntando os foldados de efpingardas , 
paífou por hum que eítava armado com a 
fua ás coitas , muito bem poíto no chão , e 
de muita peflba. D.Jorge lhe perguntou fe 
hia com elle ? o foldado lhe diíle » que não , 
» porque aquillo era defatino ; e que eítava 
» certo quantos lá foífem , ficarem todos eí- 
» pedaçados , e feus corpos , pêra mantimen- 
» to das gralhas , e adibes daquelles cam- 

» pos 






Dec. VI. Liv. V. Cap. VIL 397 

» pos de Baroche. » Foi ifto em parte que 
o Governador o ouvio ; e chamando o Tol- 
dado , lhe perguntou o que dizia? Elle lhe 
difle : » Não vedes , Senhor , aquella multi- 
» dão de Mouros, que cobrem os campos; 
)) pêra que deixais arrifcar quinhentos ho- 
)> mens perantre aquelles milhos , aonde fe 
» houver hum defmancho , todos fe hão de 
» perder?» O Governador tomando aquillo 
por agouro , mandou a D. Jorge que fo- 
breeftivefle na ida ; e havendo três horas 
que eftava em campo , fe embarcou muito 
a feufalvo, fem os inimigos o inquietarem, 
nem commetterem ; ecom a vafante da ma- 
ré fe fahio pêra fora , ficando EIRey de Cam- 
baya affrontado de o Governador defem- 
barcar á fua viíla , e de elle o não commet- 
ter , nem lhe dar batalha. 

CAPITULO VIIL 

De cofno o Governador D. João de Cajlro 
pajjòu a Dio , e metteo de poffe daquella 
fortaleza a Luiz Falcão , e D. João Maf- 
carenhas fe embarcou pêra o Reyno : e 
de como o Governador àejlruio as Cida- 
des de Patê 5 e Patane. 

PArtido o Governador de Baroche , foi 
atraveíTando pêra Dio , mandando al- 
guns navios diante, e outros por dentro da 

en- 



5p3 ÁSIA de Diogo de Couto 

enceada a fazerem toda a guerra que pu rf 
deflem , como fizeram , tomando muitos na- 
vios , e dando em muitos lugares , que pu- 
zeram a ferro , e a fogo , fem deixarem cou- 
fa em pé. O Governador chegou a Dio , 
aonde D. João Mafcarenhas o foi bufcar á 
barra , e elle defembarcou em terra , e Dom 
João Mafcarenhas lhe pedio logo que pro- 
vefle aquella fortaleza de Capitão 3 porque 
era tempo de íe elle ir embarcar pêra oRey- 
no , como ficara afTentado na entrada do in- 
verno paflado. O Governador lhe dilTe que 
fim , e mandou que fe negociaííe , tratando 
de prover a fortaleza , fem faber determi- 
nar o que niíTo faria , porque já o verão pa£ 
fado lhe engeitáram alguns , c não ouíava 
de commetter a alguém com ella. 

Eftando nefta indeterminação , chegou 
aquella fortaleza Luiz Falcão , que vinha 
de fervir a Capitania de Ormuz , aonde fi- 
cava D. Manoel de Lima, que foi bem re- 
cebido do Governador, porque logo deter- 
minou de lhe dar aquella fortaleza , fem em- 
bargo de ter delle grandes culpas , que de 
Ormuz lhe mandaram ; porque além de ter 
muitas partes , era rico , e tinha que gaitar, 
E *ogo ao outro dia eftando ambos los, lhe 
diílè » que elle como feu amigo que era , 
)> defejava de pôr fuás coufas em bom efta- 
» do y e de não chegarem a EIRey as cul- 
pas 



Dec. VI. Liv. V. Cap. VIIL 399 

5) pas que delle havia ;-e que pêra iflb não 
» havia outro melhor meio, queacceitar el- 
» le aquella fortaleza , e fervir EIRey nel- 
» la , porque então lhe ficaria lugar pêra rom- 
)) per fuás devaífas , eefcrever a EIRey co- 
» mo o ficava fervindo naquella fortaleza , 
)) que muitos lhe engeitáram por eítar rota , 
» e aberta. » Luiz Falcão lhe teve em mer- 
cê aquella lembrança , e defejo que moftra- 
va de lhe fazer mercê , dizendo-lhe » que 
» eftava muito preftes pêra fervir a EIRey af- 
» fim naquillo , como em tudo o mais que 
» lhe mandaífe , e defpender quanta fazen- 
» da tinha com muito gofto. » O Governa- 
dor lho agradeceo muito , e logo lhe deo 
a poíTe da fortaleza , e D. João Mafcare- 
nhas fe embarcou pêra Cochim , e dahi pê- 
ra o Reyno. 

PaíTado eíle negocio , que foi em bre- 
ves dias , fe embarcou o Governador , e fe 
paííou á cofta de Por, e Mangalor, e por 
ioda ella fez huma crueliíHma guerra , des- 
truindo , e aflblando de todo as Cidades de 
Patê , c Patane , que eram formoíiílimas , 
pofto que as acharam defpovoadas de feus 
moradores , que fe tinham recolhido pêra o 
certão com medo do açoute Portuguez. A 
Cidade de Patê tinha a huma banda hum 
formofo , e forte Caííello , com três muros 
mui fortes, etres cavas mui largas ; as por- 
tas 



4co ÁSIA de Díogo de Couto 

tas eram de madeira mui groflas , todas cha-« 
peadas , e atraveíTadas de barras de ferro , 
grandes, e fortes*, que o Governador delc- 
jou de mandar levar pêra Goa ; mas não po- 
de fer por fua grandeza , e os foldados as 
tiraram de feus couces , e as lançaram no 
mar. Aqui acharam duas coitas de balêa ta- 
manhas , que depois em Goa (pêra onde o 
Governador as mandou embarcar ) fizeram 
delias hum arco na boca da rua , que vai 
dos açougues pêra a porta da Cidade , que 
tomavam do canto onde poufa hum livrei- 
ro , are o outro onde eítá hum cirgueiro > 
que fera de largura de treze paíTos. Eíte ar- 
co durou alli até o tempo do Governador 
Franciíco Barreto. Neíta Cidade de Patê to- 
maram os noííbs muitas fazendas , que feus 
moradores não puderam recolher; e em leu 
porto, e em outros fe queimaram perto de 
duzentas embarcações de toda a forte , em 
que acharam muitos mantimentos , de que 
fe a Armada proveo , e algumas fazendas. 
Deftruida , e aflblada toda eíta coita , 
voltou o Governador pêra Baçaim pêra ef- 
crever aoReyno, e defembarcou em terra, 
onde determinava de eítar de vagar , por- 
que queria gaitar todo aquelle verão na guer- 
ra de Cambava ; e porque também cm quan- 
to EIRev Soltao Mahamude o viífe andar 
por aili , não buliria comfigo. Daqui deA 

' pe- 



Dêc. VI. Liv. V. Cap. VIII. 401 

pedio efpias a Cambaya a fabér o que lá 
hia ; c foi avifado > que tanto que elle fe 
partio de Baroche , provera EIRey aqueíía 
fortaleza , e a de Surrate , e fe recolhera á 
Cidade de Amadabá. 

Aqui foube o Governador de hum mer-< 
eador Gentio , (que ao tempo que D. Álva- 
ro de Caílro chegou a Surrate , cíiava na- 
quella Cidade com fua fazenda > ) que Ca- 
racen , Capitão da fortaleza , tanto que fou- 
be eílar a Armada de D. Álvaro de Caílro 
fobre a barra de Surrate , fora tão grande 
o feu medo , que mandara fuás mulheres * 
e thefouròs pêra as Cidades do certão , fi- 
cando elle preítes , e á ligeira , pêra fe a Ar- 
niada commetteífe a fortaleza , largalla , e 
recolher-fe. Ô Governador tanto que foube 
ifto j quizera morrer de paixão , pondo a 
culpa daquelle negocio aos Capitães dós ria- 
vios , que D. Álvaro de Caftro mandou re- 
conhecer a fortaleza ; ficando tão melanco* 
lízado, étrifte de perder huma tamanha oc- 
cafíão , que não tinha godo de coufa algu- 
ma , nem o viam rir. E hum dia folemne ^ 
eílando na Igreja de noíTa Senhora arman- 
do Cavalleiro Vafco Nunes , Capitão dos 
ISIayres deEIRey deCochim, fendo prefen- 
tes todos os Fidalgos, e depois de fazer el- 
te officio , que foi feito com grande cere- 
monia , como a mágoa da perda de Surra- 
Couto.TomJILPJ. Ce te 



402 ASTA de Diogo de Couto 

te lhe não fahia do coração , chamou allí 
por António Peílba , Veador da Fazenda 5 
e lhe diíle : » António Peflba , quando vog 
» relevar alguma coufa de voffa honra , fa- 
» zei-a por vós , e não a encommendeis a ou- 
» trem. » D. Álvaro de Caftro feu filho , e 
os Capitães que com elle foram naquella 
jornada, fentíram muito aquelle negocio, e 
andavam tão envergonhados , que não ou- 
favam de apparecer diante do Governador , 
que ficou efcrevendo pêra o Reyno , por fer 
já entrada de Dezembro. 

CAPITULO IX. 

De como o Idalxá mandou Calabatecan fo*> 
bre as terras de Salfete : e de como os 
Vereadores de Goa não deixaram pajfar 
D. Diogo de Almeida , Capitão da Cida- 
de 7 embujca de lies : e daprefja com que 
o Governador D. João de Cajlro fe em- 
barcou pêra Goa : e de como àejlruio a 
Cidade de DabuL 

Oldalxá tanto que lhe deram as novas 
do desbarato dos feus Capitães , e de 
como o Governador lhe tomara a ília for- 
taleza de Pondá , e que efiava outra vez de | 
poíle das terras de Salfete, havendo-fe por ] 
muito affrontado , e offendido , defpedia 
com muita preíTa hum Capitão principal , 

cha- 



Dec. VI. Liv. V. Ca*. IX- 403 

chamado Calabatecan , com vinte mil ho- 
mens , em que entravam três mil de cavai- 
lo , mandando-lhe que tornaffe a ganhar as 
terras , e fe deixafle ficar nellas , fazendo 
guerra á Cidade de Goa* Efle Capitão ajun- 
tou a fi os mais , que já andavam por Pon- 
dá , epor aquellas partes, que eram os que 
fugiram ao Governador ; e entrando pelas 
terras de Salfete , fe tornaram aapoffar del- 
ias ; e Fernão de Araújo , Capitão de Ra-* 
chol , com Diogo Soares Contador , que 
era Capitão da gente da terra , fe recolhe- 
ram na fortaleza , aonde fe fortificaram mui- 
to bem. As novas diíto chegaram logo a 
Goa ; e ajuntando-fe o Bifpo $ Capitão , e 
mais Regentes , praticaram fobre o modo 
que naquillo fe teria , e o Capitão fe oífe- 
receo pêra ir com toda a gente que havia 
em Goa ; á lançar os inimigos fora i dan- 
do razoes pêra aííim fer neceífario ; e pare* 
cendo bem a todos, aflentáram quefofie. E 
logo fe começou a preparar y e afazer cha- 
mamento dos cafados pêra o acompanharem. 
Os Vereadores de Goa tanto que aquillo vi- 
ram, fahendo que o poder dos inimigos efa 
muito grande, e que acontecendo hum de£ 
aftre ao Capitão , fe poderia perder aqueífa 
Cidade, foram a ca fa d-o Bifpo, aonde man- 
daram chamar o Capitão, e lhe requereram 
» que nao paffafle á outra banda , nem fa- 
Ce ii y> hif- 



404 ÁSIA de Diogo de Couto 

» hiííe fora da Cidade , e Ilha de Goa , por- \ 
» que lho não haviam de confentir , nem dei* 
» xar pafíar com elle os moradores , encam- 
» pando-lhe a Cidade, e Ilha de Goa.» O 
Capitão lhes diíTe » que não era credito do 
» Eílado diffimular com aquelle negocio , que 
» Cavalleiros , Cidadãos , e foldados eftavarn 
» em Goa pêra poderem dar batalha á pef- 
» foa do Idalxá , quanto mais áquelles Ca- I 
> pitães , que ainda que traziam muita gen- 
» te , era toda fraca , e coitada ; e que elle 
» efperava em Deos de os desbaratar com 
» pouco rifco. » Os Vereadores replicaram 
» que em nenhuma maneira o haviam de con- 
» fentir ; que pois não havia perigo na tar- 
» dança , que fe fobreeftivefle , porque aquil* 
» lo não duraria mais que até achegada do 
)) Governador , e que então todos paliariam 
» aos lançar fora. » O Capitão não pode por 
então fazer coufa alguma , e defpedio logo 
recado ao Governador de tudo o que era 
paflado , provendo entretanto Rachol de gen- 
te , e munições , e os rios de navios 5 e man*- 
chuas. 

Efte recado chegou ao Governador ; e 
vendo as cartas , e o que era paflado , es- 
bravejou contra os Vereadores por impedi- 
rem a paflagem ao Capitão ; e o mefmo dia 
tornou a deípedir a mefma embarcação com 
cartas ao Bifpo 7 e Capitão , de agradecimen- 
tos. 



Dec. VI. Liv. V. C ap. IX. 405- 

tos , do modo de como procederam naquel- 
le negocio , affirmando-lhes que logo feria 
naquella Cidade y encommendando muito ao 
Capitão, que com toda agente decavallo, 
e de pé que houvefle o efperafle em Aga- 
çaim, porque dalli pertendia de paliar a Sai- 
íète. E aos Vereadores eícreveo huma car- 
ta mui azeda , reprehendendo-os de impedi- 
rem a paííagem ao Capitão , com palavras af- 
peras. 

Defpedida eíta embarcação, logo o Go- 
vernador fe embarcou , e deo a vela pêra 
Goa. E chegando defronte da Cidade de Da- 
bui , que he a principal efcala que o Idal- 
xá tem naquella coita , determinou tomar nel- 
la. vingança do atrevimento que teve , em 
mandar feus Capitães fobre as terras que 
eram de EIRey de Portugal ; e deo recado 
aos Capitães da Armada , pêra que fe fizef- 
fem preltes pêra o outro dia , ficando fora 
aquella noite. E tanto que foi o quarto d'al- 
va , commetteo a barra, dando a dianteira 
a D. Álvaro de Caftro , e foi pôr a proa 
na praia da Cidade , por meio de todas as 
bombardadas que lhe atiraram. D. Álvaro 
de Caílro , que levava ordem do Governa- 
dor do que havia de fazer , faltou em ter- 
ra corii dous mil homens , e com os Nay- 
res de EIRey de Cochim , e na praia achou 
o Tanadar da Cidade com hum grande cor- 
po 



406 ÁSIA de Diogo de Couto 

po de gente, com quem travou huma for- 
mofa batalha , em que houve algum damno 
de parte a parte , mas todavia os inimigos 
foram arrancados do campo, 

O Governador defembarcou com toda a 
gente, e fez delia duas batalhas , huma deo 
a feu filho, e a outra tomou pêra íi , e af- 
íim foram commettendo a entrada da Cida- 
de , onde acharam muito grande refiftencia , 
porque pelejavam feus moradores pela de- 
fensão das mulheres, filhos, e fazendas. E 
porto que os noílos tiveram grande traba- 
lho , e rifco , por fim do negocio apertaram 
com os inimigos de feição, que os rompe- 
ram, entrando a Cidade de envolta com el- 
les , tendo-lhes os inimigos fempre o rofto , 
e pelejando com muito valor; mas como os 
jioííos hiam com aquelle Ímpeto , e o Go- 
vernador com todo o cabedal era já entra- 
do , foram levados os Mouros de rondão 
com grande eítrago feu , e de tal maneira 
apertaram com eíles , que os deitaram fora 
da Cidade, ficando ella em poder dos nof- 
fos , com hum muito groflb recheio , que 
fe metteo a íacco ; e foi de feição , que fe 
encheram todos os navios , km fe enfacar 
a terça parte da Cidade. E depois tie todos 
fartos a fua vontade , puzeram fogo a tudo 
o mais que íubejou , deílruindo , aflblando, 
derribando toda a Cidade de forte > que na- 
da 



Dec. VI. Liv. V. Cap. IX. 407 

da delia ficou em pé. Queimáram-fe aífim 
em terra , como no rio , muitas náos , e 
embarcações de toda a forte , ficando aquei- 
]a mifera Cidade convertida em carvões , e 
cinza. Em fim o caítigo foi tal , que em quan- 
to durar a índia , durará fua memoria. 

O Governador fe embarcou logo por fe 
não deter , e deo á vela com muita prelTa 
pêra Goa , e foi demandar a barra de Mur- 
mungão, que lie a de Goa velha, por on- 
de entrou , e foi furgir em Agaçaim > on- 
de achou D. Diogo de Almeida , Capitão 
da Cidade de Goa , com cento e íincoenta 
de cavallo , com muitas barcaílas , e janga- 
das pêra a paíTagem da outra banda. O Go- 
vernador fe deteve alli aquelle dia , toman- 
do informação do eftado das coufas , e def- 
pedio efpias pêra faber a ordem , e modo 
em que o inimigo eftava. Ao outro dia pe- 
la manhã começou a paliar todo feu exer- 
cito da outra banda de Salfete , no que gaf- 
tou todo o dia, e noite. 



CA- 



408 ÁSIA de Diogo de Couto 

CAPITULO X. 

De como o Governador D. João de Ca/iro 
paffòu a Salfete em bufca dos inimigos , 
e batalha que lhes deo , em que os des<? 
baratou de toda. 

Aííado o Governador á outra banda , 
teve logo avifo pelas efpias, que Ca!a<- 
batecan eftava com todo o podçr na Villa 
de Marga o , que leria duas léguas e meia 
dalli onde eflava. E pondo fua gente em 
ordem , fez de toda a de pé duas batalhas 
de dous mil homens Portuguezes cada hu* 
ma. A primeira , que era a vanguarda , deo 
a D. Álvaro de Caftro feu filho , com quem 
haviam de ir todos os Nayres de Cochim , 
e Lafcarins da terra, de baixo da bandeira 
do Tanadar mor de Goa. A outra batalha 
tomou o Governador pêra fi , com quem fi- 
caram todos os Capitães , e Fidalgos velhos* 
Da gente decavallo, que fria toda debaixo 
da bandeira do Capitão da Cidade , também 
fez duas batalhas , que haviam de ir pelas 
pontas do efquadrao da vanguarda ; e nek 
ta ordem foram caminhando em bufca dos 
inimigos as ires horas da tarde, deitando di- 
ante alguns cavallos ligeiros pêra lhes def- 
çubrircm o campo. E antes de chegarem a 
Marvão . diíUncia de meia légua , teve o 

Ca- 



Dec. VI. Liv. V. Cap. X. 40^ 

Calabatecan rebate do Governador ir em 
peífoa a buícallo ; e não oufando ao efpe- 
rar , levou-fe com tanta preíTa , que deixou 
as tendas armadas , e os caldeirões no fogo 
com a cea , e paíTou o rio á outra banda 
pelos vallos , que logo mandou quebrar por 
os noíTos o não feguirem, e fe reeolheo pê- 
ra as aldeias de Cocoly. O Governador foi 
caminhando atéMargão, e antes da Vílla, 
teve recado que os inimigos hiam fugindo 
com muita preíTa. E chegando ao lugar on- 
de os inimigos haviam eftado, achou o ar- 
raial com todas fuás tendas , camas , e me- 
zas , onde fe todos apofentáram , e agaza- 
•Iháram á fua vontade , porque acharam tu- 
do o de que tinham neceílidade pêra comer. 
Aquella noite paííaram alli com grandes vi- 
gias ; e ao outro dia , que foi do Apoílolo 
S. Thomé, Padroeiro da índia, fe levantou 
o exercito , e foi marchando em bufca dos 
inimigos , mandando o Siqueira diante com 
huma companhia de Nayres aos eípiar , e a 
defcubrir o campo ; e chegando á ribeira , 
houve vifta dos Mouros da outra banda , 
porque o Calabetecan tanto que amanheceo , 
acudio a tomar os paílbs da ribeira , porque 
o Governador não paflafle. O Siqueira vol- 
tou logo ao Governador , elhediííc, que al- 
li tinha os inimigos da outra banda da $y> 
beira, O Governador. hia em hum palanquim , 

dç 



4io ÁSIA de Diogo de Couto 

de que cm lhe dando as novas faltou logo 
fóra , e cavalgou em hum formofo cavalio 
melado ; e tomando huma lança , e adarga , 
correo por todo o exercito muito rizonho , 
dizendo a todos: 

» Eia, filhos, alli temos os inimigos : va- 
»mos aelles, que pouco tendes que fazer > 
y> porque pêra voíTo esforço, epera oalvo- 
» roço que em todos finto , tomara que fo- 
»ram mais , pêra que ficara a vitoria mais 
» gloriofa. » 

E paíTando-fe á dianteira , aonde hia feu 
filho D. Álvaro de Caftro , e D. Diogo de 
Almeida com a gente de cavalio , lhes deo 
a nova , e mandou que fe puzeflem em or- 
dem. E chegando á ribeira , querendo-a com- 
metter aváo, a acharam muito alta; eindo 
demandar o vallo , também o acharam que* 
brado; mas com a preíTa ficou ainda algu- 
ma parte pequena por onde osnoífos de pé 
começaram a palTar , e da outra banda acha- 
ram Calabatecan , que mandou hum Capi- 
tão que os accommetteííe , como fez. E co- 
mo aquella parte era eftreita , carregando os 
inimigos fobre os nollbs , os tornaram a lan- 
çar fóra dos vailos. O Governador scudio 
áqueila parte ; e vendo retirar os noífos , fi- 
cqu tão enfadado , que começou a bradar com 
xlles , dizendo-lhes , que fugiam. O Capitão 
D. Diogo de Almeida foi avifado , que abai- 
xo 



Dec. VL Liv. V; C ap. X. 411 

xo fazia a ribeira hum váo , por onde a gen* 
te de cavallo podia paliar com a agua pe- 
las cilhas ; e indo-o demandar , chegou a 
elle , e começou a paflar ; e fendo já com 
alguns da outra parte, chegou Calabatecan 
com dous mil homens , porque teve avilo 
que a noíTa gente de cavallo paílava pelo 
váo. Hia o Mouro em hum foberbo caval- 
lo acubertado , e elle armado de armas in- 
teiras, e fortes, e em lugar de elmo, evi- 
fqira, levava huma mafcara de aço , que el- 
les ufam ; e chegando áquella parte diante 
dos feus , foi remetrendo aos noífos. Dom 
Diogo de Almeida que o conheceo , aíTim 
pelos íinaes , como pelo capitanear que fa- 
zia , em o vendo , poz a lança no refte , e 
abalou pêra elle , dizendo : » Ah cão , olha 
» por ti , que defte encontro fe acabará tu- 
» do. » E encontrando-fe ambos de meio a 
meio , barafuftando os cavallos hum com o 
outro , foi Calabatecan do encontro ao chão ; 
e ainda não foi nelle , quando fe levantou 
com o terçado na mão ; e lançando a es- 
querda ás rédeas do cavallo de D. Diogo 
de Almeida , (que eftava como atordoado 
da pancada ,) foi pêra defcer com o golpe , 
e fem dúvida o tratara mal íe lhe dera ; mas 
foi fua dita tal, que hum pagem de caval- 
lo que levava , com outra lança , chegou 
áquella hora pêra lhe foccorrer com ella ; e 

yen- 



412 ÁSIA DE DíOGO DE COUTO 

vendo o Mouro que levantava o braço , 
abaixou a lança , e poz as pernas ao cavai- 
lo , e tomando o Mouro pelos peitos , deo 
com elle no chão ; mas também logo fe tor- 
nou a levantar com grande fúria , e remet- 
tendo com o pagem , lhe levou as rédeas , e 
ao mefmo tempo defceo com hum tão fa- 
çanhoío golpe , que tomando-o pela adar- 
ga , lhe cortou huma borda , e foi defcendo 
aos peitos do cavallo , e o abrio todo , ca- 
Jrindo elle no chão. D.Diogo de Almeida, 
3ofto que o feu cavallo eltava fraco , lhe 
doz as pernas , e encontrando o Mouro, o 
^evou por debaixo dos pés, onde foi mor- 
to de alguns , que lhe puzeram também as 
lanças , fem fe poder averiguar quem foi 
o que o matou , porque houve muitos que 
]he tomaram peças de íèu corpo ; mas fi- 
cou melhor de partido hum Jorge Madei- 
ra , que lhe tomou o terçado , e adarga , 
que eram de ouro , com muita pedraria , e 
também algumas cadeias, e anneis ricos; e 
fe.affirma , que valeram as peças dez mil 
pardáos. 

Osnoffos de cavallo, que já a efte tem- 
po eftavam da outra banda , andavam bara- 
lhados com os Mouros, aflignalando-fe de 
todos o Capitão Francifco da Silva de Me- 
nezes , Trilião deTaíde, Álvaro da Gama , 
António Pereira, Álvaro de Carpinha , An* 

to- 



Dec. VI. Liv. V. Cap. X. 413 

tonio Ferrão , e outros , que todos mata- 
ram , e derribaram tantos , que o menos que 
coube a cada hum dos noííos feílenta de ca- 
vallo , (que não pairaram mais até então , ) 
foram três. 

Andando affim a coufa baralhada , cor- 
reo a nova pelo exercito da morte de Ca- 
labetecan , com o que os feus fe foram re- 
colhendo. D. Álvaro de Caftro pela outra 
banda do vallo commetteo outra vez a en- 
trada ; e os feus foldados envergonhados do 
que lhes o Governador difle , a pezar de gol- 
pes entraram porelle, e fe puzeram da ou- 
tra banda. O Governador como vio o vai- 
lo franco, paífou com o reflo do exercito, 
c achou o filho baralhado com os inimigos, 
que acudiram alli ; e remettendo com a fua 
batalha , (porque o campo era muito gran- 
de , ) deo Sant-Iago por huma banda , e ap- 
pellidando o Bemaventurado Apoftolo São 
Thomé, cujo dia era. Salvador Fernandes , 
Alferes da bandeira Real , fe foi mettendo 
com ella no meio dos inimigos , a que acu- 
dio o poder , e fe travou huma muito af- 
pêra batalha de parte a parte. D. Diogo de 
Almeida , Capitão da Cidade , tanto que 
( por onde paífou ) fe vio defapreíTado dos 
Mouros , ajuntou toda fua gente a íi , e 
foi -demandar a batalha , porque vio a ban- 
deira Real da outra banda, E rompendo 

nos 



4i4 ÁSIA de Diogo de Couto 

nos inimigos por huma ilharga , começou 
a fazer nelles grande deítruição. 

Eftando a coufa neíle eítado, chegou a 
nova da morte de Calabatecan aos outros 
Capitães ; e em lha dando , largaram o cam- 
po , deitando a fugir , e defamparando tu- 
do. Os noiTos foram feguindo o alcance , 
matando , e derribando nelles fem virarem 9 
até á outra ribeira , aonde fe lançaram á 
agua como defatinados , e alli fizeram os 
noiTos nelles muito grande eftrago. O Go- 
vernador tocou a recolher , e mandou reca- 
do aos de diante , que fe vieíTem pêra elle , 
como fizeram , ficando o Governador no 
campo , em que houve a vitoria , vendo os 
mortos , e acharam dos de cavallo perto de 
duzentos, e feiscentos de pé, a fora os que 
íe mataram no alcance, que foram mais de 
dous mil. E muitos mais fe perderam , fe 
não mettêram nas toucas ramos verdes , que 
era o final que os noííos piães Gentios tra- 
ziam pêra ferem conhecidos dos noííos , 
com o que efeapáram a mor parte delles. O 
Governador fe tornou pêra Margão , aonde 
defeançou aquelle dia. 

Foi efla vitoria tão celebrada , e fefte- 
jada em Goa , que nos dias das feftas nas 
folias , a que o Governador era muito af- 
feiçoado , íè lhe cantava hum Romance , que 
hum curiofo fez , que começa : 

Pe- 



Dec. VI. Liv. V. Cap. X. 415: 

Pelos campos de Salfete 
Mouros mal feridos *vão , 
Vai-lhes dando no alcance 
O de C afiro D. João: 
Vinte mil eram por todos , &c. 

Ao outro dia diíTe o Governador aos 
foldados : » Filhos, e Cavalleiros meus , com- 
y> vofco hei de ir tomar o Idalxá pela barba : 
» fazei-vos preíies ,,ide confoar a Goa , que 
»eu vos vou efperar em Pangim , que te- 
» mos muito que fazer. » E partindo-fe dal- 
\\ , fe embarcou no rio deAgaçaim, e á vif- 
ta da Cidade, que lhe fez grande ialva, íe 
foi pêra Pangim , aonde teve a fefla , e to- 
da a gente ficou em Goa. Alli em Pangim 
acabou o Governador de efcrever pêra o 
Reyno , e pelas Oitavas defpedio as vias pê- 
ra Cochim , e tomaram as náos de verga 
de alto , e até vinte de Janeiro fe fizeram 
todas á vela, e tiveram boa viagem. 

Neftas náos foi D. João Mafcarenhas, 
que EIRey recebeo muito honradamente , pe- 
lo grande cerco que fuííentou em Dio , e 
lhe fez depois muitas honras, e mercês. Ef- 
te Fidalgo nunca mais quiz tornar á índia, 
e dizia-íe que fora muitas vezes cominem- 
do pêra a ir governar. EIRey o fez dofeu 
Confelho do Eftado, e lhe deo tenças , e 
Commendas groíías, edepok fendo ©Car- 
deal 



4i6 ASIÀ de Diogo de Couto 

deal D. Henrique Rey de Portugal , foi hum 
dos finco Governadores do Reyno. Foi fi- 
lho de D. Nuno Maícarenhas , filho fegun- 
do do primeiro Capitão dos Ginetes D. Fer- 
não Martins Maícarenhas. Cafou > depois que 
da índia veio pêra o Reyno , com Dona 
Helena , filha de D. João de Caftello-branco : 
deo-lhe EIRey a Alcaidaria mór de Caftel- 
lo de Vide : teve dous filhos , D- Nuno Ma£ 
carenhas*, D. Pedro Mafcarenhas. 

CAPITULO XL 

De como o Governador D* João de Cafiro 

proveo nas coufas das terras de Salfe* 

te : e de como par tio pêra o Norte ^ e 

dejlruio toda a cojia do Idalxá. 

COmo o Governador D. João de Caf«* 
tro pertendia continuar na guerra do 
Idalxá , e deítruir-lhe todos os feus portos 
do mar , naquellas Oitavas proveo nas cou- 
fas de Salfete , deixando ordenado o Capi- 
tão D. Diogo de Almeida com cento e vin- 
te decavallo, emilpiães da terra pêra quie- 
tar , e fegurar aquellas aldeias ; e nos rios 
de Rachol deixou alguns navios da Arma- 
da pêra guarda delles , cujos Capitães eram i 
Gafpar Fernandes , Gonçalo Gomes , Luiz 
de Almeida , Jorge Fernandes 7 Ignacio Cou* 

ti- 



Deg. vi. liv. m cap. xr. 417 

tinho , João Pires , João Homem , e outros. 
E deixando dado ordem a outras muitas cot** 
ias , tanto que a fefta paíTou , logo fe em- 
barcou na mefma Armada , acudindo-lhè 
toda agente, fem faltar huma peílòa , por- 
que andavam todos fatisfeitos , e contentes ; 
c o de que andavam mais 3 era das pala- 
vras , honra, e amor com que o Governa- 
dor os tratava ; e aífim defejavam de fe a-< 
venturar debaixo de fua bandeira , e pôr as 
vidas a todos os rifcos , e perigos. Pelo que 
devem de trabalhar muito os Governadores , 
c Vifo-Reys de ganharem os corações dos 
homens , fe querem vir a fer famofos no 
Mundo , com aquellas três coufas , em que 
o grande Capitão Gonçalo Fernandes en- 
cerrava todas as leis da guerra , que eram 
Capitão clemente , mão larga , e boca pru- 
dente ; porque nenhuma coufa ata mais os 
corações dos homens , que prudência nas pa- 
lavras , prefte2a nas obras , humanidade na 
execução. Anno 15*48. 

E tornando ao noíío fio , recolhendo o 
Governador toda a Armada, fahio pela bar- 
ra fora na entrada deíle mez de Janeiro de 
quarenta e oito , em que com o favor Di- 
vino entramos ; e começando no rio de Cha- 
porá , duas léguas de Goa , que he o pri- 
meiro do Eftado do Idalxá , mandou a (Ta- 
lar,- derribar, e queimar tudo , e que fenão 
Couto.tomMLPã. Dd per- 



418 ÁSIA de Diogo de Couto 

perdoafTe a coufa alguma , nem fe deixaíTe 
em pé arvore de fruto, nem palmeira, que 
era toda a fua fubítancia. E em muitas par- 
tes , em que o Governador defembarcou em 
pefiba , tanto que via a algum foldado cor- 
tar huma palmeira , ou qualquer outra arvo- 
re , o abraçava , dizendo-lhe : » Ah folda- 
do , agora matalie dous Mouros.» Tanto 
trazia os olhos nos ferviços dos homens , 
que nunca algum fez coufa boa , que não 
foílè logo louvada publicamente delle , e 
depois fatisfeita conforme ao tempo , e á 
polfe do Eftado. Eaífim foi deftruindo Ban- 
da , Meludi , Achará , Tamboná y Mazagão , 
Carapatao , Rayapor , e todos os mais lu- 
gares daquella cofta até Dabul , fazendo as 
mores cruezas , e damnos que fe podiam 
imaginar, 

E porque hia avifado que a Cidade de 
Dabul de fima eílava com hum groíTo re- 
cheio , porque fe tinham recolhidos os mais 
dos mercadores do derredor a ella ,, pela ha- 
verem por fegura por citar duas léguas pe- 
lo rio aífima , deo recado aos (Capitães pê- 
ra que fe fizeífem preíles pêra o outro dia, 
porque determinava de a deílruir. E fendo 
no quarto d'alva , entrou com toda a Arma- 
da pelo rio dentro , e paífáram pela Cida- 
de, que eílava ainda efeondida debaixo das 
cinzas > e carvões , em que havia pouco a 

dei- 



Dec. VI. Liv. V. Cap. XI. 4T9 

deixaram os noííos confumida, e chegaram 
á outra Cidade ao romper da manhã \ e pon- 
do as proas em terra , faltou nella D. Ál- 
varo deCaftro com fua companhia, porque 
em todas eftas coufas fempre levou a dian- 
teira i e commettendo a Cidade , a acharam 
defpejada de gente , e fazendas , porque o 
terror, e efpanto do que o Governador hia 
fazendo por aquella coita , fez recolher tu- 
do o mais pêra o certao. E não achando os 
Portuguezes em que executar fua fúria , o 
fizeram nos antigos, e foberbos templos, e 
edifícios , por fer a Cidade em fi mui po- 
pulofa ; e deixaram aflblado , e deítruido até 
os derradeiros alicerfes , dando fogo a tu- 
do, que confumio as pedras em cinza, cor- 
tando, e deftruindo as hortas, fazendas, e 
palmares , fem deixarem huma arvore em 
pé; e o meímo fizeram a todas as aldeias , 
que havia pelo rio aíTima , de huma , e ou- 
tra banda , em que cativaram alguns mef- 
quinhos , matando muito gado groífo , e 
miúdo ; e em fim ficou tudo pêra muitos 
annos não tornar em íi. 

Dalli fe embarcou o Governador , e foi 
dando , e deftruindo todas as mais povoa- 
ções , que havia até o rio de Cifardao , que 
divide oEftado do Idalxá do Melique , não 
deixando coufa em pé , de forte que por to- 
da aquella coita não .havia outra coufas fe- 
Dd ii não 



420 ÁSIA de Diogo de Couro 

nao nuvens de efpeíío fumo , que cubriam 
os ares , e efcondiam a claridade do Sol. 
Chegado aChaul, entrou no rio a dar def- 
pacho a alguns negócios , e alli ouvio na 
lua galé hum Embaixador doMelique, que 
havia dias alli eítava efperando porelle, por 
quem aquelle Rcy lhe mandou fazer muitos 
oferecimentos pêra contra o Idalxá , porque 
nao eílavam amigos. O Governador o ou- 
vio bem , agradecendo-lhe aquella vontade , 
confirmando com elle novamente as pazes 
com os Capitules em damno do Idalxá , e 
defpedio o Embaixador muito fatisfeito. 

Acabado efte negocio , fe foi pêra Ba-» 
çaim , donde defpedio D. António de No^ 
ronha , filho do Vifo-Rey D. Garcia de No- 
ronha j com vinte navios ligeiros pêra con- 
tinuar na guerra de Cambaya , da outra ban- 
da da corta de Dio até Por , e Mangalór; 
e o mefmo fez a D.Jorge Baroche com ou- 
tros tantos navios, pêra andar de Agaçaim 
até Baroche ,, defendendo aquelle mar, porr 
que nao entraífe couía alguma em Cambaya ,. 
nem fahiíTe pêra fora , por lhe dar perda 
em fuás entradas, e Alfandegas, como lhe 
deo notaviliííima. Em Ba çaim defembarcou 
o Governador em terra , e mandou dar qua- 
tro rr.ezas aos Toldados , cujos Capitães eram , 
D. Álvaro de Caftro , D.Bernardo de No- 
ronha , filho do Vifo-Rey D. Garcia de No- 
to- 



Dec. VI. Liv. V. Cap. XL 421 

ronha , D, Pedro da Silva da Gama , filho 
do Conde Almirante , que defcubrio a ín- 
dia , e Gomes Vidal , Capitão da guarda do 
Governador ; deixando-fe alli ficar , com de- 
terminação de fe não recolher, fenão a ini- 
vernar ; porque daIJi queria mandar fazer 
guerra a Cambaya , e ao Idalxá , por ficar 
em meio de ambos aquelles Reynos , como 
fez , efpalhando navios por fuás coitas , que 
lhe fizeram toda a que lhe puderam fazer, 
íomando-lhes muitas embarcações carrega- 
das de fazendas , e mantimentos. E porque 
não houve coufa notável que fuccedeíTe a ef- 
tas Armadas , concluímos com ellas aííitn 
em fomma , porque temos outras muitas coi- 
fas que nos chamam , a que he neçeíTario 
acudir. 



Fim do Liv. V. da Década VI, 




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DS Barros, João de 

411 Da Ásia de João de Barros e 

.7 de Diogo de Couto 

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